ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

Calmarias é o título da crônica sobre um condado que não existe mais!

“O melhor lugar do mundo, é aqui...e agora.” – Gilberto Gil


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Uma dissidência do Tempo mestre desgarrou-se, perdeu-se no espaço e foi parar lá nos cafundós, mais precisamente no povoado de Mansidão, na zona da mata e a partir desse acontecimento nunca mais se deu conta das estradas que o levasse de volta ao Tempo Universal. Fincando raízes naquele pedaço de terra e para orientá-lo, estabeleceu-se um tempo somente para ele, passando então a ser seguido pelos habitantes do povoado.
No princípio houve falatório abusivo nos quatro cantos do condado e intensa resistência à implantação dos novos horários e costumes, porém, com o passar dos crepúsculos, o que era irrelevante inovação revolucionária passou a ser aceitável e de interesse de todos. Sendo paulatinamente esclarecidos pelo Tempo Secundário sobre os benefícios, entenderam que pouca coisa havia mudado, a começar pelo nome: de distrito de Mansidão, para município de Calmarias. Notaram os moradores que a melhor coisa que fizeram foi a readaptação aos novos horários e costumes e por consequência, o reencontro com as raízes e identidades perdidas ao longo do tempo; passaram portanto, a saber o significado da palavra origens.
Se o Tempo Secundário desgarrou-se do Tempo Universal, por analogia, Mansidão doravante município denominado Calmarias, deve ter solicitado para os comandantes da nave do globo terrestre que parasse o mundo, pois o torrão, até então pertencente ao mapa mundi precisava descer. Precisava descer para criar um mundo particular, um mundo próprio. Um mundo menor dentro da imensidão do mundo. Sob-forte resistência planetária, de toda sorte de injúrias e impropérios insultuosos, o pedido foi aceito, e de lá para cá, o que corresponde aos dias de hoje, firmando parceria definitiva com o Tempo Secundário, nunca mais foi visto. Restou, portanto a civilização Calmariense usufruir do bom da vida, que é viver a vida com tempo. Exatamente isso. Respirar o brilho da vida com tempo e viver a sustentável leveza dos monótonos, porém, proveitosos e demorados segundos de vida.
Atualmente, os contos que o povo Calmariense conta, que remontam os tempos, apurado em palavras e transformado em conto, deve ser contado mais ou menos assim:
“Amanheceu!... a lua em fim de ciclo míngua no céu ofuscada pelo denso nevoeiro, que às duras penas é perpassado pelos primeiros raios de sol que rompem frestas de portas e janelas e lentamente desfazem as gotas de orvalho que deslizam lentamente pelas folhas que cobrem a relva rala. Morros acidentados e pontiagudos circundam a cidadela, protegendo-a contra as invasões de objetos sinistros e estranhos vindos de outras galáxias. Picos e morros que a transforma em um mundo finito de duas ruas. Aqui é necessário envergar o pescoço para enxergar o horizonte. Horizonte que não passa de uma tira alargada e afunilada nos extremos, circundada por dois morros laterais.
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Nos grotões, os trinados dos pássaros pousados sobre os galhos dos coqueiros e o chuá das águas que correm nos córregos e despenhadeiros, acalmam os tranquilos exaltados.
Nas duas ruas estreitas e nos terreiros das poucas casas sem garagens, cães e gatos sacodem a poeira e espantam a preguiça noturna; como serpentes, passaram a noite dormindo acordados, enrolados em si mesmos. Dormindo a sono solto na madrugada alta, os espiões do silêncio, vez por outra, quando importunados pelos sibilos dos grilos e o pouso dos besouros sobre suas caudas, abrem os olhos, abanam a cauda e desfalecem na indolência modorrenta do pregar os olhos. Ao acordar para o raiar do dia, apressam-se em lançar as patas da frente sobre o terreno, espichando o corpo, em seguida a parte traseira. Ossos estalam e rangem, feito bagaço de cana na moenda, sendo postos e ajustados nos lugares corretos. Após essa descompressão corpórea, estão aptos à caça do café matinal.
