ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta"

Simplesmente Olga Benário – parte I

Todo ser humano nasce com uma fração de rebeldia em seu íntimo. E nenhuma genialidade produzirá o gênio, sem antes encontrar na rebeldia a genialidade. A história comprova que a rebeldia insemina o gênio no homem e este faz história sem precisar estudar história. Fatos que fizeram parte de Olga Benário, judia comunista que foi extraditada do Brasil pela Gestapo de Filinto Muller; fiel escudeiro do todo poderoso Adolf Hitler, o qual era visceral, um implacável ditador que de suas garras, reacionário nenhum escapava.


olga.jpg Olga: quatro letras que designaram uma mulher, além de mulher melindrada pelo sexo frágil, como classificam o sexo feminino. Sobretudo, Olga foi uma pujante, altiva e monumento de mulher, muito além de fortaleza de mulher!

Na certidão de nascimento, o sexo era feminino; mas como mulher insolente, estrategista e revolucionária. E o mundo levará milênios para produzir outra cabeça igual à dela, motivo pelo qual, fora enviada à Terra para provar que a traição cometida por Eva a Deus, ao liberar a fruta proibida no jardim do Éden para a degustação de Adão, valeu a pena. E por mais negadores e traidores que sejam, vários estadistas que estão no poder brasileiro, sabem desta verdade inquestionável. Lamentavelmente, o ego humano é o apagador das verdades incontestes que perpassam o tempo. O ego humano enfumaça, embolora, estraga e põem os sonhos, as labutas, as derrotas e as conquistas a perder! Perda de quase todos, porque os oportunistas, ceifadores de ideais e traidores da pátria, ganham.
Incompreendida pela gratidão humana: com esta frase curta e grossa, assim deveria ser a descrição do mineiro, jornalista, escritor e deputado estadual pelo MDB, atual PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) Fernando de Morais sobre a inquieta Olga Benário, judia de nascença, ativista por princípios, classificada como comunista, pelo movimento de época e cosmopolita por pensamentos e ideais. Uma mulher fora do comum. E enquanto os povos faziam (e fazem) de tudo para angariar status e a manutenção do poder a qualquer custo, ela dizia adeus, inclusive à família, e ia de encontro às suas aptidões interiores. Uma vez que o livro é riquíssimo e vasto em detalhes, os quais envolvem “ficção”, aventura, ação e pitadas de romance, o artigo indiferente à ordem cronológica, será escrito em sua totalidade por etapas; e nesta primeira parte, os relatos irão até a chegada do casal: Luís Carlos Prestes, brasileiro que, após certa época da história, passara ser Antônio Vilar, lisboeta de 40 anos; e Maria Bergner Vilar, cujo nome verdadeiro era Olga Benário, legítima esposa do aventureiro e incitador à derrubada do poder no Brasil.
Olga nascera tal qual fora em vida. E para enaltecer o seu espelho, por volta dos 15 anos de idade, dispara a campainha de uma velha serraria nos confins do subúrbio de Berlim. Ali, qualquer movimento estranho e ruídos suspeitos na parte de fora da “toca”, local em que se escondiam para as reuniões secretas, os adeptos da esquerda, pensamentos e ações subversivas ao poder alemão, alarmavam-se; e rapidamente uniam-se em defesa do movimento. Numa dessas, uma rica adolescente berlinense bateu-lhes à porta: era desconhecida Olga Benário.
Olhando pelas frestas, os camaradas encarregados da segurança saíram para fora do estabelecimento e o que veem, é uma bela moça de tranças, esguia de andando, pedindo licença para fazer parte do movimento anárquico. Sob olhares incrédulos e partindo do pressuposto que quanto mais camaradas melhor, convidam-na para entrar. Mas antes de qualquer assinatura e pacto de fidelidade, Olga seria, para não dizer metralhada com perguntas, sabatinada; afinal de contas, os amigos de subversão e prováveis libertadores da humanidade, teriam que saber o que queria a moça e principalmente, conhecer suas habilidades e princípios ideológicos. Atributos que, se relevantes para o movimento, nada de anormal para ela. A adolescente nascera sob essa insígnia.
