ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta"

Humanização se faz assim...

O resquício produtivo da fruta, que é a semente, reluta em não voltar para o pó, o qual não devia ter saído; porque apenas umas poucas germinaram bons frutos.



Enquanto as construções, os relógios, as baratas, os ratos, os ladrões, os homens e os escorpiões dormiam... alguém exercitava o direito de passar um domingo harmonioso na avenida. Desconhecido em terras indígenas, é verdade; mas alguns povos evoluídos denomina esse tipo de evento como Cidadania. Socialização humana.

IMG_1786.JPG
Pequenos gestos de solidariedade tornam grandes, as obras. Por exemplo, dar a mão para o deficiente visual ao atravessar a rua. Ensinar uma criança a andar de bicicleta. Desejar um bom dia ao porteiro. Adoçar a vida do pedinte no farol com um pirulito. Orientar corretamente quem pede uma informação: dizer que não sabe não significa incompetência. Ceder o assento nos coletivos para gestantes, idosos e deficientes. Oferecer um copo com água para o gari. Varrer a calçada e aguar as árvores. Por farelo de pão ou frutas para os pássaros (exceto pombos) urbanos. Não esperar as campanhas para doar roupas usadas para os andantes de rua; pois o frio ou calor é próprio de cada um. Dedique uma foto para quem só se vê, quando o tem, no espelho. Separe por tipo, recicle e dê fim aos restos, ao lixo, ao resquício de seu consumo. Invente, arquitete, seja você um criador humanitário e não deixe a humanização dormir ao relento; pois as intempéries mudam repentinamente. Enfim, além do custo inicial ser baixo e os benefícios a longo-prazo ser abundantes, deve-se pensar que amanhã pode ser tarde para humanizar; então não protele o que pode ser feito agora, arrume as malas, vista sua roupa desbotada, compre o passaporte e embarque no portão da solidariedade; acima de tudo, o humanismo está taxiando na pista e não espera pelos desatentos e atrasados.
paz.jpg
A tarde do dia anterior foi coberta por nuvens densas e acinzentadas, que pressionadas pelos constantes atritos entre os desobedientes elétrons que circulavam livremente em seus interiores, foram ficando desajeitadas pelo peso das gotas de água que iam se acumulando até chegar ao ponto de derramar uma chuva fina e esparsa pela capital paulista. Fatalmente, as temperaturas cairiam bruscamente no dia seguinte, fato motivador e benévolo para o paulistano que comumente, tira o domingo para bocejar a popular soneca, espojar o corpo sobre o colchão espinhoso durante a semana, que se transforma em pena de ganso aos finais, até às tantas. Se bobear, passa despercebido pelo dia.
Como previsto, o domingo acordou festivo. Céu azul sem um fio de nuvem. Nas ruas, poucos carros dando trabalho para os postes, canteiros, confluências de ruas e semáforos. O vento minuano ainda meio cambaleante pelo implacável sono roçava mansamente as folhas nas árvores, forçando o desprendimento e um chuvisqueiro de flores que iam se deixando levar pelo sopro, até não poder mais. Vagarosamente, cuidadosamente, eram depositadas no asfalto; formando uma saia enorme e salpicada de cores no pé dos arbustos.
Em certa confluência de rua, uma senhora arrastando uma vassoura de cerdas esmigalhadas aborda os carros. Por ser mulher e com um instrumento de limpeza nas mãos, talvez não cause tanto medo aos motoristas e um deles, abaixa o vidro e eles começam uma prosa rápida, daquelas de semáforos; mesmo porque, semáforos não foram projetados na vida do homem para ouvir e suportar conversas fiadas, inócuas de dois desocupados. Ao contrário, estão lá plantados nas esquinas para impor disciplina e fluidez, tanto para os carros, quanto para os pedestres. Ao sinal vermelho, fuja rápido, corra depressa, gire em cima dos calcanhares, mas se vire feito corisco, que lá vem a tragédia. Para essas estacas eletrônicas, os segundos são escassos e não permitem blá, blá, blá; oba, oba: abriu; fechou, é o período imposto a ele que passou. Semáforos pensam, mas não o suficiente para serem autônomos, por isto, se sujeitam aos mecanicismos. Fazem tudo exatamente igual sempre, e assim que faz determinada tarefa, nunca sabe o que irá refazer dali a minutos. Às vezes semáforos e homens possuem os mesmos dons; habilidades quase nada diferentes e inatas.
