ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico



A arte de se conhecer em outra pessoa

É sempre deleitoso ver as pupilas dilatadas pelos sorrisos ocultos, desavergonhados acenos que imploram o pedido de desculpa, finos gestos que expressam emoção e a falta de palavras que declaram amor. Para duas pessoas comunicarem a amizade incondicional, basta aprofundar-se nas sutilezas da imaginação.



Alegria de gente feliz / Que não pede nada: os mantimentos na despensa / A roda d`água tocada pelas chuvas que chegam de mansinho do ocaso / A reza orada no dia-a-dia / Para aquele povo / nada acontece por acaso.

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Estamos presenciando uma tendência terrificante de sermos induzidos a toda força ao consumo, ao materialismo, ao dinheiro acima de todas as coisas, adotar pacificamente aquilo que é de aceitação da maioria e outras inocuidades mais, o que deveras vai empurrando o ser citadino nada humano ao abismo da perpetuação da jactante arrogância e dos sórdidos pensamentos sobre o seu semelhante, o que gera desconfiança absoluta de um sobre o outro. Está é a realidade das cidades com qualquer meia dúzia de desumanos e infelizes, porque não se pôde dizer que isto seja felicidade. Como gado chancelado, fazendo se notar pelo tilintar do cincerro, vão seguindo o cortejo até das palavras e influências.

Realiza-se na vida, aquela pessoa que propõe-se estudar tais fatos através do experimentalismo; cuja teoria deturpada pelos humanistas, criaram os signos dissimulados para tentar solucionar os problemas que estão escancarados aos cegos de olhos abertos, no entanto ainda resta uma vaga penumbra no fim do abismo, o que faz-me acreditar que sou gente e como tal, acreditar em minha espécie. Atitudes solidárias, coração palpitante e calor humano, interagirem em meio às atitudes solidárias, coração palpitante e calor humano. Isto explica porque uma hipócrita democracia gera entropia.

Depois de doze dias na estrada, sobrevivendo à exaustão física em cima dos pedais, maravilhando meus instintos sem soberbas com os trinados dos pássaros e aves; retumbares de cascatas e despenhadeiros de água; ressabiado com os sibilos de serpentes; estradas de terra a perder de vista; bravios desbravadores que com as mãos arrancavam do solo o alimento para a prole. Em contato com tais desafios, estupidez é pensar que tudo se pôde, tudo se resolve com dinheiro e tudo se conquista através da máquina, como foi implantado no mundo pelos países industrializados, também chamados de Primeiro Mundo. A separação inicia-se naquilo que se aceita e acredita-se sem antes ponderar sobre a constante da mola propulsora. Portanto, se fôssemos povos sábios o bastante, a criticidade seria naturalmente a imunização contra a mesmice cotidiana.

Ultimamente, os japoneses abriram os olhos deles e taparam as vistas das demais nacionalidades e estão impondo o modelo de tecnologia para os sete continentes e a mais nova revolução são os robôs que operam suas quinquilharias de parafusos, articulações mecânicas, centenas de porcas e arruelas lubrificadas com a mais pura graxa, circuitos elétricos operados com botões, descalços e descamisados para servirem de mão de obra nas cozinhas. Tomara que resista a caloria do ambiente, pois caso contrário, a comida terá certos ingredientes, por enquanto indigeríveis pela máquina humana. Quando acontecer o contrário, haja ácidos no estômago para dissolver tantas porcas, parafusos, arruelas e metais pesados dos circuitos eletrônicos; afinal de contas, por mais que revolucionem os costumes, o desengonçado trambolhão de latas será operado pela também, máquina humana.

- Contrário dos relógios, que é invenção antiga, estão fabricando robôs!
- E o que isso contribui para a humanização dos povos?
Os relógios marcam o tempo, estimulam os homens para o trabalho e despertam-os para o capital cumulativo. Passou da hora dos relógios despertarem os trabalhadores, entendedores de máquinas e homens inteligentes, a entenderem de preservação da natureza e reciclagem de gente. Gente que como gente, possuem carne, ossos, pensamentos e tatos nas vistas.

Logo cedo sob temperatura de 3o C, numa subida que apresentava-me às benevolências do Criador a todo instante, vejo um senhor com seu embornal de lado, botinas nos pés, vestindo um grosso casaco puído, cabeça coberta por um chapéu de palha esfarelado e o bem-estar despreocupado nas faces ressequidas pela exposição às intempéries. Contrário e aversivo aos pele fina e saqueadores das cidades grandes; nutro profunda admiração por esse povo. São jecas, mas são joias fortuitas que não se encontram em qualquer bateia.

