ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Jesus Cristo, "O Rei Lagarto" e Jim Morrison

Inúmeras viagens. Uma visão. Um livro. Um desencadear de pensamento e Jim nunca mais foi o mesmo. Em tanto, o insatisfeito menino se olhou no espelho, botou a cara para fora da janela, escancarou as portas, eriçou a percepção, povoou a imaginação de fantasias; descobriu o vazio, o transbordo, a devassidão do escuro com a cultura dos Shamans; bateu as asas de cera e voou. Em que astro sol foi pousar o sensível, intransigente, reacionário, indiferente, diferenciado e majestoso anjo ícaro do rock?


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A falta de sorriso nos lábios esculturais de Jim fazia dele à semelhança com Jesus Cristo, profeta que jamais sorriu. Para ambos, as ínfimas e efêmeras alegrias da vida não são dignas de sorrisos e selfies. Incansáveis observadores do alarido zombeteiro e generalizado dos povos sobre os povos, provavelmente, ambos pensavam: “A vida não passa de um teatro enfadonho e triste, onde os humanos ensaiam diariamente a peça trágica de Ésquilo, cujo título é: Procurando aquilo que não perdi, sigo a sina de respirar cada pulsar do coração, que nada mais é, a sentença asfixiante da morte”. Um se perdeu nos caminhos da procura aos 33 anos; e o outro, aos 27. Para quem havia vivido cada segundo equivalendo uma década ininterrupta, saíram de cena jovens demais para a velha eternidade.

Sugestão do autor: leia o artigo ouvindo a banda The Door´s. Comece com "Love Street", letra que Jim fez se declarando à Pamela Courson: seu único e arrebatador amor em noites de luar, ou sob forte nevasca.

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Jim dificilmente sorria, nas improváveis vezes que o fazia, era para Pamela, sua única alegria em vida.

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“Eu acho que os pontos mais importantes são o mais alto e o mais baixo. Todo o resto está apenas no meio. Eu quero a liberdade para experimentar tudo”. James Douglas Morrison
Os americanos nunca foram, como não são, senhores na arte de musicar rock; mas como em tudo, sempre há um que foge a mesmice dos ridículos, Jim após ler o livro “As portas da percepção”, escrito por Aldous Huxley em 1954, rumou em direção ao sol: queria por queria ser ele mesmo, o que acabou levando-o a ser o notável Jim Morrison. Porém...embora tenha se eternizado na infinitude do cosmos, as suas asas derreteram precocemente.
Filho de um renomado marinheiro que passava boa parte de seu tempo flutuando sobre as ondas dos mares, Jim, ainda criança tentava a todo custo acostumar com aquela loucura de hoje estar aqui e amanhã acolá. Conforme a turbulência das águas, a família levantava o mastro e remava vorazmente o barco em direção a outro ancoradouro.
Invariavelmente, era anoitecer que o silêncio assombroso da madrugada podia ditar os acontecimentos do dia seguinte, e não havia nenhuma tormenta que detivesse o estabelecido pelas sentenças ocultas. Então, era dar adeus as confissões feitas às paredes, deixar para trás as ilusões que fomentavam as incertezas futuras e preparar-se novamente para o inesperado. Por muito tempo assim fora: seu pai em alto mar e a família nas estradas.
Estavam eles em mais uma viagem, ziguezagueando por um despenhadeiro infindo, circundado em ambos os lados por retorcidas raízes de frondosas árvores e estreitos caminhos que demarcavam os destinos de quem por eles passavam, quando Jim no banco traseiro olhou para um dos fundos de vale e vociferou sobressaltado, dizendo que tinha visto índios guerreando. Em sua visão, flechas voavam pelos ares, sangue esguichava em bicas, índios tombavam, índias adultas clamavam pela paz, crianças indefesas usadas como escudo. Tumulto generalizado entre brancos e peles vermelhas. Imediatamente seu pai parou o veículo e procurou acalentar o menino que chorava copiosamente. Daquela viagem em diante, um anjo desgarrou-se da horda, hierarquia a qual pertencia em outros planos, despiu-se das duas alvas e sedosas asas, passando-as em definitivo para Jim. Em uma delas, trazia a inscrição: “anjo de luz precisa voar”.

jim.jpgAtravés do encantamento do teatro, Jim descobriu o universo de si mesmo. A música lhe ocorreu, meramente, por pura encenação de palco. Sempre dizia aos mais achegados que não possuía o dom, o talento para tal modalidade de arte. "Escrever eu escrevo, mas cantar é para aqueles que se entrelaçam, se perpetuam, se perdem, se amam pelos cantos de olhos fechados".

Adolescente, cursando teatro, as primeiras coisas que Jim fez foi desligar-se da barra da saia da mãe, dispensar as viagens em busca dos fortuitos tesouros do pai, abrir as portas, que é o mesmo que desprender-se das amarras que o prendia, e após vislumbrar a liberdade sem atracadouros, ganhar a devassidão das ruas. Pois, ruas são espaços abertos que a todos pertencem e pertence a ninguém. Diante da prematura liberdade, radicalmente, seu mundo passou de visões oníricas às salas de teatros, sacos de pipocas à espera da sessão de cinema, inalação de bolor em museus e invariavelmente, roubos em bibliotecas.

jim1.jpgNão é porque não sorria aleatoriamente, que Jim não notava, mesmo que escarnecedor, o sorriso nos olhos alheio. Aliás, notava inclusive, gargalhadas sem precedentes; porém, poucas ou nenhuma lágrima derramava dos olhos vistos! Diante destas visões, Jim tinha mesmo que sair de cena ainda jovem.

