ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

A Camisa de Vênus do Marcelo Nova

Camisa de Vênus, quem usa, ou melhor, quem ouve, previne-se.


E se de saída perdi leitor por causa da introdução, supostamente indecente, obscena em poderio, saiba que a banda foi batizada com esse nome, porque assim como as notas e os acordes tirados pela banda incomodavam muita gente; segundo o mentor da banda, tirar e colocar a camisinha entre uma transa e outra também importuna. Broxa o maníaco. Imagina-se, portanto, que Marcelo Nova era defensor da gênese do "Ide, fecundai e enchei o mundo", do anarquismo e da liberdade até para o pênis; pois, a virilidade libidinosa faz do homem, outro Homem. Faz do ego, macho voluptuoso.
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Em se tratando de música, se atualmente o que vem da Bahia é o que for admitido pela mídia, muitas décadas antes, os baianos faziam desse estilo de arte, o que bem queriam; motivo dos ouvintes de rock, de MPB e da música alternativa serem gratos a eles.

Daquele estado saiu um sem número de bandas e músicos; e a última foi o Camisa de Vênus. Logo que apareceram no cenário musical, a banda liderada por Marcelo Nova – alcunhado pelo Raul, como Marceleza – dizia pertencer ao estilo punk. E embora as letras retratassem a indecifrável metafísica entre a vida e a morte, ironizasse os ritos religiosos, escrachassem implacavelmente o contexto político da época, revelassem as silentes orgias sexuais que acontecem sob os olhares vagos de noites mal iluminadas e ruidosas; e o ritmo fosse bastante agressivo, com uma levada acelerada de metais e guitarras estridentes, o estilo da banda estava anos-luz de ser punk. O que faziam, nada tinha a ver com o som produzido pelo Sex Pistols, Ramones e Suicide; bandas as quais, são as mais conhecidas do público que curte punk. Então, em qual gênero musical o Camisa se enquadra(va)?

Camisa De Vênus 1.jpgO leitor pode achar a capa um tanto quanto extravagante; realmente é atentado contra os costumes e reflexo do que está acontecendo mundafora, para o qual, os hipócritas das boas falas fingem não ver. As letras do rock; rock, alertam para o caos humano. Embora que se deixar levar pelas lufadas de vento do esquecimento, é melhor.
Honestamente falando como alguém que não é músico e importa somente com o que for receptivo aos tímpanos, a banda fazia rock; senão clássico, um estilo renovado de rock. E por que renovado? Simplesmente porque a banda fazia um som totalmente diferenciado em relação ao rock nacional e por pertencerem a mesma época, destacava-se, principalmente, pelas letras possuídas pelas obscenidades, palavrões e putarias mais. É mister dizer que para muitos ouvintes do rock nacional, Camisa de Vênus não fazia parte de suas predileções musicais, o que eventualmente, caracterizaria-a como uma banda esquerdista, por assim dizer. E de fato o Camisa era contra os costumes e convencionalismos, até musicais; tanto é que na letra da música “Nós passamos por isto”, o refrão é: “Vá curtir MPB”.

A banda foi formada em 1980 por Marcelo Nova e como trabalhava em rádio, conheceu o amigo Robério que trabalhava na T.V Aratu. Por serem músicos, quando se encontravam o assunto não era outro senão, música. Até que em certa ocasião decidiram formar um grupo e para isto, precisavam de mais alguém. Integram a banda Karl Franz na guitarra base. A bateria ficou sob o comando de Gustavo Souza. Para pesar ainda mais o som, o guitarrista Eugênio Soares passa fazer parte da banda; que se atira na estrada.

