ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico



Cultura em chamas é queima de arquivos

Excelente seria se o artigo fosse para descrever a altivez de consciência, tanto do Estado quanto da sociedade, no tocante ao compromisso, seriedade e preservação do que é de domínio público; porém em vez disto, é para aclarar o descaso e o desmazelo com a cultura, que de tempo em tempo, queima em chamas a memória e os arquivos do povo paulistano e brasileiro.


"São oito milhões de habitantes (na época em que foi composta a letra) / De todo canto em ação / Que se agridem cortesmente / Morrendo a todo vapor / E amando com todo ódio / Se odeiam com todo amor" - "São Paulo" - Tom Zé.

julioprestes2.jpgAntiga estação da Luz. Atual estação Júlio Prestes, após a reconstrução em 1970, quando o prédio foi arrasado por um incêndio sem proporções.

fogo1.jpg21-12-2015. Incêndio no Museu da Língua Portuguesa. (Foto: Reprodução) Portal G1 – São Paulo

Iniciar este artigo escrevendo aquela velha e surrada frase, “que tudo na vida passa”, é ser mais redundante que o tic-tac dos relógios, que pacientemente, vai ilusoriamente dilatando a validade cronológica dos impérios. Por sinal, não há império que resista os efeitos corrosivos do tempo. Porém, existe algo que desvencilha destes sombrios presságios. Então, qual seria esse algo que não se relaciona, não dá bola para os males do tempo? Obviamente que só pode ser a resistente, incisiva e atemporal cultura.

Por definição a cultura implica no nosso comportamento, como agimos e somos diante do contexto social. Extensivamente, a cultura emite os sinais de interação e convívio entre os membros de um grupo, de um povo, de uma sociedade; portanto, a cultura é a “ferramenta” elementar para o engrandecimento de uma sociedade. Assim posto, a cultura engloba uma infinidade de tendências.
Para se montar um acervo cultural, seja ele privado ou pertencente ao poder público, o(s) pretendente(s) leva(m) anos e anos, senão décadas, pesquisando, catalogando, arquivando, para posteriormente, montar os portfólios, expor o material em feiras, oficinas, museus, etc. Portanto, aqueles que se notabilizam por se envolver com a cultura, prestam relevante serviço à sociedade, aos povos e a própria cultura; sobretudo, porque a cultura alarga o conhecimento do cidadão. Com sua interatividade e mutabilidade no decorrer dos anos, a cultura conta a historia, remontando a própria cultura.
Meados do século XVIII. Impulsionado pelo café, São Paulo passava por transformações constantes, tanto economicamente, quanto na urbanização paisagística e arquitetônica. Decolava aos quatro rumos da rosa dos ventos. Tomando como ponto de partida a praça da Sé, marco zero da cidade, as mudanças iam semelhantes a uma teia de aranha, sendo tecidas. Com quadras relativamente regulares, São Paulo ganhava formas geométricas e um renovado traçado urbano.
mosteiro.jpg

Seguindo pelas ruas estreitas, exemplo da XV de novembro, chega-se ao mosteiro, que foi construído a pedido dos padres como ampliação geométrica da capela que já existia. Com a urbanização que alterava substancialmente a paisagem, o lugar ficou conhecido por largo São Bento. Mais tarde foi implantado o prédio da faculdade de Direito, instituição de ensino que mantém a tradição de formar os mais conceituados profissionais da área advocatícia.

anhagabau1930.jpgFoto do antigo Viaduto do Chá.
Um vale profundo separa a parte alta da praça da Sé, do outro extremo, motivo pelo qual a urbanização que pedia passagem aceleradamente forçou a criação do conhecido Vale Anhangabaú. Para sua transposição foi construído o viaduto do Chá, obra executada em ferro. Por volta de 1940, a construção foi posta abaixo, para dar lugar ao viaduto atual de concreto. No lado oposto de quem vem da praça da Sé, foi implantado o teatro Municipal, espaço relevante para a cultura paulistana e Brasileira.
A palavra Anhangabaú é de origem indígena, e em tupi significa rio do espírito maligno. Não há registro dos porquês do significado; porém os pesquisadores sugerem que o nome é devido a algum mal sofrido por bandeirantes e índios que usavam as águas cristalinas dos remansos para os afazeres domésticos. Visto que a cidade esparramava-se para todos os lados e dava sinais iminentes da verticalização, o riacho foi estrangulado pelas galerias subterrâneas, que posteriormente, foram soterradas pelo traçado urbano. Começo da realidade que seria outorgada ao conhecimento dos paulistanos que se interessassem, apenas através do acervo cultural.
O avanço cruzou o atual largo Arouche e chegou à luz. Quem passa nos arredores dessa região e perde uns minutos de seu galope diário reparando na arquitetura das construções antigas, jamais imaginará que boa parte daqueles imponentes prédios foram construídos no fim do século XVIII; e o mais inusitado, com material trazido da Inglaterra. E se os materiais usados nas construções eram a maioria importados, a mão de obra também exigia quem dela se apropriasse com conhecimento. Motivo de ter vindo, especialmente para tal finalidade, engenheiros e arquitetos de outros países para auxiliar na implantação do projeto.