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Ao notar que diminui a velocidade e direcionei o guidão para o ponto onde estava, apressou-se em levantar e pôs-se a me esperar de pé. Quanta simplicidade e gentileza daquele “Caipira”! Cumprimentamo-nos e sem maiores delongas, disse o que estava fazendo ali, onde morava e como tudo se desenvolvera ao longo dos anos. Via declaradamente em seus olhos fundos o prazer de falar, bem como a leveza de habitar aquele duro pedaço de chão, pois nunca fugira à luta de desbravar a sorte, labutar a terra e dela, retirar os meios de sobrevivência.

Obviamente, para pessoas como aquele “Matuto”, política, religião e futebol são assuntos desprezíveis; mesmo porque o tempo era curto, enquanto que muitas novidades estavam na pauta para serem desveladas na prosa que se estabelecera entre nós. Prosseguiu entre sorrisos furtivos e o êxtase do encontro; quando esfuziantemente, deixou escapar que estava beirando os 80 anos de idade, o que sua aparência de cerne bruto de tronco de aroeira não delatava. Como poucos neste mundo, sem pensar na hora do café ou almoço, ofereceu-me uns pães, que segundo ele, era feito artesanalmente. Novamente: quanta simplicidade e gentileza daquele generoso senhor e o mais louvável: original e autêntico. Nesses povos, os olhos da cara leem a sinceridade e honestidade nos olhos que os olham e retribuem no mesmo grau de sinceridade e honestidade.
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Enfiou a mão no embornal e puxou dois pães relativamente graúdos, cuja receita e o cheiro eram de saciedade da fome; pois comida para o praticante de esportes e trabalhos pesados é a fonte de regeneração e revigoramento. Embora sentisse-me na presença de um deus da simplicidade e acostumando à linguagem de Deus e o diabo, porque para entender de cobras, somente convivendo num ninho de víboras, recebi de bom de grado os pães e passei para ele uma "mãozada" de pão de queijo. Nada supera a troca, mesmo que não seja igualitária; pois perante as palavras do Criador, desde que uma mão não bisbilhote a ação feita pela outra, o que vale é a intenção de dar e receber. Sobretudo, a perda e o ganho de hoje, pode ser a soma e a subtração de amanhã. Nunca se sabe! De concreto na vida, apenas os dilemas da incerteza.

Um carro gol parou próximo ao local onde ele encontrava-se. Despediu-se, desejando-me boa viagem e com insistentes: “voltando aqui, não se esqueça de ir à minha casa. É logo ali, depois da curva; é onde as portas e janelas são mantidas ininterruptamente abertas para a entrada inesperada do vento, da chuva, do sol e dos amigos em trânsito. Todos, sem distinção, como não possuem morada, chegam a qualquer hora. Irás passar em frente. Não tem como errar, portanto, não aceito desculpas. Lá tem café no bule, queijo meia cura espetado na ponta da faca e um braseiro vermelho esperando para assá-lo”. Retomei o pedal pensando: “Como tratar mal um coração alegre e palpitante desse”?

Interação como essa demonstra o hibridismo do insano experimentalista itinerante com a singeleza estacionária, fundindo na arte de se conhecer em outra pessoa; ainda mais quando somos agraciados pelos desvelos dos elogios declarados pelos olhos, como foi o caso das atitudes daquele senhor. Rara ocorrência, pois vivemos a era do vácuo...somos seres humanos que se propagam isoladamente no vazio. Homens petrificados pelas torres de concreto e os homens com cheiro do campo são átomos que se repelem; fazem questão de não deixarem as moléculas se agruparem. Logicamente, que isso ocorre mais por parte do citadino.
É neste dualismo experimental que desfaço das toxinas do meu corpo e espanto as dioxinas elucubrantes da imaginação. Em contrapartida, faz-me perceber essas despojadas e sensíveis criaturas do mato que ainda guardam em seu íntimo a leveza de se conhecer, não na primeira pessoa do singular. Na realidade, pessoas singulares, como aquele “Caipira” estão em extinção, fora de cogitação, banidos dos cardápios e acima, muito acima da mediocridade do “eu sou eu; o resto é sobra”. Simploriamente, sobrepõem aquelas que conjugam os verbos na primeira pessoa do singular e obviamente, não são pessoas singulares.

No dia em que investirem no passatempo dos desfiles de moda nas passarelas dos hospitais, passo acreditar que os humanos, tornaram-se Humanos; enquanto isto não acontecer e jamais acontecerá, mantenho total credibilidade e admiração apenas no Homem dos cafundós, dos confins de mundo, aquele que não conheceu e não se importa em conhecer a adulteração do homem dito moderno e intelectualizado; afinal, esses são reis que usam as gravatas do poder para estrangular os singelos sorrisos dos súditos.

Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico .
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