ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Enquanto não éramos irmãos!

Dizem os saudosos que recordar, lembrar o passado é viver o presente; talvez até seja, pois prefiro alimentar o presente com o que passou, a morrer no ostracismo do esquecimento daquilo que não voltará jamais. Se não quero perecer num instante qualquer, ilusão e sonhos, sempre!


IMG_3594.JPGA pior forma de prisão é aquela em que o prisioneiro não tem consciência da espessura dos ferros das grades que o prende. Enganosamente, aparentemente eles não existem, mas ao bater asas, o prisioneiro tomará conhecimento de seus algozes.

No inicio era tudo brincadeira de dois adolescentes despreocupados com o futuro. Como arquitetos desconhecedores das teorias geométricas, rabiscávamos planos inexequíveis em folhas de papeis limpas. Tudo era inovação; colagem em papel carbono. Gênese em botões de rosas. Pétalas vívidas. Androceu amante da gineceu que despudoradamente fartavam-se seus instintos em palavras vagas. Como oceanos navegáveis e navios esquivos das tormentas, divagávamos o nosso lúdico e incompreensível mundo. Um mundo embora comum, livre dos pesadelos das cobranças. Por sinal, nem imaginávamos que o contrário pudesse acontecer; pois, parecia que nada iria além do que éramos: lunáticos inconhos emparelhados.
Sair de mãos dadas; abrir a porta do carro; ser prioridade em quaisquer ambientes; receber flores aos finais de semana; passear em parques; única companhia para ir ao teatro e cinema, fazia de mim uma mulher, além de primeira dama. Sua finesse de gentleman, cativava e conquistava-me a cada ato. Sentia-me insubstituível. E ao despedirmos, ele “besuntava” meus lábios com o leve aroma da fidelidade. Com quanta amabilidade, sensibilidade e benevolência aquele ser me envolvia. Estando com ele, sonhos e magias aconteciam, bastava deixar-se levar pela fluência das palavras. Pelos leves toques com os quais acariciava-me. Embora não tenha sido educada ouvindo contos de ninar, o nosso envolvimento era um conto de fadas.
Escrevendo, lembrei-me da primeira noite em que criamos asas e fomos visitar as estrelas. Em casa, todos dormiam. Silêncio até dos animais domésticos. Acionei o botão da campanhia que em ocasiões como aquela nos tocava, e numa sintonia além-humana, ele chegou. Despimos das vestes: eu da camisola, a qual suas implicadas investidas e devaneios iniciavam por ela; e você, de seu escafandro preferido. Quando dentro de algum deles, parecia um Platão teorizando o amor não revelado; apenas interiorizado pelas atitudes e brindado pelas constelações.
Vestíamos as asas da liberdade e saíamos vagando a esmo. O universo se abria para nossa passagem. Para aqui, chega ali, observa os vales e fiordes acolá e íamos subindo; quando dávamos por conta, estávamos tocando as estrelas. Cada uma delas irradiava uma energia específica: uma de arrepio; outra de êxtase; outra a sensação de leveza; outra de murmúrio. Uma delas insinuava uma explosão de meteoritos, que se viesse acontecer, mataria a humanidade. Ótimo que tenha ficado apenas no traçado das ideias e estando segura ao lado de um protótipo dele, levava-me a crer que Platão realmente existira.
Com ele aprendi que os olhos que apreciam apenas o externo, saciam o apetite da carne. Porém, aqueles que olham para o interior, despertam a leveza d´alma. Ambígua, mas verdadeira visão do meu sábio Platão.
Outra passagem pra lá de espetacular, era quando ele abandonava o lado platônico e inquiria-me poeticamente. Tomado por um híbrido de sensibilidade e refinada agudeza, recitou:
Quando quer:
Recupera as peças,
Adivinha meus pensamentos,
Perscruta minhas fraquezas,
Disseca meu íntimo.