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Nas casas, portas e janelas escacaram-se para portas e janelas. Nos interiores, vultos transitam em direção aos fios de água que correm dos chafarizes. Banham rostos remelentos, que raspam a garganta e escarram o pigarro do sabor do sossego; ou da serenidade, ou da indiferença.

Amanheceu, amanheceu de vez! O dia avançava lentamente. Tum, tum, tum; o relógio solar tenta acompanhar o ritmo sonolento do dia. Ainda é cedo, mas já há bulha nos fogões. A lenha crepita ardendo pelas chamas do fogo. O rolo da fumaça escapava pelas chaminés. Panelas chiam e fumegam exalando o cheiro característico de comida. Comida caseira generosa e farta, preparadas em panelas de barro e cozidas no fogão à lenha.
Diminutos, velhos e barulhentos carros e uns poucos cavaleiros trafegam pelo calçamento, cruzando o caminho de crianças uniformizadas que seguem a pé, com as merendeiras de lado, em direção à pequenina escola. A matalotagem será degustada no na hora do recreio; o melhor e o mais nobre horário do dia para as crianças calmarienses.
É fim de semana. Os tachos metálicos feitos de cobre, cobertos com leite até à boca é manipulado minuciosamente pelas mãos das donas de casa até atingirem o ponto ideal do puro e nobre doce de leite mateiro. A requintada iguaria será degustada após as refeições, juntamente com o seu primo-irmão, o queijo meia cura. Doce de leite e queijo meia cura, casamento perfeito contrastado pelos opostos de sabor: doce e salgado. E nesses sublimes desencontros cotidianos calmarienses, o poeta encontra-se com a poesia não revelada que o que inspira: “Os mesmos ventos que deslizam e separam as palavras em sussurros silábicos que se calam; reaproximam, unem a oposição das folhas e folhagens farfalhantes num sonoro e jubiloso regozijo.”
O coreto e a única praça existente, dificilmente são vistos pelos transeuntes e pelos casais adolescentes enamorados; entretanto, convivendo solitariamente lado a lado, eles estão lá. Rodeados por três ou quatro bancos que servem de assentos para quando os menos avisados precisarem. Esperançosos e intactos, estão lá. Estão lá para o que der e vier. Estão para lá para a moda de viola dos seresteiros solitários em noite de lua cheia; para as festas de São João, ou para os adeptos da folia de Reis. Estão lá, talvez quem sabe, para uma despretensiosa fotografia da celebração esponsalícia, momento em que um lábio corre em direção a outro, feito colibris e abelhas que sutilmente extraem o néctar das flores.
Estão lá para um foto, mesmo que seja em preto e branco, do aniversário comemorado nos fins de semana, despertado pelo som de fundo do realejo e a sorte do aniversariante lançada pelo bico do solicito papagaio. Embora sem ser vistos, o importante é que o coreto e a praça estão lá! Estão lá como pontos de referencia e representando o patrimônio tombado da cidade, pacientes à espera dos citadinos urbanos e dos Calmarienses dos sítios e fazendas. É como os mesmos e raros usuários dizem: “Vou à cidade comprar o que falta para passar o mês na venda do Sr. Genésio. Enquanto faço as compras de mais ou menos um alforje de mantimentos, deixo o alazão amarrado no resistente mourão de peroba-rosa que fica no centro da praça. Nos vemos lá compadre; no largo da igreja; até loguinho!”.
A poucos metros dali avistam-se currais e estábulos com homens e mulheres de cócoras ordenhando, para em seguida tanger o gado para o pasto. Outros, campeando ou cavalgando sobre o lombo dos cavalos. Senhoras e crianças ajuntam o estrume, já curado para usar como adubo orgânico em hortas e jardins. Em Calmarias é assim: trabalho e lazer não exigem tempo. Qualquer hora é hora e fundem-se nas tarefas urbana e rural. Na cidade, naturalmente, o urbano mistura-se ao rural e no campo, o rural compactua-se sua irmandade com o urbano. Calmarias é um híbrido de campo e cidade; quando não, urbano e rural, o que também poderia ser uma mescla entre trovadores e poetas líricos.
