ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

A questão sociológica da delação Premiada

A amargura da verdade quando desprendida de hipocrisia e embustes, é atributo maldito que arde nos olhos e eleva a dor angustiada aos instintos mais nobres da consciência.


Em momentos de devaneio, ralhava com o sol por ele ser o astro rei e ter vida própria: não aceitava dois reis em meus domínios. Pela mesma razão, odiava o brilho próprio das estrelas; em compensação, pela dependência de luz, falta de soberania e o recorrente provincianismo, adorava, inebriava-me a lua.

IMG_8784.JPG

Minha vida sempre foi pautada pelo individualismo. Jamais pensei que houvesse hierarquias. Nunca fui disciplinado. Jamais imaginei que existisse Deus. Desde que me descobri como gente, sempre imaginei estar acima do bem e do mal. Feria sem maiores ressentimentos os direitos alheios; usurpava o suor dos amigos e inimigos; infringia as leis deliberadamente; era o primeiro em qualquer fila; fazia uso de poder em qualquer ambiente. Pintava e bordava, pois participava de uma democracia provinciana. Pensava que estava dentro de uma república superada, em que apenas os poderosos tinham vez.

Nos primeiros anos de escola, sem aptidão para os livros, porém devoto de toda sorte de maquinações e traquinagens, pulava os muros, quebrava as vidraças, punha copos de mijo em cima das portas dos banheiro para que meus amigos tomassem banho antes do horário, besuntava as maçanetas das portas com tinta vermelha de caneta para os professores melecarem as mãos, roubava os lanches das merendeiras, metia a mão debaixo da saia das mocinhas, que diziam ser virgens. A única coisa que não fiz, foi incendiar a escola, como o ocorrido no livro o Ateneu, devido a rebelião dos internos; mas confesso que passava pela minha cabeça imitá-lo constantemente.