Em seguida, dando a real conotação de um diálogo e pedindo silêncio para os vulcões, tormentas e aviões, vociferou para os lobos, que imediatamente sufocaram os uivos:

Quando o inverso:
Vento fugaz,
Abismo profundo,
Negrume voraz,
No qual, silencias.
Naquela ocasião, ele devia estar tomado pela debilidade do amor e a fúria dos mares; pois, flutuou do raso ao profundo. Do ínfimo ao gigantesco. Do esquilo serelepe ao bicho preguiça. E naquele êxtase insano sem proporções e limites, ficamos o resto da noite. Longo e curto transe naquela noite em que suas palavras atingiram a minha essência, silenciaram as minhas súplicas, quebrantou o meu ego.
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O nosso primeiro filho, a linda Júlia está com 3 anos, cheia de gracejos e preparando-se para botar a lancheira no ombro rumo à escola. O uniforme em saia pinçada caiu perfeitamente ajustado em seu pequenino corpo ainda em formação; no entanto, já se vê as curvas da bela moça que será. A genética não falha e como dizem, será a cópia da mãe; assim espero, mas o futuro a Deus pertence!
O Daniel esta com 2 anos incompletos. Sorri e ensaia completar o “mama e papa”. Traz consigo a robustez de um touro em miniatura. A casa está ficando pequena para ele e quando deseja algo, choraminga até conseguir o intento. Crianças são autênticas e não menos, chantagistas. Sempre as observamos e em cada sorriso, em cada engatinhando, em cada choro, em cada forro de mesa puxado, em cada mamadeira deixada pela metade, a cada fralda trocada, a cada olhar de soslaio, estamos aprendendo com elas. Crianças unem e desunem.
E nós: eu e aquele que me ensinou a sair do corpo e apaixonar-se por estrelas? O passado distanciou-se do presente, motivo de estarmos vivendo o período das verdades, das realidades na nossa relação. Uma relação desbotada. Insípida. O automatismo do nada, ou do tudo; o beijo que não é um beijo, quando muito um selinho; motiva-nos à irmandade e impossibilita-nos de despirmos das vestes habituais e com as asas das fantasias, visitar as estrelas. Ademais, o confinamento das grades de um apartamento não possui poesia, ideias platônicas, poleiro para os periquitos piar, pomar para as abelhas captar o néctar da florada, regatos para os sapos coaxarem e o monjolo, por onde passeávamos engendramento ideias, diálogos e planos denotados pela liberdade de amar. As assinaturas impuseram regras e baixaram liminares em nosso cotidiano. Oficializamos a nossa união através das assinaturas; e também por elas, a tácita separação.
Agora, vindas dele, a cada cem sins falados de boca para fora, (quando revelados) equivale a um não de coração pra dentro. Fora isto, noto em seus olhos: “até quando ficaremos à mercê, dando bola, sujeitos as palavras que o padre falou”. Por mais que eles queiram, seus olhos não me traem. E se nunca mais fomos os mesmos lunáticos, nos tornamos irmãos constituidores de família. Embora não pensássemos nisto, por mais que não queiramos, não fugimos à regra social de aparentar por fora, o que não somos por dentro.
A solidez do concreto em nome da relação, supostamente perfeita, nos dispensou das fantasias do amor que vagava rumo ao subjetivo, ao inusitado, à completude, rumo à fusão de elos perdidos; fatores que prendiam e tornavam a corrente do amor totalmente independente e livre. Pode-se dizer sem medo de errar que este é o amor que não requer algemas, e por não requerer juras, é amor libertário. Amor sem dissolução, paixão sem ilusão, amor assinado por Platão.
Ano passado fomos “comemorar” a passagem em família. Adentramos à casa: ele na frente e eu com as crianças, atrás. Fomos recebidos pela Blowin'in The Wind; obra prima do Bob Dylan, que naquele instante tornara melódica e suave aos tímpanos na voz do violonista que a interpretava. Sentamos e após breves balbuciares, fomos servidos com um gim tônica com bastante gelo e uma fatia de limão para ele; e para mim, uma coca-cola e depois de horas, uma taça de champanhe.
Diante do alarido, sacamos os celulares e entretemo-nos em olhar a tela. O silêncio insistia em acompanhar-nos. Ele pediu mais uma dose. Mais uma...provavelmente tomou umas dez doses. O momento chegou. Era ano que findava e braços que entrelaçavam-se. Cada abraço vinha acompanhado de um “feliz ano novo”. Ouvia aquilo e nada dizia: para mim, enquanto não éramos irmãos, felizes foram os anos velhos, que não voltam mais.
Disto tudo restou, além dos anos velhos que não voltam mais, a saudade e recordações que são os conta-gotas da emoção que transborda o passado no recipiente vazio, chamado presente. Divagações fantasiosas que só as inabilitadas e silenciosas paredes podem saber.
PS.: Após quatro meses e meio que a autora escreveu esta carta em forma de prosa poética, ela entrou com processo na justiça requerendo pensão alimentícia pela guarda dos filhos.
Foto pertencente ao autor do artigo


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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