olga1.jpgSorrir e revolucionar os costumes e hábitos humanos, mesmo que sejam para beneficiar o próprio ser humano, não cabem no mesmo semblante. Lágrimas consternadas: este é um dos sentimentos de Olga no campo de concentração.
Porém, para os integrantes do grupo Schwabing, nome dado ao movimento, havia motivos de sobra para desconfiar de Olga; pois, os participantes eram vindos de classe pobre, do proletariado alemão, enquanto a recém-devotada ao movimento era de classe acima da média. Sua família morava em região nobre e seu pai era um ilustre e tradicional advogado. No entanto, tal fato reforçava sua tendência de militante e resoluta, como veterano operário que se aposenta manuseando um torno, rebateu as críticas e perguntas com veemência: “Sou filha de Leo Benário. Mas que culpa tenho disso”.
Como teste de excelência para conhecer os procedimentos e habilidades da debutante à anarquista, no dia seguinte a trupe saiu às ruas para fazer nova panfletagem. Contudo, para o delírio da direção do grupo, Olga se revelara aguerrida, trabalhadora e voluntariosa. Para surpresa geral, os muros, não só dos subúrbios, mas também da região central amanheceram pichados. Críticas ao governo é o que não faltaram. Destemida, Olga encarava e assombrava até os policiais mais experientes, os quais eram destacados para manter a ordem. Ao ver a insolente menina em ação, desafiando o poder em nome do movimento, um dos camaradas comentou: “Medo e prudência são palavras que ela não conhece”. Obviamente, com o tempo, Olga foi adquirindo hegemonia sobre o grupo e um dos motivos, é que ela levou aos amigos e filhos do proletariado a noção de cultura, conceitos de cidadania, e para isto, teriam que estar vinculados às carteiras escolares: Olga não permitia a ignorância e todos deviam, obrigatoriamente, estudar.
Dando pistas que acima do excesso de democracia, aliada à diplomacia, está o poder de decisão, Olga foi aceita de imediato; e daquele momento em diante, definitivamente, passara a ser a judia subversiva, revolucionária e defensora da classe dos trabalhadores e desamparados, contra o poder absolutista do capitalismo que imperava de velho, no mundo.
Vinda de família abastada, sua mãe era uma tradicional dama da sociedade alemã, fato que não ia de encontro ao que a filha pensava; e quando interrogada sobre a mãe, não estendia o assunto. No pacote familiar, também estava sua avó materna e se economizava as palavras ao falar sobre a mãe, sobre a vó dizia muito menos. Com a seriedade e franqueza que lhe eram peculiares, Olga não furtava as verdades nem da família.
Olga também tinha opinião formada sobre a relação a dois; por vezes radical, como era o caso de quando indagada se ela seria mulher, esposa, dona do lar, mãe de família, pelas pessoas mais próximas. Tomada pela cólera instantânea, respondia secamente que o casamento alimenta ainda mais o bordel burguês dos capitalistas: “saiba que ceder aos instintos é multiplicar o bordel burguês. E quem diz isso não sou eu, é Lenin”. Sem pestanejar ou mesmo reprimir seus sentimentos com relação ao matrimônio sacramentado em cartório, de papel passado, domínio de um sobrenome sobre o outro, ela considerava tais coisas como a deformação na relação entre homem X mulher; dependência econômica da mulher, que por vezes traduz em prostituição legalizada, pois teria a esposa que se sujeitar ao sexo obrigatório e direito de posse, em troca de dois pratos de comida, a ração diária. Casamento para Olga era o mesmo que a mulher assinar sua sentença de morte. Admitia o sexo, jamais a suposta perda de liberdade.

olga2.jpgNão só por fora, não só a carcaça: Olga era uma mulher vistosa, revolucionária por inteiro e seus olhos ardiam humanismo. Admirável é observar as ideologias nas entrelinhas de sua beleza.

