ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico



“O Mistério dos Quintais” é um álbum fora de série!

Ao falar de rock vindo dos extensos pampas rio-grandenses, o que vem à mente do leitor que respira o gênero musical? Imediatamente, de bate-pronto, rápido e rasteiro, dirá: “Os Engenheiros do Hawaii” e “Nenhum de Nós”.


Perfeito, mas bem antes delas, os espectros de certas faixas luz dos raios de sol trouxe à baila a magnífica “Quintal de Clorofila”, cuja magnitude musical advinda de suas canções, transporta os apreciadores da banda para a residência do místico. Portanto, apresente-se no quintal despido de si e vista-se com a roupagem que compõe o universalismo ecumênico. E magistral alquimia sonora!
Rock progressivo sob o refrigério do sol;
Folk à incandescência da lua;
Celta à sombra estrelar;
Erudição andina;
Solo medieval;
Em dó, ré, mi,
Be, mol
quintal_de_clorofila_capa.jpg

Quando São Paulo era a capital do pluralismo cultural do país, podia-se caminhar descontraidamente nos fins de tarde, ou aos finais de semana pelas suas avenidas e ruas centrais ouvindo música, assistindo peças de teatro, fazendo graça, lendo frases de Oswald de Andrade, Mário de Andrade, dentre outros. No canteiro central da avenida Henrique Schaumann, entre Rebouças e Teodoro Sampaio, havia um pequeno outdoor com a frase: “Os pássaros se comunicam pela música”; de autoria do maestro Heitor Villa Lobos.
Os anos passaram, a metrópole perdeu esse lado humano e num amanhecer qualquer, o outdoor desapareceu, o canteiro da avenida despertou solitário, fazendo com que os sonoros pios cessassem e os pássaros canoros batessem asas em retirada, tornando a capital dos paulistas menos cultural, mecanizada, depressivamente barulhenta e proporcionalmente às mudanças, marginalizada. Cultura sem porteiras: descontração e bom humor de um povo.

Voando São Paulo para os campos gerais do Sul, o Rio Grande é um estado fronteiriço, o qual englobava o Uruguai. Notável pelas suas tradições gauchescas, pelo chimarrão oriundo da mais pura erva tomado na cuia, pelos bailes do fandango ao som da gaita de fole; pelo povo do pampa que usa bombacha e apreciava a conquista da liberdade através da revolução armada. Embora a Revolução Farroupilha ou Farrapos, faça parte dos anais da história do país, o artigo versará sobre algo ameno e repositor de energias.

A música quando composta e executada por quem preza pela introspecção e difusão do aprendizado sistematicamente trabalhado durante anos em conservatório e treinamento contínuo, exala um perfume de almíscar, um cheiro de incenso inebriante sobe à atmosfera, elevando às alturas os singelos e levitantes mortais. Sobretudo, os ritmos, os timbres, os estilos e a variabilidade de notas transcendem a aura, exatamente que fizera a banda gaúcha Quintal de Clorofila em seu único álbum.
pylla&dimitri1.pngA foto mostra claramente como o improviso fazia parte da música antigamente; motivo deste estilo de arte não possuir os rótulos da indústria fonográfica.

O que uma banda de rock tem de audível ao receber a pigmentação advinda dos espectros de luz dos raios de sol em forma de notas musicais? Tudo: tudo que há na leveza da simplicidade, tudo que há de fluídico no espaço; todas as matizes de cores, enfim tudo que a expressividade musical pode conter para banhar de sossego a exasperação dos raivosos e iracundos.
Se os pássaros comunicam pela música, os irmãos Dimitri e Negendre Arbo se comunicavam pelas improvisações sonoras dos instrumentos criados por eles. E ambos se afinavam tanto com a música, que de vez em sempre se pegavam batendo, apertando alguma coisa nas mãos e do objeto, tirando as sonoridades possíveis. À lá o multi-instrumentista albino Hermeto Pascoal, os irmãos conseguiam fazer música com telhas de zinco; com serrotes e dependendo da inspiração, de muitos outros materiais. No entanto, os ensaios com tais instrumentos ficaram apenas no improviso e no álbum “O mistério dos quintais”, a banda toca com os instrumentos tradicionais. Embora certas faixas tenham alguma nota tendendo ao psicodelismo, a banda abusa do erudito-clássico. Todas as faixas, do início ao fim, são peroladas com a mais pura sensibilidade musical de cada integrante.
Esse único LP (o bolachão) data de 1983 e foi lançado pelo selo independente Bobby Som. A produção ficou a cargo dos irmãos, que em cada frase das letras, procurou enaltecer os elementos da Natureza, enriqueceu-a com as emotivas tradições dos pampas e com a cultura regional rio-grandense, que por sinal, é bastante vasta e merece, portanto, outros artigos. Soma-se a essa miscelânea cultural-musical, as finas poesias escritas pelo pai da dupla.
A impressionante riqueza instrumental da banda é composta pelos músicos:
Negendre Arbo: Violão, Casio, Banjo, Guitarra, Bandolim, Percussão, Metalofone, Microharpa, Porongo, Voz.
Dimitri Arbo: Viola 12 cordas, Saxofone, Flautas: transversa, doce, soprano e contralto; Ocarina, Percussão, Voz.
Participações Especiais:
Paulo Soares: Violão base - faixas 1, 4, 6.
Canário 'Geminha': Backing vocal - faixa 9.
Antonio Carlos Arbo: Voz - faixa 10.
Sequencialmente, as faixas são:

quintal_de_clorofila.jpg

Cada faixa trás uma particularidade e o transporte inicia com o duo entre violões e bandolim, caracterizando um dos estilos mais velhos da história da música, que é o medieval. Introduzido o vocal, a letra envereda por alamedas que cobertas por elevados pinheirais, imploram pelos raios de sol e os flashes lunares; exatamente como nas aventuras de Bilbo Bolseiro em o livro “O Senhor dos Anéis” do R.R.Tolkien, ainda se lembra? A letra de “Liverpool” por sua vez, é atribuída aos quatro Beatles.
Entretanto, contando com uma letra que une poesia naturalista e bucolismo, a dica é a faixa “Balada da Ausência”. E caso o leitor tenha a oportunidade de ouvi-la no isolamento de uma casa de campo, longe dos ruídos e roncos de motores, mais próximo possível do trinado de pássaros e quanto mais compenetrado com os elementos da Natureza; fatalmente será abduzido pelo seu inconsciente para lugares indescritíveis. Sobretudo, a visibilidade está para a cegueira das vistas, como o impossível está para a abstração da mente; razão pela qual, os coerentes não se atrevem a afirmar que o mel é doce, mas que parece doce, afirmam com certeza.
Quintal de Clorofila é a suave transformação da nota sol em fotossíntese, realçando o brilho das iris dos olhos dos ouvintes!


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico .
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