Sem pressa! Sem um pingo de pressa, o dia segue seu curso. Na fresca da tarde, sentadas nas guias, mães amamentam os filhos; enquanto outros tantos esperam pela sua vez no colo materno.
Entardeceu! A denotação do entardecer vem da igreja. Os sinos dobram e os Calmarienses se perguntam: “Por quem os sinos dobram”? Dobram anunciando que além, muito além dos morros, a ganancia humana continua vitimizando gente! Dobram anunciando o toque de recolher; contudo, para eles, pouco importa, pois, nunca souberam que tais lugares existem. Para os Calmarienses, os sinos dobram pelo simples e singelo fato de dobrar. Indiferente às respostas sombrias que vem do mundo além Calmarias, eles tecem as suas ingênuas respostas; isso basta e é suficiente! Seis badaladas e um único toque de fé. É hora do ângelus. É hora de louvar o divino!
Entardeceu! O negrume cai implacavelmente sobre o diminuto vale. Vagalumes com os pisca-piscas acessos decolam de cupinzeiros e folhagens. Luzes artificiais e espaçadas iluminam as ruas: a rua de cima e a rua de baixo. Uma cidade de duas ruas. No centro delas, os fios de água límpidas deslizam solenes pela ação da gravidade. As pessoas se recolhem; portas e janelas se fecham, ou melhor, são cerradas. A qualquer momento pode chegar alguém, o vento talvez. O sinal da cruz é a benção; é sinal de proteção e a vigília noturna.
A casa boa e hospitaleira é aquela em que as portas e janelas se mantém abertas para os visitantes, principalmente aqueles que chegam inesperadamente, fazendo prevalecer a surpresa, sem hora marcada. A casa boa e hospitaleira é aquela em que os visitantes entram pela porta da sala e os visitados saem pela porta da cozinha, deixando-os à vontade para se virarem com os guarda-roupas, com as camas, com as prateleiras, com o fogão e os talheres.
- Se arranjaram bem por aqui, compadre? Presumo então, que a mesa esteja posta e a cama arrumada. Quando quiser, espiche o corpo; imagino que esteja cansado pela longa viagem! As toalhas estão nos maleiros do guarda-roupas. Que tenhas uma excelente e reconfortante noite de sono.
- Até parece que os visitados somos nós nesta casa de coração grandioso, a qual, dizem ser simples e comezinha! Quanta humildade desses povos! Povos desgarrados do mundo.
Em determinado momento, o harmonioso silêncio Calmariense pode perguntar aos munícipes: “Vou cerrar as portas de entrada da cidadela, tem mais alguém para pernoitar”?
- Sim, a Lua e o Vento. Ambos não possuem pouso definido; vivem felizes, iluminando e soprando o leve frescor da madrugada sobre os árduos pensamentos dos insones. Para o bem do pouco de verdade que ainda reina sobre o planeta, esses dois andarilhos aparecem quando querem, contudo a namorada do Sol vai demorar para dar as caras; está em fim de ciclo, se despediu ontem prometendo voltar na noite de hoje. Segundo as suas palavras, “A solicitude e o fino trato oferecidos pelos visitados são os melhores e deleitosos afagos dados aos desamparados”. Depois de ouvir isto, o silêncio emudece.
Entardeceu....mas ainda há um pequeno e ordeiro rebuliço na cidade. Meia hora passada. Pronto; havia! Anoiteceu...anoiteceu de vez! Exceto a Lua, quem faltava chegar, provavelmente chegou. As porteiras, as tronqueiras e as pinguelas de acesso à cidadela foram cerradas pelo silêncio. O vale está completo. Os pássaros em bandos já se aninharam no troncudo pé de Jequitibá que está encravado a anos, como referencia no alto da mata densa. A Lua minguante repousa sobre o mavioso céu de estrelas; o nevoeiro desce plácido cobrindo os baixios com o branco da paz; os moradores acalentados pelo crepitar do fogo e o borbulhar da água no fogo para coar o café, recolheram-se nas casas e o silêncio reinante da madrugada cai inexoravelmente sobre o vale.
