ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

"Anjo de quatro patas” - Walcyr Carrasco

Câncer esparramado. Falecimento. Separação do casal. Alívio para quem parte; imensa dor para quem fica. Recomeço. Como anéis de fumaça, tempo que esvai-se. Morte do amicíssimo cão Uno. Desespero e consternação. Juramento desfeito com chegada da cadela vira-lata, Ísis. Das ruas veio o feliz repensar sobre os conceitos de adoção e do amor incondicional à vida.


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O amor. Ah, o amor! Provavelmente se perca pelos caminhos; ficando nas recordações.
A dor. Oh, a dor! Certamente a dor caminha por onde as pernas caminham. – O autor deste
“A verdadeira amizade entre um homem e seu cachorro” – Walcyr Carrasco
Baseada em fatos reais, uma história comovente que desvenda o amor incondicional entre humanos e animais. Reflexão necessária para os dias atuais; os quais, humanos se unem aos animais domésticos, separam-se dos humanos e vice-versa.
O livro é infantil, mas a trama entre um homem e o seu cão, um husky siberiano de olhos azuis claros, focinho comprido e afunilado, duas ventas arredondas, língua escarlate e pelos macios e sedosos; definido como “Peludão” pelo escritor é amor incondicional e exemplo para a raça canina pequena e adulta de duas patas.

