ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Destinos ocultos são construções geométricas que atam metáforas e vidas

“O trem dos órfãos”, livro escrito por Christina Backer Kline, é permeado de histórias reais que ocorreram entre 1854 e 1929 nos EUA. Em seu interior não viajava ninguém, cuja geometria de vida, não fosse determinada pela própria sorte. E, invariavelmente, regidas pelas boas ou más oportunidades. Mas para desvendar o bom do ruim, o viajante teria que ser perceptivo o suficiente para diferenciar um do outro. Missão nada fácil, porque em certos casos e situações, a inocência era maior do que as malícias advindas das experiências de vida.


“O trem dos órfãos” viajando pelas estradas da vida, traçam as curvas, as parábolas, as tangentes e as retas paralelas dos destinos. E se não faltar o combustível da perseverança e do amor, em algum momento, os destinos e as vidas se encontram nos entroncamentos da felicidade.

IMG_1402.JPG Era exigência dos dirigentes do trem que a criança se apresentasse aos pretendentes com as vestes limpas, mímica nas mãos e uma mínima dose de sorriso nos lábios. “A aceitação de seus papais começa pelas aparências impactantes e comportamentais através do que se vê, meus queridos órfãos. A descontração, humildade, simplicidade e educação é a completude de uma família e certamente, farão os vossos papais felizes, sempre!

Perante o conceito imposto pelos dicionários e racionalizado pela sociedade, órfão é aquela pessoa que perde o vínculo familiar consanguíneo, ficando sozinho ao léu num mundo sombrio. Porém, pensando pelo lado humano e cristão, a orfandade é bem mais abrangente do que o simples conceito que impõem à palavra, socialmente; e pode adquirir os significados: órfão é o fraco que se defende mirando nos olhos do agressor, tentando entender porque foi vítima de seus embrutecidos maus tratos. É aquela criança que, apesar de possuir um lar, vaga pelas ruas descalça, esmolando por migalhas de pães e restos de comida.
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  • É a velhice resumida às casas de repouso, lar de idosos, ao isolamento do asilo, ao desprezo da família. É doar amor, sentimento, emoção e receber em troca a ingratidão. São os indigentes que dormem enrolados um no outro, para aquecerem-se da invernada rigorosa. É aquele que, embora vista por fora grossos e valiosos ternos de linho, calce sapatos impecavelmente lustrados, interiormente, por dentro, remói a perda do amor, o qual dedicou boa parte de sua vida. A orfandade, portanto, vive à solta sob o implacável silêncio, é invisível, não manda recado e apodera-se de qualquer um, em qualquer época e funestamente, pode representar a depressão social moderna.

IMG_5070.JPGO destino pode ser definido como um emaranhado de estradas. Invariavelmente, é uma que vai. Outra que vem. Uma que as corta transversalmente ao meio. Mais outra que sabe-se lá aonde vai dar. E outras...e outras...e muitas outras. Destino são mapas rodoviários. Todavia, embora possuam seus mistérios, segredos e aparentemente infinitos caminhos, todas as estradas possuem início e fim. Meio nem tanto!

