ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma manca, canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta"

Pena Branca e Xavantinho: violeiros do Romantismo Brasileiro?

A dupla Pena Branca e Xavantinho interpretavam canções em forma de poesias musicadas na viola, as quais guardam restrita relação com a Primeira Fase do Romantismo Brasileiro.


“Uirapuru, uirapuru, seresteiro, cantador do meu sertão / uirapuru, uirapuru / ele canta as mágoas do meu coração / a mata inteira fica muda ao teu cantar / tudo se cala para ouvir tua canção”. Hino dedicado ao pássaro Uirapuru. Composição: Jacobina e Murilo Latini

uirapuru.jpegNo início do século passado, o Uirapuru serviu de inspiração para o compositor Villa-Lobos no poema sinfônico que leva o nome do pássaro.

dupla1.jpg Esses irmãos vieram ao mundo com os corações suspirando viola; e quando abriam a garganta, externavam os sentimentos tácitos da Natureza. Embora não reconhecidos, Pena Branca e Xavantinho eram uma dupla de mestres da primeira fase do Romantismo Brasileiro musicado, por assim dizer.

Assim como o movimento literário, a dupla de violeiros ficou no passado, e provavelmente, jamais aparecerá outra igual. Em meio a tanta mediocridade diplomada, (aqueles que tudo sabem, discutem e nada resolvem) quando se ouve Pena Branca e Xavantinho e toma conhecimento que esses negros-matutos quase não foram à escola; e possuíam o talento e o dom de compor, tocar e interpretar as suas composições e de outros compositores, com tamanha competência, placidez de alma e benevolência artística, deve-se parar de bater os martelos sobre as cabeças achatadas, refletir sobre os atropelados tempos, descer dos tamancos, andar descalço apreciando a energia vinda da relva verde, respirar o aroma da terra molhada e agradecer o Criador; pois, não pode ser, senão obra de um ser supremo.

