ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Quando o amor pelo ofício supera o dinheiro e as palavras!

"...com vocês, Dominguinhos":

Olha isso aqui ta muito bom;

Isso aqui tá bom demais...


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José!
Vá para ser recebido pela horda de anjos
Tocando viola, sanfona, gaita e acordeom!
Poucos foram os humanos que se dedicaram ao oficio, como Einstein à teoria da relatividade; como Machado de Assis esmiuçou as letras e palavras em suas crônicas e contos; como Leonardo da Vinci com os empirismo e as artes; como Amyr Klink navegou os mares com seus barcos e canoas; como Santos Dumont amou suas loucas invencionices; como médico Dráuzio Varella ao bisturi e o ausculta; como os desarmados Ghandi e Mandela combateram em nome da libertação de seu povo; como o diligente gari que limpa cuidadosamente a frente da casa de quem não o conhece...como Dominguinhos à sanfona.
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Imortalidade: o que é excelente já nasce e obviamente, não morre jamais. Este conceito filosófico deve ter sido criado pelos deuses maiores e fazendo jus ao projeto, distribuído para alguns iluminados; porque é admirável à sensatez como certas mentes vieram parar neste espaço amorfo e fadado ao desaparecimento trazendo na bagagem tanta perseverança e volúpia de realização; e no bojo dos que foram catalogados a dedo, estava Dominguinhos, aquele que seria um súdito da sanfona.
Embora fosse filho de pai afinador e acordeonista, cartomante nenhum ousava predizer que Dominguinhos seria o que foi. Entretanto, como trabalhar supera a leitura das cartas e tarôs, o menino do interior de Pernambuco literalmente abraçou o objeto que mais se aproximava de seu coração e para quem nada tinha, um minúsculo presente era tudo. Porém, o cartão que acompanhava o presente impunha que o sanfoneiro teria que ganhar o minguado pedaço de pão apenas com o presente. Missão nada fácil, porque a princípio, ele tocava pandeiro.
Assim, aos seis anos incompletos, Dominguinhos e os demais irmãos fechavam uma roda, cuja finalidade era alegrar as feiras de Garanhuns e cidades vizinhas. E quando perguntados se o trio de sanfoneiros em miniatura tinha nome, sem titubear, respondiam que eles compunham o trio “Os três pinguins”. Sorridentes, porque sabiam que tristeza não lhes garantia vaga no céu, talvez tenham escolhido esse nome em razão do calor forte e a seca avassaladora, a qual, o sertão onde nasceram se entregava. Embora novos, já haviam percebido que para tocar as notas da vida, bastava algumas toques de ironia ao som do acordeon.
No início da década de 50, o trio fazia uma apresentação de rua ao lado do hotel em que o já consagrado Luiz Gonzaga estava hospedado. Ouvindo de seu quarto aquele forro pé de serra danado de bom, curioso e defensor ferrenho de suas raízes e cultura, o rei do baião pôs-se a indagar de onde vinha toda àquela animação musicada; no que ficou sabendo que estava mais próximo que ele pensava e não resistindo, foi apreciar de perto. E ao ver e ouvir, simplesmente quedou boquiaberto com a desenvoltura dos três, principalmente de Dominguinhos.
Nas conquistas, o que para os indolentes e cautelosos é pura sorte, para os arrojados, obstinados e desprendidos é disciplina e competência, atributos estes que o rei do baião via naqueles raquíticos, porém alegres sertanejos, motivo de convidá-los para irem para o Rio de Janeiro; o que aconteceu somente quatro anos após o contato com o forrozeiro.
Vá José Domingos!
Leve consigo o gibão, o chapéu de couro, a zabumba, o triângulo e as angústias de suas raízes.
Vá ver as alpercatas dos pés cascudos dançando alegremente o forró pé de serra; que é a linguagem musical dos doutos que não necessitam de cifras e teorias.
Estando no Rio, foram ter com o rei do baião, pois o que conheciam de cidade grande era apenas o mar de Recife. Luiz recebeu-os, ensinou-os sobre os caminhos das pedras e presenteou Dominguinhos com um acordeom e por certo tempo os acolheu; porém, com a explosão rápida do sanfoneiro em sua equipe, as coisas mudaram de repente. Não contando com esse imprevisto, cada um foi obrigado a buscar seu espaço e os meios próprios de sobrevivência. Mas nem por isto caíram em desespero, sobretudo, a desgraça jamais os afrontou, mesmo porque, suas vidas não ficariam piores do que eram.
Disposto a trabalhar com o que lhe fosse oferecido, Dominguinhos se atirou à construção civil. Trabalhava arduamente carregando latas e mais latas durante o dia e a noite abraçava o acordeom no peito e dava uma “puladinha” nos cabarés, (simplesmente necessário, afinal de contas, as lambisgoias prestam excelente serviço social para aqueles que curtem um chamego bom e barato; o deve-se entendido como salutar e necessário, pois se no mundo houvesse mais amantes do anonimato, haveria menos viadagem declarada) bares, hotéis, churrascarias e quando aparecia uma oportunidade, sem pensar se os sinos dobram pelos homens aguerridos, engalfinhava os dedos no teclado e fazia o fole rebolar em suas mãos. Dançando compulsivamente, não havia conterrâneo que recordasse das agruras passadas; afinal, estava na presença do gemido do acordeom pertencente ao sorridente e festivo Dominguinhos.
