ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

Alucinação em primeira pessoa

“O detalhe mais sublime e traiçoeiramente enganoso no teatro cotidiano é encenar nos tablados da vida a peça/espetáculo de Viver; pois, assovios, aplausos e apupos se misturam na estreita saída de emergência, liberando os protagonistas à alameda dos sorrisos escandalosos e prantos copiosos”.


Cacarecos. Lixas. Vidros em cacos.
Catatrecos. Espinhos. Cactos.
O homem do lixo.

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O lixo do homem!

O sofá velho, o qual serve-me de cama está úmido e fétido; o que leva-me a imaginar que no dia anterior, enquanto fazia as minhas correrias em busca de algo para abastecer o cachimbo e nele tragar a paz dos anjos celestiais, entupiram o lixão de restos de comida, embriões vencidos, poemas escritos e não lidos, montões de roedores crus, tábuas forradas com tapete vermelho perfazendo alamedas por onde asquerosas moscas varejeiras; pernilongos vampiros, vermes ululantes, escaravelhos oferecem-me aquilo que não fiz por merecer. Neste espaço amorfo, onde exponho à escuridão dos cegos os meus anseios, animais e bichos desfilam suas elucubrações e armam as investidas. Tento dormir quando uma fralda imunda, passa voando sobre minha cabeça; impregnando minhas narinas com o olor dos dejetos humanos. Quando tais cenas acontecem, insistentemente, cobro-me, repudio-me, pergunto-me o que fiz por merecer essa porcaria de lixo. Zika virótica de chikungunya, porque não vai achatar a inteligência de quem o trouxe para o Brasil!

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Em compensação fui presenteado com um caco de televisão de plasma que todas as madrugadas ao chegar em casa meio zonzo pela correria do dia e após espojar-me sobre as águas lodosas e infestada de mosquitos Aedes aegypti na fonte que existe ao lado de meu barraco, sento no meu divã/cama e assisto o corujão. Ontem passou o filme do Stallone. Meu amigo de quarto não gosta dele; mas sinceramente como gostaria de ser como ele: viril, másculo, rompedor, ágil, americano, cineasta, rico...sei lá o que mais! Como há um distanciamento entre o que se quer, e o que está ao alcance, contento-me com esta desgraça minha de cada manhã. Com essa desgraça de cada noite sim, noite não, sonhar sendo um astro de cinema e despertar com um vermelho nariz de palhaço; o qual pergunto-me como foi parar neste lugar jamais visto pelos meus olhos. Sei que necessito delas para respirar, mas desconheço-as. Nariz nem tanto, mas palhaços são mágicos. A vida dos palhaços é feita de magia e lógico, de palhaçadas.

IMG_2938.JPGSou o fiel e imoderado representante dos bobos na Terra.

Vou recolher-me, refugiar-me, esconder-me no monturo, pois tenho que resguardar minhas energias para quando solicitarem, eu poder auxiliar com presteza e totalidade. Afinal, quem fere-me com sovela, açoita-me com resistentes espinhos, merecem ser iluminados com o brilho das estrelas; mesmo porque, o perfume das rosas já não lhe basta.

O avião. Ele acabou de chegar e está procurando pouso. Atrás vem uma nave. O comandante diz que vai descer em Cumbica e anuncia: "familiares que esperam pela tripulação, o pouso foi alterado: vai descer em Viracopos". Igual eu: Viracopos. De boca para baixo, de mãos para o ar, dando cambalhotas. Risos. Gargalhadas. Sorrio, zombo, ironizo a vida, porque por todos os caminhos em que piso, tem sempre uma vida sorrindo, zombando, ironizando-me.
Nova mudança: "descerá em Confins". Será que a gasolina será suficiente ou terá que fazer um pouso forçado para abastecer. O avião debicou. Susto. Subiu para as alturas, agora não o vejo; apenas uma luzinha azul atrás. Atrás de quem? Do avião que sumiu. Entrou dentro das nuvens. Nuvens brancas e leves feito algodão. De montão. Avião. A torre de comando passa um “sap” e o comandante truca com sete copas. A vida é um jogo de cartas, azar e perdas: onde já se viu trucar o zap com sete copas? O avião ainda não deu de bico no chão. Quando isto acontecer, uma ex-ministra dirá: "quando o estupro é inevitável, relaxa e goza".
2 min de silêncio. O desprezo é a melhor forma de reflexão. Assim feito, gargalho sonoramente minha alucinação.

