ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Whatsapp: antíteses de quem morreu por quatorze horas

Os triplamente bêbados, hipocondríacos por Facebook e Whatsapp apregoam: "Hannah, tu não és cabeça pensante, Hannah. Tu sois olhos esbugalhados, andado claudicante, ombros ossudos e desnivelados, dedos trêmulos, cintura dobrando em anéis adiposos, componentes de um homem-máquina indolente"!


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O profundo, o largo, o eterno sobrevive à fuligem do tempo, supera, inclusive, a superficialidade; enquanto que o estreito, o raso, o oposto, se sucumbi aos segundos dos trovões e relâmpagos.

Eu morri e sei o século, a década, o ano, o mês, o dia, a hora, o minuto e o segundo de minha tencionada morte. Tenho consciência que morri, como morre uma barata, mas em virtude da revolução industrial e tecnológica, ressuscitei ao primeiro século.

E tudo se deu quando os homens começaram a encurtar o mundo através das máquinas. O conjunto de máquinas que trouxe-me de volta ao mundo das novidades instantâneas, são as máquinas de comunicação. Estas são pequenas, rápidas, manuseáveis, eficientes, manipuláveis, emotivas, submissas, tolerantes, mesquinhas e nada presunçosas. São tão adestradas e adaptadas ao serviço de prestar contas, que no lugar da fala, aceita ser tocada com os dedos. Um simples toque e feito botão de flor desabrochando em pétalas descamadas, um mundo sem lamentos desaba em frente aos meus olhos. Seguro firme a puríssima, genuína alquimia chipada!

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Uma cabeça chipada, dominada pela introspecção, não depende de outras para pensar. E possuindo o universo sob os seus mais longos e curtos fios, não se alia. São solitárias; autodidatas; autossuficientes; auto-conhecedoras de si.
IMG_0974.JPGCabeças vazias, ocas, estão em constante interação, cuja finalidade é saber o que fazem num mundo globalizado. Chipado. Embrutecido. Esses seres são cabeças supérfluas à universalidade que gravitam ao redor da esquizofrenia virtual.

Antes, muito antes desta invenção mirabolante, ao cair da tarde, ao descer o arrebol alaranjado sobre as morrarias, reuníamos na calçada em frente ao portão para jogar conversa fora. Papear sobre coisas comuns do cotidiano, tais como saber do nascimento do filho do vizinho; falar sobre a chuva que molhou a terra para germinar os grãos que havíamos semeado na semana anterior; saber do paradeiro do cão que sumiu da casa de Seu Isidro; caçoar do roubo mal sucedido de frutas; relembrar das vidraças quebradas do velho Nicanor com as estilingadas certeiras. Pasmem: falávamos da dor lombar, que entendiam, como dor de lumbago; da matança da cobra dormideira que não ofendia ninguém. Além de sofríveis, os papos eram mesmo para descontrair da dureza da vida. Porém, no meio daquele povo, sentia-me vazio e desprezado como vulcão inativo. Avassaladora turbina inoperante!

Uns aqui; outro montículo ali; mais um na esquina seguinte, de modo que quando os amigos (penso que não é palavra certa) davam conta do enlevo humano, as luzes das ruas estavam acesas e o bairro inteiro reunido para confidenciar os acontecimentos do dia; obviamente nada novos, pois a rotina de trabalhar pela sobrevivência, cuidar dos afazeres da casa e educar a prole, era a labuta diária daquela gente. E de vez em quando, aparecia um amigo filósofo, profeta e visionário, dizendo que os olhos da cara revelam os formalismos e as aparências construtivas, enquanto que os olhos do coração revelam a essência da obra. E completava: “desvendar os ritos de vida do povo. Afazeres dos seres, ainda humanos. Nesse tempo, tudo de velho, nada de novo”!