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Uno vivia em território distante com seus donos sem jamais uivar, (porque huskys não latem) sem tomar conhecimento se Valcir existia e embora fosse irmão do antigo possuidor do cão, o escritor jamais imaginaria que um dia Uno fosse do fundo de sua cozinha; dormisse abraçado com ele na mesma cama; perscrutasse as intimidades de sua alma e usasse a mesma escova de dente que ele. Não, escovar os dentes com a mesma escova, como faz os humanos, é demais. Definitivamente isto não, tudo menos isto!
No entanto quisera a roda gigante que giram os acontecimentos familiares, que o cão fosse parar na casa do escritor. E o mais inusitado: sem Valcir dizer com firmeza se queria o animal de papel passado e tudo mais, ou não. Nunca tivera animal doméstico. Casado, morava com a esposa no cubículo semelhante a uma “caixa de fósforos”, denominado apartamento e a primeira privação imposta pelos condomínios aos condôminos, é ter animais domésticos de grande porte em casa. A maioria dos animais domésticos exigem espaço, liberdade e amor incondicional dos donos. Alguns deles são sensíveis e emotivos; e quando ficam sozinhos no apartamento, choramingam desesperadamente. E como descrito por Valcir, é o cão que é o legítimo dono daquele que se acha dono; pois, além de tudo girar em torno dele e para ele, exige fidelidade. Certos animais são ciumentos.
Os primeiros capítulos do livro são marcados por passagens terrificantes e no desenrolar da trama, capítulo por capítulo, Valcir expõe ao leitor os seus consternados sentimentos. Um sofrimento aparentemente insuperável pela perda da esposa, que fora acometida por um câncer. Sem a menor possibilidade de recuperação, nem sinal de convalescência, por recomendação médica, pois pacientes em fase terminal precisam morrer nos braços de quem os ama, levou-a para casa. Oferecendo-lhe carinho, amigável e constante presença, procurando de todas as formas (chegava esgotar todas as possibilidades e forças) aliviar as suas dores ele esteve ao seu lado ininterruptamente até os últimos segundos de vida. Fez o que pôde. Por muitos demorados dias, tentava consolar-se da profunda tristeza dizendo para sua consciência espiritual: “Vida que segue”.
Mas custou tempo para reatar, emendar, seguir. Quando a angústia de não ter alguém próximo para conversar, sorrir, xingar, chorar, desabafar e a falta da mulher amada apertava-lhe a garganta, comprimia-lhe o coração, era o mesmo que amarrasse-o a uma âncora. Sentia-se preso, afogando-se em sentimentos e o pior, sem meios de se salvar. Contrariando o machismo reinante à época, em momento algum Valcir deixou dúvidas que chorar também é para os machos. Tristeza e emoção duelavam avidamente por espaço nas emoções do escritor.
Casa nova. Uno se apresenta. Hóspede que chega trazendo um pote, um resto de ração no saco, o instinto da raça, bastante desconfiança, olhares suaves e meigas peraltices. “Vim em definitivo; não aceito mais que dois donos; governar mais que dois quintais; daqui não saio mais, exceto com você, meu inquilino. E adianto: além de não pagar a ração que como, vou dar trabalho, sim! Pronto, apresentei-me. Sem mais: Uno”.
Uma mata nativa nos fundos para oxigenar a mente. Estrelas cintilantes inspirando sonhos e poesias ao frescor da noite. Velhos sentimentos que insistem em importuná-lo. Agora mais um problema: Uno não dá sossego, ao contrário, escala os fios de arame, pula cerca, vai ao lago, ataca os patos e solitário na mata devora-os às escondidas. Maldito ou bendito Uno que veio morar nessa casa? O cão tornou-se tão querido, tão amigo, que entre cuidar dele e retomar a vida afetiva, Valcir prefere dialogar, namorar e beijá-lo; pois ninguém ama o que não possui, ou o que é possuído. O bom desse relacionamento firmado pelo desvio da estrada e o vazio do acaso, é que aos poucos ele vai se reencontrando, vai tomando pé no abismo da perda. Uma recaída de manhã, um tropeção à tarde, uma levantada na moral amanhã. A vida dava sinais que seguia para Valcir.
Nova moradia. “Apartamento Uno”? “Claro que não: casa. Exijo meu espaço e se possível, uma companheira. Gostei de pular a cerca; mesmo com os jatos de água fria no lombo, deleitar com as chamas, galantear e finalizar o ato, amando sem receios; perpetuar a espécie. Esqueceu que sou pai de três lindos fofuchos?!”
Não foi dessa vez que Uno caiu do caminhão. Cumpridor fiel do que rosna, ou melhor, uiva; resistia feroz aos traslados. Espaço menor. Uivos... uivos diurnos atrapalhando os serões entre o escritor e a visita inesperada. As velas que se apagam, uivos ecoam pela madrugada sem luar. Escrevendo para uma revista especializada sobre cães, o sábio cão escreve suas próprias crônicas. Biografia de cachorro é sempre uma incógnita. Com isto, torna-se o primeiro cão independente, inclusive custeando suas despesas.
Velhice. A inevitável velhice! Verrugas pipocando pelo corpo de Uno. Morte prenunciada. Valcir cai em desespero. Como acontecera com a esposa, faz o impossível. Filme revisto. Fraqueza medida pelas pernas cambaleantes do cão. Constante vai e volta do veterinário. Uno internado. Cirurgia complicada. Ligação da clínica: “Venha logo, o mais rápido possível”. Consternação. Crise de choro. Para lá Valcir se foi.
“Tentamos. Estava bem até quase agora. Infelizmente não deu”. Vácuo. Vazio. Oco. Surdo. Silêncio consternado. Abraços. Frieza de Uno. Cemitério. “Melhor cremar”. Desilusão de chegar em casa e não ter ninguém esperando para conversar. Abanando o rabo arrebitado ou não; uivando interesseiro pela comida, apenas; dando trabalho; perda de sono. Fim!
“Prometo para mim e por tudo que há de mais sagrado que animal nenhum pisará o quintal e fará morada em minha casa. E nem fora. Juro”.
Se não tinha mais com quem conversar, passar raiva, desabafar as corriqueiras angústias do cotidiano, Valcir corre para o computador e tornando o escritor, “abre o coração”, na crônica que seria enviada à redação da revista no dia seguinte. Palavras, afetos, emoções, sentimentos de um coração esmigalhado pela perda do derradeiro amigo. Um cão amigo (e nada de amigo cão, como dizem) que jamais imaginara se separar.
Edição que circula no mercado. Por ter escrito e enviado algo tão pessoal, tão íntimo, contrário do que pensava, chove tempestades de cartas, turbilhões de e-mails e correspondências chegam parabenizando, dando depoimentos semelhantes, oferecendo o ombro, dando os pêsames ao envergonhado Valcir, que de certo modo, mostrava-se arrependido por ter aberto ao público algo tão particular. Animado. Motivado. Inspirado. Reconfortado, retoma o lema: “Vida que segue; mas definitivamente não viverei sob a tutela de animal nenhum. Bastou Uno!”
Vida que segue. Sabe-se lá aonde vai dar. Praia. Fim de semana ensolarado. Visitante sujo, sarnento aparece sem ser convidado para conhecê-lo. Dócil. Carente. Recebe carinho e some sem dizer adeus. Apaixona-se pelo bicho. Feita à caçada. Noite que cai. “Quero levá-lo comigo; merece um lar”. Como um torniquete apertando-lhe a garganta, um ponto de interrogação, seguindo de exclamação: “Onde dormirá”? Solilóquio: “se muitos cães humanos não possuem, não será aquele intruso-andante de quatro patas que esteve aqui, que terá”! Intensifica a busca e nada.

