ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

O Anatomista Dráuzio Varella pergunta: “qual a diferença entre a medicina e doar a vida pela vida”?

"Os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam". Dráuzio Varella


drauzio.jpg Dráuzio, acima de qualquer suspeita, é cidadão íntegro, honesto, generoso e como poucos no mundo, realista. Isto é sinal que ele tem compromisso e o rabo preso com a verdade, sobrepondo a hipocrisia social. O que deveras, arruína um povo, movendo-o à corrupção. A auto corrupção.

Desde às 6 horas da manhã, momento que desperto, até o fechar dos olhos à noite, a cada 1000 palavras que ouço e leio, 100 é dinheiro e uma é "amor". Dinheiro o mundo inteiro conhece, sabe de sua utilidade, para que serve, é palpável, cumulativo. Pode-se estocar, inclusive. E não se assuste se cobrarem R$ 300 reais (80 dólares) por uma consulta médica de 15 minutos.

E o amor? O que é amar? O que é o amor? Onde reside o amor? Como se exercita este substantivo, que qualificam como abstrato? Quem souber, deixe seu parecer em comentários. E caso tenhas um ataque epilético em praça pública, não se assuste se a multidão fizer o sinal da cruz, dar de ombros e sumir na esquina mais próxima. De quem (não) ama, tudo pode-se esperar.

O autor

Levado às pressas ao hospital, Jhones não resistiu ao coma alcóolica. No momento da extrema unção e o benzimento com o último gole de vodka, balbuciou confessando aos amigos e parentes: “Prefiro morrer de coma alcoólico e drogas, ocasionando uma overdose que só os diabos ingerem, do que morrer de tédio de tanto estudar. Amém”! Indubitavelmente, as palavras possuem força motriz e modificam inteligências.

Jhones Myrtes foi sepultado com o estetoscópio pendurado no pescoço, um martelinho de borracha na mão direita e o corpo coberto com as vestes brancas, que como principiado por Asclépio, deus grego da medicina, são as elementares referências da classe. Talvez esse ritual limpe, purifique e higienize o espírito do estudante e residente. Acredita-se que nenhum livro pesquisado e estudado por ele o alertou sobre a metafísica do “um trago a mais” originando a incorruptível, indestrutível morte. E desafiando-a, quando não havia mais meios de recuperação convalescente, justificou de tal de forma.

Este conto ilustrativo é um pequeno introito do que certamente não pensou o médico Dráuzio Varella, quando prestou vestibular para medicina. Curso, via de regra neste país, para a classe abastada, possuidora de posses, e que na maioria dos casos, quem o procura(va) como investimento profissional futuro, é porque possui(a) antecessores médicos na família. Se é este o seu caso, para artigo é irrelevante. Interessa só e somente, apresentá-lo como médico e pessoa formidável, carismático, atencioso, solidário e por pensar que o ser humano é frágil e passível de perecer naturalmente, adotou a “medicina humanista” como forma de realizar-se na vida.

Em suas palavras e atos, ficam evidente que, embora saiba que o pior pode ocorrer a qualquer instante, ser Médico é fazer reviver, reanimar, envolver-se, empolgar-se com a vida, respirar o possível e o impossível para dar vida ao paciente. Em razão dessa tese, bem em seu interior, lá no fundo, ele também se vê como um ser falível; o que o faz, acima de Médico, um senhor anatomista. Generoso altruísta.