Somente um louco varrido de barbas longas, cabelos esvoaçados, camisa desabotoada e descalço, vindo sabe-se lá de onde, para prosear o que ninguém entendia, deixando os ouvintes embaraçosos e com um monte de dúvidas na cabeça. Assim que o escarnecedor de vida comezinha ia embora, entrava numa nuvem de algodão e sumia, ficávamos confabulando se era o Querubim Mancha Preta, entidade que falávamos pelos cotovelos, pois ninguém sabia quem era, que havia abaixado naquela pessoa, para falar aquilo com um povo que pita o cigarro de palha no canto da boca; que contra o mal olhado, enfia um galho de arruda atrás das orelhas; que toma um gole de café e escarra uma gosma preta carregada de muco no chão limpando os brônquios; que possui os bigodes amarelados pela queima do fumo; um povo simples que não sabe o que pensar. E depois do susto, passávamos aos causos, soltando sonoras baforadas de risos.
E assim, entre estrondosas gargalhadas carimbadas pela autenticidade; falando bobagens para matar o tempo e quando o assunto descia ao nível zero, contando estrelas, obviamente se o céu descesse sobre o vilarejo e não as escondesse para si, agente ia seguindo a penitência de vida que Deus mandou para cada um. Naquele lugar aonde a abobada simplicidade chegou e parou, para morrer, bastava respirar. O que adiantava o respirar humano, se eu imaginava que num mundo distante coisas mais necessárias e mais versáteis ao meu estilo de pensar e viver estavam acontecendo? Quando tomei conhecimento que a revolução era verdade, arregalei os olhos, apurei os ouvidos e debandei daquela nostalgia de vida. Sai pra lá origens sertanejas, infames pés rachados, mãos calejadas, sorriso desdentado da grota!
E após muita andança, debatendo contra os icebergs, atraquei no porto dos selváticos por máquinas. É barulho de sirene, ronco de motores, fumaça escapando pelas chaminés, assédio sexual nas empresas, caldeiras borbulhantes, homens-máquina, máquinas-homens, botões luminosos, olhos cegos faiscantes, mentecaptos inebriados, perigos nas esquinas, explosão de aterro sanitário, cratera em obras que engolem máquinas, corrupção no Senado e Presidência, tráfico nos morros, cáftens operando suas vítimas, adultério na corte, lambisgoias mostrando as entranhas nos paredões, aviões desgovernados sambando nas avenidas, colisão entre trem e ônibus.

Felizmente, cheguei ao mundo idealizado, onde a obsolescência tecnológica reverbera a sabedoria dos evoluídos sobre as velharias dos alfarrabistas, sobre as minhas origens, sobre as poções mágicas dos druidas. De agora em diante, fios desencapados, alarmes, cartões, registros, tatuagens de coisas que nunca serão, chips, codificação, piercings, metais, senhas, números, são as palavras-encantamento.
Aqui não se permite pensar. Embora quando tento, logo desisto. E não insisto. Quando penso que penso, a máquina já pensou por mim. Contudo, numa época qualquer, pois, diferente de minha família, que nasci com data de validade pré-determinada, irei pensar um pensamento que máquina pensadora nenhuma, jamais pensou.

Rotineiramente sou metralhado, induzido, arrastado e direcionado pelas máquinas. Sem saber em quais esquinas elas podem me surpreender, se serão boas ou más, servir-me positivamente ou negativamente, elas estão aqui e acolá. Máquinas são sombras que me acompanha. Aporrinha. Sorri. Esclarece. Influência. Escarnece. Podem ser corretas, dúbias, contraditórias, tortas, retas. Chegam de mansinho, alojam-se e quando dou por mim, caio na rede. Rotineiramente, durmo acordado com este barulho.

