ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Aventureiro brasileiro tem nome e se chama Amyr Klink

A arte para os artistas;
A pena para o escritor sem pena;
A aventura para os aventureiros.


A corrupção para os corruptos e corruptores;
A batida da enxada contra a terra para os nutridores;
A renovação biológica para os decompositores;
E a arte de desfiar as cordas bambas, para quem a vida, desafia.
Ideal ilusório de todos, realização de alguns!

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Este primeiro artigo abordará a relação amigável entre o economista, aventureiro e escritor Amyr Klink e os arredores da encantadora Paraty. No segundo, um apanhado sobre o livro “Cem dias entre céu e mar” de sua autoria, no qual relata as aventuras e desventuras da viagem que fizera saindo da costa africana até Salvador, Bahia. Viagem soberana a bordo de um barco de 6m, dois remos, um oceano magnificamente azulado, muitas espécies de aves e peixes e obviamente, o equilíbrio de vivenciar a aventura de conhecer os pormenores e as intimidades da solidão, por ela mesma.

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Em meio a tantas bazófias de significados atribuídos à LIA: Liberdade, Independência e Autonomia, quando se lê um livro de aventura, como o que inspirou o autor a escrever o artigo, a sensação não pode ser outra, senão, desprender-se da pequenez insípida, a qual acerca o homem em todos os tempos. Sobretudo, por todos os lugares que se vá, os tatuados pela mesmice estão lá fazendo uma selfie para mostrar aos (sou)fanáticos pelo sedentarismo, facebook, família, bens materiais, filhos, futebol e whatsapp, as aventuras que não realizaram; pois para esses, da igualdade, faz-se nada diferente.