Dráuzio é do tempo em que os cursos de medicina eram definidos pelo educando assim que adentravam o laboratório de anatomia. Ao abrir a porta, um cheiro forte e cortante de formol invadia as narinas dos alunos e se vencido essa primeira etapa, a segunda seria reparar, inspecionar, dissecar cadáveres. Não havia outra maneira de ser médico, sem arregalar os olhos, abrir as narinas e usar as mãos para separar e estudar os tecidos e órgãos humanos. Demandava a frieza de esmiuçar e revirar os cadáveres, para através deles, aprender os conceitos de vida. Dráuzio aprendera desde cedo que da morte, fizera-se o pulsar o coração, o respirar da vida.
Os seus cinco equipamentos de médico era o estetoscópio, o martelinho, as mãos, os ouvidos e o coração. Pedia para o paciente deitar sobre a maca e com as mãos, examinava órgão por órgão. Em seguida ouvia o funcionamento dos mesmos e por fim, verificava os estímulos nervosos e a coordenação motora, com um leve toque do martelinho contra um dos joelhos. Porém, antes de dar o diagnóstico final, sutilmente propunha que o paciente lhe contasse sua procedência e histórico de doenças familiares. Nessa hora, além de correlacionar o problema clínico ao protocolo familiar, perscrutava o íntimo do paciente. O receituário, o antídoto e a cura passam pelo crivo do ouvir. Sabe ele que, na condição de médico, deixar transparecer a paciência e serenidade, fazem com que o paciente sinta-se seguro e otimista com relação ao tratamento. Era aí que o seu coração diagnosticava por ele.
Até certa época do século passado, ele era conhecido apenas por usar o avental branco nos hospitais. No entanto, a ascensão além-corredores hospitalares começou com palestras sobre doenças de modo geral. Paralelamente às atividades cotidianas, Dráuzio assumiu o programa, salvo engano, “Falando em saúde”, que ia ao ar das 12 horas ao meio dia e meia pela rádio Trianon AM. De segunda a sexta, ele levava um convidado e especialista em determinada área. O “debate” consistia de perguntas e respostas entre entrevistador e entrevistado. O programa ficou no ar por muitos anos.
Mais ou menos naquela ocasião, a AIDS assustava os povos. Aqui no Brasil, campanhas esclarecendo a população sobre como evitar o contágio da doença virara febre. Bastava acionar o botão de algum meio de comunicação da época, que não demorava muito, uma propaganda vinha à tona. É obvio que a falta de critérios seguros da população ao fazer sexo, aliado ao surto que se alastrava feito rastilho de pólvora, preocupava o médico. E quanto mais investia na saúde pública, mais lutava a favor.
Dráuzio intensificou a tarefa de disseminar e conscientizar as pessoas, principalmente aqueles que viviam apinhadas em ambientes precários, descuidadas e expostas ao contágio, sobre os perigos de se contaminar pela doença. Realizava palestras e mais palestras. E ao adentrar o portão da prisão do Carandiru, uma ideia veio lhe à cabeça: “tenho que fazer mais que uma palestra para essa multidão desamparada e lançada a própria sorte; tenho que fazer um trabalho de voluntariando frequente. Dedicar-me à saúde desse povo. Ninguém é tão desonesto, criminoso, marginal, traficante que mereça morrer desta maneira: a míngua. O que cada um fez ou deixou de fazer, ele que pague para sociedade conforme a dívida contraída; mas de forma menos indigna, pelo menos em se tratando de saúde”.

