ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

Pitadas do filme Apocalypse Now; de Jim Morrison e Banda

A música “The End” faz parte da trilha sonora do filme americano escrito por John Milius e dirigido por Francis Ford Coppola em 1979, cujo tema central era declarar ao mundo as atrocidades do exército dos EUA, contra a combalida tentativa de defesa vietnamita.


vietna.jpgUma chusma de helicópteros barulhentos. Enfileirados. Ensurdecedores, encolerizando a paz. O mal entrincheirando o bem, para que o mais forte se apodere do mais fraco. Estava decretada a contenda em que os combatentes já sabiam do desfecho, pois assinaram o pacto da vitória bem antes. vietna4.jpg

Repentinamente, com um grunhido estridente e estarrecedor, acompanhado por uma guitarra distorcida, seguido de um teclado jazzístico desconcertado e uma bateria no contratempo, Jim e a legião contrária aos absurdos da guerra dão as cartas e saúdam os ouvintes e plateia. Com esse ensaio triunfal de pura energia lisérgica, abrem-se as cortinas e daquele inebriado momento em diante, todos teriam a oportunidade de conferir o sangue derramado na brutal e desproporcional guerra do Vietnã.
O jovem estudante de cinema vagava, perambulava pelos EUA vestido com a extravagância da irreverência; roubando cultura em bibliotecas; gritando ao mundo que as pessoas são estranhas; cavalgando a desilusão sob inundações tempestuosas; chamuscara seus ideais de artista sob a luz que iluminava o seu fogo; trocara cinco por um; navegara em barcos de cristal e para completar a busca pelas mulheres de Los Angeles, definitivamente, retornou ao passado de criança rebelde (“Wild Child”); quando foi dançar o ritual dos Shamans, tribo indígena habitante nos altos mexicanos.

jim_morrison.jpg“A mente insana não se cala; quando se cala, ilumina-se”. Provérbio Zen Chinês. O que chama atenção é que nos lábios de pessoas dessa estirpe não há espaço para sorrisos deliberados.