E cada leitor que entenda como quiser o significado de Criador, sobretudo, porque o sobrenatural atua sobre a Terra, introduzindo simplicidade, carisma e talento naqueles espíritos simples que habitam esse espaço terreno. Afinal, entre o céu e a Terra, existe uma energia cósmica que está muito além do entendimento dos homens de carne sustentada pela carcaça dos ossos recoberta com músculos; fato que pela sensibilidade e magistralidade como faziam música, os irmãos, sem medo de errar, trouxeram esses mistérios incorporados em seus DNAs.
Deus premia os seus, conforme a escala musical soprada pela horda de anjos no céu; e esta, obviamente é cantada pelos displicentes poetas e escritores da Terra; pela terra. Pelo ar, pelo fogo, pela água, pelos canoeiros, índios e nativos do grotão, pela árvore que leva anos para fenecer, pela flor, pelo amor sem dor.
Enquanto os escritores e poetas da primeira da primeira fase (geração) do Romantismo Brasileiro enalteceram os elementos da Natureza em seus escritos; a dupla teceu nas cordas da viola o sentimento de quem viera das entranhas da terra. Em cada grão de letra, o desprendimento venerado entre o sertão e o sertanejo.
carro.jpg“O carro de boi lá vai, gemendo no estradão / suas grandes rodas fazendo / profundas marcas no chão / vai levantando poeira, poeira vermelha / poeira do meu sertão”.
A dupla de mineiros, José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca e o seu irmão, Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho, tinham por principio artístico/musical retratar as raízes e origens do povo brasileiro, o que nas entrelinhas devia ser parte da biografia deles. Pois, em cada sílaba das músicas é lançado o sentimento do homem sertanejo, tangendo a boiada para o curral; o cheiro de relva molhada pela chuva resplandecendo a vida no serrado; a fina poeira das estradas saídas do pisoteio dos bois ao tracionar o carro; a batida do monjolo que faz girar a pedra mó na moagem do milho; as festividades dos folclores regionais, como na canção Calix Bento de Milton Nascimento. Sobretudo, cada sílaba, cada palavra, cada canção revela(va) as imagens que os espelhos oculta(va)m. Ocultas raízes do homem do campo, postas às claras pelas letras interpretadas pela dupla.
Antes de 1970 até os anos de 1990, o Brasil passava por um sem número de mudanças. Na economia, a meta era desenvolver-se 50 anos em cinco, como foi o slogan político vigente à época. Com isto, da noite para o dia, os grandes centros apinhavam-se de gente, devido o êxodo rural, seguido do deslocamento migratório, vindo de todas as partes do país. O Norte foi a região que mais perdeu população, que à procura de melhores condições de vida, descia aos borbotões para o Sudeste; e uma vez que é o estado mais industrializado do país, São Paulo era a capital preferida dos ruralistas, nortistas e nordestinos.
Com a morte do pai, logo cedo os irmãos sentiram-se obrigados a trabalhar na lavoura para auxiliar no sustento da família. Diante da necessidade forçada que a vida lhes apresentava o cartão de boas vindas a Terra, a dupla malhava o solo durante o dia e quando os últimos raios avermelhados do sol se desfaziam atrás das colinas do Triângulo Mineiro, região onde nasceram, ao cair da aragem noturna, enquanto enxugavam o suor derramado no rosto, descansavam ponteando as violas. Através desses concertos domésticos, descobriam-se mutuamente na música.
Na cidade grande, a revolução nos conceitos humanos era constante e com ela, a implicação direta nos costumes e hábitos dos habitantes. Embora sem planejamento, a cidade de São Paulo crescia vertiginosamente e para não ficar para trás, os movimentos culturais acompanhava a eclosão da maior megalópole do país. Ironicamente, estranhamente, nos anos de 1980, a rede Globo de televisão reeditava os grandes festivais da Record e o primeiro de uma série, foi o “Festival MPB Shell”.
Vendo a possibilidade de saírem do braço da enxada e no lugar, adotar o braço da viola, Pena Branca e Xavantinho se largam nas incertezas da sorte e migram para São Paulo. Perdidos entre roncos de máquinas, rosnado de motores, poluição que começava apavorar as sensíveis narinas, desavenças em botecos, portas escancaradas pelos rebolados de meretrizes indesejadas nos cabarés, inscrevem-se com os pseudônimos que mais tarde os consagraria como uma das duplas mais conhecidas e respeitadas no rol da música sertaneja, para participarem do festival. Sucesso à vista? Não custava tentar; e uma vez inscritos, restava aos dois, portanto, afinar as vozes e apurar as cordas das violas.
“Debulhar o trigo / Recolher cada bago do trigo / Forjar no trigo o milagre do pão / E se fartar de pão”. Composta por Chico Buarque e Milton Nascimento, Cio da terra, é uma das letras que mais se curva às benevolências da Natureza. Lindíssima!
Eureca! Interpretando a canção "Que terreiro é esse?", composta por Xavantinho, chegaram à final; dali foi um passo miúdo para a dupla atingir o ápice do reconhecimento. Contando com o apoio de Milton Nascimento e Chico Buarque, interpretam “Cio da terra” de autoria dos dois menestreis da MPB, (Música Popular Brasileira) lançam o primeiro, de muitos álbuns.
A avalanche de assédio e concertos não paravam mais; ao contrário, feito o disparado bater de asas do "Cuitelinho, título de uma das inúmeras composições interpretadas, a dupla é convidada a se apresentar ao palco do "Som Brasil", programa apresentado pelo extraordinário Rolando Boldrin. E os "capiras/matutos" fizeram aquilo que estavam em vossos alcances: debulharam as cordas da viola, e abriram a garganta. Ao término, aplausos, assovios e o nome da dupla ecoavam no estúdio, selando o carisma interminável entre a plateia e os concioneiros.
Impossível enumerar todos os sucessos e prêmios ganhos pela dupla; porém, em 1990, coma canção “Casa de barro”, composta por Xavantinho e Moniz, ganharam o Prêmio Sharp de melhor música.
Quando da brisa no açoite a frô da noite se acurvou / Fui s'incontrá co'a a Maroca, meu amor / Eu tive n'arma um choque duro / Quando ao muro já no escuro / Meu olhar andou buscando a cara dela e não achou. Poema de Mário de Andrade

Outro imponente trabalho dos irmãos violeiros, é o álbum "Violas e canções" (Velas), de 1993; que conta com a música "Viola quebrada" (Mário de Andrade). Um álbum refinado do início ao fim, com canções melodiosas que remetem o ouvinte aos primórdios, senão dele, de seus antepassados. Inegavelmente, o álbum é obra pra lá de prima!

