ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

De Tião Carreiro, passando por Pink Floyd, desembocando em Iron Maiden e Metallica na viola

Profissão: violeiros.
E filiados à mesma energia cósmica;
Graças a Deus;
Não menos: realizados roqueiros!


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O que esses dois amigos que viviam separados por uns bons quilômetros: um em São Paulo e o outro na região Sul de Minas Gerais tinham em comum? A união através do gosto diletante pelo mesmo instrumento: a viola. E por valorizar os divulgadores e precursores; gostarem incondicionalmente dos acordes que o instrumento pode lhes proporcionar; dedilhar as ricas sonoridades rítmicas em cada nota e se perderem amigavelmente nos sarais e rodas, eles investiram todas as fichas na profissionalização do violar. E aludido ao aforismo, que quem com os galos despertam, a despensa enche; quem se dedica ao trabalho com afinco e louvor, com belos regalos adornará a mesa.
Assim como Ricardo Vignini e Zé Helder precisavam da viola, o instrumento precisava dos violeiros para quebrar, desmistificar o paradigma que viola e violeiro são coisas de caipiras, daqueles que vivem atolados até os últimos fios de cabelos no grotão, ouvindo o grasnado de inhambus e siriemas, campeando e ordenhando as rezes e esgaravatando o solo para retirar o alimento; como é o regime de vida desses heróis da terra.
Para esses entendidos a intelectuais que rotula(va)m a viola e o tocador do instrumento como alguém a lado da arte, o blues (a palavra no inglês arcaico significa spleen: melancolia; e também foi representada como o mal do século na segunda fase do Romantismo) nasceu nas regiões habitadas pelos negros pobres e bravos serviçais do senhorio americano, que se reuniam na boca da noite para contar histórias e lamuriar, derramar nas cordas da guitarra as lágrimas de seus desprazeres e desencantos de pertencerem a uma sociedade discriminadora e dividida em castas. Mais tarde, bem depois, o blues juntamente com o jazz, serviram de amuleto para o rock clássico.
Semelhante ideia pode se aplicar ao trabalho desses dois “monstros” brasileiros da viola, que estão conseguindo romper com as barreiras do desconhecimento, provando que a versatilidade do instrumento é conforme o que dele se requer; fato que obedientemente, a viola executa. Portanto, da viola pode-se extrair maravilhas e como comentado no artigo sobre o violonista Robson Miguel, quando afinada e sensivelmente tocada, as notas viram preciosidades auditivas nas mãos de quem sabe usar o instrumento.
Quando adolescentes, os violeiros acompanharam de perto a transição da música “brasileira”. De um lado, a M.P.B estava no ápice; e do outro, o rock. Este gênero passava por profundas alterações sonoras, com o rock progressivo deixando de lado as longas viagens permeadas por solos de órgão de tubo, de teclado Hammond B3, de baixos agudos e guitarras acústicas, para dar lugar aos sintetizadores e moogs. Lamentavelmente, abolindo a criatividade nas composições e notas e aderindo ao estilo “mecânico”, começava a era eletrônica no rock progressivo.
Ainda sobre rock, outra vertente empunhava as guitarras e pedia passagem; e enquanto o hard descia a ladeira, o heavy subia o volume. Embora os músicos do ascendente gênero tivesse tomado da água cristalina nas reminiscências do rock, este estilo se caracterizaria pelas batidas retumbantes das baterias; pelos pedais, originando fortes gemidos de guitarra, resultando em quase puro metal. Estava, portanto, criado o heavy metal; e quem liderava o estilo musical era o Iron Maiden. Alguns metros atrás, estava Van Halen e outras. A variedade era tanta, que mesmo pesadas, algumas bandas eram mais sinfônicas, outras mais metalizadas, exemplo de Judas Priest e Ramones (banda que tendia mais para uma pedrada punk). Os primeiros discos de rock comprados por Vignini foram dessas bandas.
Essa miscelânea musical caiu como bomba na cabeça dos dois jovens e se espalhou como pólvora acesa em campina seca; no entanto, qual instrumento se dedicar? Talvez pelas raízes, o mineiro já soubesse a escolha, mas e o paulistano? Todavia, magicamente, quando os dois suspeitaram do que queriam, o universo fez os seus esforços e arranjos e telepaticamente, os empurrou para a viola e com o tempo, os amigos sorriram felizes.
Os dois se conheceram casualmente em 2006 e sem maiores aspirações, firmaram parceria. Tentando a sorte, abriram um pequeno “ateliê” de música e até certa época, sobreviviam apenas de lecionar as cifras e notas retiradas de cada instrumento. Porém, ao recepcionar os sonhadores, normalmente cabeludos, calças desbotadas e tênis meia vida que apareciam pedindo umas aulas, perceberam que os desejos da mocidade giravam em torno do rock. O que não era para menos, pois bandas como Metallica, Iron Maiden, Black Sabbath, Ac-Dc e outras, mesmo que respirando por aparelhos, ainda mantinham o fôlego. Fora as bandas de heavy, fazendo rock-pop, havia muitas bandas vindas de Seatle; denotando o "renascimento" do rock internacional.
- Nós sentimos felizes porque esse projeto nasceu quase como uma brincadeira para mostrar aos nossos alunos [somos professores do instrumento], o potencial da viola. E acabou se tornando ‘gigante’ com apresentações em todo Brasil, EUA e Argentina. Conheci o Zé na produção de um disco dele em 2006. Essa nossa parceria é valiosa. Hoje temos mais maturidade. Tanto tempo na estrada, se não existir uma afinidade com o parceiro não dá para aguentar.
Prossegui Ricardo: “Quando lançamos o primeiro álbum, um neto nos mandou uma mensagem dizendo que tinha dado o disco para o avô que adorou. Sacamos uma coisa: a quebra de preconceito; e por mais que esses gêneros sejam diferentes, muitas coisas são similares e devido a paixão de seus adeptos, muitos chegam a ser radicais, porém, fãs verdadeiros”.
Mas para matuto-violeiro que se preza, nem tudo que se quer, pode; e primando por abordar a riqueza musical que a viola proporciona, se algum adolescente chega à escola com estilo de Neymar ou Neirio e fazendo firula com a guitarra, querendo aprender a tocar rock, irredutíveis orienta dizendo que devem passar pela peneira da moda e do pagode de viola: “Muitos chegam querendo tocar Metallica e Iron Maiden. E eu digo: Primeiro vamos aprender Tião Carreiro e Pardinho. Se você quer aprender guitarra, tem que saber Jimi Hendrix, mas se vai tocar viola, o negócio é com o Tião Carreiro. A mão de um é diferente do outro"; resume qualquer um dos violeiros.
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E através do virtuoso encantamento que a viola proporciona, além de resgatar a puríssima música sertaneja e o melhor do rock clássico, unem gerações que estavam paradas no tempo. Com isto, pais que eram roqueiros, passam apreciar a moda de viola e vice-versa. Já os filhos, além de aprender a dedilhar o instrumento, aprendem a história e as muitas variações de notas que podem ser extraídas da viola. No entanto, quando os radicais-extremos medem forças, tanto do rock pesado, quanto da moda de viola, Vignini esclarece:

