ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Rodrigo y Gabriela: dedilham no violão, do conhecido flamenco ao explosivo rock

Com o teatro lotado, empunhando um violão cada um, a dupla: Rodrigo y Gabriela é chamada ao palco. Sobem silenciosamente, sentam-se em bancos próximos e sem reverenciar, sem um paupérrimo meneio de cabeça para a plateia, iniciam o espetáculo. Pela falta de educação da dupla, o show teria que valer a pena. No entanto, com toda essa indiferença entre plateia e músicos, não foi preciso mais que dez minutos para o delírio generalizado definir o espetáculo, no mínimo, como visceral, lisérgico, telúrico, lunático, apoteótico, estratosférico, transporte sonoro dos diabos. Isto mesmo: cicuta sonora dos diabos! Jimi Hendrix violado.


orig_Rodrigo_y_Gabriela_1.jpg O tempo é o insuperável amigo da realização. Naturalmente, mais cedo ou mais tarde, a lei do eterno-retorno mostra as cartas para o navegante dos sete mares.

Perambulava assustadiço pelas ruelas escuras do México, de cheiro acre e nada agradável, ladeadas por decrépitos prédios, apinhadas por uma multidão de mendigos, maltrapilhos, drogados, prostitutas, intercambiando os olhos arregalados do medo pelo compasso apresado das pernas. Embora invadido pela curiosidade e receio, deleitava-me em esmiuçar a desordem da decadência humana, quando um cartaz num muro pichado pela rebeldia urbana, chamou-me atenção: “Arriba, arriba muchachos! Concierto de guitarras con Rodrigo y Gabriela”. Soliloquiei: “Quem são essas “figuras” e qual a repercussão musical delas para os mexicanos? Seu reinado Impera somente por aqui, ou já conheceram as tormentas nas travessias dos sete mares? E se quisesse respostas satisfatórias para minhas indagações sobre o incomum, o independente, o raro, que eu fosse conferir de perto. Sem outra alternativa, foi o que fiz”.

Com o teatro lotado, empunhando um violão cada um, a dupla: Rodrigo y Gabriela é chamada ao palco. Sobem silenciosamente, sentam-se em bancos próximos e sem reverenciar, sem um paupérrimo meneio de cabeça para a plateia, iniciam o espetáculo. Pela falta de educação da dupla, o show teria que valer a pena. No entanto, com toda essa indiferença entre plateia e músicos, não foi preciso mais que dez minutos para o delírio generalizado definir o espetáculo, no mínimo, como visceral, lisérgico, telúrico, apoteótico, estratosférico, transporte sonoro. Tomados pelo transe e a entrega aos instrumentos, os dois contorciam-se os pescoços, deitavam o chumaço de cabelos para frente, dedilhavam e batucavam nos instrumentos de forma eletrizante!

Provavelmente inspirados por uma de suas canções que se chama: “Diablo Rojo”, a dupla “infernizava” o teatro. Entrar em cena e realizar o trabalho, de maneira eloquente e incisiva, como fizeram, aclarou-me a ideia de que respeito não se faz com acenos; mas realizando o proposto de corpo e alma. E eles, Rodrigo y Gabriela deram mostras de que não fazem as coisas pelas metades e por isto, são duas metades que se completam.
Juntos desde 2000 e mais alguns anos, os mexicanos Rodrigo y Gabriela fazem música instrumental, desde o flamenco até o rock apenas com violões. Os solos ficam por conta de Rodrigo, enquanto que o acompanhamento é de responsabilidade de Gabriela. Porém, a muchacha usa as laterais do violão para batucar, fazendo-as de percussão. Com insuperável rapidez, tanto no dedilhado, como no bater, ela dá a nuance de ser um trio: dois violões e bateria, em vez de um duo. Incrível inovação extasiante! Para se atingir o ápice musical, o qual apresenta, demanda anos e anos de ensaios.

rodrigo-y-gabriela.jpg“O mistério do músico é o risco, então porque não se arriscar na Europa, em terra próxima onde nasceu o violão”?