Foram quase quarenta anos de união pacífica entre a dupla; o leva a crer que tenha iniciado bem antes da ligação biológica/consanguínea. Pois, na relação afinada entre os irmãos, havia uma magia, uma telepatia que jamais será desvendada pelos homens comuns. No entanto, a dupla deixou a impressão de que foi coberta com o véu branco como a neve, (cor das vestes que paulatinamente usava nas apresentações) da criação divina.
IMG_0018.JPGEm cada palavra proferida pelo poeta romântico, uma pétala de flor, para a imensidão da alma, se abria. E o desejo de amar e ser amado pelos amores que se misturam, feito um regato de águas borbulhantes, floria!
Os escritores e poetas da Primeira Geração do Romantismo, enalteciam as belezas naturais; traziam à tona as questões históricas e religiosas; valorizavam o índio como os primeiros e legítimos usuários da terra, tornando-os heróis nacionais em seus escritos. Completa o pensamento naturalista e indianista da primeira fase do Romantismo, o sentimento exageradamente romântico pelas coisas naturais, bem como do homem em relação à mulher amada.
Arretado é aquele que escarnece o que lhe arreta; e Pena Branca e Xavantinho apegavam-se às notas da moda de viola, para afugentar a depressão, sovela que aflige, espeta a mansidão do coração.
Na boca noite / Deusdete chega da roça / Traz no embornal umas espigas de milho / A marmita suja e umas raízes de mandioca / Que é para no dia seguinte / A mulher ralar / Espremer o suco / Separar a massa para fazer o curau / o beiju de farinha, a tapioca e o mingau. IMG_0530.JPG Para alegrar o coração / Sob a luz tênue e bruxuleante do candeeiro / tira uns minutos para pontear a viola / Enquanto faz isso com prazer / Restaura a felicidade / Manda a tristeza para longe / Que às vezes, o amola.
E finda a cantoria com um solene: "Te amo mulher / minha senhora"!
Em 08-10-1999, Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho, morreu devido as sequelas causadas por um acidente de carro ocorrido 5 anos antes.
No dia 08-02-2010, Pena Branca, ou José Ramiro Sobrinho, faleceu com 70 anos de idade, vítima de infarto fulminante.
Pelas benevolências dos sábios que juram amor eterno por aquilo que fazem e não mentem para si, para não fugir à regra, falecera dedilhando a sua cúmplice e inseparável viola de 10 cordas, amiga que lhe acompanhava desde quando entendera por gente; o que lhe acontecera logo nos primeiros anos de vida. Pois, devido a lei da obrigatoriedade, o músico sempre fora criança no pensar, com os fardos, timbres e notas da canção nominada responsabilidade adulta, nas costas.
PS.: embora não seja citado pela Literatura Brasileira, a relação da música sertaneja (não confunda com as falácias da mídia, as quais usam a mesma nomenclatura para certo estilo musical) com o movimento literário (concepção do autor) é extenso, e passível de mais artigos.
O nosso senso de comparação, analogias, interdisciplinaridade e conceito filosófico ainda é um fosso de obscurantismo nebuloso e muito se deve, aos anéis de poeira pulverulenta que se instalou sobre a Educação Brasileira, estendendo para os povos modernos. Assim como o efeito estufa, gerado pelo homem, para o homem e lançado à atmosfera está para o Aquecimento do Planeta, a cegueira perceptiva, oriunda da tecnologia, está para os olhos, que se veem como "despertos".
Ensaios estes, que Pena Branca e Xavantinho faziam questão de não mencionar em suas interpretações, sobretudo, porque os elementos da Natureza interagem entre si; e em cada nicho ecológico, habitats e ecossistemas, a harmonia da cooperação mutualística entre as espécies é o regozijo maior. O que nas letras interpretadas pelos irmãos da terra, foi suficiente e bastou!

As duas últimas fotos e os versos que ladeiam a paisagem rural é parte do poema "Vida de Matuto" de autoria do autor deste.


Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma manca, canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta".
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