ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

“Eternas ondas”. Só vendo para crer!

Quanto mais ouço o alarido dos fenômenos da Natureza, proporcionalmente, menos acredito no silêncio dos ecos aflitos dos humanos.


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Não, não me venha com elogios, com palavras açucaradas, sentenças caramelizadas que você acha que são significativas, selecionadas para as minhas proezas, adequadas sobre minha pessoa; porque, além de não merecer, sou cético. Sim; ceticismo ao que é propagado pela boca do homem! Até certa época de minha vida dava certa importância ao que diziam a meu respeito; mas de certo tempo pra cá, tornei-me incrédulo e desconfiado; temor que só se desfaz ao presenciar a verdade, ver in loco o ocorrido. E foi esta a realidade vista pelas minhas vistas.
Saio para um pedal pela região circundante à represa que abastece quase dois milhões de pessoas em pelo menos, cinco cidades. Água é o líquido que todos precisam e em contrapartida, o que menos valorizam. Incomum e raro é algum sedento e desidratado pedir um copo de água, em vez de um litro de refrigerante.
O roteiro total prevê 70 km de subidas, descidas e retas de terra batida que se fecham ao longe, abrem-se ao aproximar e ao ficarem para trás, voltam a fechar. À medida que a quilometragem diminui, o abre e fecha do fio avermelhado em meio ao verde da vegetação, ora no infinito, ora pedalado vai ficando para trás e chegar ao ponto partida, é a meta. A tarefa é árdua e laboriosa; mas se não sou de aventura, suor, lágrimas, sangue e superação, por que teria eu de ir? Então, não lamuriava, não lamentava o suor derramado; ao contrário, sorria um sorriso meio pálido, tal qual a manhã que descortinava sobre os morros e vales.
Com as chuvas abundantes, muito acima da média para o período, a represa transborda água pelos vertedouros e brinda-me com um azulado na superfície que mais parece um céu ondulante naquele pedaço de Terra. Belo e inebriante espetáculo! Esta é a definição do que vejo e não era para menos, afinal de contas, a inteiração com a Natureza contagia.
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Sol? Não, não havia sol! No entanto, era a palavra mais falada; e ele, o sol, era quem menos ouvia. Naquele momento devia sofrer de profunda surdez e como os urbanóides que deleitam-se com o bem-estar de uma cama confortável para espojar o corpo até às tantas horas do dia aos finais de semana, o rei celeste aderiu a moda. Motivos é o que não faltavam, pois um friozinho originado pelo vento cortante atazanador de orelhas mantinha a inquietude das folhas nos arvoredos. Sobretudo, sol e vento se cobriam com um grosso manto de fumaça, tal qual um fog londrino, prenunciando que dificilmente um raio qualquer conseguiria furar a barreira nevoenta, indo abrigar-se no leito dos lagos, tornando a superfície das águas alaranjada.
Sigo obstinado, pedalando pesado. O visual é quase igual; e quando há variação, uma garça com seu mimetismo mumificado e olhar falsamente desconcentrado, não faz o mínimo ruído, o menor movimento, cuja camuflagem é espreitar a presa. Para aquecer-se da baixa temperatura e conseguir umas calorias para a manutenção de seu corpo magrelo e esquálido, nada melhor do que a farta refeição de um pequenino peixe; e no que depender da paciência de seu bico longo e ponta afiada, de fome ela não morrerá. Na lei biológica-natural interativa entre as espécies, para que não haja perdas e sobras de alimento, o tamanho da presa é proporcional à fome do predador. Não existe armazenagem para o dia seguinte e uma vez feita à caçada, espera-se que seja suficiente e basta para o sustento do dia. Todavia, caso o consumo de energia exceda o previsto, o animal que volte ao trabalho e batalhe outra provisão; afinal de contas, para cada grão de fome, uma nova tentativa e busca pela saciedade deve ser feita.
Em outro ponto, com os olhos remelentos, o gado desperta para mais um dia. Por sorte, o pasto está viçoso, não exigindo longas caminhadas. É comer, ruminar e dormir à sombra das árvores; e vez para os outros, alternadas com as bicadas dos gaviões, suportar as ferroadas dos bernes no lombo. Suas patas representam perigo iminente para as garças, que abolindo o trabalho de captura de peixes às margens dos lagos, preferem os insetos que saltam da gramínea e escapam dos dentes afiados do animal. O mutualismo, a comensalismo, a simbiose natural garante a sobrevivência de todos, ou melhor, de quase todos; porque no meio das espécies, há uma parasita que está no topo da cadeia alimentar.

O sobe e desce parecia não ter fim. É nessas horas que qualquer um, mesmo sem ter estudado os princípios instrumentários de medidas, consegue absorver no imaginário que 70 quilômetros são bem mais, muito mais que 70 metros. E assim como os passos do gigante superam os percursos longos e incalculáveis, a tartaruga pode superar 7 metros; distância inexistente, curta para o gigante, entretanto, extensa demais, custosa para a tartaruga, ou para o bicho preguiça.