Se não incendiei uma das escolas em que estudei, pelo menos encaminhei muitos educandos às drogas; isto porque, em vez de ir à escola com princípios de adquirir conhecimento e saber, levava entre os cadernos uma pacoteira de papelotes, os quais acendia uns e servia-os gratuitamente para os interessados e não demorava muito, fiz adeptos e dependentes. Não foi a minha maior conquista, porém, os rastros dela está esparramada pelo nundo.
Participantes do projeto "Leve hoje e retorne amanhã, ao amanhecer do dia, as porteiras de minhas fazendas ficavam coalhadas de crianças com o litro na mão e em cada 2/3 de litro de leite, levavam 1/3 de água; mistura feita pelos meus capatazes com a minha poderosa ordem. Nas vésperas de eleição, enviava para cada pai das crianças um bilhete e a cobrança do leite-aguado servido durante os anos passados. Não tratava para escapar, assim como não perdia oportunidade: titubeou, dormiu no ponto, puxava a brasa para minha sardinha, e vice-versa. Honestamente, em todos esses anos no poder, sempre fui eleito pela pobreza; o rico nunca me rendeu nada.
  • Dia sim dia não, como cão faminto que não conseguira um mísero pão velho para salivar a fome, vagava, perambulava, campeava pelas ruas em busca de uma cadela no cio. Ao sentir o perfume, ao primeiro rumor, arriava as tralhas e ficava por ali todo renovado e esperançoso. Não importava-me o tempo que demorasse, mas que pudesse sair dali vitorioso e após as escolhas das melhores e mais selecionáveis, a que sobrava botava debaixo das axilas e levava para debaixo das árvores ou praças escuras. Não perdoava; fazia o serviço e ansiava por outra. Procurado aos quatro cantos da cidade, após 5 a 6 meses da aventura amorosa, partia em debandada, deixando para trás apenas o meu rastro de “bandido pegador”; motivo de ter instituído no país o Bolsa Família; um terço para negro, pobres e alunos de escola pública nas faculdades; o vale leite e gás; o seguro desemprego que varia conforme a derrocada da economia; bolsa para universitários das faculdades federais; que respondem pela pensão alimentícia que atualmente pago para os mais de 200 milhões de filhos bastardos que deixei à mercê da sorte.
    Em mais uma aventura, enquanto a noite dormia, eu agia roubando carros para vadiar pela madrugada. Tirava racha em vias públicas; não respeitava faixas de pedestres e quando o fazia, pisava no acelerador e gargalhava vendo a sórdida corrida do coitado; em épocas de chuva fazia questão de passar nas poças d´água em alta velocidade para molhar os transeuntes; disparava a buzina em frente aos hospitais e cemitérios para ver se de lá saía alguém com vida.
    Noutra ocasião fui pego numa blitz dirigindo com uma mão e a outra falando ao celular e com as datas dos documentos, tanto meu quanto do carro vencidas. A agente de trânsito apurou os fatos e no momento que ia disparar a caneta para delatar o monte de irregularidades, numa reviravolta maquiavélica, apresentei minha ocupação de alto escalão da sociedade e quem foi multada foi a pobre moça. Para o bem da verdade, muito mais que multa: processei-a em nome da lei, pedindo um valor que jamais ela poderia pagar. A infeliz, para liquidar a dívida, fez campanha pela internet pedindo dinheiro à sociedade.
    Aquele que age com dignidade durante o ciclo vital, certamente não consertará o mundo; porém, em contrapartida, deu sua contribuição na produção de um crápula a menos atormentando a humanidade.
    Ainda em mais uma, cheguei ao aeroporto e o avião estava taxiando. Não pensei duas vezes e fiz como de costume: apresentei minha credencial e impus que interrompesse a manobra da aeronave, como não atenderam, chamei a polícia e por desrespeito à minha autoridade, levei todos os envolvidos no caso à delegacia para prestar depoimento.
    Embora pensasse que Deus jamais pudesse salvar-me, mesmo porque sua existência é mitológica, aos domingos em família ia à igreja e estando lá, enquanto o pároco pregava o sermão, rezava a liturgia, punha-me a imaginar como os homens enganam e reparando nos semblantes, via claramente que de santo, ninguém tem nada. Por sinal, revendo esse conceito e tomando-o como exemplo, aderi a filosofia dos santos, pois depositam em seus pés os donativos e basta um piscar de olhos, imediatamente o dinheiro some.
    Após ler a fábula do rei Midas, nunca mais fui o mesmo e ao primeiro olhar, tudo que fosse visto, gananciosamente, queria que se transformasse em bens materiais, ouro, dinheiro. Com o tempo, olhar apenas, desejar e cobiçar já não bastava, passando a um simples toque, transformava os objetos tocados em ouro.
    Se aos domingos na parte da manhã ia santificar-me na paróquia, à tarde, depois do almoço e antes do futebol, punha-me a maquinar como seria o amanhã. Não perdia tempo, pois ele é precioso e vale cifras, divisas, economias, dinheiro. Na manhã seguinte reunia com os meus assessores para discutir a licitação da merenda escolar, que só poderia sair do papel se a empresa que ganhasse a concessão depositasse à metade do valor contratual em minha conta “caixa dois”. Com o tempo, os desvios (que chamava de donativos e empréstimos compulsórios) tornaram-se infinitamente superiores às ninharias de dinheiro de merenda escolar e enviadas aos paraísos fiscais para serem usadas pelos meus filhos que residem no exterior.
    O poder é o primeiro cargo que não depende de títulos e conhecimento amiúde do cargo; apenas perseverança, astúcia do pretendente, manipulação dos subalternos e em certos casos, quanto mais ignorantes melhor. O segundo são os cargos de confiança. Sobretudo, o poder é cargo que não exige inteligência e saber; apenas...os votos da democracia.