Estendendo a crítica, confesso que já vi cada coisa, cada alegoria, cada acrobacia idiota do “Aparecidinho” no sentido de valorizar o ego e atingir o um segundo de fama, para posteriormente registrá-lo numa selfie, que desanimava a fazer o que pretendia no lugar. Sorte de Amyr que na solidão do oásis de um desértico oceano Atlântico, isso não lhe ocorrera. Pois, inundado pela concentração da travessia e água salgada até onde as vistas alcançavam, qualquer enlevo glorioso poderia levá-lo à fatalidade; e por pensar assim, realizou em cem, o que planejara para 150 dias. Num paralelo com o cotidiano das pessoas, a conquista exige audácia de atitude, minúcias de detalhes e dedicação constante; o que convenhamos, conta-se nos dedos da mão esquerda os que se dispõem a sentir estes desaforos do desafio na pele.
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Paraty. Embora o município pertença ao Rio de Janeiro, está mais para o estado de São Paulo. Nessa cidade histórica cercada pela serra da Bocaina de um lado e no oposto, pelas águas doces e salgadas, nasceu Amyr. Foi também nesse município que os brasileiros divididos entre o império e a colônia viam os carregamentos de ouro, prata, diamantes e pedras preciosas tomarem os rumos da Europa, cujo embarque se dava pelo porto de Paraty, o segundo do Brasil; porque, antes o corsário das riquezas minerais iniciava pelo porto de Paraty Mirim, que ficava nas proximidades do que hoje é cidade; e terminava em alto-mar. A mudança deveu-se mais por questão estratégica para dificultar o desvio e roubo dos carregamentos, do que a necessidade de mudança geográfica. Roubar ou possuir ilicitamente através da lei do mínimo esforço é o que a maioria dos humanos querem e logicamente, para dificultar a ação dos despropositados de suor e trabalho, somente mudando de local o esconderijo das riquezas. Ataque contra a defesa: assim foi, e assim sempre será a maneira de manter o patrimônio intacto.
Por estar praticamente abaixo ou no mesmo N.M.M, (Nível Médio dos Mares) antes de ser rodeada de diques hidráulicos, (Amsterdam é assim) Paraty sofria as consequências de ser uma cidade passível de inundações; por isto, parecendo índio remando pelos estreitos dos igapós amazonenses, Amyr nascera remando uma canoa. As histórias desse magnífico explorador dos mares e demais mundos inóspitos, com suas fieis amantes e esposas de madeiras resistentes, vão muito além de paixão e orgasmo assintomático: são amores desfraldados pelo olhar, reflexão, carinho, apreço, projeto e processos construtivos. Visando obter melhores rendimentos de seu objeto preferido, em cada um deles, ele procurava conhecê-lo nos mais tenros e ínfimos detalhes. Isto ocorreu com a Helena, com a rosa, com a pequena Max, com a fogosa e desatinada Faísca; todas, sem distinção, eram tão bem tratadas por ele, que dificilmente arengavam-se e faziam cara feia quando solicitadas a caírem na água. Vez para outra, havia os inconvenientes entre elas, mesmo porque amantes e oficiais se misturavam no mesmo estaleiro, o que rapidamente era sanado com um passar de mão de tinta especial, com um demorado afago em suas curvas esculturais, com um abraço caloroso dos arrebites e por fim, um beijo molhado nas bochechas pelas águas dulcícolas. Assim feito, a suposta discórdia, o suposto ciúme dava lugar a amistosidade. Todas correspondiam ao amor incondicional de Amyr por elas.