E internamente à detenção não era para menos: corredores fétidos; merda por todos os lados; cheiro de mijo vencido; inválidos detentos e desorientados maltrapilhos perambulavam de um canto ao outro expondo suas feridas, que mais pareciam as marcas de guerra; cabeças enfestadas de piolhos; ambientes sem a mínima iluminação solar; descaso do poder do público; indiferença da administração e funcionários da instituição; desolamento e doenças se cruzavam de instante em instante, deixando o médico totalmente estarrecido. Mas nada; nada o importunava mais que saber que por onde caminhava, uma sombra, um odor, um cheiro lhe acompanhava e era ele: o perfume da morte. Ali, naquele lugar amorfo, a morte espreitava os combalidos, mais que ave rapina espreitando os animais vivos.
Assim que abriu a palestra, um tiroteio, um bombardeio de perguntas, e em cada uma delas, Dráuzio notava o doloroso arrependimento pelo ato cometido, o que jamais seria reparado. A AIDS é passaporte só de ida. Irreversível. Sem volta, mas ele poderia amenizar aquele sofrimento generalizado. E prestando serviço intenso aos detentos, ele trabalhou como voluntário no Carandiru anos a fio. Como recompensa e apreço pelo amor incondicional praticado naquela instituição, os assistidos o tratava com profundo respeito e admiração.
Praticamente era a única pessoa que transitava livremente por todos os ambientes, sem ouvir um simples assovio, um simples psiu de desaprovação. E ao chegar um novo hóspede à casa, por mais atrocidades que cometera nas ruas, por mais perigoso que fosse perante a sociedade, logo recebia o ultimato daqueles que detinham o poder, ouvindo que o principiante entrara num vespeiro e que ali, todos eram contra todos e infelizmente, inimigos mortais, porém: “durma acordado, meu amigo”.
Mas que tomasse cuidado e respeitasse afetuosamente o médico-altruísta, Dráuzio Varella acima de todos; porque senão, o iniciante encomendaria o caixão antes da hora marcada. Contudo, o regime aterrorizante implantado entre os detentos jamais incomodou o médico; pelo contrário, trabalhava insanamente para apaziguar, jogar água no braseiro e em muitas ocasiões, saiu vitorioso; afinal, palavra dele não se questionava, não se discutia e sim, cumpria o solicitado. Por mais incrível que possa parecer, havia generosa reciprocidade entre ele e os assistidos; o que mostra que trabalho operante e respeito é tudo.
No livro Carandiru, onde relata o presenciado pelas suas vistas, o médico conta que num dos plantões de fim de ano, após terminado o expediente e ovacionado pelos que lá estavam, tanto trabalhando, como aqueles que cumpriam pena, foi com os amigos carcereiros, porteiros, faxineiros e quaisquer outros brindar a ocasião, tomando uma cervejinha em um bar na avenida de frente ao portal principal. Tomaram uma, duas. Beliscaram um “tira-gosto”.
Batucaram um sambinha. Tomaram mais uma “biritazinha”; de modo que quando deu por si, já era altas horas da noite. Despediu do pessoal e foi correndo para casa. Assim que chegou foi direto para o banho e debaixo do chuveiro, refazendo-se do que havia comido e bebido, cantarolava um sambinha, como se ainda estivesse no bar com os amigos. De repente, ouviu alguém chamando por ele em altos brados. Voltando a si, percebeu que era sua mulher e esta lhe dizia que passava das onze horas e que fizesse silêncio. Isto prova o quanto Dráuzio era bem quisto pelo pessoal e se envolvia de corpo e alma com o que se propunha.
De ultimamente, (em termos, porque ele anda sumido da mídia) ele tem feito um quadro sobre medicina no programa Fantástico da Rede Globo de Televisão. Por motivos não divulgados, substituíram o quadro que ele fazia, pelo quadro “Medida certa”, que era apresentado pelo ex-jogador de futebol Ronaldo, qualificado como fenômeno pela mídia e sociedade. Provavelmente seja porque quem pratica o amor incondicional, o amor ágape, não possui habilidades para ser mais que uma pessoa comum e simples. E o que há de fenômeno em ser comum e simples? Em ser pacato? A resposta que vem à mente é nada; e nada não é sinal de ibope. Não rende números estatísticos que assombre e faça frente às demais emissoras.

Dráuzio deu lições de como amar, não em partes, mas em sua totalidade. Mostrou nas entrelinhas de como amar o próximo, acima do amor a si. Fazer o bem, sem questionar para quem.

Médicos como Dráuzio, Adib Jatene, Guimarães Rosa, Juscelino Kubitscheck e mais meia dúzia, incluindo a desconhecida Maria Emília, são sementes que se perderam com as colheitas no decorrer dos anos. E a reposição está difícil, uma vez que é impossível fazer a seleção natural com a colheita dos grãos que estão sendo semeados em solo infértil. E mais: são iluminados e falam muitos outros idiomas, além do idioma humano. São divinos perscrutadores que adentram os segredos da alma humana.

Dráuzio deixa nas entrelinhas que o médico deve estar onde a doença está; pois como ouvi certa ocasião da médica Maria Emília: “ao sair do hospital refeito da doença, com o rosto corado, o paciente abraça-me feliz, abre um sorriso e diz que voltará pessoalmente mais vezes para agradecer-me; o que dificilmente acontece. Fato que não me preocupa, pois sei que está bem e quando não estiver, retornará pedindo socorro; o que faço com imenso prazer e apreço. Sou médica e a minha proposta assim que me formei, foi dividir a minha saúde, enquanto a possuir, com a doença do paciente”. Vida longa e saúde plena Maria Emília, dente de engrenagens como você, estão emperrando, se sucumbindo em razão da oferta mesquinha do dinheiro!

aluno.jpg"O estudante universitário Humberto Moura Fonseca, 23 anos, morreu de coma alcoólico na tarde de sábado (28) após participar de uma festa universitária em Bauru no centro-oeste-paulista". A manchete é do Estadão Conteúdo e a imagem é Reprodução/Facebook, como cita a matéria.

PS.: Portanto, embora o conto seja somente para ilustrar e enredar o artigo, já houve casos semelhantes em faculdades do Brasil.

Obs.: O artigo não segue a sequência cronológica do que acontecera no decorrer da carreira do protagonista, foi sendo escrito conforme lembranças do autor deste.


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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