ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta"

Não dai ao esquilo o que é de Ésquilo

Um simples e desprezível fato do cotidiano pode ser motivo de reflexão? Depende da ótica e sensibilidade de cada um, como é o caso da trama envolvendo um inocente, porém admirável esquilo e um ciclista que penteava os cabelos esvoaçados com o pente da brisa matutina através dos pedais.


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Atropelar animais em rodovias é fato comum para a espécie humana, impiedosamente dizimam mesmo, menos para ele e sem estar envolvido com instituições ligadas à defesa de animais, sensibilizou-se e tacitamente parou para reverenciar o erro; pois erro reconhecido talvez seja perdão merecido. Tinha consciência que aquele indefeso ser que também respira, diariamente põe em risco sua vida em busca de alimento para manter o que chama de sobrevivência. Contrário da raça humana, em todas as demais se quiserem, que façam e não esperem que aconteça.

Para quem não sabe é válido que saiba e para quem o conhece, torna-se atrativo para rememorar o filósofo e poeta Grego que embasava suas peças de teatro e escritos nas tragédias decorrentes do cotidiano da sociedade grega. Notável é perceber que naquela época já escrevia sobre as tragédias e inúmeras delas era do homem contra o próprio homem. É de se imaginar que se ele e mais uma gama desses desaforados sociais estivessem por aqui, provavelmente existiria uma redemocratização nos costumes, ideais e hábitos dos povos; porque estamos entregues às mesmices, aos comuns e aos convencionalismos sem a menor previsibilidade: as coisas acontecem conforme manda a vontade de um ou outro.

Dentre as várias obras do cidadão grego citado, destaca-se a frase: “Falseando a verdade, grande parte dos homens prefere antes parecer a ser”; o que traduzindo em miúdos é a tal: “preferem o status de ter à elegante posição de ser”. E muito disto, com a conivência da célula-mater social, se deve ao consumo desmedido o qual os povos enveredaram-se: consomem e não medem as consequências. Emporcalham-se no consumismo e depois descartam as sobras e dejetos na Natureza.

