ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

A banda de Blues revolucionária de conceitos

Revolução? Como revolucionar o que não se tem! Realmente, o blues não é um dos estilos musicais mais difundidos no país; mas dentre o pouco que existiu, a banda Blues Etílicos liderou o ranking por uma década, chancelou uma geração e com o diferencial ao tocar os acordes, revolucionou o estilo.


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Antes de relatar algumas curiosidades especificamente sobre a banda, vou pincelar uma particularidade que me ocorreu, quando Blues Etílicos estava no auge; época em que tinha conhecido uma “figura”. Vindos de escolas de vida diferentes, sempre que nos encontrávamos, os assuntos variavam conforme a ocasião, porém, invariavelmente, entrecortados pela cultura. Assim como os personagens “Eduardo e Mônica”, música e letra da Legião, discutíamos os significados duais entre o fogo e a água; do céu e o inferno; do homem e a mulher. Nos debates, viamos nitidamente o celebre Maniqueu boquiaberto na catacumba.
Banhávamos o imaginário nos contos mitológicos dos Gregos-romanos, nas viagens fantásticas de Bilbo e Frodo do livro “O Senhor dos Anéis”, nos desvendes dos mistérios que cercam a “Operação Cavalo de Troia” de J.J Benitez; sobretudo, podíamos não saber de nada, não entender de como cozinhar um ovo, temperar uma salada, fazer um miojo; no entanto, nos metíamos a discutir as relações mais intrincadas dos homens iluminados em um planeta que estava na mira da obscuridade de outros humanos; que por vezes, o rock progressivo tentava desvendá-lo.
Através das teses e teorias infundadas, desprovidas de senso racional-lógico, tínhamos o universo sob nossas palavras e questões políticas, sociais, psicanalíticas, quanticas e filosóficas eram pautadas nas sessões, como iguaria facilmente digerida pelo organismo. Pelas divagações e sapiência dispendida a elas, como dois nobres e esfarrapados mendigos intergalácticos do conhecimento, viajámos por mundos distantes, sem competição e livres do medo. E após observar a estrela inexistente, filosofando a alertava: “Somos aquilo que o medo não consegue impedirmos de ser; portanto, o medo não nos mete medo; ou melhor, mete medo naquele que é medroso. E voce, prestimosa amiga, esta abaixo do sol e muito além da ousadia feminina. Creia e amplie os seus horizontes”.
Contudo, quando o assunto recaia no quesito música, um navegava pelo Oiapoque e o outro voava para o Chuí. Pura oposição. A desigualdade de opiniões tornava o papo acalorado, porém, longe de um acordo. Tudo por que, o que ela conhecia sobre o samba, música sertaneja, M.P.B e outros ritmos, eu conhecia; no entanto, desconhecia os estilos oriundos dos rebeldes; o qual se enquadra o rock, o blues e o jazz. E o pior, a “peça rara” não mudava de ideia nem que o céu despencasse sobre sua cabeça. Depois de muito insistir, estimulá-la da necessidade de ampliar os conhecimentos, ela se deu por vencida e aceitou ir a um show qualquer de música alternativa. “Ufa, até que enfim!”, rosnei realizado pelo feito. Pois, a pior coisa é fechar-se hermeticamente, limitar o já limitado mundo. Assim a pequenez de horizonte será enorme, gigante.
Eureca! Regado ao som etílico da banda, o blues estava fazendo uma temporada no Centro Cultural São Paulo. Uma vez que havia comentado com ela sobre a banda, o significado ideológico e parte da história do gênero musical, não titubeei em comprar um par de ingressos para um dos shows.

Ondas sonoras propagadas em alta-voltagem. Dentre as muitas, está é uma das definições para o álbum San-ho-zay, cuja turnê era divulgar o melhor álbum da banda e provavelmente, do blues brasileiro. A banda iniciou o show tocando algumas faixas desse segundo álbum. Em seguida, emendou com mais algumas do anterior, “Água Mineral”.

Creditos- Nicolas Iacovone.jpg Reunidos na mesa de bar, cerveja e blues são as marcas etílicas da banda.

Ao meu lado, a pessoa roía as unhas, enrolava as pontas do cabelo, franzia a testa, se comia por dentro e de vez em quando, parecido juiz em difícil audiência, arregalava os olhos. Eu via tudo e tinha a certeza que os trejeitos que ela adquiria no decorrer do show não era por motivo de desgosto, desprazer de ouvir as novidades; ao contrário, era pelo êxtase o qual fora invadida. Gozava aos poucos; e se ela nada dizia, não seria eu o intruso a tirá-la do orgasmo musical, por qual passava; mesmo porque, o orgasmo feminino não dura mais que quinze segundos e menos que uma eternidade de espasmos. Eu queria mais e a obscena gaita do Flávio ajudava; quando um relâmpago clareou a sala-teatro e o estérico e mirrado guitarrista Otávio Rocha deitou no chão e pedalando o ar, agonizou o solo “Crossroads” do Eric Clapton.
O êxtase foi geral; e cortado por um brado escandaloso da pessoa que estava comigo, o teatro entrou em erupção: “Caralho, isso é um coito elétrico. Quê coisa maravilhosamente maluca! Por que demorei tanto para conhecer essa porra!” Parando de tocar e pasmos pela inesperada lisonja, a banda aplaudiu de pé a doideira de minha amiga. Sem outra coisa a fazer, gargalhei que só; pois a música tem o poder de induzir o ouvinte à experiências nada habituais, e liberar o verbo sobre o que está sentindo, é uma delas. Cena inesquecível. Detalhe: ela estava sem nada na cabeça, nem uma mínima dose, nem um disperso anel de fumaça estonteando o cérebro. Naquele momento, estava apenas desnorteada pela bela barulhada etílica de blues-rock liberada no espaço pelos integrantes da banda.

