ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

A Medicina e literatura de Guimarães Rosa à luz bruxuleante de candeeiro

Nos entardeceres, praças e lares;
Hora do ângelus e dedos de prosa;
No livro “Grande Sertão: Veredas”.

Nele o cerrado é literatura;
Cordisburgo, Minas Gerais, Brasil;
Fértil pedaço de chão,
Localização geográfica de João Guimarães Rosa.

Médico que levou pr`aquele penado povo,
Um pouco de vida; um pouco de cura.


IMG_7862.JPG Do conto do sabiá laranjeira ao grasnado do inhambu / Das desavenças de Cipriano com a terra, aos desencantos de Ernestina com o amor / Entram estórias de mula sem cabeça, do boitatá, da congada e do pássaro uirapuru / Isto sim é a generalidade das Minas varonil / isto sim é História do Brasil! [000116].jpg
Quanto mais ouço as tolas bazófias daqueles que desconhecem suas raízes familiares, mais aproximo-me desse país continental. Também puderas, com esse tamanho todo, com toda essa pujança cultural e gigantismo territorial, belas histórias de homens idealistas e corações frágeis, nunca faltam. Abaixo os mundos distantes e vamos a mais uma delas.
Não sei hoje, mas peço permissão àquele povo comezinho, de fala arrastada e sorrisos humildes nascidos em tempos idos, para dizer que Cordisburgo é uma pequena loca, um pequeno torrão de terra encravado no Centro-norte de Minas, que morrerei dizendo que é Gerais. Por que Gerais? Porque o mandou no país economicamente, politicamente e lógico, culturalmente. Portanto, Minas Gerais é uma maneira simplória de simplificar o simbolizado pela grandeza do estado no contexto histórico do Brasil. Como tamanho não é documento e conforme a remoção, adubagem do solo,será a plantação e a safra; embasado nesta ideia, a qual espécies nanicas podem brotar pendões gigantes, o pequeno e esquecido município produziu para o país e o mundo o fantástico médico e escritor João Guimarães Rosa.
Certamente, um cidadão acima do conceito de cidadão, que os atuais médicos brasileiros fazem questão de não ler sua biografia; afinal, os “funileiros” restauradores de vidas cobram valores exorbitantes para ouvir os batimentos cardíacos do moribundo, motivo da vinda dos médicos de fora, o que veladamente deflagrou a desnacionalização da profissão. E se essa trupe que desconhece Guimarães Rosa pensa que a cura para as doenças devem ser paga a preço de ouro puro, pela lei matemática da proporcionalidade, a saúde está para a doença, assim como a vida está para morte em proporções exatamente iguais. Ditadora, ela não aceita nem a massa de um fio de cabelo a mais ou a menos como pagamento pelos préstimos e imposição. Ademais, nos maniqueísmos: saúde-doença e vida-morte, os volumes postos nos pratos da balança de qualquer vivente podem ser diferentes, mas as massas são exatamente iguais. Negar essa verossimilidade é o mesmo que querer livrar-se das intempéries, morando em casa sem teto. A atuação dos fenômenos da natureza é inerente ao querer e razão do homem.
Guimarães Rosa viera de família abastada, frequentou boas escolas, pertenceu a elite local; mas nem por isto deixou de reconhecer o quanto é penoso lidar com a terra e através do cio da terra, alimentara fome do mundo. Na casa onde morou, transformada em museu particular e patrimônio cultural municipal, pilhas de livros se amontoam nas prateleiras, denotando o apego do escritor à leitura. Naqueles livros velhos e embolorados, os quais a maioria registra(va)m os ditames humanos de que conhecimento era (ainda é) sinônimo de riquezas, poder e domínio; para Guimarães, dominar o conhecimento não significava (como significou) dominar um povo; principalmente o seu povo. Sobretudo, seu lado humano-fraternal logo cedo dava sinais do idealismo coletivo acima da unicidade; acima do individualismo introjetado nas células dos humanos ao ser fecundado. E esse pensamento humanitário fez nascer em Guimarães um coração em formato de rosa que jamais se despedaçaria. Uma rosa que cairiam as pétalas naturalmente pelo domínio do tempo, mas jamais pelo domínio do homem e a infertilização do amor.