Em compensação, por sorte, a comunicação não necessita de status, perfume francês ou algo que o valha; exige apenas um mínimo tempo e compreensão. Bem...! Simpatia e empatia vai bem nesses casos. Quando isto acontece, parecido com o vento matutino daquela manhã, as palavras florescem, alegrando o ambiente, fluindo a leveza que preenche vazios. Pode não parecer, mas os urbanos carregam enormes vazios, grandes bolsões ocos por dentro e portanto, precisam de palavras que espantem a depressão, afugentem os ecos da melancolia e libertem os sorumbáticos do ensimesmamento.
De óculos escuros e um sorriso de canto a canto no rosto, o motorista parecia entender tais coisas e dava trela para a senhora da vassoura. Se era impossível saber do que se tratava o assunto, os trejeitos e a alegria de ambos denotavam a fluência das palavras. Quase debruçando na janela, talvez ela estivesse tendo a única oportunidade de sua vida para espiar tudo que havia internamente ao veículo e o senhor, por sua vez, nem fazia caso de sua curiosidade; afinal, olhos e curiosidades não roubam e muito menos, subtraem nada de ninguém. Observar as coisas, apreciar em detalhes os arredores deveria ser uma constante, indiferente aos instintos da ganância supressora.
Enfiando a mão no console do carro, o motorista trouxe entre os dedos dois pirulitos meio avermelhados, fazendo com que a senhora largasse a vassoura imediatamente e os alcançasse com tamanha avidez, que o senhor, não teve outra reação, senão sorrir. Seus dentes reluziam o branco da paz. Oferecido e dado a desmanchar prazeres, o semáforo ficou verde, interrompendo a prosa entre os desconhecidos e enquanto ela caminhou sentido ao carro detrás, ele curvou para a direita. E ambos levaram consigo a certeza de que se cruzassem naquele mesmo ou em outro lugar, a fisionomia contendo a curiosidade de um não seria estranha para o doce sorriso a outra.
Em épocas conturbadas pelos roncos de motores, atormentadas pela impaciência das sirenes de ambulâncias e viaturas, pelos gritos de “pega-ladrão” que ecoam do falso silêncio, uma manhã como aquela chega causar espanto. Mas às vezes acontece numa cidade com aproximadamente 15 milhões de pensamentos diferentes; e por que não tentar desvendar o mistério daquele momento?
Fora os semáforos, tudo conspirava humanismo e não havia uma só alma vagante, um só espírito penado, um só gênio rebelde que interferisse na solicitude daquela manhã. E o melhor: tudo dava indícios que se estenderia por todo o dia. Uma pergunta girava na cabeça de certos pensadores que ainda primam pela passividade de uma manhã como aquela: “Por que todos os dias não podem ser como esse presságio oculto que envolve com o manto branco da paz, as aspirações humanas nessa inesquecível manhã?”
Avenida Paulista. No início ela fez parte dos redutos dos barões do café, com o tempo, ganhou jeito de avenida nobre e passou a ser o corredor econômico do país; com altos e imponentes edifícios. Por onde caminha a fortuna, os formigueiros humanos tomam assento, e durante a semana, é uma correria insana, uma busca tão frenética que atropela até o vento; porém, aquieta-se aos finais de semana. E é na quietude que reina o humanismo.