Vany, senhora de posses, que resistiu heroicamente o tempo, chegando aos noventa e um anos com uma memória assombrosa, que sorria ironicamente das tormentas e tempestades, por quais passou. Tornou-se tão rígida e ao mesmo sensível, que ainda se perguntava, questionava e refletia sobre aonde o entra e sai infernal da estrada, iniciada por volta de 1920, na Irlanda, ainda poderia lhe levar.
- Estradas assinalam os destinos. Não sei e nem importa-me saber se já passei de suas metades; porém, como o fim não chegou, toco a vida pra frente; e enquanto possuo fôlego, tudo pode acontecer.
Luly: piercing em formato de argola no nariz; duas bolas metálicas nas orelhas; cabelos vermelhos esvoaçantes; celular na mão; notebook na mochila; fissurada em games e jogos de computador; roupas extravagantes e espalhafatosas no corpo. A moça da periferia parecia uma “piriguete”, como certas telenovelas qualificam determinada classe de adolescentes no Brasil. Rebelde em fase de formação: quinze anos, se muito. Como uma grande quantidade de adolescentes de sua idade nos dias de hoje, vai vivendo por viver e para distrair-se, correndo sério risco de meter a cabeça contra os postes, árvores ou qualquer outro objeto, não desprega os olhos da tela do celular. De vez e sempre, senta em um banco de praça e voada para lá de Marte ou trasladada para dentro de si, enrola e examina as pontas dos fios de cabelo. Em transe quase que absoluto, seus pensamentos divagam entre os pequenos erros e as futilidades cotidianas: “parecem ressecados e queimados. Como faço para arrumar dinheiro para comprar produtos de beleza para as pontas danificadas.
Quando acorda para a realidade: "Sentir-se órfão, é muito diferente, bem mais do que simplesmente ser órfão, e a família de modo geral, jamais entenderá esta minha oculta verdade!”.
Poucos sonhos, talvez, por lhe faltar oportunidades; no entanto, por mais obstáculos e dificuldades que tenha encontrado em sua estrada, nada se compara as estradas passadas por Vany.
- Para mim, certas estradas possuem meio. Indiferente aos meios, quando os destinos são comparados as estradas, o que importa é o entroncamento de parada obrigatória. Para tanto, existe uma lei na geometria espacial que diz que duas retas se encontram no infinito. Vá por onde for, passem por onde passem; se não se encontrarem antes, duas retas se encontram no centro da Terra.
Pela lei da gravidade, tudo tende ao centro da Terra. E pela lei universal terrena, quando se faz com correção a tarefa, tudo tende a dar certo; esta é a lei máxima e supera, está acima das leis humanas. Levada pelos destinos, esta é a lei imutável. Soberana! Partindo deste pressuposto físico/humano, Vany e Luly possuem algo em comum: são órfãs. Vany totalmente órfã e Luly parcialmente, pois foi adotada e possui um lar, sob o qual, não se sente totalmente acolhida.
O trem partiu com aproximadamente duzentas crianças. Depois de presenciar o incêndio que varreu, devassou o casebre onde moravam, Vany correu para dentro dele. Por pior que fosse a estrada por qual passasse, seria melhor que continuar inalando o cheiro de carne incinerada de seu pai. Primeira parada. Um grande cartaz afixado à pilastra de uma da estação anunciava: “Venham, Venham! “O trem dos órfãos” chegará por volta das 9 horas trazendo o seu futuro filho. Virá com crianças recém-nascidas até adolescentes. Venha e garanta o seu. Desde já, todos nós seremos gratos”! Vany embaralhava as letras nas palavras e palavras nas frases, de modo que pouco ou nada entendera, mas sabia do que se tratava. O leilão de crianças seria inevitável.
Senhoras e senhores observavam o desfile dos infantis quase indigentes. Um maior, outro menor. Outro que chora pela chupeta. Todos os receptores de órfãos sabiam que quanto mais novo fosse a criatura, mais trabalho e despesas daria; motivo das coisas conspirarem a favor de Vany. Pelo menos neste sórdido quesito, levava vantagem.
- Ela possui dom para cuidar de casa; mãos ágeis para costurar; paciência para brincar com crianças? Ficaremos com ela para testes e se aprovada, receberá o sobrenome de nossa família.
Como um pedaço de papel higiênico cortado, que usa-se quando e como querem, descartando-o em qualquer cesto, Vany espremia-se, acotovela-se no banco traseiro do carro. E fora a agonia de chegar para conferir visualmente o que tinham para lhe oferecer, era lata de sardinha que seguia pelos mistérios da estrada. Chegam e sem maiores porquês, uma pia de louça o esperava na cozinha. Tempo cronometrado para lavagem e após o término, seria apresentada à feitora da fábrica de tecelagem. Entre furos nos dedos e na palma das mãos, fim de linha naquela casa para a adolescente.
Segunda tentativa. Uma família composta por dois adultos e um amontoado de crianças, incluindo duas de colo. Desdobra-se para dar conta das tarefas de casa; cuidar das crianças; alimentar os animais. Atarefada, não lhe sobrava tempo para ir à escola que é uma das exigências dos dirigentes do “Trem dos órfãos”. Esgotada devido o trabalho intenso, ia resistindo. Dormindo amontoada com as demais crianças, a gota d`água foi ao acordar e sentir seu corpo molhado pela urina das crianças. Pegou os pertences que não possuía e sem bater com a língua nos dentes, na madrugada seguinte fugiu de casa; indo dormir numa escola em que estudou. Caminhava pelas alamedas acompanhada por uma estupenda noite de lua solvatada pelas estrelas; porém quando estirou o corpo sobre uma cama áspera de concreto, descobriu que estava gélida demais. Abraçar-se em quê? Puxar sobre si o quê? Feito um cão à beira do boralho e enfiado nas cinzas, enrolou em si mesma.
