ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Do rompimento da barragem ao terror: qual é a contribuição dos olhos, das mãos e da mente para os acontecimentos?

Sub-título: "As fortunas retiradas dos rios de lama".

Tudo que fere a terra / fere os filhos da terra. Cacique Seatle - 1855

Exceto a espécie humana, que é divisível, individualista, separado e faz de tudo para não se emendar, o Planeta Terra é um átomo constituído por moléculas interdependentes. O autor


barragem.jpegO homem chega / já desfaz a Natureza / tira gente põe represa / diz que tudo vai mudar/ O São Francisco / lá pra cima da Bahia / diz que dia menos dia / o sertão vai alagar/ Vai ter barragem no salto de Sobradinho / o povo vai simbora [...]

mariana.jpgOpa! Espere aí. Pare! Não Sá e Guarabira! Não deu tempo / e a implantação do Projeto "Garimpar" / fez gente sorrir. Lágrimas chorar / Em lama, sentimentos afogar.

Quando Deus criou a flora, ele foi sábio. Quando criou fauna, ele foi gênio. Quando complementou com a Natureza, ele foi soberbo. Porém, quando criou “todas as coisas”, ele defecou e sentou em cima; pois havia incluído o homem dotado de racionalidade e livre arbítrio em sua criação. O produto final na obra prima do Criador, por onde passa, deixa para trás o rastro da destruição. As evidências prenunciam que Deus também é culpado pelos atos humanos; e a tentativa de reparação dos erros cometidos está no livro de Revelação e Apocalipse do Velho Testamento. Leia e verás.

Tenha zelo pelos rios / Abra os olhos e mire a cor da turbidez / Eles necessitam do bálsamo nada indecoroso / Sem sabor deve ser a insipidez / Alimente-os com o líquido que principia a vida: puro amor vicioso.

Minas Gerais, devido o relevo montanhoso, também conhecida como alterosas, possui praticamente um divisor de águas que inicia-se ou finda-se na divisa com São Paulo e Rio de Janeiro, e adentra o estado até encontrar a serra do Espinhaço. No trajeto, muitas nascentes brotam das profundezas, pequenos riachos e rios-afluentes maiores se juntam para formar as bacias hidrográficas de contribuição dos rios São Francisco e Rio de Peixe e este desemboca no rio Doce; inspiração para empresa de minério de ferro, de nome de Vale do Rio Doce. Uma das maiores e mais ricas empresas do país no setor de ferro e aço.

O primeiro, desafiando a lei da gravidade teorizada por Isaac Newton, no contexto geográfico, sobe indo desaguar no Nordeste. Para se chegar lá, serpenteando quilômetros de distância, seus meandros deixam Minas e seguem pelo estado da Bahia, cruza Pernambuco, adentra o Sergipe e desmonta a sua enorme cauda no mar das Alagoas. Já o segundo, nasce pelos lados da serra da Mantiqueira em Minas, e desce sentido ao estado do Espírito Santo.
O mundo está às voltas com o que aconteceu na França e não é para menos, porque viver sob o regime do terror, é morte precoce. Acreditar que um ser humano se candidata à morte, para matar uma leva de pessoas inocentes, é no mínimo, idealismo demais, fundamentalismo irracional, em detrimento da estupidez daqueles que assim pensam. Contudo, tais coisas existem e de vez em quando, dão os indícios, prenunciam que a porta do céu pode abrir-se para a terceira guerra mundial.
Sobre o terror, não há paz que dure mais que um dia e terror que seja menos que a vida toda. Terror é semelhante à guerra e ambos se completam. Terror é a sombra da morte aniquilando lentamente a presa.
Aqui no Brasil, em Mariana, Minas Gerais, o terror ocasionado pelo rompimento da barragem de rejeitos de minérios, segue causando estragos por onde a nuvem de lama passa. Flutuando sobre as lâminas de águas, ora rápida, ora lentamente, ela já passou pelo estado de Minas e invadiu o estado vizinho, e o alvo é o mar Capixaba, o que está previsto para o mais breve possível.
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Nessa sua ingrata travessia, além de colorir as águas e contaminá-las com materiais tóxicos nocivos à saúde; desalojou ribeirinhos de suas casas; destruiu inúmeros ninhos de aves e pássaros; aniquilou insetos e repteis; fez uma mortandade de peixes, incluindo aqueles que são originários e endêmicos daqueles rios; desestabilizou habitats; destruiu anfíbios; dizimou cadeias alimentares; fez aflorar 11 cabeças humanas e muitas outras; sumiu com muitos corpos humanos e outros vários de animais. Se parasse por aqui, já seria terror demais; porém, por ser a época em que os peixes sobem a correnteza para desovar, a sustentabilidade e sobrevivência dos pescadores estão ameaçadas, e o mais catastrófico: pode redundar na extinção de muitas espécies; o que levará à falência todo o ecossistema aquático local.