    No campo das negociatas, nas mesas redondas feitas nas caladas da noite, em nenhuma delas, eu e mais alguns camaradas de pensamentos afins, saíamos com as mãos abanando; pelo contrário, em certas ocasiões em que o montante de dinheiro não cabia nas mãos, recorríamos as cuecas, bolsos de paletós e calças. Lembro-me como se fosse agora o dia em que contratei um carro forte para fazer o transporte dos malotes; naquela oportunidade, batemos o recorde de dinheiro advindo de licitações superfaturadas.
    Para comemorar o feito, íamos para as melhores churrascarias da cidade. Lá mandávamos descer da prateleira os melhores vinhos, uísques de mais de 30 anos e champanhes francesas. Extensas mesas repletas com travessas de salmão, o mais puro escargot francês, tenros nacos de filé mignon e carnes diversas. Roliços de tanto comer e beber, cambaleantes, deixávamos gorjeta em euros e dólar para os garçons e cozinheiros. Também tinha meu lado de bondoso e altruísta.
    Aprofundando no campo da política, meu talento interior sempre dizia-me que nada era interessante, se não fosse o governo maior. Sempre quis ser chefe de estado. Como ratos que procuram as trilhas que levam às despensas, enveredei no meio político. Lá a primeira lição que recebi é que o ego tem que estar acima da política, acima de qualquer aliança, acima do próprio poder. Para mim, a cartilha rezava que política honesta, lícita e às claras, como arte de administrar e governar não havia de fato e para sobreviver na política, devia sobrar em politicagem. Pois o povo é assinante do poder com os votos e após isto, mero espectador. Que líder e lideranças são consequências do populismo e quando esta realidade não surte o efeito desejado, a democracia deve ser exercida no grito. Como lição, aprendi também que os conceitos de democracia propostos pelos gregos estão totalmente superados. Aristóteles que se atrevesse a sair da catacumba e recriasse outra democracia.
    Eu sempre fui vil, ignóbil e agia conforme os meus interesses e ocasiões; e superava a inexorabilidade do tempo.
    Ainda “barriga verde” na política, queria impor as coisas na marra: parando indústrias, manipulando sindicatos e trabalhadores. Preocupava-me mais em incendiar os barris de pólvora dos “inimigos de poder”, do que molhar os discursos com palavras amenas, suaves, que tocassem a sensibilidade do eleitor. Este descuido rendeu-me perdas e mais perdas, até que orientado por cabeças estudiosas nas questões sociológicas do país, conhecedoras desse povo que acredita fácil em palavras sopradas ao vento, e daquele momento em diante, mudei radicalmente a minha forma de agir no dia-a-dia, tratar os meus inimigos, ser menos grosseiro de atitudes e parei de serrar o galho de árvore para o lado que eu estava sentado. Tornei-me um lagarto, mudando de cor conforme a incidência do sol sobre mim. Mimetismo político da paz e amor: assim fazia.
    O alquimista que conhece, mas ignora as formulações e as dosagens dos compostos químicos requeridas, falsifica toda a titulação e origens do conteúdo.
    Nunca fui fiel a ninguém. Traía meus amigos, correligionários e aqueles que confiavam em mim. Sou um covarde que traiu, inclusive, a si próprio. Tudo que prometi que faria para o meu inerte espelho, nada cumpri. Dizendo: “esqueça o que disse ontem e não sei de nada do que falam hoje”, pratiquei a infidelidade de princípios éticos e morais. Nunca mereci a confiança de ninguém e através de minhas palavras insensatas e despropositadas, as quais os inocentes e ingênuos seguidores acreditavam, os recompensei com a prática da infidelidade.
    Nos últimos dez anos, a diabete, assim como agia, viera silenciosa e impossibilita-me de enxergar as coisas do mundo. Apossado por ela, uma vez que é uma enfermidade que corrói a corrente sanguínea em silêncio, fiquei cego. Para completar, fui acometido pela demência de Alzeimer e a cada minuto de lucidez, equivale a um ano de esquecimento. Para escrever este testemunho, quando abaixa sobre mim o minuto de inteligência racional, disparo a falar e a minha mulher, a ex-santa de meu lar, que também paga suas contas, moribunda ao lado de minha cama, põe-se a escrever.
    Meu pedido derradeiro é: se ainda houver tempo e a misericórdia divina, que o Criador interceda e releve o meu passado.
    - Agora é que você fala isso, fulano? Você sempre se aliou ao imediatismo contra o tempo, aliás, tudo seus roubos eram para ontem; agora é a vez do “nunca é tarde” de seu inimigo tempo. Às vezes os segundos são escassos e não perdoam o malfeitor. Sem mais: processo indeferido.
    Esta foi a mensagem do lúcifer enviada pelo whatsapp respondendo ao pedido de clemência do Crápula Miserável.
    IMG_0689.JPGA subjetividade da beleza não está na brancura e no alinhamento geométrico dos dentes; não está na lauta refeição posta à mesa; muito menos na maciez da cama e confortabilidade do sofá; a beleza está talvez, no crepúsculo que morre atrás das morrarias, no alvorecer ruidoso ocasionado pela revoada de pássaros que cruza o ocaso, no fio de água que despenca das alturas. Todavia, se ainda paira no ar certas dúvidas sobre sua existência, certamente, a subjetividade da beleza transformada em felicidade está na simplicidade das conquistas incertas e como tal, dificilmente, o conquistador se decepcionará.

    Fotos pertencentes ao autor do artigo


    Profeta do Arauto

    Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
    Saiba como escrever na obvious.
    version 2/s/sociedade// @obvious //Profeta do Arauto
    Site Meter