- Boa noite Calmarienses! Boa noite casas boas e hospitaleiras! Boa noite, munícipes! O dia de hoje foi melhor que ontem e certamente, será pior do que o dia de amanhã! – respeitosamente, o Silêncio.

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Ainda faltava alguém para se recolher e o retardatário é o sabia laranjeira, o pássaro mais brasileiro da fauna brasileira, que dilacerou o papo com um trinado escandaloso nas profundezas da grota, dizendo espere por mim, também sou calmariense; e ademais, em tudo na vida sempre há um atrasado. Então, corra menos; porque afinal de contas, perambular desiludido pelas locas e fendas dos rochedos, bater asas freneticamente tentando acompanhar o vento é esforço demais para um simples sabiá de peito amarelado.
Agora sim, a cidadela adormeceu! Adormeceu como as rochas menores adormecem sobre o leito das rochas maiores. Repousa sólida. Adormeceu como recém-nascido, que após ter sugado os seios, dorme com a cabeça encostada no peito da mãe. Ambos, cidadela e recém-nascido adormeceram sentindo-se protegidos. A cidade adormeceu para um novo dia. O dia de amanhã será como hoje; um novo dia de coisas velhas. Um novo dia que renasce nas calmarias de velhos Tempos! Nesse tocante, em Calmarias, o novo e o velho se misturam.
Amanheceu o dia em Calmarias! Amanheceu para que o dia de hoje reprise as cenas do dia de ontem.
Devido o seu paradeiro e juntamente com o Tempo Secundário terem se desgarrado do Tempo Universal, a lisonjeira e molenga Calmarias parece estranha aos olhos dos visitantes dos grandes centros, mas quem a visita aprende a gostar e deleitar-se com suas estranhezas. Lá, se o esquisito não é o que todos procuram e querem, pelo menos encontram o rutilado reluzente da paz dos mansos; o que de fato, é o que todos os habitantes do planeta Terra apregoam, contudo, mantém-se com abundantes vestimentas e precários investimentos para com o proposto.
Também puderas, existe uma diferença gritante de clima entre a região de Calmarias para o resto do mundo. Calmarias está sob clima ameno, dominado pelo refrigério dos ventos alísios constantes. Equilíbrio total. Enquanto que o resto do mundo está localizado nos polos, sob temperaturas baixíssimas ou elevadas. No dueto dos contrários, de um lado, gelo puro proveniente das fortes nevascas e do outro, aridez absoluta nos desertos. E no meio desse tiroteio climático está a constante e irrepreensível Calmarias.
“O melhor lugar do mundo, é aqui...e agora”. Calmarias é um condado que não existe mais, mas quando existia, o quintal das casas era toda a cidade.
Sei que não é o melhor sentimento que se deve ter em relação às coisas alheias, sonora bobagem de quem ainda pensa um mundo sem divisas demarcadas, com as porteiras abertas, sem olhos mágicos; mas confesso que sinto-me invejoso daqueles que residiam em Calmarias; insólito e desejado condado, o qual a Harmonia deixou de habitá-lo. Pois, acima de tudo, o amor é o pêndulo do movimento harmônico simples que tudo move em Calmarias; condado bastante procurado para recreio pelos antigos e inexistente perante os conceitos propalados pela modernidade. E o mais considerável nas recordações, é que num tempo qualquer, tudo há de ser esquecido pelo próprio tempo! Inevitável realidade que não desgruda nunca dos sonhos humanos; e nem por isto, fazem alguma coisa para viver um dia, apenas um dia, harmoniosamente em Calmarias. E quem não respira, aspira, vive, nem que seja um dia em Calmarias, se sucumbe ao eterno terror; afinal, tal dádiva só pode ser conseguida caso pare o acelerado Tempo Universal.
Fotos pertencentes ao autor do artigo


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Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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