ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

“Treze anos de estrada” com Emmerson Nogueira (parte I)

Quando o talento sobra no artista, o negócio é abaixar a cabeça e se render ao seu potencial. Assim sendo, pego carona no comentário de uma leitora do Obvious, que em seu depoimento disse como descobriu a dupla mexicana de violonistas Rodrigo y Gabriela, motivo pelo qual, principio este artigo sobre o fenômeno musical, cujo título já diz praticamente tudo. Afinal de contas, treze anos de estrada, não são treze dias com treze espetáculos de treze minutos somente. Abaixo a pirataria musical envasada pelos inescrupulosos saqueadores de arte.


    Deixando de lado os bairrismos, excesso de pedantismos, os separatismos sociais, mas Minas Gerais por muitas décadas, talvez por quase um século, literalmente, mandou neste país culturalmente, economicamente e politicamente. Tanto é que, naquele estado nasceram as politicas de libertação do país; as obras Barrocas do mestre artesão Aleijadinho; boa parte dos escritores de literatura e poesia que compõem o Romantismo e o Modernismo vieram de lá; e para encurtar a história, muitos artistas de diversas áreas são das Gerais.

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    Se o mar não banha o estado, Minas banhou o Brasil de ponta a ponta de cultura. Escrevo no passado do modo indicativo, porque na minha concepção, culturalmente, Minas está ultrapassada; nivelada por baixo; acompanhando a cultura do resto do país. Sobretudo, para peneirar algo extraordinário e precioso, faz-se necessário que o garimpador separe com olhos de águia, o legítimo e nada reluzente, do brilhante ouro de tolo. Todavia, quando menos se espera, aparece um para quebrar com esse meu paradigma de pensamento.

    IMG_8320.JPG Os papéis das estradas são vários e no que tange a relação entre o artista e ouvinte, para o primeiro, elas afinam os instrumentos e no segundo: apuram os tímpanos. Assim realizadas as tarefas, finalmente, parceria perfeita!

    Quando alguém deleita-se e afina-se diletantemente por algo que julga como sendo excelente, quanto mais se exercita, mais sensível, mais sutil fica a coisa admirada. Tal tese vale para quem é leitor; para quem ama; para quem curti ficar sozinho ou acompanhado; para quem é cinéfilo; para quem é comedor de pipocas e obviamente, para quem é ouvinte e apreciador da boa e insuperável música. O que é excelente supera o tempo e torna-se atemporal. Sempre foi e sempre será assim e se não for, é porque o produto é descartável, desprezível e nocivo à inteligência.
    A boa e insuperável música é um desses vícios, que entra ano e sai ano, como vinho em tonéis de carvalho, não envelhece nunca; pelo contrário, fica ainda melhor e ao apreciá-la descontraidamente, o ouvinte transcende para lugares inimagináveis. Portanto, prepare as taças, escolha um vinho à altura e libere a agulha sobre o “bolachão” de petróleo, porque o concerto de “Treze anos de estrada” de Emmerson Nogueira está por iniciar.