Caretíssima: esse era o seu estilo de ser. Não só ela, eu também, sobretudo, porque para caminhar nas nuvens, não é necessário drogas ou dosagens excessivas de álcool. Depois desse episódio, bastava chegar as quintas feiras, que ela comprava o jornal e ia direto à sessão “Diversão, lazer e cultura”. Não perdia um show de rock, sequer. Eu? Tornei-me acompanhante e consultor de assuntos relevantes e fundamentais para a cultura aliviadora do tédio urbano. E não só isto: especializei-me em consulta sobre assuntos, planos e estratégias inexequíveis humanas.

Os movimentos estudantis colaboraram ativamente para a cultura, principalmente a cultura alternativa; de modo que era fato corriqueiro os estudantes das maiores Universidades do país promoverem a socialização da cultura através da música e teatro na maioria dos campos. Mudando as características de programação, até pouco tempo esses eventos eram comuns, caso do “Bem Brasil”, que ia ao ar pela T.V Cultura ao meio dia nos domingos e a gravação era no campus da USP São Paulo.

Ribeirão Preto, cidade do interior de São Paulo, em comunhão com a classe estudantil da USP de lá realizava vários eventos musicais, abrindo espaço também para o blues. No final dos anos de 1980, a cidade promoveu o primeiro Festival Internacional de Blues; com a banda Blues Etílicos abrindo o evento e Buddy Guy encerrando a apoteótica noite de blues.

A banda nasceu de um embrião incerto; pois o guitarrista era cabeludo e embora conhecesse de blues, afinava mesmo era com o rock pesado. Talvez isto seja a explicação da banda adotar nos acordes uma levada rápida e notas contagiantes, motivo de certas músicas serem ligada quase que inteiramente ao estilo do rock; com a guitarra, o baixo e a bateria dando o peso ideal do som. Aliás, o primeiro disco da banda é marcado por uma pegada somente roqueira, já os demais, alternam entre o blues e o rock. Essa talvez seja a característica marcante no estilo peculiar e único da banda, e a difere do blues tradicional; àquele modorrento, arrastado e cantado sob a rouquidão de um vocal e letra lamentosos.
O primeiro disco foi gravado por um selo pequeno e não foi nada impactante. Contudo, ao participar do festival de Ribeirão Preto, a banda conseguiu visibilidade no mercado fonográfico e além das muitas apresentações, o segundo álbum foi uma aposta da gravadora Eldorado, selo alternativo da rádio de mesmo nome e ambas, pertencente ao Jornal do Estado. Com a explosão repentina e os mais de 40 mil exemplares vendidos, a banda garantia a prensagem do terceiro álbum pela mesma gravadora; assim definido pelo magistral gaitista, vocalista e mentor da banda, Flávio Guimarães: “É difícil falar em marco do gênero, por mais distanciado que estejamos, mas não há dúvida de que foi um trabalho importante. Foi um dos primeiros discos de blues genuíno feito por artistas brasileiros”.
Por volta de 1985 a banda se largou na estrada com apenas três integrantes. Anos depois, dois novos personagens integram o grupo. Ambos caem excelentemente bem ajustados ao estilo de som produzido pela banda; e embora americano, o guitarrista e vocalista Greg Wilson cantava com perfeição em português e encarregava-se de puxar as letras em inglês. O outro foi o baterista Gil Eduardo, que mesmo não sendo o alvo dos holofotes, fazia um tremendo rebuliço com as baquetas atentando os pratos, caixas e bumbos; encerrando a completude da banda.
Uma das características marcantes do Blues Etílicos é o instrumental e a banda deixa as fortes pegadas dos instrumentos na música “Cachorrada”, do álbum “Dente de Ouro” de 1996 e “Águas barrentas”; (se lembro, esse é o nome) duas levadas musicais espetaculares que vai do solo de guitarra, ao som contagiante tirado na gaita pelo Flávio. O estilo psicodélico também está presente no trabalho dos bluseiros. E “Espelho Cristalino”, letra e música de Alceu Valença, também interpretada por Zé Ramalho; e alucinando as mentes puritanas e ingênuas, Raul Seixas com “Canceriano sem lar” foram lembrados e já fizeram parte do repertório da banda em shows ao vivo.
Blues Etílicos foi (ou é) o trago exato de rebeldia revolucionária no blues brasileiro; e para revivê-la novamente, que ousem fazer, o que a banda ousou. Se não, blues na terra de corruptos e sambistas, nunca mais. Quem ouviu, ouviu; quem não ouviu: que leia as histórias de uma banda de blues perdida na era moderna do funk e outras porcarias mais.


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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