Ainda jovem formado em medicina e automaticamente na frente do nome, adotaria o pronome doutor, o que o município Cordisburgo e o extenso cerrado esperavam de seu filho ilustre? Sabendo que os homens da caatinga nunca foram (como não são) vistos com bons olhos pelos doutores da política e medicina pública, Guimarães comprou as montarias, encheu os alforjes de mantimentos, arriou a mula, extirpou do ego, o doutor. E sem justificativas para quem o interrogasse, deu início à sua andança pelos arrebaldes do cerrado.
Com quatro ferraduras tinindo, livre de feridas e assaduras e constantemente medicada, a mulinha trotou em direção aos isolados moradores dos grotões da caatinga. Por aquelas bandas, o cerrado é bastante diverso e de tempo em tempo, a vegetação rasteira dominada por pequenos e retorcidos arbustos de copa arredondada, feito saia de moça virgem quase esbarrando no chão,aparecem ao longe. De perto,o medonho lamaçal exigem forças sobrenaturais do animal. Os buritizais, além de serem espécies de árvores esguias e altas, formam verdadeiros corredores no meio aquático. E essa deve ter sido a visão de Guimarães para intitular o livro “Grande sertão: veredas”. Pois imenso é o território do bioma cerrado, tanto quanto o contraste de vegetação e raízes culturais do povo com quem convivera por alguns meses. Sem que ninguém lhe dissesse, naquele paraíso de rostos esquálidos, encontrou de fato os porquês de ter escolhido a medicina como formação acadêmica, esclarecendo-se pelos dedos de prosa, a literatura como exercício do passatempo e descontração.
A história de João Guimarães no cerrado brasileiro repassa vagamente as aventuras do louco e decrépito Dom Quixote sobre o lombo de um quadrúpede em busca de conhecer-se, tanto ele quanto o seu meio. Sempre primando pelos ideais de justiça e verdade e acreditando que tais virtudes são intrínsecas ao homem, e para que o evento ocorresse bastava que cada um agisse com bom senso e humildemente reconheça o erro cometido; tudo não passava de sonhos. Onirismos de um desvairado sonhador contrapostos pelos fatos e acontecimentos da realidade cotidiana, vistas e ouvidas apenas pelo interlocutor Sam Chupança, seu companheiro de estrada.
Sol a pino. Tentando dirimiras dúvidas com as próprias dúvidas sobre a alternância biológica imposta ao ambiente pela Natureza, parando para espichar as pernas, esparramar corpo onde havia um resquício de relva macia e pousar a cabeça numa pedra para mirar o céu e observar a terra operar suas mudanças no planeta, divagava Guimarães. Ao sentir que estava sozinho naquele oásis inóspito, confabulava os causos para a mula; pois, como participante ativa, reconhecia que ela também estava interessada em saber os mistérios e as aventuras do lugar. E ai dele se não a reconhecesse, não a tratasse bem, não fizesse valer o tratado firmado entre ambos! Sua brava conquista estava nas mãos, ou melhor, sob as forças físicas e as patas dela. Se ela empacasse, adernasse nas manhas ou fizesse morrinha, adeus viagem; todavia, trocando carícias, seguiam felizes da vida!
Durante o dia a missão era medicar os nativos e após executar as tarefas de médico da família, tirava um tempo para ouvir o dedo de prosa que os nativos trazem guardadas nas mangas das camisas. Das mais comuns as mais absurdas, estórias é o que não faltavam; ao contrário, se uma era pura picardia, outras reflexão; como o causo entre o patrão e o capataz:
- Na noite retrasada, uma tempestade, uma chuvarada com fortes rajadas de vento e intensas trovoadas haviam quebrado galhos, destruído barrancos e engolido a pinguela que dá aceso à estrada que leva à casa de Divaldo. O rio subiu uns bons metros. A água barrenta sopitava e criava redemoinhos que chegavam murmurar pedindo passagem às encostas. Teve lugar que cavucou fundo. Com água não se brinca. Encontrei ele e seu filho,Dermeval, lutando feito dois bois bravos, no arraste dos troncos. Por enquanto uma passagem provisória resolveria; com o tempo, faria uma coisa mais engenhosa e segura; pois não dá para parar a saída da produção da fazenda por causa da reparação de uma pinguela. Chegam os dias parados para a construção de pontes.
