ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Carta-desabafo de uma feminista que ainda sonha e ama incondicionalmente

Decifra-me se for capaz, ou as nossas escapadas às furtivas em noites sem sol e dias sem lua, se encerrarão amanhã, antes mesmo do café da manhã!


bici.jpg Estradas opostas convergem para a mesma confluência, enquanto que caminhos paralelos se repelem; porém se encontram no infinito. Portanto, todos os caminhos, trilhas e estradas são contrários um ao outro, mas vão dar no mesmo lugar.

Eu não sei quem você é, mas você sabe bem, muito bem quem eu sou. Em detrimento da verdade, eu também sei quem sou, por sinal, muito mais que o seu conhecimento sobre mim. Em contrapartida, não sei quem você é. Verdade! E amar quem não se conhece, faz bem à contradição vivencial e por incrível que possa nos parecer, faz bem à espécie pensante do planeta. Amar sem ser amada: por você não posso afirmar, mas por mim, sim! Se não é seu caso, é o meu, e duvido muito que conheça pormenorizadamente com quem e sobre quem andas! Olha, para ser sincera, ninguém se conhece, quanto mais a outrem. Afinal, servimo-nos, só e somente, das simplórias imprevisibilidades das imaginações. Somos falhas em nossas intuições. E se nem tudo que penso ser, sou; ainda assim, inexplicavelmente, posso te amar através do postulado de dois pesos e duas medidas. Do tapa e o sopro. Do apanhar e sorrir. Do sangue e o ralo leite condensado esparramado sobre o lençol. Dos shoppings, praias, viagens e o sexo obrigatório, aquele sexo mecânico de abrir as pernas e fechar a cara numa carranca assombrada; ponho-me a esperar pacientemente a finalização da tarefa a qual me submeti. É ela que paga as minhas misérias. Sim, lamentavelmente, não tenho vergonha de abrir publicamente o que sou para você.