Despojado, desobediente, arredio e propositalmente, “ladrão”. Jim circulava pelo mundo com vestimentas compradas em brechó e uma de suas predileções, era calças apertadas, grudadas mostrando o volume da genitália (chegou ser símbolo sexual e com seus gingados escandalosamente depravados, induzia as fãs ao êxtase orgástico) jalecos largos, folgados e cheios de bolsos e cachecol adornando pescoço. As etiquetas das vestimentas de Jim representavam a sua liberdade inquieta e extravagante irreverência de ser; sobretudo, não media esforços para ser o que foi: rebelde desvairado.

Às 24 horas do dia alternavam entre a escola de teatro durante o clarear até o crepúsculo da tarde, e a perdição do palco ao anoitecer. Dava a vida pelo que fazia e embora fosse filho de família abastada, fazia de tudo para não levar a fama de pequeno burguês mimado. Ademais, a fugacidade aos costumes impostos pela sociedade americana, o induzia a uma vida simples, modesta e para saciar o apetite pelos livros de teatro, recorria dos cabelos longos e anelados caídos sobre os ombros e a discrição dos óculos escuros cobrindo-lhe o descaramento de ser um aclamado afanador de cultura. Talvez tenha sido ele, o único ser no planeta a cometer este tipo de delito: afanar cultura.
lagarto.jpgEmbora não se saiba com precisão os porquês, no auge da carreira com a banda The Door´s, Jim se intitulou como o “The lizard king”. Talvez a liberdade conquistada, a qual sempre se entregou, tenha feito dele um dançarino Rei lagarto sobre as folhagens: ora verdes, ora amarelas, ora murchas, oras secas. Se o lagarto usa do mimetismo de cores para se defender do predador, as folhas se alteram conforme as estações do ano. Jim devia se sentir um híbrido, um mutante de folhas secas e lagarto mimetista.
Sempre vistoso; elegante, bonito e possuidor de passadas milimétricas, que mais pareciam o bater de asas de um cisne azulado se vendo sobre o espelho d´água de um imenso lago, aportava-se no interior das bibliotecas, debruçava sobre as prateleiras a esperança de ser bem sucedido, punha-se a folhear os preciosos e como manda os bons legados, deixava a mente fluir em imaginação: “esse me interessa; esse nem tanto; aquele é importante. Esse é suprema preciosidade. Esse bem menos, portanto não irá”.
E após catalogar as preciosidades, muitos deles mal cheirosas pelo bolor impregnado pelo tempo de uso, abria cuidadosamente os bolsos do casaco e como ourives separando o ouro puro do tolo, deixava-os deslizar para dentro. Às vezes, antes de escondê-los, dava um rápido e silencioso toque com os lábios na capa e dizia: “meu amor, irás conhecer a amplidão das ondas, o aroma das flores nas praças, os passos apressados das ruas e os estreitos das vielas das cidades do estado da Flórida”. Correndo perigo, Jim fazia de sua vida, uma livre peça de teatro; e com os cinzeis da indisciplina talhava a sua tão quista liberdade.
Todavia, engana-se quem pensa que Jim era somente um canalha irresponsável afanador de cultura perambulando pelo mundo. Na contramão deste pensamento, na realidade, ele era um ser dotado de escrúpulos. E após alimentar suas estranhezas libertárias ao ponto de achar que daquele exemplar não sairia mais nada que pudesse acrescentar em seu conhecimento, Jim limpava-o nos mínimos detalhes, reencapava-o delicadamente e desfilando sua elegância de “ladrão” refinado, devolvia-o à prateleira. Supõe-se que tal atitude e apreço com o produto roubado, o redimia de um possível pecado perante o Criador de todas as coisas. Dando as palavras do anjo como certas, Jim em vida foi voo, luz e enigmas. Voo entre o bem e o mal, luz evidente que iluminou muitas mentes e embora iluminasse as outras, a sua foi uma caixa com um indecifrável enigma. Caso desvende-o, por favor, entre em contato com o protagonista do artigo.

Jim e a banda em três notas: Jim, jamais seria Jim Morrison se não fosse o The Door´s. E a banda The Door´s, jamais seria The Door´s se não fosse as encenações de palco de Jim Morrison. E ambos se completavam num trago de inspiração, servido em finas taças de cristais, adornadas com um quê de alucinação nas letras das canções!

Ressalto que escrevi o artigo de forma poética/literária, porém indiferente à cronologia, respeitando os acontecimentos e fatos biográficos relativos ao protagonista.
Segue com novos artigos sobre a meteórica e espetacular trajetória de Jim Morrison, que assinava como "O Rei lagarto", aqui na Terra.


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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