Diante desse dilema elementar na relação entre um casal, sua vagina e introdutório ao sistema de reprodução, suspirava, respirava e possuía o livre-arbítrio de trabalhar, exercitar o sexo, deliciar-se no momento em que queria; com que lhe fosse apraz e não aberta, escancarada como porta de igreja, liberada à entrada e saída de fieis a qualquer momento.
Possivelmente o espirito de Lenin também lhe confidenciara o vale quanto trabalha e exercita, o real valor do pecado originado por Eva, o peso da responsabilidade social de se possuir um segredo dentro das entranhas, representado pela abertura de uma vagina.
Olga entendeu bem a lição de Lenin, de que a fome, a miséria, o capitalismo, a ganância e os 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta passa(ra)m, obrigatoriamente, por uma, ou outra vagina. Sabia que o equilíbrio econômico e social do mundo, dependia e passava pelo crivo desse órgão nada difundido; mas tão comprometedor ao sistema social.
- Olga, saiba que para o socialismo prosperar, para o homem dividir de maneira igualitariamente os bens produzidos, para o senhorio valorizar o suor do subalterno, depende e muito, de uma vagina. Portanto, para o bem do mundo, tanto de um quanto de outro, esse precioso órgão deve ser preservado.
Palavras de Lenin não se contestava. E dizer não àqueles que já previam tempos atribulados pela frente, é no mínimo, trair o movimento e teses dos camaradas Socialistas; afinal, a derrocada da humanidade começou e continua atrelada à vagina?
Os movimentos de esquerda na Alemanha ficaram pequenos para Olga e seu namorado Otto; acontecesse o que acontecesse, já não era mais novidade e diante de tanta energia em fazer e realizar, as façanhas chegavam ser tediantes, monótonas para os dois; motivo pelos quais, o casal de rebeldes-revolucionários arrumaram as malas e partiram para a URSS, país onde fervilhavam as teorias culturais e doutrinárias de Marx. Olga partira em paz com uns e odiada por outros; os quais incluía sua mãe, que posteriormente, quando ela e a filha cumpriam pena no campo de concentração, negara a reconhecê-las como filha e neta.
Por aqui, em Terras Tupiniquins, um senhor mirrado, de baixa estatura e questionador dos problemas sociais, liderava um cordão humano saído do Sul em direção ao Nordeste brasileiro. Serpenteando estradas, esclarecendo os povos, proclamando a liberdade e colecionando afeitos ao movimento, a coluna Prestes como ficou chamada, chegou a possuir mais de 1000 homens em sua companhia.
O “Cavaleiro da Esperança”, como Luís Carlos Prestes ficara conhecido, não detinha total conhecimento do que acontecia na Europa, preocupando-se mais, portanto com os problemas sociais brasileiros, que na década de 1930 estava sob o poder o presidente gaúcho, Getúlio Vargas que através de uma insurreição despropositada, depôs o atual presidente arrumado pelo voto fraudulento de poucos eleitores às escondidas, Júlio Prestes; que não toma posse. Nesse ínterim, o Cavaleiro da Esperança” é preso em Buenos Aires; ele e mais os familiares pedem exílio em Montevidéu, cidade que os acolhe. Lá, filiam-se ao PC (Partido Comunista). Porém, antes, conhece um senhor que, após rodar os países europeus pesquisando sobre as teorias e assim feito, trazia malas e malas de livros sobre os conceitos e aplicabilidades marxistas. Num de seus afortunados encontros com o tal senhor de nome Astrojildo, que passa a ele alguns e finaliza dizendo: “nesses volumes o senhor encontrará um pouco da ciência que trará as soluções para os problemas do nosso tempo: o marxismo”. Portanto, estava lançado o antídoto contra todos os males causados por meia dúzia de gananciosos contra o restante da inocente, humilde e silenciosa sociedade alemã.
Aquilo virara a cabeça de Prestes, que segundo ele, somente uma revolução popular poderia mudar o curso e o destino da politica do país. Mas, primeiramente, teria que conhecer mais apropriadamente o que os escritos marxistas queriam dizer; motivo do embarque do “Cavaleiro da Esperança” em um navio, cuja missão era levá-lo a conhecer os sonhos e desideratos de Lenin e Marx; sobretudo, poder encontrar-se com a liberdade de expressão e de lá, trazer novos modelos de revolução para o Brasil. Indo de encontro aos camaradas de ideologia, bem como pelas propostas revolucionárias, no dia 10 de outubro de 1931, Luís Carlos deixa Montevidéu e ruma em direção a Moscou.
PS.: o livro escrito em forma de reportagem jornalística pelo mineiro, Fernando Morais, é absurdamente denso e a complexidade das informações não são sequencialmente cronológicas.

Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta".
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