ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Fragmentos faiscados da “Peleja do diabo com o dono do céu”

Embora ele esteja na ativa (que em seu âmago seja incorporado a imortalidade dos mitos, motivo da alma jamais perecer) o Brasil levará mais 450 anos para produzir um músico tão completo, como é o Trupizupe, o Galo de Campina, o atemporal Zé Ramalho.


Zé-Ramalho-canta-Beatles.jpgSua completude como artista provavelmente não represente os quatro magníficos músicos de Liverpool. Porém, negar que Zé é Ás da MPB, é falta de senso e o ingênuo pensante deve tomar, urgentemente, uma dose de juízo; ou dizimar sua sabedoria tomando uma jarra de cicuta. Zé e os bons servidores da música não perdem nada; pelo contrário: ganham.

Os ignorantes estudam, tornam-se poliglotas, doutos e atingem e usam o poder; os inteligentes observam, percebem, criam uma legião de rebeldes, para com eles, tentar mudar alguma coisa no mundo. Esse deve ter sido o sentimento ideológico do avô, quando lançou ao neto um violão, dizendo: “Te passo em mãos esse instrumento admirável neto; vá! Siga agora mesmo e gladie com o mundo, engrandeça a nossa cultura e faça discípulos. Bons e afinados discípulos”! E como um menestrel em busca de si, perdido em noites solitárias e vazias; ouvindo os confusos e ensurdecedores pedidos de clemência dos insanos à beira mar; ainda meio adolescente e homem em formação; vendendo seu orgasmo às mulheres mal amadas, sorrisos desbotados e sexo insípido; Zé Ramalho se lançou nas estradas. Longas, sinuosas, duvidosas e mortíferas estradas!
Zé esbravejou contra a fome. Vociferou contra a guerra. Implorou a paz. Declamou o devaneio. Valorizou a loucura. Catalogou absurdos. Colecionou desilusões. Sorriu dos estúpidos. Superou obstáculos. Flertou com vampiros. Escrachou os egoístas. Cuspiu na cara dos hipócritas. Educadamente, bateu na porta do céu. Enalteceu os deuses. Expulsou o Lúcífer do jardim do Éden. Zé foi e ainda é, o prostituto (no bom sentido) da música brasileira. Maniqueu do supostamente certo. Anunciador das trevas; do incorreto, reto, correto. Incerto.
“Eu desço dessa solidão. Espalho coisas sobre. Um Chão de Giz”. Este é o prenúncio de um mundo nebuloso, sombrio, com as guerras regendo a estupidez humana, visto pelo profético e universalista Zé Atemporal da Paraíba Ramalho. Quando menos apocalíptico e mais eufêmico, escreveu: “Alegria do povo é sambar e sonhar”.
“Na tortura toda carne se trai”. Embora ele tenha sido até certo ponto torturado por acreditar em seu potencial, competência e espaço na arte/musicada alternativa, contrariando a literalidade da afirmativa, sua carne jamais o traiu; pelo contrário: manteve-se ao seu lado, rígida feito o mineral diamante. Pois, afinal, a carne pode trair os fracos, mas torna-se rígida quando encrustada nos fortes. Zé, como fênix mitológica é um daqueles raros Brasileiros que emergiram das cinzas, adquiriu asas e enaltecendo suas origens e raízes, alçou voos altos e longínquos por lugares distantes.
zeraul.jpg

O "Toca Raul" é a frase que foi imortalizada por muito tempo nos shows de rock que eclodiram no país de Norte a Sul; afinal, difícil é saber qual foi a banda dos anos 80 e 90 que não repassava em seus concertos alguma lisergia musicada pelo Raul. Fazendo deste, o mastro, o qual tremula a bandeira do rock nacional; o restante são as necessárias flâmulas e emblemas que compõem o estilo musical. Dando continuidade ao ajuntamento das águas crescentes do rock, Zé Ramalho foi um dos protagonistas da MPB (Música Popular Brasileira) que irrigou as cordas de seu violão com a sabedoria do manancial cultural/musical de Raulzito e como discípulo e pupilo disciplinado que é, replica(va) com a mesma intensidade e volúpia musical, o que aprendeu com o mestre do rock brasileiro.