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Possuidor de um harém de “bicudinhas”, em cada travessia, em cada situação, “usava” uma delas. Para não constranger suas esposas e amantes, Amyr as reunia e contando histórias de impiedosos saqueadores, corsários ingratos, arrecifes de corais intocados mundo afora, passava horas e horas soliloquiando para elas ouvirem. Entendia como ninguém os mistérios, as falas não declaradas, os apegos e ao menor impasse da tríplice aliança, formada entre os remos, as canoas e as águas, punha-se de prontidão para o que desse e viesse. Amyr preza(va) pela paz e harmonia absoluta entre todos; mesmo porque, um sistema integrado torna-se mais rústico e menos suscetível de ser abatido pelo inimigo e consequentemente, se transformado em ruínas, seria mais uma embarcação desfalecida nos cemitérios destinados aos fora de uso. Fatos esses consolidados por ele quando ouviu de um velho e tarimbado construtor de canoas: “Amyr, madeira tem vida, descansa os olhos e envolve o espirito. Você vai ver”. E realmente o aventureiro constatou essa verdade e nela passou a acreditar piamente quando fizera a travessia da África até o Brasil.

Para ser um aventureiro de mundos desconhecidos, explorador de lugares inexplorados, desafiador da própria sorte, libertário de si mesmo, desvendar os mistérios de estar só, sem no entanto, deixar morrer os sonhos nos abismos da solidão, o proponente tem que ser arrojado de espírito, estar constantemente importunado pelas curiosidades e conforme a ocasião, estar apto às mudanças. Porém, para quem pretende de fato enveredar nesse lado obscuro e indecifrável da vida, deve-se invariavelmente, ponderar que o medo é um sentimento que impõe barreiras, impede realizações, embaralha as vistas e anuvia os sonhos. É um fantasma encapuzado atormentando o medroso. Quando não, é o rugido de um leão faminto, anunciando à presa que se ela quiser manter-se viva, que mantenha distância. E a presa, ao distanciar do rugido do leão, distancia-se de todos os planos elaborados. O firmamento do céu cai por terra. Mas, em contrapartida, o pensador Ralph Waldo disse que “o medo é um instrutor de grande sagacidade”. Talvez seja por isso que em praticamente tudo, temos a frente e o verso. A ação e a reação. A causa e o efeito. A cara e a coroa. O sim e o não. A planície e o espigão. O doente e o são.
E foi pensando assim que cada herói-aventureiro de seu tempo incentivava, motivava e injetava doses maciças de ânimo para que outros iniciados fossem aclamados como heróis em outras épocas. Cada época demandava uma espécie de busca, conquista e aventura humana, que podia ser realizada em conjunto ou individualmente. Porém, as mais realizadoras, as mais extasiantes eram as aventuras individuais e foi nesta modalidade, que Amyr se lançou de olhos e alma. E partindo do pressuposto que o planejamento é o fundamento da conquista, o senhor dos remos não se decepcionou.
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O aventureiro foi felizardo em nascer numa Paraty em que os olhos ficam inebriados com tanta beleza. Basta uma caminhada rápida, para o andante notar os corredores estreitos, ladeados por retilíneos casarios bem conservados, o abrir e fechar de janelas um pouco acima do nível da rua e a reverência hospitaleira do povo simples que ali habita. Parece que tudo lá foi projetado, primariamente pela Natureza e depois pelas mãos do homem; pois nos arredores as altas e baixas cadeias de montanhas embelezam o cenário; dando uma nuance de ondas marítimas tocando o ocaso ao longe. E ao transpô-las, novos paraísos surgem; como é o caso de Ilha Grande e Angra dos Reis pelos lados do estado do Rio de Janeiro.