Em sua casa as bonecas, os apaches de brinquedo, os animais, os livros, a sua a mãe, quase todos dormiam; menos uma criança que passava a noite maquinando como seria o amanhã. Porém, em certos momentos, não espera o dia seguinte e como rato que invade as despensas; como hipocondríaco que toma uma overdose de remédios numa alucinação só; como o P.M.D (Psicossomático Maníaco Depressivo) por comida que literalmente se joga com a gula e tudo para dentro da geladeira na madrugada; Jim concluiu que naquela monótona noite teria que fazer alguma traquinagem para aliviar-se da inútil tensão de pensar o desprezível. O ócio poderia encaminhá-lo à morte a qualquer instante.
Sua irmã dormia na cama ao lado da sua. Ouvindo e importunado pelo seu ronco, o insolente Jim já sabia o que fazer. Apurou os sentidos, relaxou os músculos, estirou o corpo e levantou-se lépido feito coelho, vagaroso como bicho-preguiça, atuante como os macacos, com o travesseiro nas mãos. Foi à cama da irmã e possuído pelo orgasmo dos deuses das travessuras, pôs o travesseiro dobrado em cima das narinas de sua presa. Uns segundos se foram, quando a menina começou a se mexer procurando ar. Para não ser visto e dificultando à busca pelo apagador de luz, Jim abria o travesseiro de modo que cobrisse todo o seu rosto. Ela tentava de todas as formas se livrar daquele misterioso terror que o assombrava impiedosamente. E assim que sobrou uma brecha de ar pela boca, deu um estrondoso berro acordando até os objetos inanimados.
Sua mãe veio em disparada e fez às devidas diligências no quarto. Jim jazia duro espichado debaixo dos cobertores, parecia um morto de muitas horas. Vez por outra, para não levantar suspeita, fazia como a irmã e safava-se da falsa apneia, recuperando o ar com um sonoro ronco. Por fim, com a casa tomada pelo irrefutável silêncio repentino, dormiu até na hora em que os intrusos raios de sol perpassaram as frestas da janela, chamando-o para dar continuidade ao seu viver intenso naquele novo dia; que para ele, começara bem antes do chamado.
Definitivamente o filho do marujo adotara as ruas. Como uma biruta sob vento desvairado, as normalidades da vida já não satisfaziam os seus anseios; portanto, para ter motivos e não dar cabo prematuramente aos anos vindouros, ele sentiu-se obrigado a expandir a consciência. E após despertar os sentidos lendo o livro “The Door´s of Perception” do Aldous Husley, o estudante de cinema partiu para conhecer a transcendência do espirito além-matéria e “fazer a cabeça” com os Shamans.
Todo deus tem os seus crentes e descrentes. E diante da contradição premente de viver o agora, o verdadeiro e o falso são deuses carimbando, reconhecendo firma, das constantes parcerias firmadas entre ambos.
Para celebrar a ocasião, o cambaleante Jim toma mais um cálice do líquido-depurador e após embebedar o cerebelo, afasta-se da multidão, entrando num transe híbrido de arroubo e alucinação. Nesse ínterim, impelido pela sensação de leveza, pôs-se a rascunhar as imagens que lhe passavam pela mente. Nas suas visões, os fenômenos e os elementos representam os pincéis da Natureza em ação, e através deles, nada é estacionário; ao contrário, tudo é naturalmente, imagem em movimento. Jim acabava de congratular a Natureza e os amores fracassados com a letra “Shaman`s blues”, que se tornaria uma faixa do álbum “The soft Parede”.
A “viagem astral” por qual passara bebericando os chás junto aos Shamans para assim expandir a consciência, levitar fora do corpo e conhecer o surrealismo de mundos inimagináveis, deixaram Jim variado. E ao retornar a realidade de homem mortal/comum, seus pensamentos flutuavam do céu ao inferno em segundos. Sua rebeldia já não tinha mais limites aqui na Terra e ao subir no palco para mais um show, suas coreografias sensuais e o rolar insano sobre o tablado, denotava um Jim totalmente fora de si, drogado, embriagado e almejando desvairadamente o desconhecido; porém, por outro lado, preparado para elevar-se a outros planos vivenciais. Depois de conhecer as suas virtudes e fragilidades, provavelmente soubera que a morte tem o poder de explicar a vida. Já o contrário: a vida explicando a morte, jamais aconteceria. E não demorou muito, a aflição de viver as tolices cotidianas cedeu lugar à morte, etapa definitiva que explica a metafisica da existência humana.
Se tudo fosse perfeito; floridos jardins; mares azuis; oceanos velejados; arrebol que nunca se desfigura; sorrisos de canto a canto na boca; apenas, em qual tragicômico a arte se enquadraria? Jim veio ao mundo com essa pergunta e sem resposta plausível, partiu.