maquina.jpgA mente bêbada fervilha diante do caos estabelecido pela saída do ar do aplicativo whatsapp.
Não tenho tempo para dialogar. Estou tomado por essa inovação. Vivo e respiro Whatsapp. Ando com os olhos vidrados na tela e ouvido antenado ao sinal de alarme. Ao primeiro toque, dedos em ação. Se estou na lanchonete: aperto botões. Se minha mulher pergunta se a amo: respondo por mensagem. Meu filho corre ao meu encontro, dizendo papai chegou: mostro as fotos dele chorando ao trocar a fralda. Se estou na roda com o pessoal: ouço o zunzunzum dos bêbados, mas estou com os olhos trincados na tela. No trânsito: dirijo com uma mão e com a outra, meus dedos sufocam comprimem a tela à procura das últimas novidades. Mensagens de amigos virtuais(penso que seja a palavra correta)devem ser respondidas imediatamente ao chamado, pois o tempo não espera por nós.
Ontem, dia 17 de novembro de 2015, morri por quatorze horas. Como pude morrer e reviver tão rápido? Morri porque um juiz, sob a justificativa de que o Whatsapp negou informações sobre o solicitado, baixou ordem expressa impondo a sanção de 48 horas fora do ar para o aplicativo. Como ficar dois dias sem falar, mandar e receber mensagens, ver as fotos e comunicar com os meus verdadeiros e honestos amigos? Como se não bastasse a monotonia da vida, ficar dois dias sem ruminar minhas toxinas sentimentais nos ouvidos dos amigos, seria morte em vida. Pode haver algo pior do que isto?
Mal sabe o juiz que readaptei meus conhecimentos, expandi meus pensamentos e ideias, absorvi o modernismo e colecionei amigos no mundo todo. Certamente o excelentíssimo juiz não sabe o que tal medida me causou, e a depressão por falta de uso Whatsapp foi o que me ocorreu, seguido dos sintomas de falta de apetite, falta de ar, disparada da diabete, elevação da pressão arterial, enxaqueca, dor de barriga, diarreia, lumbago no umbigo, tremedeira; e o pior, na segunda hora de silêncio depressivo: atentei contra minha vida. Tomando uma mistura alucinógena de Levomepromazina (Neozine), Diazepan (Valium), Bromazepan (Lexotan), queria morrer pelas 48 horas que o aplicativo ficaria em off, (veja só, já estou arriscando umas palavras em "ingres") impostas como penalidade pelo juiz. Como sabeis excelência, silêncio é para os mortos.
Sou capaz de me matar se ficar sem comunicar com o mundo. Como não há nada tão ruim, que possa piorar em instantes, às 14 horas a minha voz estava no ar e os dedos coçando para trabalhar. Afinada, polida, aveludada, melodiosamente reestabelecida. E embora as máquinas, maquinem contra, e para o homem, como é bom a virtualidade do whatsapp; aplicativo que depende somente de uma máquina e um de meus dedos. Com ele: depressão é para os tolos. Sem ele: morte que ronda os tronos dos palácios.

Comumente, ouço dizer que a máquina traz felicidade. Realidade que, influenciou-me à procura de meus mais nobres valores, que são as minhas amizades descomprometidas. Deleito-me com a seriedade das mentes chipadas causadora de atos inescrupulos!

PS.: o arraste da esteira conhecida como a busca incessante pelo nada, parecida a um rio caudaloso que atabalhoadamente carrega um amontoado de impurezas para as beiradas do canal, chegou varrendo os encontros amistosos, os momentos de relaxamento em calçadas de ruas, os proseados em sofás das casas, o caminhar lado a lado de mãos dadas, o cumprimento ao gari, as abstrações de crianças; motivando as pessoas a serem obtusas, carrancudas, fechadas em seus presságios, ao ponto de não haver mais um simples pensamento que possa fundir emoção e razão em iguais proporções; e dele, derivar o consenso da maioria. Cabeças intrincadas que perderam o tino da luz íntima. É vida do povo. Nada de velho, tudo de novo!

Mas nem tudo está perdido, basta apenas um toque de dedos trêmulos no Whatsapp, para que os brasileiros néscios, mentecaptos virtuais retomem o uso racional da máquina, comando que projetaram, mas esqueceram de introduzi-lo nos aplicativos.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
Saiba como escrever na obvious.
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