- Somos crucificados dos dois lados. Os metaleiros dizem que tocamos Metallica com instrumentos primitivos. Já os violeiros afirmam que estamos ridicularizando a viola.
Ataques à parte, para os amantes da boa música, tocar um estilo ou outro, com um instrumento ou outro, é o que menos importa; ao contrário, o que vale mesmo é a competência sonora posta à obra final e nesse tocante, os violeiros são ases. Tanto que quando pensaram em “profissionalizar” o trabalho, a dupla pinçou um nome que ao ser lido chamasse atenção do público; e eis que surgiu o “Matuto Moderno”. Por que “Matuto Moderno”? Além de não perder o contato com as raízes, através do nome, chamaria atenção para união, tantos dos mais velhos quanto dos mais novos na mesma nota; numa operação pais e filhos. Foram cirúrgicos, pois a teoria suscitada é ato praticado e pais e filhos lotam os teatros, aplaudem, assoviam, compram camisetas e os álbuns.
Em 2007 lançaram o “Moda de Rock - Viola Extrema I”. Produzido por Ricardo Vignini, o disco foi masterizado no lendário Abbey Road Studios, em Londres e lançado pelo selo Folgueto, que é dedicado à música de viola. Surpresos com o sucesso estrondoso e a plena aceitação dos ouvintes, os inimitáveis violeiros lançaram o segundo álbum com o mesmo nome. Recentemente, lançaram o álbum solo instrumental “Na Zoada do Arame”.
Suas apresentações ao vivo contam com participações de exímios violeiros, tanto desconhecido, como famosos; caso de Renato Teixeira. No tocante ao rock, guitarristas como Pepeu Gomes, Kiko Loureiro, Andreas Kisser e Robertinho de Recife, em nome da sinfonia-histérica, esmerilham as cordas das guitarras; tornando o espetáculo visceralmente rock-pagode de viola. Sem preconceitos, a dupla transforma o espetáculo numa jam session de amigos para amigos.
Zé Helder tem dois discos solo: “A montanha” e “No oco do bambu”. E como não bastasse, o seu currículo é composto por diversas participações com outros artistas; inclusive com o Índio Cachoeira, outro fabuloso violeiro. A trajetória de Zé na música conta com 11 discos lançados; assim definida por ele: "Acho que o fundamental é encarar a música com naturalidade, sem preconceitos e se divertir com o que está fazendo". Em suas considerações, nota-se claramente que ele respira a cultura caipira, aquela que enaltece o sertão, o luar de prata, o bater da porteira, os pés de sola cascuda do matuto, o laçado do boi, desde que nasceu. O rock por sua vez foi apenas consequência dos laços que prendem a viola à guitarra. Acima de tudo, a fina e expressiva linguagem sonora não escolhe o músico e os instrumentos que tocam suas notas.


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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