A existência do Camisa era para causar polêmica, quebrar com os paradigmas e para isto, não media esforços e consequências. Lançado em 1982, o primeiro disco com a marca registrada da banda, faz com que várias músicas fossem censuradas. No entanto, o censura surtiu efeito contrário, e a vendagem chegou aos quase 200 mil exemplares.
"O meu primo Zé / Queria ser como ele é / O queridinho da família / O predileto da mamãe!"
Se era assim, que continuasse; e o segundo álbum intitulado “Correndo Perigo” gravado por volta de 1986, ganhou repercussão nos meios alternativos. Músicas tais como “Simca Chambord e Deus Me dê grana” garantem o sucesso de vendagem, que ultrapassou 300 mil cópias. Deste álbum a música mais conhecida e hit paulatinamente tocado em todas as rádios de música alternativa foi a apocalíptica “Só o fim”.
Nunca foi de interesse das gravadoras investir naquilo que não lhes rendessem altos ganhos, boa lucratividade, o que gerava certo entrave entre os interessados. A banda não ficou de fora desse cenário e na ocasião do lançamento do primeiro álbum, um episódio além de hilário, bastante peculiar marcou a negociação. Os dirigentes da gravadora interessada propôs para Marcelo mudar o nome da banda, pois as rádios não receberam de bom grado o nome “Camisa de Vênus”; dificultando a divulgação do trabalho. Alegaram que os jornais referiam-se a banda com o nome incompleto: “Camisa de...” Quiseram, portanto, que houvesse a alteração no nome da banda por outro de melhor aceitação da mídia radiofônica; ao que Marcelo concordou, com a ressalva que o novo nome fosse “Capa de Pica". O álbum foi lançado, mas a divulgação acabou sendo um fiasco em razão desta e outras ocorrências.
O resquício da ditadura também esteve presente nos trabalhos da banda e por volta de 1986, o álbum Viva foi alvo das investidas da Censura que ainda vigorava no país, e o resultado foi o recolhimento de todos os exemplares prensados; que segundo estimado, o número passou de 35 mil cópias recolhidas. Outro caso terrificante para o Camisa foi o lançamento do álbum Camisa de Vênus, o qual tem a música “Bete morreu”, que era tocada nacionalmente; e apesar do gozo orgástico atingido precocemente com o sucesso de venda, quando menos esperava, a execução em rádio foi proibida de ponta a ponta no país pela mesma censura.
As extravagancias e os excessos denotavam que a banda estava com os dias contados; mas mesmo assim seguiram cumprindo a agenda de shows. Em um deles, o grupo conhece Raul Seixas, que na época estava combalido e musicalmente, fora de catálogo; então, nada melhor que unir as forças. Desta fusão, nasce o último álbum da banda, o qual incluía "Até que parece sério, Estrelas" e outras. E o desfecho do desgaste interno com a declaração vinda de Marcelo que iria partir para carreira solo; mas que o grupo podia e devia seguir em frente. Não foi isto o que aconteceu e pelo menos por uns anos, a banda dava adeus aos palcos e a um público cativo; afinal, quem é de rock anda prevenido contra o barulho das drogas manipuladas pela mídia e o poder do dinheiro.
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Para matar saudades e reviver o passado, os integrantes se reuniram para tocar na Virada cultural, evento que acontece anualmente em São Paulo. Novo sumiço; até que anos depois se juntaram novamente, com algumas mudanças na formação da banda e uma delas é Drake Nova, filho mais novo de Marcelo. Para a edição comemorativa de 35 anos, ingressaram também Leandro Dalle nas guitarras, além de Célio Glouster na bateria. Com essa formação, fizeram uma turnê pelo país.
Usando seu precioso e apurado conhecimento sobre música, Marcelo diz: "É como a The Allman Brothers Band, que tem Derek Trucks [jovem prodígio da guitarra] tocando com o tio [Butch Trucks, um dos fundadores da banda norte-americana, em 1969] na bateria. A vida é isso". - comentando sobre o mais novo ilustre integrante da banda, finaliza.
"Quando você consegue colocar uma herança genética, aliada a um talento musical - porque herança genética não significa muita coisa no sentido artístico -, e você ver que existe uma tradição que eventualmente será mantida, essas coisas são para ser brindadas. Que bom que a gente vai poder fazer uma tour para celebrar todos esses elementos musicais e extra musicais".
Por fim, ouça, encape, use Camisa de Vênus; porque pênis estrangulado, é o grito de "Bota pra Foder" abafado de um anarquista do rock chamado Marcelo Nova.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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