estacaoluz1903.jpgEstação da luz – 1900
O conjunto arquitetônico conta com um pomposo prédio e ao lado, através da iniciativa de Visconde de Mauá, senhor considerado mais rico da época, os trilhos foram assentados sobre os dormentes. Com a criação da ferrovia e a expansão econômica oriunda do café, os paulistanos conheceram as saídas para uma infinidade de cidades do interior, e não menos para o porto de Santos, garantindo a trafegabilidade de pessoas e o escoamento de parte do que era produzido no estado.
arantescapa.jpg Eu amo você paranoica / seus olhos vidrados e duros / me fazem sofrer (coração paulista) Eu nego você paranoica / da boca pra fora / no sangue eu não sei lhe esquecer (coração paulista). Versos da música Coração paulista, composta por Guilherme Arantes.
Com mais de 450 anos, São Paulo cresceu. Agigantou-se, talvez bem mais do que o planejado. Para atravessá-la de um canto a outro, em certos pontos, é preciso cruzar mais de 70 km de extensão e desafiar um trânsito caótico nos horários de pico. E embora possua muitos espaços para lazer e cultura, é nada para os aproximados 16 milhões de habitantes que se espremem nos vagões de trens, ônibus e metrôs.
Por sua vez, o patrimônio público também é limitado, em relação ao que uma cidade gigantesca necessita. Contudo, o problema maior é a falta de zelo, a falta de manutenção constante, o que leva a gradual degradação com o decorrer dos anos, motivo pelo qual, uma simples troca de lâmpada é responsável pelo incêndio que no dia 21-12-2015, literalmente, incinerou o prédio em que funcionava o museu da Língua Portuguesa.
museu01.jpgFoto: Renata Melo/VC no G1

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Este foi apenas mais um dos vários incêndios que destruíram os arquivos culturais paulistanos. Em 2010 um incêndio de grandes proporções queimou praticamente todo o acervo de repteis e anfíbios do Instituto Butantã. Conforme divulgado a época, dos quase 100 mil exemplares de cobras, o maior acervo de animais de regiões tropicais do mundo, restaram menos que 20 mil.
memorial1.jpgConstrução do Memorial da América Latina. Projeto de Oscar Niemayer, que era mais visionário do que arquiteto. Seus traços e visão espacial do todo, fugia a realidade dos olhos e da geometria plana.
  • No dia 29-11-2103 foi a vez do auditório Simon Bolívar, pertencente ao Memorial da América Latina, arder em chamas. Criado em 18 de março de 1989. Espaço que por ele passou Mercedes Sosa, Milton Nascimento, Chico Buarque, Terramérica, e tantos outros ritmos latinos. O projeto cultural tem por finalidade estreitar as relações culturais, políticas, econômicas e sociais do Brasil com os demais países da América Latina. Este espaço de todas as culturas latinas foi idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro.

liceu.jpg O Liceu de Artes e Ofícios teve parte de ser patrimônio cultural incinerado pelo incêndio ocorrido em 04-02-2014. A escola ficou famosa por formar técnicos para vários segmentos profissionais, os quais destacam-se marceneiros, serralheiros e escultores em madeira e gesso. Visando diversificar seu potencial pioneiro no ensino profissionalizante, por volta de 1930 em diante, a escola passaria a fabricar o hidrometro, equipamento que mede a vazão de água consumida em certo período de tempo. Quem reside no estado de São Paulo, provavelmente, o registro medidor de água de sua casa seja LAO: Liceu de Artes e Ofícios.

liceu10.jpg O incêndio queimou o acervo de quadros, esculturas, móveis antigos, além de réplicas feitas em gesso representando a cultura e a história de todos os personagens da filosofia grega. (Foto: Marcos Bezerra/Futura Press/Estadão Conteúdo)

bombeiro.jpeg Menção honrosa para esse cidadão que no cumprimento de seu dever, desfez de sua vida em detrimento da salvação de desconhecidos; incluindo, os rotos e velhos anais da tão mal falada Língua Portuguesa.
No Brasil, assim que se adquire endereço fixo, ou o museu definitivo, o ato de cidadania praticado perde o valor. Aqui o imediatismo e a perda de memória aniquila qualquer Titã. Para quem valoriza a diversidade cultural desse país monstro, gigantesco e enche os olhos, irriga a boca com saliva para dizer que é cidadão BRASILEIRO por convicção, deleite e gozo, é sentir o gosto do fel subir até o pomo-de-Adão com tanto descaso!
De incêndio em incêndio, aos poucos vão queimando os arquivos patrimoniais e culturais que representam a veracidade de uma sociedade, de um estado, de um país, de um escritor do Obvious. Todavia, indague-se leitor: qual a diferença entre o rompimento de uma barragem, tal qual ocorrera em Mariana, e um incêndio que causa estragos sem proporções? Pois, excluindo as vestes, sobretudo, você aparenta ser as imagens que vossos olhos captam.
Como cultura em chamas, é queima de arquivos; transformado em conduta e atos, o leitor aparenta ser, o que lê. Esta é a aposta que não deixará queimar os arquivos representantes do passado, no futuro.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico .
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