Vany é encaminhada a uma família conhecida da Diretora. Trato, se não fino, menos grosseiro; e a obrigatoriedade de ir à escola. Ares que mudam. Trabalhos diversificados, até gerencia da loja dos novos pais. Até que enfim conseguiu uns traços geométricos menos tortuosos. Dividindo os caminhos, ela casa-se. A independência caminha bem, até que seu marido é convocado para a guerra e por lá fica. Se não a tivesse dado após o parto para duas mãos que desconhecia, a filha seria a recordação mais próxima e real dele.
Luly comete um pequeno delito e precisa pagar a pena com trabalho social ou ir para o reformatório. Vaga desnorteada pela cidade procurando alguém que pudesse aceitá-la, pelo menos até pagar o montante de horas estabelecida pela Assistência Social. E a pessoa indicada para auxiliá-la é o seu amigo/paquera que, através de sua mãe que é empregada e administradora na casa de Vany, ficou sabendo que a patroa estava procurando alguém para limpar o porão.
Intermediado pela mãe de seu namorado, Luly inicia a limpeza do porão. Um pedido inquestionável da senhora é que, sempre que a adolescente retirasse um arquivo ou algo que o valha das prateleiras, ficaria ela incumbida de dizer o que havia dentro da caixa e a natureza do produto. Em virtude desta interatividade, as duas passaram a se entender tão bem, que causava ciúmes e desconfortos à governanta. E para descontrair, a velha da modorrenta monotonia diária e a adolescente do trabalho forçado de limpar e reagrupar os arquivos empoeirados num porão embolorado e fétido, tanto uma quanto outra, passavam horas e horas confabulando sobre as estradas por quais passaram para chegar onde estão. Indiscutivelmente, quem mais ouvia é a moça e levada pela curiosidade e certa coincidência, logo-logo saberia tudo sobre a idosa; sobretudo, porque suas mãos mexiam e remexiam os arquivos órfãos, tanto do passado, como do presente, de Vany.
Intuitivamente, contudo, a idosa nutria profundo e sábio pressentimento que Luly não estava ali somente para limpar o seu porão em pagamento da dívida contraída com a sociedade. Para ela, havia algo mais complexo e útil por trás daquela moça, falsamente declarada como rebelde e arredia. A resistência, a irrelevância e a indiferença são os antídotos para a rejeição; e este foi o lema que a rebelde adolescente, às vezes, adotava. Sua convivência com o pai era plenamente aceitável e até certo ponto, relevante, mas o mesmo não acontecia entre ela e sua mãe; que pressionava implacavelmente o marido para dar um jeito à situação fatigante entre as duas.
Às furtivas, Luly sempre ouvia os arranca-rabos entre os dois, até que numa noite em que os lampiões fizeram greve, juntou suas coisas e saiu sem destino. Isolada, sozinha pelas ruas mal iluminadas, parecendo retornar ao estágio da caça ao tesouro de dias atrás. Como cão sem dono, farejando os becos e labirintos disponíveis, perambulava a deus dará pela cidade à procura de uma palavra que pudesse iluminar seus devaneios.
Passava das 23 horas, quando partira para o tudo ou nada. Mesmo receosa com o que poderia acontecer e o despropósito do telefonema fora de hora, discou os números do telefone fixo de Vany. Tocou uma, duas, três e nada. Quando ia desistir, ouviu um “alô” embargado do outro lado. E antes que se delongasse em perguntas e respostas o papo, disse que estava em sua porta e o que ela poderia fazer para ajuda-la. A idosa tremia de incredulidade.
Imediatamente olhou pelo olho mágico e notou a presença de Luly. Abriu a porta para que a adolescente entrasse. Naquela noite, confabulando os sentimentos que não podem ser ditos sob a luz solar, foram dormir altas horas da madrugada. E em virtude dos segredos revelados, a adolescente firmara um compromisso com ela de vasculhar as redes sociais à procura de sua filha. Mais uns dias se passaram, quando Vany leu para Luly um e-mail enviado pela filha: “Eu sempre me perguntei sobre você. Tinha perdido as esperanças de descobrir que você é e por que me deu para adoção”. E os três: a adolescente, a senhora e o namorado de Luly, que recebera a permissão para adentrar à casa e participar da nova família, sorriram de contentamento.
Tudo estava devidamente preparado, desde os retoques nas paredes e melhoria geral da casa, até o enchimento das prateleiras e gavetas da geladeira. A filha Sarah, o genro e a neta Becca acabam de descer do carro. Com muita dificuldade, Vany vai ao encontro dos mais recentes membros da família. Estupefata e muda de voz pelos dez braços que se enlaçaram por cerca de oito minutos de uma só vez, ela encara os olhos de avelã da neta e por fim, balbucia:
- E então? Por onde devemos começar?
O emaranhado de traços das estradas cruzam os desalentos dos corações que, veladamente, silenciosamente, sofrem os ataques das dores. Em compensação, para alívio das coronárias, o mesmo emaranhado de traços aproximam os lacrimosos, festivos e calorosos pulsares dos corações em demorados abraços. E a moral da história é: ingerindo pequenas dosagens de paciência e perseverança diariamente, a vida torna-se uma redação com início, Meio e imprevisível fim. A vida são estradas enredadas pelas emoções, por quais transitam somente os corajosos e desafiadores da própria sorte, com ou sem...mas que um dia, há de ter Fim!
Fotos pertencentes ao autor do artigo


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