Lançou uma tora sobre a parte onde as águas estavam relativamente mansas. Atravessei. Pedi que me acompanhasse ao chiqueiro. Falador que só, comprando e vendendo um dedo de prosa, contou-me que o decrépito barão Jurubeba, por não reunir forças nas pernas e a virilidade de um macho potente, daqueles bom de pernada como já foi, deixou escapar o cio de três porcas noviças. Virei um leão com Divaldo, que faltou com a obrigação de falar comigo o que estava acontecendo no meu terreiro. Tem que falar antes, depois não adianta nada. Minhas coisas não são coisas de andarilhos sem lar. Qualquer saco roto é mala de viagem. Em tudo que é meu, mando eu. E se essa estória de ficar em silêncio e não falar dos acontecimentos, aqui, vira moda? Um dia o prejuízo será com os porcos do chiqueiro; outro, do curral com o gado; outro, do terreiro com as aves. Falei bravo com ele que tomasse juízo, que fizesse as coisas com responsabilidade; pois carinho nunca é demais, e que aqui não é Brasília, não; onde bate-boca, bate-boca e depois comem a pelota de angu na mesma gamela. Aqui deixo a despensa aberta e pardal não rouba fubá. Sou conhecido nos arredores. Sim senhor, aqui na minha fazenda tem dono e liderança; mando eu. Vou deixar de latumia e parar com esse dedo mindinho de prosa d´eu comigo mesmo, porque tenho mais o quê fazer.
O coitado nada falava, quando resmungou alguma coisa, com a voz mais pra dentro do que pra fora, disse que como ia saber que as porcas entraram no cio de uma só vez? Porque uma por uma, o danado do barão dava conta!O moço sabia que o bicho é osso duro de roer, tá morrendo, mas não entrega: farejou o negócio, tá no ponto, dispara a mola. Êta elástico da moléstia que rende um bom dinheirinho para o patrão! Mas acho que o tempo também está chegando pra ele.
Tive que dar razão pr`aquele infeliz, pois sabia que animais é igual gente, e com o tempo fracassa também. Ser macho não é para qualquer um, em qualquer ocasião e com o tempo, fica no passado; ainda mais com essas comidas de hoje, a fraqueza bate nas canelas do fulano logo cedo. “Tá faltando tutano”: falei para ele; “que povo fraco mesmo, tá vindo por aí”. Se os homens tem que dar a mão à palmatória, com os animais não é nada diferente. Com o coração pulando no peito em tempo de sair pela boca, fui acalmando; mas não pedi desculpa, não. Para encerrar essa chateação, disse que providenciasse urgente uma cria boa, um bicho promissor, que deixasse de lado um macho de futuro; porque a safra prometia. O danado do Divaldo só fez assim: “Anrham; tá bem patrão”. Para esse povo, não pode ser dado bola e às vezes, humildade pouca ocasiona atritos, arengas e mortes. E humildade demais faz agente repensar o mundo, foi o que fiz. E com seu silêncio de homem da lida,além de ouvir as sentenças,o que fazia sem resmungos, já me sentia melhor.
De cima do barranco, com os braços dobrados sobre um mourão achatado, o capataz mostrava-me a porcada. De longe parecia bonita, vistosa, bem tratada,motivo para esquecer o enrosco de emoção de minutos antes. Preparando para retornar, porque o tempo era curto e muita coisa esperava-me, ele aponta o dedo, mostrando-me as três porcas que perderam as barrigadas por falta de um potente barão. “Se tivesse prestado atenção ao serviço, nada, nada, teria acontecido e em breve teria mais uma ninhada no chiqueiro roncando”; rosnei para ele. Como um torniquete estrangulando minha garganta, a dor chegou a galope, atacando meu coração. O sangue ferveu. Notando que estava em tempo de explodir, Divaldo despistou dizendo que iria tratar das galinhas, pois já era tarde. O que era verdade, pois a manhã já esbarrava nas garras da tarde e logo-logo morreria aprisionada. É família, é empresa, é fazenda, é carro de boi que quebra, é ponte que cai, é barrão que num dá mais no couro, é capataz que não fala o que devia ser falado, e um dia só não dá pra resolver nada.