Será que os doutos, especialistas e cátedras em meio ambiente que, imagino tenha sido um sem número deles na implantação do projeto, pensaram no exposto, ou para manter os cargos e os altos salários, taparam os olhos para o que poderia acontecer? De falsos e omissos profissionais, o país está abarrotado e angariam poder e cargos com tais ações. Tai o motivo d'eu ter declinado do curso de Eng. Ambiental na UFSCar; afinal, como disse o Cazuza: "eu não posso causar, mal nenhum, a não ser a mim mesmo. A não ser a mim"...só dinheiro não basta, é preciso um pouco, pelo menos um pouco de ideologia.

peixe.jpg“Cemitério de peixes. Cemitério de peixes, rapaz! Nem os urubus comem, de tanto veneno”. Palavras de um matuto, ribeirinho. Prossegue: “Vão nos matar de fome! Triste, muito triste! Triste demais”! E as lágrimas marejaram-lhe os olhos e deslizaram por suas faces.
Ato consumado: abra o sorriso escarnecedor / Sorria dos rios de lábios esturricados / Rios mortos / Rios abobados / Rios sem insetos / Rios de minério de ferro / Rios de dejetos / Rios sem berros!
Portanto, semelhante aos ataques à Paris, o rompimento da barragem está causando terror aos nativos e ribeirinhos, bem como, destruindo cadeias tróficas. Com uma pequena diferença: foram os franceses que escreveram a Magna Carta dos Direitos Humanos; instituíram o Dia do Trabalho em comemoração às mulheres que morreram por exigir melhores ganhos e condições de trabalho nas fábricas de sapatos. Mas também foram eles que dizimaram, aniquilaram muitos africanos; abatendo elefantes para a retirada dos dentes, originando inclusive, o nome do país Costa do Marfim.

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Enquanto as mãos, os olhos e a mente operam em terras longínquas, por aqui, o brasileiro escreve a infeliz história da omissão, do não sei de nada, do passo essa questão para outro, e em virtude desses subterfúgios, o desastre, a catástrofe e a destruição, dia após dia, quem responde pelos acontecimentos, é o ajuizado silêncio. Ninguém diz nada sobre, por que e como aconteceu a tragédia. E correto, pois em boca fechada não entra lama.

Realmente, o ato está consumando e o desastre ambiental causado pelo rompimento da barragem de rejeitos de minério em Mariana, Minas Gerais, chegou ao fim. Não: não chegou ao fim. O fim será quando a nuvem de água cor vermelha/ferruginosa e lamacenta, se espraiar no mar capixaba. Porém, não queiramos apressar aquilo que está ao alcance dos olhos e longe das mãos.

Fim dos dilemas / escrito em forma de versos proseados / Sobre os rios de coitados / Que não desapareceram entre as nuvens. Talvez...talvez...talvez... / Sabe-se lá os porquês / das evasivas; do triste fim deste poema!
O fotógrafo Sebastião Salgado, mineiro que nasceu numa cidade próxima, está com um projeto de restauração e recuperação do rio. Uma extensa pasta de reinvindicações será passada para as autoridades, tanto do Estado, quanto Federal e ambientais. Segundo ele, dar vida ao rio é o mesmo que reviver o passado, quando os rios davam vidas aos dependentes deles.

menino.jpg "Estou com 72 anos e ainda quero ver esses rios como eram: alegres, límpidos, saudáveis, fontes de lazer e alimentos para todos nós". Amém João Salgado

E para quem é desbravador e amante dos recursos e belezas naturais, assim é de se esperar; porque afinal, esperar que os rios façam a autodepuração naturalmente, é o mesmo que assinar o duplo atestado de incompetência. E mais: assassinar de vez aqueles que já foram e podem voltar a ser, manancial de vida para as muitas e variadas espécies. Porém, para haver sucesso na empreitada do fotógrafo, a união de uma força tarefa faz-se necessário. União e trabalho tranquiliza a consciência e renovam as esperanças; mas para isto, deve-se exaurir as tentativas de erro. Nesses termos, chorar é alegrar o coração por aquilo que tentou e não obteve êxito, devido forças maiores e contrárias, ser concretizado!
Aproveitando o ensejo, saliento que olhos de minas d´águas estão sendo aniquilados; brutalmente arrancados; dizimados friamente, sem o menor sentimento humano; sem o menor sentimento de perda; sem o menor sentimento de amor! E agora senhor, onde irás buscar água para irrigar as suas lágrimas no velório de seu filho; porque a água que falta em muitos olhos míopes e rudes, sobram nos olhos mais sensíveis? E agora senhor?
Assim como quem necessita dos recursos naturais para sobreviver, estou de luto. Os meus pêsames tem o volume e as doses certas do peso, da tristeza, da dor e valem para todas as espécies que perderam seus entes nesse trágico ato de terror causado pela ganância dos olhos, pela ação das mãos e inconscientemente, racionalizado pela mente; afinal, imagina-se que a implantação da barragem tenha seguindo as orientações e mormas técnicas de projeto.
A tríplice aliança angaria poder, constrói palácios, adquire fortunas e faz vítimas. O que pode ser resumido em: arquiteta as maquetes / implantam as belas obras de artes / por inteiro / por completo / nada pelas metades / nada em partes.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
Saiba como escrever na obvious.
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