ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente

Nem Deus se salva das más obras

Artigo dedicado a quem reza e ora,
Com os pensamentos nas nuvens,
Todo dia, toda hora,
Chuva de palavras verborrágicas,
De boca pra fora!


imagens-de-jesus-desenho-719x800.jpgProstrado de joelhos no Monte das Oliveiras, com o olhar fixo no horizonte, refletindo sobre a criação humana, Cristo se pergunta por que os seus irmãos causam tanta dor de cabeça ao Pai celestial!
Não é de se duvidar que Deus esteja profundamente arrependido de sua criação e se pudesse retroceder 2000 e qualquer coisa de anos no tempo, entregaria o protótipo de sua imagem e semelhança à construção do homem pelo Homem; que por sua vez, sendo o homem o que é, teria vergonha de sua obra. Reconhecidamente, perda de tempo, trabalho inútil!
Pelo estabelecido nas Escrituras, Deus está para o nobre perfumado, assim como está para o mendigo fedido. Alerta ainda, que a beleza do lugar é o que menos importa e o onipresente Mestre Maior está debaixo de uma tenda puída, como está nos Vaticanos adornados com vitrais e ouro puro. Sob os sermões litúrgicos e milagrosas palavras, o apregoado está perfeito! Todavia... em qualquer ponto da estrada tem um cavaleiro andante.
Motivo do Criador de todas as coisas estar esgotado, saturado, fadigado, com a mente em torvelinhos, sorumbático, cabisbaixo, de saco cheio com o brasileiro e não é para menos; pois, feito ratos famintos em despensa aberta, ladrões atacam os quatro cantos do Norte ao Sul; políticos de toda sorte saqueiam as finanças públicas e matam o povo nos leitos dos hospitais; traficantes invadem escolas e hospitais para vender drogas e resgatar traficantes; profissionais mal intencionados de todas as áreas, cobrando altíssimos valores pelos serviços prestados, extorquem licitamente a sociedade; deputado que fez campanha com o slogan “vote no Tiririca, pior do que está, não fica”, e por isto deveria ser processado por falsidade ideológica, porque o país está soçobrando tal como foi o fim do Titanic; “artista” Safadão (belo e sugestivo nome fantasia!) que cobrou a bagatela de mais 1 milhão de reais por dois shows, e ao ser flagrado pelos olhos semicerrados dos santos festeiros, (como são bisbilhoteiros esses santos modernos) torna público que doará o seu cachê inteiro para os pobres e mendigos da cidade, arrancando aplausos e profundos suspiros da plateia pela sua atitude altruísta e bondosa (iguais a esse, o inferno está abarrotado. Se eu não fosse extremamente otimista, diria que Lúcifer terá que comprar praticamente toda as dependências do céu para acolher todos esses bondosos e generosos seres terrenos); enfim, as “boas ações” assolam a relação entre os brasileiros e Deus, e o “melhor”: construções para adorá-lo, para louvá-lo, estão despencando das alturas, desmontam no chão, como cai uma penca de balões.
No Brasil, os custos para construir uma obra totalmente regularizada, desde o levantamento topográfico e a sondagem do solo para o estudo técnico, até as aprovações dos projetos executivos nos órgãos de classe municipais, estaduais ou federais e obtenção do habite-se, é uma verdadeira carestia. Para tudo que se faça, do trabalho mais simples e elementar, porém necessário, ao mais sofisticado, os custos das taxas a serem pagas são altíssimas; impossibilitando o requerente de fazer a construção nos moldes técnicos regulamentados, inclusive dentro dos moldes do Código de Edificação estabelecido e existente pelos departamentos de obras de todos os municípios do país; mas que por motivos “maiores”, são esquecidos nos projetos civis.
E qual a saída para a questão edificar um teto; porque sem um abrigo para protegê-la, espécie nenhuma sobrevive às intempéries?! A moradia foi, e sempre será a eterna luta e busca maior do homem que pensa racionalmente. Entretanto, no viés dos custos elevados dos materiais e mão de obra, da burocratização dos trabalhos por parte dos “profissionais responsáveis” (técnicos, engenheiros e arquitetos) e dos órgãos e instituições competentes, aparecem os esquemas, os subterfúgios e os jeitinhos tipicamente brasileiros; fatos que, se imaginar que Deus é o princípio de justiça e igualdade, não deve estar nada contente com essa estirpe (para não abaixar o nível e dizer estilo mandrião) de povo.
É redundante dizer que o Brasil é um país socialmente desigual, o disparate é notório; motivo pelo qual, com o êxodo rural e a descida em massa de migrantes nortistas e nordestinos para suprir as necessidades de mão de obra nas grandes obras na década de 1950 em diante, sem meios financeiros próprios para retornar às origens, a ocupação indevida e a favelização dos morros tem sido uma constante. Áreas verdes e terrenos do município ou de particulares são ocupados na calada da noite e quando vistos, as construções desordenadas já tomaram conta do espaço. E como são construídas as moradias?
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É nesse agravante que reside o perigo! Pendurados nos abismos amorrados ou nas encostas e margens de córregos, sem o menor estudo técnico de viabilidades, sob uma fundação rasa e pouco resistente, tijolos são sobrepostos, como numa “dança de tango: dois pra lá, um pra cá” e remontados com lajes, “robustos e portentosos” monumentos vão subindo andar por andar em direção ao céu. Tudo é construído de forma rústica, com material de péssima qualidade e o mais barato possível, pois o interesse do caboclo é unicamente se livrar-se do aluguel; e em razão da lei monetária do homem e contra o homem, em alguns casos, fazem um “puxado” para ganhar um dinheiro extra, explorando os que possuem menos. A exploração é a chancela do homem e o registro humano em todos os tempos.
Vez para outro, os deslizamentos de terra cobram pela falta de responsabilidade e a catástrofe, tacitamente provocada pelos humanos, é desumana. Se ficar só nisto, menos mal; no entanto, não é o que tem acontecido nos últimos tempos e devido o Aquecimento Global e as variações bruscas do clima, o que ocasionam sérias fúrias de humor da Natureza, coisas piores estão ocorrendo e a passagem de um vento ciclone ou um tufão sobre a área favelizada causaria catástrofes irreparáveis; danos sem proporções.
Porém essas saídas baratas e emergenciais de construir sem o menor rigor não resumem apenas ao mencionado; e é comum a classe abastada e instituições sociais recorrerem a essa maneira menos elegante de edificar. Caso de uma Igreja que estava sendo ampliada de forma irregular. Ironicamente, a instituição religiosa conta(va) com departamento jurídico, técnicos, arquitetos e engenheiros debaixo de seu aprisco, entretanto, o corpo diretivo cometeu esse pequeno lapso de construir sem consultar a racionalidade técnica; e o resultado foi o desabamento do teto sobre as pessoas que estavam trabalhando no local. Aliás, trabalhavam em nome e para o Senhor (Qual? Porque em tempos antigos a palavra senhor era pronome de tratamento dos donos de engenho).