Domingo. 6 horas da manhã. Acionei o botão “on” do cacareco de presente, fiz o sinal da cruz, pedi perdão ao Criador pelas injúrias que cometo a todo instante e ajoelhei em respeito à missa rezada pelo padre Marcelo. Pena não poder colaborar com o dízimo, mas Deus pai todo poderoso, onisciente, onipresente sabe os porquês. Mais uma vez pedi-lhe que perdoe os meus pecados, amém!

Logo cedo o sol está uma brasa em forma de ironia incandescente. Como quer e lhe convém, invade o meu corpo. Para suportá-lo, despi-me da peruca; da camisa e dos restos da calça. Sob temperatura máxima, fico somente de cueca e embora pensando em sacá-la a todo custo, mantive-a pendurada à cintura e mesmo estrangulando os meus testículos, sufocando os meus grãos, escondendo a minha falta de vergonha, resisto a dor ferozmente. Homem é assim: sofre calado! Aprendi a ter medo da taxação social; portanto ficar desnudo em público, never. As más línguas são piores que navalhas afiadas encostadas no pomo de adão. Más línguas possuem o dom da amargura, dissabor e nada esfoliante para a autoestima. Por que preocupar-me com elas, se posso evitar os hipócritas, aliviando-me das feridas e talhos em carne crua causados aos mais fracos por estes?

Lanço-me rua afora. Desço a ruela Barão de Parapanema. Rumas de lixo à espera da chuva torrencial. Redemoinhos, rolos espiralados de fumaça pedindo licença. Sirenes que atordoam os tímpanos. Um batalhão de senhores enfileirados, hierarquicamente um atrás do outro, superlotam os bancos. Dia de pagamento dos aposentados, posição social que jamais atingirei. Nunca me deram trabalho, jamais fui útil, nunca soube quem sou. Pessoas, cidadãos são senhores, doutores, mestres, pais de família, responsáveis pais de família, deixando-se ver por fora o que não são por dentro; enquanto que eu sou o contrário. Por sinal, fui retirado das entranhas de minha mãe pelas pernas e não pela cabeça, como todos vem à luz do mundo. Não foi preciso o médico bater em minha bunda mirrada, pois nasci chorando. Sou errático, lunático, longe, mas muito longe de ter olhos de asiático.

Duas prostitutas disputam o amor corrompido de um mesmo homem. Arrio os sacos que carrego no chão. A cena é um misto de hilaridade e sofrimento. Noto isto na cara das duas. Para melhor comodidade, sento sobre uma lata com as mãos no bolso, afinal, embora acostumado a conviver com as desavenças humanas todos os dias, esta batalha amorosa urbana é a primeira vez que vejo. Neste exato momento, elas atarracam-se nos cabelos uma da outra. Minha mãe que foi prostituta em vida, dizia-me que mulheres batalham a sobrevivência desse jeito. A Rita Lee por sua vez, acertadamente, sei lá, disse que "mulher é bicho esquisito e todo mês sangra". Mulher que se conhece como mulher, vale ouro. Porém, nem uma e nem outra nunca disseram se isto é luxo só de mulheres da vida do lixo; ou é comum entre mulheres da alta sociedade do luxo. Luxo ou luxúria? Dúvida esta que me veio à cabeça agora e que provavelmente, jamais será solucionada: minha mãe faleceu quando completei 10 anos de idade. Que Deus a tenha como santa, porque como pessoa!..emprestava o bem que possuía para meio mundo.
As briguentas continuam firmes, atarracadas uma no cabelo da outra. Ih, parecida com a que uso, o cabelo de uma, é peruca desgrenhada! Foi estraçalhada, caindo os restos mortais no chão. Ruídos de sirene. Ambulância? Elas se soltam e saem correndo em sentidos opostos, suponho que seja a polícia. Exatamente. A inteligência não falha, pelo contrário, esclarece e norteia. Sou um cara dupla face: por dentro sou puro amor, e por fora, amor puro. Filosofando, prefiro a sabedoria à beleza. A sabedoria fica trancafiada comigo para sempre e a levo para a eternidade; enquanto que a beleza é perecível e desfaz-se com o tempo, talvez em segundos.