Recém-saída do forno, presenciamos mais uma tragédia lamentável ocorrida no Nepal, onde estima-se que três mil pessoas tenham ido para o beleléu. Sorte do Ésquilo e outros, pois se estivessem por aqui sofreriam pela falta de penas nos tinteiros para descrever tantos desastres: ora naturais, ora provocados pela sub-raça humana. Embora que todos os homens são provenientes dos anéis de ouro forjados nas fornalhas humanas e usados nos dedos para os seus próprios dedos queimar; a tragicidade é que queimam os dedos daqueles que não põem as mãos no fogo. Certamente em seus escritos temáticos, Ésquilo mencionou o trágico e não os envolvidos na trama.
A Natureza não suporta mais tanta estupidez humana e como consequência, a quem diga que corretamente, reage desta forma. Valendo-se da terceira lei de Newton, que diz que para todo corpo lançado com uma força tal em certa direção, haverá uma força oposta agindo sobre esse corpo com a mesma intensidade de força. Para a Natureza, bateu-levou. O que, eximindo-a do egoísmo nato dos humanos, é correto; afinal, em qualquer âmbito e amplitude, a autodepuração faz-se presente. Tomem como exemplo um rio humilhado em certa altura de seu percurso pela imundície dos usuários. Sujeira de toda espécie deslizam sobre as águas, descem despenhadeiros até onde o rio, humildemente, tacitamente, vai trabalhando para se recuperar e livrar-se dos dejetos que lançaram sobre ele.
Contrário das ações humanas que a maioria suja e os garis limpam; os rios por si só fazem isso por eles e como são altruístas em potencial, obviamente para aqueles que usam de suas águas límpidas. Portanto, esse é apenas um simplório exemplo de como a Natureza sente-se obrigada a trabalhar e produzir para ela e para os desmiolados que paulatinamente a usa sem critérios. Ocorre que de quando em quando ela usa de outras estratégias para livrar-se de tamanha insensatez, como o que aconteceu no Nepal.
Inspirado em Ésquilo, o Pedaleiro saiu para mais uma volta ao redor de si mesmo. Tomava o vento frio na cara que já estava soprando em nome da aurora, quando em certa altura veio-lhe uns pensamentos da ingratidão humana com a solidária Natureza. E não é necessário ser ambientalista, Biólogo, Naturalista, apreciador da coqueluche dos tempos modernos que é a tal de Engenharia Ambiental, que não passa de marketing politico e folclore estudantil, porque engenharia é tudo que é transformado em artificialidades pelas mãos do homem; e na Natureza, como disse Lavoisier “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”; logicamente de forma natural e sem os artificialismos químicos. Como o tempo de recuperação e resiliência seria enormemente grande, após os períodos de guerra houve necessidade de se introduzir a Química industrial nos meios naturais, senão a mortandade humana devido à fome seria maior que os números de mortos advindos das guerras. Para os aficionados nos superficialismos, ruim com ela, pior sem ela. Cinquenta anos passados e os resultados estão propagados nos leitos dos hospitais. Os médicos, os laboratórios de remédios e as drogarias agradecem. Isto mesmo: as drogarias estão mais para choros do que risos!
Aquele senhor estava com os pensamentos tomados pelo movimento do teoriza, mas não se cumpre, quando passou nitidamente à sua cabeça um esquilo cruzando a pista e sendo atropelado pelos insensíveis pneus de um carro. E imaginou que o mesmo pudesse ocorrer com ele, o que causaria uma dor aterradora no seu peito. Quanta bestialidade daquele Ésquilo, afinal animais mortos nas rodovias são coisas habituais e corriqueiras. O contrário, que é o enaltecimento à vida animal, seria de se admirar.
Embora perdidas e consumidas pelo tempo, os aforismos populares explicam muitas coisas, caso da frase usada pelos antigos que diz que “Palavras e pensamentos possuem força motriz”; e no seu caso, superou a terceira lei de Newton, porque devido a nobreza, simplicidade e meiguice gestual da espécie, não devolveu a ele com mesma intensidade de força o mal que lhe fora feito.
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De cabeça baixa, mesmo porque é uma lei instintiva do pedal, descendo um trecho de rampa leve, mas que impunha velocidade considerável a "magrela", assim que afugentou os pensamentos da ingratidão do homem para com a Natureza, repentinamente olhou e viu um esquilo saindo da touça de capim e apavorado cruzando a pista. Tomou a decisão imediata de frear, porém não sendo suficiente, uma vez que o esquilinho, cujo rabo parecido espanador cobria-lhe todo o corpo, parou quase debaixo da roda dianteira. O “desprezível” ser de olhos ternos pedindo clemencia e o pedaleiro pedindo que ficasse onde estava, senão seria risco demais. Divagação em vão! Tomado pelo susto, o que levou o seu coração à boca, saiu desesperado coberto pela roda dianteira, deixando o Pedaleiro em desalentado: “Deus criador da Natureza, matei a sua imagem e semelhança! Puxa vida, por que não ouvi minha consciência; que juntamente com minha saúde perfeita, são os maiores bens que me destes”!
Imediatamente parou, enquanto o pequeno e inocente, como criança desprotegida, foi refugiar sua dor atrás do tronco da árvore. Chegou de pé-ante-pé e implorando desculpa, disse para ele que embora soubesse de tudo, tivesse visto tudo, manteve-se cego de imperativos humanos e inteligência. A pequena criatura olhava-lhe com a carinha de poucos amigos e levantava a patinha, que doía infernalmente, para mostrar-lhe o quando foi insensível. A dor era tamanha, que o inofensivo esquilo nem atreveu-se a sair do lugar. Estava estático e assustadiço! Volta e meia, mostrava-lhe a patinha. Ficou retorcida. Ficaram minutos olhando um para o outro tentando o consolo para ambos.