Por serem mexicanos e terem herdado dos espanhóis a influência do flamenco, o repertório da dupla paira entre o folk-latino até o rock clássico e metal. O (curto) circuito musicado, conta com a lendária "Stariway to Heaven" do Led Zeppelin e "Orion, One, Master of Puppets, Atman" do Metallica; porém, além dos covers, apresentam também trabalhos próprios. E para o delírio da plateia, (fui junto) a dupla batucou o flamenco da eletrizante Tamacun, era apenas o prenúncio de dois gênios do violão. Cinco minutos ou mais de ritmo alucinante, que fizeram o auditório pedir bis. (novamente fui impelido ao ato, aplaudindo e berrando em coro)

    Ambos se conheceram tocando em bares e ruas das cidades do México e perambulando a esmo, tendo como amigo apenas os violões, aquela modorrenta série de apresentações, não os inspirava voos mais longínquos. Então, como verdadeiros cegos que saem em busca de luz no fim do túnel; como verdadeiros caminheiros que saem à procura da pedra filosofal, a dupla deixou o país e rumou para a Europa: a parada seria em Dublin, Irlanda. Lá esperavam encontrar um público mais afeito aos seus trabalhos e estilos musicais.

    De andantes no México, Rodrigo y Gabriela tornaram-se andantes em Dublin. Para piorar, nada de money nos bolsos e nada de inglês nas falas. E cada vez mais, admitiam a ideia que vieram da rua e na rua, continuavam; porém, desistir jamais. Fato que eles avaliavam assim: “Em 1999, nós éramos muitos parecidos com espécies exóticas"! Honestos e realistas, eles mesmos se consideravam espécies invasoras e até então, tocavam apenas coisas latinas em festas de família, casamentos e galerias. Porém sem estacionar no tempo, a ideia era, sobretudo, dedilhar as notas do rock clássico/metálico. Para chegar ao estágio pretendido, intensificavam o número de horas de ensaio por dia. Passavam horas e horas, através das tentativas e erros, atingir os acertos.

      Como estavam na Europa, continente que as notas musicais do rock subiram ao palco pelas primeiras vezes, aos poucos a dupla ia burilando, cavando o conhecimento almejado junto ao público e proprietários de casas de shows. O resultado não poderia ser melhor. E para celebrar a decolagem, viajaram para Barcelona para fazer a primeira turnê, o que foi marcada por certo tumulto, o qual envolveu até polícia. Voltando à Dublin, definitivamente passaram a ser considerados: Rodrigo y Gabriela, os músicos que além de tocar o conhecido flamenco originário dos espanhóis, dedilham as notas explosivas do velho e monstruoso rock-clássico. É ouvi-las, que o insolente ruído permanece vívido, ecoando constantemente no cérebro; afinal, o duo instrumental formado por eles é fantástico e quando os acordes e a sonoridade musical tende ao excelente, dispensa vocal.

      Quando o repertório musical demanda hard rock/metal, o guitarrista Robert Trujillo é convidado para dar o tom da credibilidade e peso ao som.

      Rodrigo y Gabriela já venderam mais de 1 milhão (nenhum no Brasil) de álbuns. Todavia, para chegar a esse estágio, o monumento com os seus nomes começou a ser erigido, a partir do instante que suas composições fizeram parte da trilha sonora do filme: “Piratas do Caribe”. Daí, o risco de se lançarem contra as tormentas em mares revoltosos, tornou-os resistentes e contemplados com um portal sonoro e nele, a seguinte inscrição: “O risco de se dar bem fazendo o que se gosta em terras de estranhos, é o mesmo de se dar mal em terras conhecidas. Bem ou mal, todas as tentativas são válidas e merecem ser vividas. Portanto, um rock para os europeus; um flamenco para mexicanos e espanhóis e um brinde a difícil travessia imposta pela nossa conquista além-mar. Dublin e a Irlanda, cidade e povo que consideramos a nossa segunda casa e família, merecem”.

      Nota: Eles estão com novos trabalhos no mercado musical, como era de se esperar, esplêndidos! Maldita mídia Brasileira que só traz para cá os enlatados (as merdas) americano(a)s. Pobre pueblo; pobre cultura la nuestra!


      Profeta do Arauto

      Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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