Vá se juntar a Lampião, Patativa de Assaré, Mestre Vitalino e ao rei do Baião.
Pois, nos últimos tempos, dentre os comuns da terra, Fostes o deus da sanfona.
Este estilo de vida lhe acompanhou por muitos anos. Até que em meados da década de 60, com o nome artístico de Neném do acordeom, aproximou-se de personalidades ligadas ao rádio, que abriram as portas para que ele apresentasse um programa de tradições nordestinas e através deste, novos horizontes se descortinaram; e a fluência foi tão grande, que gravou o primeiro disco. Após esses eventos, podiam não conhecer o músico Dominguinhos, mas o Neném do acordeom era praxe nos shows de cantores consagrados, tais com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Betânia, Chico Buarque dentre outros; porém foi em parceria com Zé Ramalho que mesclava M.P.B, forró, baião e rock ao seu estilo musical, que ele consolidou toda a sua competência de músico e sanfoneiro.
Não estacionário no tempo e deixando se levar pela complexidade musical que imperava no país, Dominguinhos fez arranjos também para cantores da bossa-nova, gênero que englobava o jazz. Todavia, com os prestimosos auxílios da compositora e esposa Anastácia, com quem escreveu mais de 200 letras, consolidou sua carreira com ritmos nordestinos.
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Dominguinhos reconhecia sua deficiência com o microfone e embora tenha composto uma enormidade de letras, não se atrevia a usar a voz para divulgá-las. Caso das músicas “Abri a porta e Lamento sertanejo”, que ficaram conhecidas na voz de Gilberto Gil.
O sanfoneiro tinha umas tiradas típicas de matuto-sertanejo e uma delas era o pavoroso medo de viajar de avião, fato que causava certo desconforto nos integrantes e amigos de forró. Se alguém dizia que viajar de avião é seguro, com menores probabilidades de acidentes, mais rápido e menos cansativo, o acordeonista respondia dizendo que a morte não marca com precisão o horário, a data e o local aonde vai estar. Se ainda insistissem dizendo que ele não cruzaria com ela, que a morte dele estava longe e não viajava no mesmo avião que ele, resoluto dizia: “Concordo! Pode ser que viaje no avião em que a minha data e local não tenham sido estipuladas; mas, e se for a data marcada para o piloto; ou alguém da tripulação, ou de alguém que viaja ao meu lado? É melhor não arriscar”. Para evitar maiores desavenças e cobranças, Dominguinhos tornou-se o motorista oficial do automóvel-ônibus que transportava os integrantes da banda pelas estradas do país.
yamandu-miniatura-900x675-147360.jpgNesse duo de violão e sanfona, entre Yamandu Costa e Dominguinhos o repertório foi exclusivamente clássico e originou um álbum esplendoroso, embora pouco conhecido.
Tardiamente ou não, por tudo que fizera pela música de modo geral, merecidamente o sanfoneiro foi congratulado com vários prêmios. Destaques para o prêmio Tim de Música Brasileira recebido em 2008. E o prêmio Shell de Música que aconteceu em 2010.
Ao lado de seu inseparável objeto de estimação, por qual jurava amor eterno, nos últimos meses de vida, o incansável missioneiro dos costumes nordestinos em parceria com um conterrâneo, se dedicava à apresentação do programa Vira e Mexe na rádio U.S.P (Universidade de São Paulo).
É chegada a hora: vá Dominguinhos!
Vá receber o seu galardão,
Que é ser aplaudido pelo soberano Deus;
Presente que poucos deuses da humildade merecem.
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Como uma criança ciumenta que ganha um presente e nunca mais o larga, assim foi Dominguinhos com suas sanfonas.
Então, vá Dominguinhos!
Infelizmente para os brasileiros, José Domingos de Moraes faleceu em São Paulo no dia 23 de julho de 2013; todavia, felicidade daqueles que celebram o tradicionalíssimo São João no céu, festa que o sanfoneiro tanto alegrou aqui na Terra.
De volta para o aconchego.
A vida é uma infalível e irônica peça de teatro que quando menos se espera, o protagonista encena o que foi escrito por ele mesmo. E foi exatamente isto o que acontecera com Dominguinhos, que para atender o seu único pedido em vida, transladaram seu corpo para uma região metropolitana de Recife; para três dias após as homenagens póstumas, levá-lo num caminhão aberto até Garanhuns, cidade em que nascera e depois de tomar na cara a poeira das muitas estradas do país e do mundo, fixar sua morada definitiva. E embora parte do traslado tenha sido de avião, nada mais justo para quem amou a sanfona, a música e o ofício, acima do dinheiro e das palavras. Portanto, vá e sucesso Dominguinhos, porque as conquistas e realizações divinas são definitivas e mais necessárias do que as que se obtém na Terra!
Texto escrito na ocasião do falecimento do músico.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
Saiba como escrever na obvious.
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