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Se até então o Ésquilo dos pedais pensava sobre as insanidades do homem contra a Natureza, incorporando definitivamente o espírito de Ésquilo, despiu-se da estupidez que o afrontava e seguiu viagem com os pensamentos redobrados. Afinal, aquela estrada nunca existira até que um ser qualquer foi lá e entendeu por bem que aquelas terras deveriam ser cortadas por ela, cuja finalidade é engrandecer e servir de travessia para aquilo que obviamente não havia e passou haver: o comércio e a busca pelo dinheiro. Indubitavelmente isso só ocorreu por interesses de um, de outro ou de todos os pensantes das cercanias. O que é fato normal pensar em tudo, exceto nos épicos nativos que dependem e são os exímios proprietários do espaço. Esses que se enquadrem e se virem n´outros lugares! Para a ganância, o mundo é grande, motivo dela querer abocanhar uma fatia, quanto maior melhor.
Por força maior, sabe se lá de sobrevivência, quando se abre uma estrada, via-de-regra está gerando uma desfragmentação no habitat das espécies que habitam aquele espaço verde e a consequência é a perda de espaço, localização geográfica, luminosidade, silêncio, aparecimento do efeito de borda e o mais nocivo às populações residentes, a quebra da renovação das espécies locais. Sem nenhum ataque de genialidade, pode-se notar que muitas espécies habitam as partes altas das árvores e quase não descem à superfície, caso de certas espécies de macacos; tal “deficiência biológica” indica que essas espécies necessitam do dossel arbóreo continuo para se locomoverem. Outras, não conseguem se guiar nos ambientes limpos; bem como outras, devido aos modelos de hábitos e costumes, se perdem em travessias por mais curtas que sejam. Portanto, fragmentar é abrir clareira para a destruição.
Com os desmatamentos causados pelos pequenos detalhes caracterizados pelo inconsciente coletivo, somado aos interesses, a falta de apreço do povo e o desmazelo do poder publico, as espécies da flora e fauna estão sendo dizimadas, aniquiladas de seu ambiente natural brutalmente pela selvageria do homem glutão; espécie que reina soberana na cadeia alimentar, pois biologicamente é a espécie que nada produz e a todas as espécies pertencentes à cadeia alimentar, consome.
O canalha do homem está no topo, na crista da onda e não há nada que o derrube do poder! Isso aqui, por em outros lugares a Natureza está tomando partido e exigindo dos homens de lá reconhecimento e gratidão. Deus já está saturado com a humanidade; incluindo no bojo o Brasileiro que se apega ao jargão de que Deus é Brasileiro e com isto, hipocritamente vai aprontando as dele. Piscam os olhos, vira e mexe algo acontece, o estado de Santa Catarina é testemunha das alterações naturais locais. Ontem foi Salvador. O rodízio é constante, então não adianta portar-se como foragido, uma hora o afanador será pego.
Mais conformado, menos triste e leve de espírito o Pedaleiro seguiu viagem, mas deveras aquela manhã estava marcada por animais mortos no percurso traçado por ele. Nem pedalou um quilômetro e cruzou com uma cobra falsa coral; aproximadamente dois quilômetros adiante o sangue de uma coruja tingia de vermelho o preto do asfalto; um pouco mais adiante, uma rolinha campeira. E a mortandade não parou por aí: cruzou com dois cães estatelados no canteiro. Mais a frente, outra cobra. Não muito distante um tamanduá e uma raposinha; por fim, fechou os olhos para tanta destruição. Queria de qualquer forma tornar-se um asno e não pensar, como é impossível não pensar e quando isso acontecer, morreu; pensou: “Dai à Natureza o que é da Natureza. Dai ao esquilo o que é do esquilo. Dai ao homem o que é do homem.
E não demorou nada, veio a resposta do além: “Tenha paciência, é questão de tempo. Siga em paz, porque o que fizestes não iniciou com você. Está livre inclusive da chamada lei da cumplicidade”!
O Pedaleiro tentou elogiar-se, mas as palavras traíram as suas vaidades; a voz ficou rouca e embargou de vez; a sua visão foi coberta por um emaranhado de fios que até as aranhas dispensam em suas teias. Enquanto essa espécie usa-os como laço e armadilha, ele fez uso como embuste daquilo que deveria ser o ápice da clareza, serenidade e lucidez. Em virtude destes pequenos e irreversíveis deslizes, concluiu que ele é um ser dotado de erros nada humanos. Desculpou-se com os diferentes; porque não sabia e não conseguia ser um Ésquilo que em defesa dos oprimidos, acusava a sua espécie, dando o real e expressivo valor a um singelo e inocente esquilo!

- Ledo engano Pedaleiro, porque "Quando a pessoa está disposta e preparada, Deus entra em ação."
- É Ésquilo, bem dissestes: “Lúdico ledo engano”. Por que o difícil são as pessoas estarem preparadas e dispostas. A sombra do homem é a mesma em qualquer canto e assina as suas más obras em todo o mundo, em todos os recantos!
Assim que chegou em seus aposentos, refletiu que quem está mesmo que parcialmente em comunhão com a razão, completa-se com a simplicidade da Natureza. Razão e Natureza fundem-se como sendo o único pilar sustentador da existência humana.
- A Natureza é gênio sem dotes de genialidade e os Pedaleiros e Filósofos são visionários atormentados pelas tragédias do sentencioso silêncio imprevisto!
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Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

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