Enquanto isso, casais homossexuais se amam como animais. Conhecem-se ao entardecer. Papo vai papo vem, regados às fantasias cotidianas e luz de velas. Afinados ou não, concretizadas ao néctar do mel à luz do luar. O amanhã será como ontem: mero desconhecido do hoje. No entanto, para não dizer que não falaram dos espinhos, sobrou pelo menos uma colher suja.

O amor, a paixão, o acalasamento, a relação humana é uma baderna, bordel espiritual, prostituição legalizada, entropia química que tende a dar certo quando os sentimentos e as emoções não são escondidas, guardadas, trancafiadas na despensa, como mantimentos. E nada, mais nada mesmo seria possível, se cada um não fosse o ator em seu teatro estúpido de vida. Coisa mais tola é teatralizar, comer, respirar e defecar. Porém, curto filosofar: “a história nos mostra que há uma alternância entre períodos de luz e trevas. Todavia, às vezes tem-se a ideia que as trevas sobrepõem a luz e vai perdurar por longos e demorados períodos”.
Quando começo, quero parar mais não: no início da vida uma inscrição: “trilha não recomendada pelos sonhadores. Somente para os bons de coração e mesmo que curtos, de passos resignados no chão. Se não possui tórax largo, calçados apropriados e outras habilidades, respeite os seus limites. Sofrerás menos com os obstáculos e pedregulhos”.
Sócios. Social. Sociologia.
Gravatas. Grana. Grandeza.
Seres. Sociáveis.
Dentes. Corpos. Olhos.
Restos. Unhas. Sangue. Restolhos.
Luxo. Luxúria. Podridão.
O lixo do homem.
Acredito piamente que o lixo seja do homem, e não do homem do lixo!

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Um dia destes deu na minha miserável informante de plasma, a epopeia dos políticos corruptos. Quem pensa e solta pela boca o que pensou em solilóquios, como é o meu caso, penso que não é corrupto. Mas esses corruptos da televisão, em silêncio absoluto, havia comprado muita gente de grosso calibre. Compra de merenda escolar superfaturada; barragem construída com material inapropriado; mansões compradas com dinheiro escuso, que chamam de “lavado”; (enquanto minha garganta está numa pindaíba infernal por um copo de água, esses senhores de ternos e sapatos em lustro, são tão poderosos, que lavam dinheiro, vê se pode?) pedido de “impiti” da presidente que dizem estar envolvida no esquema da Petrobrás; Lava jato e rápido como avião; a lista de falcatruas e tramoias dos humanos civilizados, além de negra é do tamanho do mundo.
Inúmeros. Constelações. Miríades deles.
Juntos. Mexidos. Revirados.
Tudo depositado em uma só lixeira:
A sociedade.

Já era mal visto, mas depois que adquiri esse presente falante de plasma, o mundo, todos odeiam-me porque sou imundo, sujo, emporcalhado, ensebado. Chamando-me de imundície, olham-me e torcem o nariz! Não ligo, pois reconheço que sou fedido, mal cheiroso e cultuo, nutro a sujeira externa, para não contaminar a minha limpeza, a minha brancura alva como a neve de espírito e índole interior. E pelo visto, se quero empatar com o sistema de coisas mundanas, o primeiro passo a ser dado é desvencilhar-me dele; se paro na pista, sou atropelado: é pior que locomotiva desgovernada.

Por hoje chega! Antes de pegar no sono, rezo a seguinte oração: “depois de um dia escaldante, o vento uiva pela noite trazendo consigo o frescor capaz de mudar o mundo, pena que o mundo esta adormecido em berço esplendido e não se faz de rogado”.

Ah, meu nome? Chamam-me Imaculado. E se quiser auxiliar-me, por favor, encarecidamente, me encaminhe ao hospício mais próximo; pois sempre pego-me escrevendo sobre a "Alucinação em primeira pessoa" de meus irmãos que pertencem à mesma sociedade, a qual falta seriedade e comprometimento; mas que sobra em desajustes e hipocrisia. Enfim, uma sociedade ideal e suficiente para os seus sócios, que obviamente são do mesmo naipe, as mesmas cartas do envelhecido jogo de baralho!

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Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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