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    Este músico mineiro, órfão de pai prematuramente e irmão de muitos irmãos, descobriu-se na música ainda na adolescência. E a partir de então, dedicando-se exclusivamente ao aprendizado do idioma inglês e aos acordes do violão, abdicou-se daquilo que todos chamam de futuro. Incitado à predestinação dos homens obstinados, que sabem o que querem e almejam, logo cedo se desgarrou da família e pôs-se a aventurar pelo Rio de Janeiro, Belo Horizonte e cidade próximas onde nascera. Sobretudo, porque alguma coisa tinha que acontecer. E como parte de uma gama reduzida de pensadores/aventureiros no mundo, inquieto que só, movimentava-se sempre; estacionar no tempo, jamais.
    Partindo do princípio que Deus salva e o Pop/Rock alivia, Emmerson tornou-se evangélico e juntamente com outros amigos de crença, montou uma banda Gospel e com ela, participou de eventos musicais na região da zona da mata mineira. Em Juiz de Fora, como esperado, uma vez que não contava com apoio de seus familiares, o músico encontrava dificuldades e obstáculos infindos; porém, mantinha-se determinado e foi essa determinação que o fez uma pessoa humilde e simples, ao ponto de dizer em certa época que ocorresse o que ocorresse, ele continuaria sendo o simples Emmerson que atravessa a rua, indo à padaria buscar pão a pé. Guardar consigo os traços do conservadorismo, são virtudes do genuíno mineiro.
    em.jpgAté no estilo de se apresentar no palco, mostra o quanto Emmerson é mineiro conservador, o que faz dele uma joia rara que não se deixa levar pela torrente midiática inescrupulosa.
    Por volta de 1992, o artista revisita as raízes onde nascera, e para não perder o costume, monta uma nova banda e para confraternizar, tocam covers de Elvis Presley; Beatles; Led Zepellin e outros. Porém, a banda não passou de mais uma nuvem passageira, pois, buscando coisas mais palpáveis, o seu principal parceiro desistira da música. Contudo, embora algo tenha acontecido nesse intervalo de tempo, até apresentação na França e a oportunidade de tocar ao lado do músico do Kid Abelha, os calendários viravam os meses, mudavam os anos, aproximava-se o fim do século e nada do músico se deslanchar. Em terras tupiniquins, pouca coisa, ou nada, mudava na vida de Emmerson. Todavia, para quem nascera sob o bruxulear de uma luz minguada, o breu quase que absoluto, em nada o assustava. Ainda bem, porque os excelentes não podem morrer antes de deixar as suas digitais nos impérios montados pelos inócuos; sobretudo porque são eles que fazem a diferença e duelam contra a mesmice cotidiana.
    Virada de século. Os mesmos fogos que espocaram no céu, irradiando alegria e prenúncios de melhores anos para os povos, espocaram na vida de Emmerson; afinal, foi mais ou menos nessa data que o músico vai ao Rio de Janeiro para radicar-se de vez na cidade maravilhosa e lá, lançar o projeto “Versão Acústica”, que contava com releituras/cover de Led Zepellin; Yes; Police; Supertramp; Joe Cocker; Eric Clapton; Pink Floyd e muito mais. O músico que, até então ponteava o seu inseparável violão em festinhas e bares, definitivamente, abandonava as fantasias, as promessas e os mistérios dos que sonham, para ser uma realidade musical; para ser o afamado multi-instrumentista brasileiro, de nome Emmerson Nogueira.
    Chegamos então ao ponto, e após essa curta e singela apresentação sobre o artista; retomo a introdução. Comentou a leitora que relaxada em seu sofá, pulando de canal em canal, quando de repente surge na tela dois alucinados tocando freneticamente seus violões. Embasbacada, foi a palavra encontrada por ela para definir o transe, o prazer de ter tomado conhecimento da dupla Rodrigo y Gabriela.
    Neste exemplo, a leitora teve ao seu favor os recursos oferecidos pelo audiovisual, o que lhe possibilitou analisar de modo rápido as impressões, a maneira de uso dos instrumentos, apurar os ouvidos para os acordes e arranjos trabalhados pela dupla. Por gostar e ter os ouvidos apurados para o rock clássico, (desde que seja identificável com o ouvinte, pode ser qualquer outro estilo) denota o quanto ela se identificou com a dupla.
    E quando não se tem um meio de captura da imagem; algo que impressione à primeira vista, como foi o caso do vídeo à sua frente? Aí, vale o que se conhece sobre o que se gosta. Esclarecendo melhor, imagine que a mesma leitora adentra uma loja qualquer de discos (nada especializada), folheia uma pilha, folheia outra, mais outra e do nada, aparece a imagem do músico e o instrumento, algumas inscrições no rodapé e nada mais. Ela avalia, reavalia e para assegurar-se do produto que está em sua mão, lê as faixas no verso do álbum. Sem titubear, paga o valor requerido pelo álbum nada “pirata”, corre para casa e ansiosa, enfia-o no leitor. Imagina-se o que veio lhe ao pensamento foi: “Caramba; se eu não fosse afeita, se não tivesse ouvidos sensíveis para esse estilo, o qual esse fulano interpreta em covers, fatalmente não iria conhecer essa sumidade de músico”.
    Em resumo, a ideia de comprar um álbum musical no escuro, é semelhante à compra de um bom livro, lendo somente o prefácio; e talvez isso tenha acorrido com inúmeros, vários ouvintes de Emmerson Nogueira nos anos 2000. Pelo talento instrumental apresentado nos dois primeiros álbuns do projeto “Versão Acústica”; duvido que alguém tenha se arrependido. Então, aplausos, assovios e gritem: bravo Emmerson Nogueira!

    A foto da paisagem ilustrando as estradas pertence ao autor do artigo


    Profeta do Arauto

    Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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