caes-vira-lata01.jpgAmor e doação não se medem pelas orelhas caídas e olhar esgarçado. Porque no rito da compensação e oportunidades está escrito que a tristeza de hoje, pode ser a alegria amanhã!

Trabalho: vida de roteirista de novela é pedante. Escolhas são escolhas. Telefone que toca: “você ainda quer aquele cão sarnento que vimos aqui na praia?”. “Só se for agora; onde está”. Euforia e apreensão. O dia esperado. Uma cadelinha de rua, esquálida, magra, desfigurada dando o que falar entre os amigos. Valcir aproxima da cadela. Total e amplo derretimento. “Se não quiser, minha tia quer”. “Nem pensar, ela tem dono, ou melhor, ela é minha dona”. Confidências entre o súdito e a cadela: “Vou aonde você quiser, princesa de quatro patas! Sou todo seu. Definitivamente seu”.
“A vida se renova, os sentimentos desabrocham”.
“Meu cachorro me ensinou a amar”.
“Estou pronto para me apaixonar novamente”. – Valcyr Carrasco
Legado moral deixado pelos cães de Valcir para os cães humanos: “quem adota um cão ou uma criança não escolhe pedigree, raça, cor, tamanho, dotes, religião, clube de futebol, partido político. Quem adota interessa-se apenas em saber os significados do verdadeiro e puro amor. Quem adota, adota o todo, porque ama; e ama o conjunto inteiro, porque adota. Amar e adotar são sinonímias; afinal de contas, há algo mais subjetivo do que adotar o amor”?
Enquanto Carrasco completa o nome do novelista, o cão saído de uma fornada, a qual se esperava dez ou onze “biscoitinhos peludos”, foi o único e por isto, recebeu o nome de Uno. No entanto, para Valcir que não foi ( não é) carrasco, Uno não foi o único da espécie de quatro patas que habitou sua casa. Aliás, ensinou-o que bons e profícuos amores devem ser revividos, o que deve ter levado o escritor a repensar sua decisão e dando nova chance a si, provar da essência, do néctar de adotar um novo amor. E como consequência, ser adotado pelo amor de Ísis, que pôr ser de rua, o am(a)ou muito mais; afinal, não ter e passar a ter endereço fixo, residência, família, é uma aventura fascinante e prolonga a vida de quem respira o intempestivo e animalesco mundo dos homens de duas patas.
Comovido e com as lágrimas em tempo de se desmontarem nas faces, porque sabe muitíssimo bem o que é o amor incondicional da adoção e vice-versa, assim espera o escritor deste.
P.S: Embora o livro tenha sido escrito rigorosamente na primeira pessoa do singular, o escritor do artigo adotou o nome Valcir para denominar um suposto protagonista. Motivo: pode ser que em alguma passagem do livro, Walcyr tenha se valido da ficção e assim sendo, obviamente que todos os acontecimentos e fatos não teriam ocorrido com ele; exceto os ininterruptos anos vividos com a alegre e contagiante (des) obediência do cão Uno.


Profeta do Arauto

Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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