Se o desbravador não estiver contente com o que a Natureza lhe propõe, dando um giro de 180 graus acima, a serra da Bocaina, com suas trilhas escarpadas, riachos, regatos e cachoeiras paradisíacas emenda com a serra da Mantiqueira; e ambas, historicamente fazem parte da Estrada Real, percurso bastante procurado por quem não tem medo do imprevisto. Pois, por ali chegava os carregamentos que seriam enviados para a Europa. E se ainda persistir o descontentamento, deslocando-se um pouco mais, chega-se em Ubatuba e Ilha Bela; lugar que quem a batizou com esse nome foi singelo demais, porque a ilha é um ataque à insensibilidade dos cegos. Ao chegar à ilha pela primeira vez, impossível não ficar boquiaberto com o que a Natureza tratou de esculpir ao longo dos anos. Andando por lá, por não ter palavras imediatas para descrever o que via, provavelmente, o léxico tenha criado a palavra inefável para tentar defini-la; porque paradisíaca é pouco.
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Antigamente as histórias de uma pessoa estavam inteiramente ligadas ao ambiente aonde esta pessoa residia. Contrário dos que nascem em certos lugares, mas com a efervescência do sangue nas veias, elevando os sentimentos e sonhos às altas temperaturas e para refrigerar-se, sossegar a inquietude da insolente aventura, precisam fincar bandeira em outros territórios, os nativos quando mais provincianos, quanto mais enraizados forem, mais conhecedores do torrão, serão. E numa mistura dos dois legados, o inquieto Amyr vasculhava e experimentava todas as formas de viver a liberdade e através desse estado vivencial, como é de se esperar dos notáveis escoteiros e aventureiros que não se perdem em mata alguma, possui muitas histórias para contar.
No seu primeiro livro: “Cem dias entre céu e mar”, o qual dedicarei um artigo especial, ele relata que devido as baixas das águas no verão em Paraty, o que torna-as terrivelmente quentes, em companhia de um amigo que para encarar tal proeza também teria que ser um fora de série, saíam em direção às montanhas de Ubatuba, em busca do refrigério das sombras das grandes árvores das florestas da mata Atlântica e banhos relaxantes na mansidão de regatos e corredeiras, ou sob a intensidade das quedas d`água das cachoeiras. Cada aventura, um descobrimento.
Descalços e sem camisa, saíam de casa somente com o desejo de ir e voltar. Trilhando os caminhos deixados por roceiros e caçadores, de vez em quando, paravam para molhar o corpo e comer um pouco da matalotagem que levavam no roto e surrado embornal de muitas viagens, que não passava de um reforçado bolo de paçoca. Sabiam que coisas leves, porém calóricas, são de fácil digestão e nutrem razoavelmente bem; nesse tocante, o amendoim, (preferencialmente cru) a granola caseira e o ovo caipira cozido são classificados como os alimentos mais calóricos e nutritivos dentre todos, que e mateiro nenhum dispensa.
Diante das dificuldades e precariedade, dormiam em palhoças abandonadas ou em casa de nativos. Na ida a alegria era contagiante, porém na volta, o sofrimento batia-lhes às costas e o desespero nas solas dos pés, que inchavam mais que pés de alcoólatras; pois além das rachaduras, ficava uma vermelhidão só devido o inchaço causado pelos espinhos. Obviamente que havia coisa pior que as mencionadas, tal como o enorme rombo na barriga, que sem muito esforço, abrigaria um enorme elefante, caso encontrasse pelos caminhos.
Contador de histórias, igual só ele e em cada uma delas reside as verdades de quem se propôs a ser o protagonista, numa outra aventura mat`adentro disse que desviando das partes altas das montanhas e se não fizesse seria dispendioso de tempo e cansativo fisicamente, foi de encontro a uma região de mangue, daqueles que abrigam muitas espécies de animais oriundos da lama, porém, nada fácil de atravessá-lo.
Olhando os arredores, viu uma canoa e nela a possibilidade de travessia. Pedindo licença e antes de ouvir o sim ou o não do canoeiro, Seu Fernão, meteu-se dentro dela fervorosamente. A certa altura havia uma ilha e o inocente do Amyr sem conhecer àquelas bandas, pediu ao remador para ficar ali. No que recebeu de imediato uma negativa do homem que nunca saíra daqueles arrebaldes, pois segundo o remador, aquela ilha era habitada pelo demônio e sua canoa que embicara por vários lugares nos arredores, jamais iria conhecer aquele local. Amyr silenciou e para aumentar sua perplexidade, o que confirmou o que dissera: “a ilha é cheia de ossadas de pretos”! Pode-se duvidar do que se ouve uma vez, mas duas ultrapassa os limites da verdade. Amyr calou-se de vez. Desta e outras formas inusitadas, Amyr ia tomando conhecimento que cada um em seu mundo originário, conhece os desvios por onde deve-se trafegar com segurança.
Voltando dessa viagem, mais ou menos no mesmo ponto onde pedira ajuda para o canoeiro Fernão, ouvira um batuque estridente de tambores. Escondeu-se numa moita e pôs-se a espreitar os ruídos e a profusão de homens que dançavam e cantavam, rodeando uma fogueira num ritual, o qual soava muito estranho. Invadido pelo medo e a sensação de saber que naqueles confins de mundo havia uma multidão de habitantes e por isto, não estava sozinho, inculcado com o que vira, saiu às pressas, batendo em retirada e sem esperar pelo dia seguinte. Olhar para trás, naquele momento, nem pensar.
Com o passar dos anos Amyr ficou sabendo que a ilha, dita endemoniada pelo canoeiro, era refúgio de negros quilombolas, que impossibilitados de defender o quilombo, eram descartados para naquela ilha morrer à míngua. Ratificando então, a lamentável realidade de que no sistema abrupto humano, a utilidade está intimamente ligada à jovialidade, à força física de servir; e ao enferrujar qualquer peça que possa emperrar a máquina, nada mais resta, a não ser o isolamento e o descarte do objeto inoperante nos monturos da vida.
Para Amyr, em cada aventura que faz, a emoção de viver intensamente cada segundo se renova com as histórias que ouve. Por analogia, nada, mas nada mesmo, vale a verdade oculta em cada semblante; motivo que leva o escritor deste a dizer: “A vida é um eterno aprendizado e nada de saber; porque apenas uma aventura, é uma breve viagem que pode talvez, quem sabe, transformar-se em inspiração para uma vida longa”; afinal, de aventura ele também foi feito. E embora não seja citado nas Escrituras Sagradas, mas vivida pelo filho que enviara a Terra, quanto mais suada, quanto mais penosa, quanto mais sofrida, quanto mais chorosa, melhor!


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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