Muitas biografias, filmes e documentários foram escritos sobre a banda, no entanto, no livro "The Doors por The Doors" escrito por Bem Fong-Torres, John Densmore com as palavras diretas, revela a insanidade poética de Jim: "Hoje eu o teria colocado contra a parede. Mas eu também tinha medo dele. Ele tinha um poder imensurável. Quando entrava em algum ambiente, as pessoas se perguntavam: 'Jesus, quem é esse cara?! Ele tinha esse tipo de poder”.
Nota: no artigo anterior foram citadas algumas semelhanças entre Jim e Jesus Cristo, que obviamente, não resume somente na letra inicial “J” dos nomes.
Faz parte do mesmo livro o depoimento de Ray Manzarek: “O palco era o lugar preferido de Jim. O que ele menos queria era sair de lá. Ficaria por lá a noite toda se pudesse. Acho que um dos motivos pelo qual continuava a beber era para manter aquela sensação eufórica de estar no palco. Íamos embora, e ele ainda estava pronto para o show”.
Jim e Manzarek se conheciam bem antes de formar a banda. Todavia, de vez em quando um sumia da frente do outro, e quando menos se esperava, encontravam-se; como foi o caso do encontro inesperado na praia: “Estava eu na praia e quem me aparece caminhando junto ao mar? Jim Morrison”. Ele me cumprimentou: “Olá Ray”.
- Jim! Senta aqui comigo um pouco'. Daí ele sentou em minha colcha indiana. Eu disse: “E aí cara, o que você está fazendo por aqui”?
- Estou morando no sótão de Dennis Jakobs, tomando ácido e escrevendo músicas.
- Escrevendo músicas'? - Porque nunca pensei que Jim pudesse compor. Sabia que escrevia poesia, mas não que tinha se tornado compositor. “'Que legal cara, e como são essas músicas? Cante uma para mim”. - Ele se fechou em negativa:
- Ah não...sou meio tímido e minha voz não é muito boa.
- Se sua voz não é muito boa?! Bob Dylan é famoso no mundo inteiro com aquele guincho que de voz. Vamos lá, cante alguma coisa, Jim!
- Então ele salta da toalha, enfia as mãos na areia e com os grãos escorrendo pelos dedos, começa a cantar Moonlight Drive:
- "Let’s swim to the moon / Let’s climb thought the tide / Penetrate the evening that the city sleeps to hide / Let’s swim out tonight, love/It’s our time to try / Parked beside the ocean on our moonlight drive".
“Vamos nadar até a lua / Vamos escalar a maré / Penetrar na noite que a cidade dorme para esconder / Vamos nadar esta noite, amor / É a nossa vez de tentar / Estacionados ao lado do oceano em nossa estrada do luar”.
- Eu disse: “Ei, espera cara! Eu consigo imaginar exatamente como tocar essa música. Basta colocar uns acordes menores, sombrios, ritmados, num timbre de órgão; algo vindo do espaço”.
Do espaço e da estranheza inabitual de dois amigos miscíveis, estava lançado o feto da banda The Door´s, fenômeno musical americano que se torna embrião com a participação de Robby Krieger dedilhando a guitarra elétrica e uma bateria de fundo, a qual batia forte o anonimato do imprescindível John Densmore. E bastaram uns ensaios para que a banda “parisse” o álbum homônimo “The Door´s” com a faixa “Light my fire; - por mais estranho que possa parecer, foi composta por Robby - sucesso inigualável que os credenciaria a ser os integrantes da banda precursora e de maior destaque no rock americano. E como tal, fica quase a certeza absoluta que numa era dominada pelos gananciosos do dinheiro, poder desmedido e a abastança dos presunçosos pelo consumo rápido, outra banda igual ao Door´s nos EUA, jamais.
Other Apocalypse Now? Yes, man! Other The Door´s band? No man; never more!
P.S.: para aqueles que curtem, valorizam e cultuam Jim e banda, as histórias não cessam por aqui e para manter a memória de ambos, a qualquer momento um novo artigo poderá ser desfraldado pela mente do autor e postado na Obvious; afinal, a fuligem do tempo não pode cobrir de ferrugem o velho e intransponível trabalho artístico daqueles que estão absolutamente vivos; sobretudo, porque a morte nada mais é que o mistério extensivo da vida. Assim pensava os Ases da arte e análogo ao pensamento deles, assim deve-se crer.
vietna3.jpgSobre a guerra, se as fotos não bastam,...
vietna2.jpgfaçamos um minuto de silêncio em homenagem a selvageria dos estúpidos do poder,...
vietna5.jpg contra a ingenuidade dos curiosos e indefesos que, movidos pela inocência, ainda conseguiram sorrir! Esses são pequenos-grandes bravos Homens!
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Crédito das fotos da guerra:http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/guerra-do-vietna-imagens-do-horror/


Profeta do Arauto

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