Na música "Voa-voa", um forró pé de serra, Zé vocifera o nome: "Catarina". Catarina possui a elasticidade na cintura requebrável e ao dançar, não dá a mínima para o Zé. Como não bastasse a gilete de duas lâminas, sua "Terceira lâmina abria fendas de fogo, liberando o esguicho de sangue na aorta dos calhordas. Suas letras são dilacerantes. Navalhas cortantes.
Sua carreira iniciou com as coisas do regionalismo Nordestino, e a Literatura de Cordel foi precursora e motivadora das letras, até então simples se comparadas à complexidade filosófica e prolixidade de seus álbuns. E para chegar-se ao ápice do mítico, das proféticas visões e viscerais letras, Zé valeu-se de suas experiências vivenciais ao lado do violão, seu inseparável companheiro no Rio de Janeiro, cidade que mostrou-lhe o lado obscuro de uma sociedade separada em castas. Tanto ele, quanto o instrumento choravam o alarido silencioso à Beira-mar, para ninguém ouvi-los. Naquela época o ostracismo e o desencanto eram maiores que os encantos da vida, motivando-o a descrever os desaforos e desilusões sofridas naquela metrópole desalmada; caso notório da letra de “Garoto de Aluguel”.
“Baby! Dê-me seu dinheiro / Que eu quero viver...
Quanto tempo falta / Para lhe esquecer / Quanto vale um homem / Para amar você...
Minha profissão / É suja e vulgar / Quero um pagamento / Para me deitar...
A letra escrita rigorosamente em primeira pessoa aclara a ideia de que é um ensaio biográfico; pois inúmeras foram as vezes que o banco da praça, a lua, as estrelas, as prostitutas e a sua virilidade de homem, fizeram-lhe companhia. Exercitava sua masculinidade em troco da sobrevivência, gerando assim uns trocados para respirar um pouco de ar renovado no dia seguinte. Com esta e outras, Zé dissipava sua aversão ofuscada sobre a sociedade Brasileira e a chancela definitiva foi carimbada na letra “Admirável Gado Novo”; alusão ao título do livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley de 1932.
“Sete botas pisaram no telhado / Sete léguas comeram-se assim / Sete quedas de lava e de marfim / Sete copos de sangue derramado / Sete facas de fio amolado / Sete olhos atentos encerrei / Sete vezes eu me ajoelhei / Na presença de um ser iluminado / Como um cego fiquei tão ofuscado / Ante o brilho dos olhos que olhei”.
As extravagantes criações visionárias do compositor eram extraordinariamente fundamentadas na filosofia, e embora não fosse afeito à religião, a Bíblia serviu-lhe de inspiração. Portanto, os elos da Filosofia, Mitologia, conceitos bíblicos e o experimentalismo existencial o entorpecia à complexidade das letras. Contudo, em momento nenhum o artista afastou-se da simplicidade das raízes e identidades nordestinas, fato que o credencia como mito regional pelos compatriotas nordestinos.
ze.jpg

Ensaiando, misturando ritmos, acordes e sons, a “psicodelia Ramalhana” é perfeitamente audível em “A dança das borboletas, Bicho de sete cabeças, A noite preta”; "Ratos do Porto"; e outras mais, de parceria com Lula Cortês, Geraldo Azevedo e Alceu Valença; fase esta que marca o início de carreira de praticamente todos os embrionários da nova safra musical nordestina. Como meio de fundir o mesclado psicodelismo ao regionalismo, o ritmo do xote e do baião torna-se o ponto sólido de soldagem entre ambos; com isto, até mesmo o mais simplório caboclo do sertão captava o que estava sendo feito pelos seus conterrâneos.

