ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Água para quem tem sede!

Se sou os teus olhos;
Com colírios vis;
Por que me cegas?!


IMG_8175-miniatura-900x600-121787 (1).jpgÁgua para quem tem sede amanhã, porque hoje, tomei o gole derradeiro que foi reservado ontem.

Os processos biológicos, que podem ser chamados de “primeiros socorros” do reordenamento natural de sobrevivência, inspiram os poetas; porém ainda não serviu de alento para o esquecido habitante do ecossistema urbano.
Se mato tua sede;
Por que no nascedouro me matas?
A moda que ainda não virou moda é a moda do readaptar-se. Arrancar da canastra as vestimentas emboloradas que não servem mais. Reconhecer o momento certo de renovar os velhos costumes; excluir os velhos hábitos, porque, começar de novo é preciso. Parar na pista, estacionar no tempo não é preciso e uma hora ou outra, a Natureza lhe cobrará caro por arraigar-se ao inveterado consumo cotidiano.

Ela olhou fixo no horizonte e não notou um pingo de esperança em forma de nuvem. A imensurável beleza da única tonalidade de cor no céu não prenunciava outro acontecimento, senão, sol escaldante e altas temperaturas para os próximos dias; oxalá, senão meses. Como quem busca uma explicação para o inexplicável, dobrou os cotovelos sobre o batente da janela, debruçou o rosto sobre as mãos espalmadas e num misto de desolação e sobriedade, soliloquiou: “nada se vê no ocaso, senão as imagens amargas de um povo que rega com palavras as vidas secas de seus semelhantes; porque sob judice estão os filtros de água de suas casas”. Sem saber direito porque fora invadida por essa ingrata lucidez, a qual tragou sua paz, correu à cozinha para fechar a torneira. Por um lapso de memória deixou a água jorrando.
Morando sozinha na cidade grande, tendo que se assumir integralmente, pagando com seu próprio suor, desde o grão de arroz comido, à barra de sabão de coco que usa para lavar o couro cabeludo oleoso e esbranquiçado pela seborreia, a moça passava horas repensando seus conceitos e hábitos; e às vezes, uma gota de água que ia para o ralo sem à devida necessidade, a tirava do sério e mexia com seu brio. Brio nunca que tivera e num sopro, passou a ter. E deveras, apesar da pouca idade, a cada tic-tac do relógio aprendia que elevadas doses de remédio podem ser o veneno em forma de antídoto para os males de sua precoce responsabilidade. Pois, forçadamente, as parcas economias impunham limites e ditava os novos rumos em sua vida.
A pequena crônica insinua que o sentimento mais nobre do homem está no bolso, mas parece que o brasileiro não faz parte da família dos humanoides e enquanto o produto ou serviço está disponível em grande escala, pouco importa a forma de uso; porém ao escassear, o alarido é regra.
A seca que inspirou Rachel de Queiroz a escrever o livro “O Quinze” completou cem anos no ano passado e para comemorar a data, a falta de água socializou o país de ponta a ponta; e poucos mananciais mantiveram os níveis costumeiros. Foi um verdadeiro “Deus nos acuda” abrir a torneira e não ver uma mísera gota negaceando as mãos que tentava pegá-la a todo custo; triste realidade de não ter um ínfimo fio de água escorrendo pelo cano para lavar a ramela dos olhos. Em 2015, por longos minutos, por longas horas, por longos dias, nas torneiras de muitas casas, o abastecimento foi assim: um jorro de água por um mínimo período e a escassez por um longo tempo.
No entanto, o que essa dura realidade imposta pela Natureza alterou a vida de brasileiros e paulistanos? Num primeiro instante, fora o lamento geral da população, os xingamentos aos perdulários da família e as palavras de ordem endereçadas aos governantes, obrigou-os a repensar as maneiras de como usar de forma racional o pouco líquido que chegava às caixas de suas casas. A mudança de hábitos incluía a diminuição no tempo de banho; usar menos louças e roupas; ser menos exigente com a limpeza do carro e animais domésticos; priorizar o pouco e por mais estranho que pareça: eliminar as escapadas camufladas com a, ou, o amante; etc. Afinal, em qualquer atividade humana, a água é o líquido que nutre os corpos e solvente que limpa a sujeira do esperma deixado nos lençóis da hipocrisia.
Por alguns meses bastante coisa foi alterada na rotina de uma família, incluindo o diálogo, a união e em situações extremas, a imposição. Obviamente que a imposição foi pelo uso moderado, pelo uso racional da água e não por princípios, por elegância familiar, pelo altruísmo, mas sim pela ocasião da falta, ocasionada pela estiagem. Às vezes a Natureza faz ver aos cegos, impõe certas travessias aos deficientes, obriga os humanos à readaptação; processo comum entre os vários elementos que a compõe. Readaptação: de estação em estação, certas espécies da flora e da fauna fazem isso naturalmente; porque na lei natural da vida, ou adapta-se ou morre.
Caso da vegetação baixa, cascuda e retorcida do serrado, que com a chegada do outono e o longo período da estiagem, sem outra maneira de driblar a seca, inicia o processo de autodepuração. E para as raízes não morrerem sedentas por uma gota de água que lhes sirva de seiva, faz a “descamação”, começando pelas folhas. Se não for o suficiente para sua sobrevivência, dos galhos; e sucessivamente. Nesse meio tempo a estiagem se foi, a próxima estação chega e as boas novas retornam ao serrado. Com o renascimento do bioma, o ecossistema, os nichos e os habitats voltam interagir mutuamente.
Nas regiões polares também há vida, mas para vivê-la, a adaptação das espécies habitantes do congelado bioma é constante. Quem olha o urso polar, com sua pelagem vistosa, rosto afilado e caminhado ritmadamente vagaroso não imagina como a Natureza impõe regras de sobrevivência a essa espécie animal; que durante o inverno tira férias das atividades habituais e para evitar a perda acentuada de gordura do corpo, hiberna por todos os meses da estação. No entanto, com a chegada da nova estação, desperta para mais um período magro e fraco, porém apto a viver mais um ano.
Por mais de um mês neste ano, os mananciais da capital de São Paulo não receberam uma gota de água sequer vinda nuvens; o que já reflete em baixa nos seus níveis. O reservatório Cantareira, que abastece mais de 6 milhões de torneiras, a queda é considerável. Em contrapartida, com os “altos” índices pluviométricos das chuvas deste verão, a imprensa e o governo calaram-se, enquanto que a sociedade voltou aos velhos hábitos de consumo e usando o solvente natural em serviços que, entre o uso doméstico e as outras finalidades, preferem o uso em coisas desprezíveis e supérfluas.
Gradativamente as estações estão cada vez mais dispersas e após um mês de outono, as temperaturas estão elevadas, chegando quase aos 40 graus em algumas partes do país; o que não é nada agradável e prenúncio de boas coisas. Com isto, uma parcela de água dos reservatórios é perdida através do processo de evaporação; motivo, portanto, para a sociedade ser mais maleável e menos consumista, pois, usar o recurso água com moderação e parcimônia é um ato de sabedoria, altruísmo e quebra com o paradigma de que o brasileiro é resistente às mudanças, como tem se mostrado.
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A Natureza é justa e através da imparcialidade, impiedosa; e quanto mais inóspito for bioma e o conjunto de ecossistemas, (incluem-se nesses os urbanos dominados pela espécie humana) proporcionalmente faz-se necessário a lucidez de percepção e a readaptação de costumes e hábitos. Afinal, quando se é perceptivo o suficiente aos modelos impostos pela mãe-Natureza, certamente o vivente sofre menos.
Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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