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Chamados a se justificarem, os responsáveis alegaram que a documentação técnica da ampliação está em curso, faltando apenas protocolar o processo nos respectivos órgãos municipais. Embora tenha acontecido em São Paulo, um grande centro, ocorrências como esta, de passarem as obras na frente do estudo técnico e aprovação dos projetos, acontecem aos montes no país. E por mais que se queira, não há ninguém que coíba ou tome providências; e se deixar apenas por conta da consciência do brasileiro, os esquemas, jeitinhos e oferendas perpetuarão para sempre. Aliás, em recente pesquisa sobre honestidade, idoneidade e respeitabilidade das leis, mais de 70% dos entrevistados declararam com sorriso largo e cara limpa que fazem algumas coisinhas mínimas e máximas para burlá-las e dissimulam as atitudes destinadas e dever deles, através dos jeitinhos e esquemas, porque conseguem escapar dos riscos de cair na malha fina das leis. Óbvio que quando postas em prática, o que é raro; porque em qualquer território, leis é o formalismo que visa suprir a falta de bom senso e respeito mútuo num sistema grupal de um, em relação ao outro.
No caso da negligência dos (ir)responsáveis pela ampliação da igreja, ficam algumas interrogações: “E agora, o castigo de Deus ( isso se ele for de pagar com castigo as más obras que recebe) recairá sobre quem? Quem deverá ser responsabilizado e processado conforme manda as leis dos mundanos? Ou ficará para juízo final; para o dia do arrebatamento divino”?
Perguntas tolas; afinal, por que tentar moralizar o que já nasceu desmoralizado? Pau que nasce torto e deixam frutificar, vai endireitar quando e como; porque através de leis e religião?... Lembrando sempre que “Deus é brasileiro e fiel” e se nem a “santa casa do Pai” escapa das irregularidades de servos e fiéis, o Pai celestial dará um jeitinho. Podem esperar; e a glória do senhor, irmãos de crença, fé e infidelidade!


Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente.
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