Se nós o possuíssemos, teria mexido com nossos brios; porém tinha que num momento qualquer falar assim, abertamente e até em tom acusatório e sarcástico; afinal sempre fui usada de modo a satisfazer o seu prazer e num piscar de olhos desmedidos, sou deixada (largada mesmo) de lado em troca de coisas que você entende como sendo mais confortáveis, agradáveis, fontes de comodidades e bem estar. Sem nenhuma vocação para cobranças, alertas e advertências, pois como você, sou amante da liberdade. Tudo isto você principiou a conhecer comigo e abandonou a troco de acomodação e zonas de conforto, que é a maneira sutil de levar o inerte míope ao ostracismo do sedentarismo. No perdi e ganha em que somos lançados no dia-a-dia, alguém sofrerás as consequências. Aguarde que automaticamente pagarás para ver.
Apenas comentei: como sabes, jamais fui de dar palpite nas investidas de quem quer que seja. Como disse o Raul Seixas, “faça o que tu queres, pois é tudo da lei”. Todavia, o que ele não disse é que as leis são produzidas por nós e para nós. Enfim, exigir os direitos é fácil; a insensibilidade irracionalizada esbarra em questionar e cumprir com os deveres. Pois, se alguém exige e usufrui de seus supostos direitos, é porque alguém cumpriu rigorosamente com seus deveres; fato não explicado por nenhum magistrado, mas fielmente exercido por mim. E você meu querido, bem sabe o que está escrito nas entrelinhas.
Perante você, eu nunca exerci o direito de palavra. Nunca tive voz ativa para nada. Sou subalterna aos extremos, mandada; possuída quando bem quer e entende. Alteridade entre nós é uma balança pendida para o lado: para o seu lado, óbvio! Acostumada aos pormenores do descuido e tratos grosseiros, toda a minha vida segui a sina de alimentar-te com a leveza de uma pluma em queda livre. Poxa, será que nasci, será que sirvo somente para isso? O que é exercitar a empatia para você?
Através de mim, o sol escaldante tornava suave e a brisa fresca roçava sedosamente a sua face, alegrando-o, tal qual o balanço da jangada ao notar a chegada das águas borbulhantes para encher os vazios do estuário. Diferente de certos fenômenos da Natureza que são impostos em conformidade com as estações do ano, oferecia-lhe um leque ventilado em qualquer instante; bastava você me despir, me desejar, o que convenhamos, depois de suas descobertas e aventuras, está fora de cogitação. Por conta d´isto e de seu estúpido abandono, conheci um asilo. Tornei-me depressiva. Por falar em asilo, você consegue imaginar o que é conviver em um ambiente onde impera um monte de máquinas emperradas. Se o ambiente não for coberto pela velharia, certamente é forrado com as cores do abandono. Asilo, além de ser depósito-refúgio para máquinas emperradas, é lugar insalubre, insípido e desleixado, exatamente igual os nossos últimos encontros.
Também porque recordar os vorazes pesadelos, se temos muitos sonhos amáveis e íntimos para serem venerados. Um deles foi a viagem que fizemos a sós pelo parque Guartelá; inesquecivelmente, foi o que nos restou. Como fui bem tratada, magnificamente bem amada! Jamais imaginava que os bons e finos tratos de hoje prenunciam o fim definitivo amanhã. Falo sério; puro sentimento! Naquela viagem pudemos compartilhar do perfume das flores campestres; ser fotografada ao lado de animais silvestres; beber água puríssima da fonte do amor, nome dado àquela formidável nascente de água cristalina e o melhor: acompanhado de deliciosos fondues de chocolate branco, passamos as noites juntinhos, bebericando o mais puro vinho de uva na mesma taça; onírica celebração à espera de repousar os corpos exauridos sobre os lençóis perfumados, na madrugada! Inesquecíveis noites! Embora com baixas temperaturas invernais, clima típico de montanhas afrodisíacas, nem precisamos de lareira; sobretudo, quando se ama insanamente, o calor vem do fundo da alma para aquecer o corpo e incendiar os pés. Do coração transpira o suor fumegante que exala o mais sublime e apaixonante...; isto é apenas parte de tudo que nos aconteceu em todos esses anos passados! Quanta amabilidade de sua parte; sentia-me uma dama com seus requintados tratos!
Como esperado, o segundo dia, a segunda noite; o terceiro dia a terceira noite; seguiram rigorosamente o mesmo ritual: extremo esforço durante o dia para vencer aquelas morrarias, e a noite... ah, a noite...bom, a noite...! Como sempre, acredito que existe um óxido do tempo que corrói tudo e todos; o que não poderia ser diferente comigo. Culpo-me, sim; pois, quem mandou-me lançar desvairadamente nas mãos de quem não merece!? Até parece que você era o último pingo de lubrificante do tubo.
É chegado o momento de provar para o mundo o quanto aquela viagem foi transcendental e não acredito que não saibas; porque dei o meu melhor e a resposta foi as sensações e os espasmos que tivestes, o que denotava o seu amor e a recíproca realização naqueles dias, interminavelmente, felizes. Lubrificação! Essa é a chave do segredo do amor incondicional. Pouco aconteceria se não fosse o auge que atingi e dou o braço a torcer que tudo foi motivado por você. Podia senti-lo como uma nota musical dedilhada pelos criadores, tamanho era a sensibilidade, a sutileza e a suavidade com que a minha essência era tocada; o que não poderia resultar em outra coisa, senão, em derreter-me, molhar os meus carnudos (como sempre ouvi) lábios de tanta lubrificação à espera de ser devorados. Estávamos insuperáveis naquela viagem e viajávamos para dentro de nosso ser! Viajávamos para dentro de nossas intimidades.
São nesses momentos que refletimos o quanto somos pequenos, ínfimos e nos deliciamos em ser bem amados com os poucos minutos de dedicação e atenção a nós dispensados! Crianças sorridentes correndo atrás de pássaros. Aqueles segundos representaram a eternidade e se não tivéssemos passados por tais experiências, o que poderia eu estar relatando nesta carta agora? Nada. Correr perigo faz bem e acalenta o ego. Não peço arrego; pelo contrário, protegida ou não, vim ao mundo para aventurar. Desbravar! Fui amada por ninguém menos que Albert Einstein. Pena que são poucos, minguados, os que sabem espreitar e entender os ziguezagues metafóricos das lições que tanto escrevo nas estradas, trilhas e caminhos da existência humana.
Socar forte, esbanjar vigor-físico, assar a bunda e desfazer-se de suor em cima de mim. Pedalar é como o ato de fazer sexo: quem ama faz; quem não ama, contribui para o aumento da população no dia seguinte. Aliás, pelo amor de Deus, faça sexo; não faça criança. Quase quinze bilhões de narinas sedentas para cheirar os tufos de fumaça oriundos da queima do petróleo no planeta, são suficientes. Chega!
Devido a vulnerabilidade do abismo por qual trilhava, jogava-me nas mãos de qualquer mundano; no entanto, ultimamente tenho escolhido os bons e merecedores para liberar o meu êxtase, os meus insaciáveis sussurros e gemidos. Nem dizendo isto, causa-lhe ciúmes? Sob o ofuscamento da incompreensibilidade, será mesmo que teremos que nos separar amanhã, antes do café da manhã? Definitivamente é palavra que deveria ser banida dos dicionários; sobretudo, ainda que não o ame, em dado momento, alguém pode necessitar dos préstimos de alguém. Ninguém, nada é peça tão velha, tão corroída pela ferrugem do tempo, que não tenha algo que possa ser útil!
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Vamos. Sigam-me os fortes de panturrilhas e resistentes de pernas. Pratique esportes e ame o seu coração; antes que o médico cardiologista ame-o e em nome do amor dedicado a ele, adote o seu bolso. Coração desprezado, vai hoje passa amanhã, recompensa-o pelo desprezo. Fui rude? Sim, sou rude e desavergonhada. E é através da sinceridade, transparência e sofrimento que aprendi a querer bem sua saúde, e ainda que o amor dedicado não me seja retribuído em igual intensidade, aprendi a te amar incondicionalmente.
No mais, despeço-me, pedindo, solicitando, implorando, clamando por mais uma viagem; se não tão boa, sou humilde o bastante para aceitar que seja melhor que a descrita. E se amanhã ou um dia qualquer, você se sensibilizar por aquilo que fiz e ainda posso fazer pelo seu êxtase e prazer, ore antes de montar-me: “Deus onisciente e onipresente, que o odor do meu suor frio, as minhas aquecidas e úmidas lágrimas, os meus mais temíveis sofrimentos e as muitas dores que hei de sentir, sejam somente surrando a bunda sobre o banco, queimando a sola dos pés nos pedais de uma robusta “Magrela”, a qual, amo muito; e nunca, jamais, estirado sobre o leito de hospitais, moribundo, agonizando a morte. Amém”!
Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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