Em suas letras, inúmeras são as músicas que se caracterizam pelo ritmo frenético e típico nordestino criado por Luiz Gonzaga. “Voa,Voa”, última faixa do álbum (obra prima) de 1978, é uma delas. Inclui-se nesse inconfundível estilo, “Mote das Amplidões”, com a participação especialíssima de Dominguinhos na sanfona.

“Cobiçam a terra e toda riqueza / Do reino dos homens e dos animais / Cobiçam até a planície dos sonhos".
No álbum “A peleja do diabo com o dono do céu”, Zé aparece na capa sendo literalmente atacado na jugular pelas unhas felpudas do lendário Zé do Caixão, enquanto que uma vampira o circunda dando suporte ao vampiro. Com esta aparição, ele solidifica seu lado místico, com visões tomadas por criaturas além Terra; caracterizando definitivamente um Zé Ramalho totalmente liberto de seus fantasmas e medos, pois o escuro nunca fez frente aos seus presságios. Pode-se dizer que das intempéries e o relento, o músico fez a sólida cobertura de seu telhado.
“Paraíba do norte, do caboclo forte / Do homem disposto esperando chover / Da gente que canta com água nos olhos / Chorando e sorrindo, querendo viver / Do sertão torrado, do gado magrinho / Do açude sequinho, do céu tão azul / Do velho sentado num banquinho velho / Comendo com gosto um prato de angu / Acende o cachimbo, dá uma tragada / Não sabe de nada da vida do sul”.

“Pode ser o país de quem quiser / mas com certeza, não é o meu país”.

Para solidificar seu amor incondicional pelo Nordeste, (a letra Kriptonia é uma homenagem à sua tão querida Paraíba) sentimento que talvez seja maior que pelo Brasil, além de algumas letras (Frevo Mulher é uma delas), Zé lança o álbum duplo: "Nação Nordestina", cuja capa lembra a capa do "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" dos Beatles. Álbum esse pouco conhecido pelo público e mídia, porém “arretado” de bom. Dentre os convidados e participantes, o introito feito à Nação é principiado pelo emblemático e multi-instrumentista Hermeto Pascoal; incluindo no rolar da esteira sonora Ivete Sangalo, o guitarrista Robertinho de Recife; que juntamente com Pepeu Gomes, foi considerado um dos melhores do país. Zé Ramalho sempre primou por músicos competentes e de primeira linha dividindo o palco com ele.
Se nos shows de rock entoavam o lema “Toca Raul”, quando o Rock voltar, (com isto evita-se jogar farelo sonoro aos sábios) deve-se entoar também o “Toca Zé Ramalho” enquanto este reina entre nós; pois mestre e aluno fundem-se na sonoridade musical, letras lisérgicas, arranjos e notas transcendentes que ambos fizeram. Enfim, Toca Zé Ramalho e saibam todos, o que representa esse notável artista para a arte regionalista nordestina e brasileira.
Zé Ramalho.
Da da MPB/Pop/Rock: Ás.
Da indústria fonográfica:
Carta fora do baralho.
Diamantes. Reticências. Aroeira.
Madeira bruta.
Pedaço de músculo. Pênis.
Nada enternecido. Do carvalho!
No mais, após escrito o artigo, estamos indo embora; sobretudo porque o regresso é inevitável para quem não veio de lugares distantes para se enganar em terras dos comuns e falsos humanos; está de acordo Zé Ramalho? Como é de conhecimento dos cultos e incautos, os princípios e os fins explicam os meios e consequentemente, a genialidade de quem é gênio. Estes não precisam tirar da cartola lâmpadas mágicas: conhecem as luzes dos raios lunares através da genialidade, as quais vieram impregnadas em seus DNAs. Afinal, estudam os inteligentes, pois os ignorantes observam; e reproduzem o observado. Possuem, portanto, a fina percepção do faro nas narinas e o dom da assimilação dos signos na mente.
Conforme a aceitação deste, escrevendo sobre Zé, poderemos nos encontrar novamente aqui na Obvious. Salve leitor!


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/musica// @obvious, @obvioushp //Profeta do Arauto
Site Meter