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Devia ter pedalado uns 40 km. Estava, portanto, muito aquém do ponto de chegada e quando tudo indicava que a paz reinava por ali e a viagem terminaria sem me mostrar nada mais do que já tinha visto, a surpresa. Embora soubesse do incidente natural ocorrido na semana anterior, fato que acarretou na falta de energia em várias cidades por mais de um dia, ter contato, ver a desordem causada pela Natureza gera desconforto, causa profunda tristeza. Justa ou injusta, a Natureza tem esse lado desconstrutivo. Logo ela que, nesses tempos funestos e obscuros, tem a capacidade de suprir todas as necessidades humanas; também possui o poder nos lábios e num sopro, botar tudo a perder e foi exatamente isso o que aconteceu num trecho onde o ciclone passou. Por onde passou, o clarão ficou. O escuro, o funesto, o desatino do clarão caracterizado pelo desastre natural.
Sem dispender um segundo de vida, sequer, para pesquisar as dificuldades de transformar a matéria bruta e depois de modificada, aduzi-la como serviço e dentre eles está o fio de água que não nasce nas torneiras para lavar a sujeira da cara; e obrigando o povo a voltar no tempo e usar a vela ou a primitiva lamparina como forma de iluminação, a falta de energia elétrica é o segundo item que atormenta o conforto de uma sociedade que, através do consumo proporcionado pelo dinheiro, acha que tudo deve ser resolvido de imediato. No viés contraditório desse pensamento, às vezes somente a arte de pensar não resolve o problema técnico no todo, havendo necessidade primordial que as mãos entrem em operação; o que demanda tempo. E enquanto as mãos operantes trabalhavam intensamente para descobrir e restabelecer a normalidade, os urbanóides que adoram sonhar dormindo botavam a boca no mundo, reclamando, vociferando, como podiam demorar tanto para resolver algo tão simples. O zunzunzum incluía ate as mães dos bravos homens que estavam metidos no meio da mata fechada trabalhando arduamente para restabelecer o sinal de vida para aqueles que haviam morrido por tempo indeterminado; pois além do toque de recolher obrigatório imposto pelo Senhor do Breu, ficar sem energia, internet, facebook e whatsapp, é falência dos movimentos anatômicos de boa parte dos brasileiros. Sobretudo, o automatismo operante proporcionado pelas máquinas para os miseráveis e indolentes pedintes de tecnologia parece ser tão necessário, quanto o peixe que perde a vida para manter uma outra vida.
Em razão da discordância e intolerância entre quem põe as mãos na massa e quem come o pão, logo, o humor de um povo varia conforme o humor da Natureza. Suscetível e parecida com a fragilidade de um peixe miúdo, a sociedade está constantemente propensa à morte pelos fenômenos da Natureza, simbolizado pelo bico afiado de uma quieta e silenciosa garça; que parece dormir, mas quando menos espera, expõe a presa aos arrulhos.
O cenário havia mudado brutalmente. Verdadeira zona de conflito. E ao ver a devassa em que árvores de grande porte foram arrancadas e outras milimetricamente aparadas no tronco; gigantes torres de transmissão de energia se transformaram num amontoado de ferros retorcidos; telhados arrastados e a demarcação sinalizada pela clareira por onde o arrastão natural deixou suas pegadas; lembrei-me da letra “Eternas ondas” de autoria do Zé Ramalho, também interpretada pelo Fagner, em que retrata as catástrofes causadas pelo lábio furioso da Natureza:
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“Derrubando homens entre outros animais / Devastando a sede desses matagais / Devorando árvores, pensamentos / Seguindo a linha / Do que foi escrito pelo mesmo lábio / Tão furioso”...
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“E se teu amigo vento não te procurar / É porque multidões ele foi arrastar”.
Se não tivesse visto o que o lábio furioso da Natureza destruiu, lambeu de fio a pavio, empacotado a sede dos matagais num redemoinho murmurante, diria que a letra não passa de alucinação de filósofos e poetas; porém, os poetas e as figuras de linguagem merecem ser pensados e repensados. Pois, sobretudo, a fúria do poeta é a alucinação da Natureza. E a recíproca é verdadeira.
Sem se importar como a ciência o define, o cenário dava testemunho cabal do quanto a Natureza é amiga e inimiga; do quanto ela dá, mas também toma; do quando ela é clemente e inclemente. A Natureza impõe limites e não se faz de rogada; quem quiser sofrer menos, que se adapte.