Tendo aquele povo o que falar e sem papas na língua, esperava apenas o ouvinte certo e com o dom para ouvir, o que Guimarães Rosa possuía de sobra. Dedicando às 24 horas ao trabalho, à noite se não ia trotar a mula pelos caminhos solitários, enquanto o sono não batia, punha-se a escrever as estórias que ouvira. Às vezes, enquanto ouvia o dedo de prosa, ininterruptamente reproduzia-o no rascunho. Outra hora, acompanhado pelo contador, escrevia-o à luz do candeeiro; iluminação rudimentar, porém mais acessível e fácil de lidar que a lamparina, cujo combustível para a queima era a gasolina ou querosene.
- Aquilo é rixa velha. É coisa não acertada e agente comete o erro de ir deixando, deixando e quando vai ver, a ruma de neve está tão grande que não dá passagem nem pra gatos. Não dá em territórios dos outros; aqui, a lei é o palavreado de quem fala mais alto. Não vai ficar assim não, pois aquilo vale mais, muito mais do que três barrigadas de porca. Ali dá leitão que só. É ouro! Ainda mais que sopraram nos meus ouvidos que vem investidor pesado por aí. Disseram que vão comprar terras pedregulhosas a preço de ouro. Imagina quanto custa as minhas; com nascentes em demasia; mata fechada pra cá e acolá; pasto de puro capim gordura a perder de vista. Muito dinheiro; mina de dinheiro, isto que é. Mas antes tenho que acertar as contas, lembrar o passado e fazer o “cabra” ver que agora a lida não é mais com o meu pai não; que por ser bom demais, passava por bobo. Na vida agente tem que engolir o tempo, e não ser engolido por ele; porque tempo vale uma gorda bolada de dinheiro debaixo do travesseiro.
Vou subir as ribanceiras com meia dúzia de capangas armados até os dentes, ou quantos forem necessários. Quero ver se não resolvo. Com o bicho gente não adianta dialogar, não adianta esclarecer, não adianta procurar palavras no dicionário; às vezes tem que ser à base do cala-boca, tem que ser na linguagem “do trinta”. Lembro bem que meu pai conversou muito, fez o que pôde e acabou largando pra lá. É... mal sabe ele que isso foi com meu pai, mas com o filho dele, é outra conversa. Já mandei recado e nada de resposta. Eu não sou de falar, ajo. Deu, deu; não deu, é porque vai dar. E vai dar de um jeito, ou de outro.
Embora os dois textos acima sejam criações fictícias do autor deste e por isto não existe em nenhum de seus livros, João Guimarães fez questão de reproduzir na escrita, a linguagem mais real possível falada pelos nativos. Uma linguagem rasgada, direta, sem rodeios e envolta nos constantes maneirismos regionais. Sobretudo, no imaginário daquele povo, o sim e o não, a conquista e o fracasso; vida e a morte; e as crendices amarravam com nós cegos a emoção dos personagens. Fatos e acontecimentos se misturavam, e em questão de segundos os contos iam do inferno ao céu; com Deus e o diabo duelando pelo mesmo território.Em terras assombrosas, de homens poderosos e valentes, o desrespeito pelo alheio não era mera invencionice e ficção.
E nessa de bater de porta em porta, comer um guisado de pequi aqui, tomar café com biscoito de goma acolá, dormir ao relento, ouvir as lamúrias e glórias de um, a desolação e os medos de outro,o isolamento e as esperanças do povo, montado sobre uma generosa e resistente mula, o legendário João Guimarães Rosa simplesmente vagou cerca de três meses por muitas léguas de chão batido no cerrado brasileiro derramando sorrisos nos lábios e alargando lágrimas nas faces, levando um pouco de qualidade de vida aos que dedica(ra)m suas vidas a semear os grãos na terra e se pudessem expressar os seus sentimentos através de um recital de poesia em vez de dedos de prosa sob o fio de luz bruxuleante de candeeiro, talvez dissessem:
O semeador semeia para si / Assim como semeia para outrem.
Se precisar, também semeia, à meia / As sementes que fazem germinar em solos desérticos e áridos / os frutos da paz, do amor e do bem.
Dentre as inúmeras sementes selecionadas / Nos jardins, pomares e colmeias,
Se ainda restar uma / Semeie a semente / Semeador!
Apenas uma,
Porque o volume e a safra são consequências da qualidade dos grãos semeados!
Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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