Dicionarizadamente, por desastres deve-se entender como os fenômenos que ocorrem de modo a atingir nocivamente uma parcela de seres vivos. Obviamente, essas ocorrências catastróficas podem ser puramente de origem natural, ou ainda somadas pelas ações antrópicas. Socialmente, quando os desastres acontecem causados pelos despropósitos e conivências humanas, tornando-se um hábito consagrado pelo uso quase que absoluto, pode-se entender como a criação de uma Trágica Cultura do Absurdo. Isso explica o que acontece em vários segmentos ambientais e sociais aqui no Brasil. No caso, interessa aos profissionais da área, a pesquisa, o estudo originário, as ocorrências e os motivos dos desastres ambientais para posteriormente, tentar reparar os problemas e as consequências advindas deles.
Causas de ocorrências e como são classificados os desastres ambientais quanto à origem:
- Maioria dos terremotos, erupções vulcânicas, tsunamis e quedas de meteoros. Esses fenômenos, apesar de não terem um dedo do ser humano em sua gênese, muitas vezes têm suas consequências de catástrofe ampliadas pelas atividades humanas, como, por exemplo, a ocupação de áreas próximas de um vulcão, o desmatamento de vegetações costeiras (mangues, restingas, coqueirais etc.) – que remove as barreiras naturais que amorteceriam tsunamis –, a construção de cidades perto de falhas sísmicas etc.;
- Desastres naturais parcialmente antropogênicos: têm causas naturais influenciadas, mas não diretamente induzidas, pela ação impactante humana, como enchentes, secas, desequilíbrios ecológicos e fenômenos meteorológicos diversos (chuvas torrenciais, nevascas, ondas de calor ou de frio, furacões etc.) Essa categoria tem tanto sua ocorrência e frequência como suas consequências diretamente agravadas pelos humanos, como, entre os fatores potencializadores, desmatamento, emissão de gases-estufa e devastação de matas ciliares, e entre os fatores agravantes, a ocupação de áreas mais vulneráveis a esses desastres (como encostas de morros e margens de rios com fortes cheias), a eliminação de barreiras naturais inibidoras (como a destruição e aterramento de manguezais), o entupimento das galerias de escoamento pluvial com lixo e a drástica redução ou extinção de predadores naturais. Em outras palavras, essas catástrofes não costumam ser criações dos seres humanos, mas são consequências diretas ou indiretas das ações destes.
- Desastres antropogênicos indiretamente sociais: são diretamente induzidos pelos seres humanos, com consequências ambientais óbvias e ligações indiretas com problemas sociais. Como exemplo, temos os vazamentos de óleo ou produtos tóxicos; as chuvas ácidas; os níveis elevados de poluição da água ou do ar; rompimento de adutoras e barragens; as mortandades de animais em corpos d’água poluídos, etc.
- Desastres antropogênicos diretamente sociais: também são induzidos de forma direta pelos seres humanos e têm essência e consequências diretamente sociais. Exemplos: desapropriação e inundação das margens habitadas de um rio pela construção de uma barragem; desmatamentos; expulsão de comunidades tradicionais indígenas ou não indígenas de ambientes previamente condenados ao desmatamento e/ou ao secamento do rio ou lago; favelização da população mais pobre por políticas excludentes e antipopulares; políticas de “limpeza social” que forçam os pobres a se alojarem em áreas de alto risco ambiental e degradarem o ecossistema local etc. Distribuição espacial dos desastres no país e a relação destes e as classes socioeconômicas.
Nesse caso, o desastre (a tragédia) foi exclusivamente natural, sem a menor interferência do homem; dando provas que sou miúdo, pequeno, nada, diante da grandeza (da) e (do) que impõe a Natureza. Afinal de contas, a sua tomada de decisão não se discute; ao contrário, calado, sem dar um pio, acata-se!
Faço da primeira linha do artigo, o fim: ratificando que sou cético e incrédulo; e enquanto não pôr o dedo na tomada, não adianta dizer-me que o homem foi à Lua, que o tsunami na Indonésia varreu do planeta 300 mil lordes, que um brasileiro ganhou um prêmio de matemática na França e que em determinada fiação passa energia, pois é o vivenciar que fecha a circuitação de minha sensibilidade. Mesmo porque, a osteomielite aberta em Joaquim, porto seguro de moscas e mosquitos, não dói em mim. E entre a realidade e a incredulidade, com as orelhas de abano paulatinamente atormentadas pelo meu amigo vento minuano que soprava um "zummm" frio, porém leve e suportável, pedalei obstinado para finalizar a viagem. Assim que desci da bice e ao pôr os pés em terra firme, tendo certeza que não precisava mais equilibrar minha emoções sobre os pedais, desejei: "Paz; Luz. Amém", aos combatentes que saíram incólumes ou não, do atingível conflito. Terrível lábio furioso!
P.S.: Nesse tipo de tragédia, além dos prejuízos e da catástrofe natural ocasionada ao ambiente, abre-se a fenda, a clareira para a ação humana e dela, a ocorrência de novos desastres devido o desmatamento, as destocas e os incêndios criminosos.
Exceto as foto do desastre, as demais pertencem ao autor do artigo


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Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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