A transformação é tanta, que nem parece ser ela o espigão da cidade; dividindo as águas, cortando a capital em várias bandas. Buzinas e sirenes silenciam-se, portas e janelas de prédios e comércios emudecem; o toc-toc de sapatos cala e o zunzunzum circulante dá lugar a algo de novo. Ao que tudo indica, nem que tenha que romper com sua história por um dia na semana, a Paulista também quer fazer parte da humanização.
É no domingo o dia da “Queda da Bastilha” do paulistano; e para que tudo saia com perfeição, fecham-se as vias nos dois sentidos, ficando apenas uma via lateral sentido bairro para passagem dos carros. E se os veículos e a propagação dos negócios somem, aparecem os anônimos.
Uma criança, trocando pequenos e trôpegos passos, brinca de se conhecer com sua sombra. Quando a criança pensa que vai tocá-la; pegá-la, ela escapole e ambas caem na gargalhada. Uma senhora desfila com seu cão de raça; a outra prefere pedalar com o bichano no cesto, que disciplinadamente, põe as patas e o focinho para fora: também quer apreciar a brisa na cara. Um cidadão de vestes brancas, respeitosamente canta Elvis Presley para os saudosos.
Outra criança, essa já grandinha, tenta se equilibrar em cima da bicicleta. Tentar dominar aquilo que ainda não se tem domínio, pode ser o caminho para o fracasso; para a desilusão e perda de esperança; pois qualquer pisada em falso e o abismo será a inevitável salvação. Viver é equilibrar-se constantemente em cordas bambas; todavia, se elas estiverem bem amarradas e resistentes, as chances de êxito nas travessias são enormes.
A mãe esbraveja: "você é uma palerma minha filha!" O senhor que ouve o insulto: "tenha um minuto de paciência, senhora; já, já ela terá total domínio do objeto". A menina que se justifica: "sabe, sei andar; mas a minha, a que aprendi, é diferente". O senhor usa o didatismo para educar, ensinar: "assim que sair, pedale olhando para frente, é isto o que está fazendo com quê você perda o equilíbrio. Vamos, você consegue!" Desapontada, a mãe rosna qualquer coisa. A mulher da bandeira libera a passagem. A pequena ciclista vacila para os lados: ora para a direita, ora para a esquerda; mas já não é mais a mesma.
O irmão mais velho que tira uma casquinha: "Minha irmã é uma molenga. Veja como é fácil pedalar. Pedalou, a bicicleta voa". Polidamente, o senhor intercede em favor dela: "Verdade, você está ligeiro em cima da bike. Parabéns! Sua luzinha brilha em cima de duas rodas. Mas o momento dela não é o mesmo seu, cada um tem o insight particular, o tempo próprio para que as coisas aconteçam. Posso quase afirmar que ela faz coisas que você não consegue, mas com paciência e no devido tempo, você também fará. Tudo é assim... então, apoie-a nos seus erros e desacertos que tudo se acertará em menor tempo; e no que for, ela não o atrapalhará".
Toma distância. Para. Novo encontro. "Mais uma dica: a ergonomia de seus pés e os pedais não está correta. Pedale o máximo que puder, com a ponta dos pés, pouco antes dos dedos; assim a perfomance será melhor, você adquirirá total domínio e equilíbrio da bike". Obediente, silenciosa, a menina muda sua postura de pensamento para o: "eu vou conseguir"; adota os ensinamentos e os novos modos de pedalar orientados pelo senhor. A mãe agradece; o mestre da cordialidade, o pedagogo da harmonização faz uma mesura para elas; e seguem seus caminhos. E não é que os ensinamentos foram bem sucedidos? Na volta, no lado oposto da pista, a mocinha estava toda espigadinha em cima da bicicleta. Para todos, não restou senão, sorrir de alegria.
IMG_1804.JPG
Do outro lado, o violão afirma que os males espanta, quem canta e dobrado em sua profunda desilusão, deve estar bem down; pois se o violão não se toca; toca-se o violão. É o que faz a moça desgarrada da multidão; agarrada à distração. Violão. Para ela, viver, sentir-se em gramado de pluma ou berço de ouro, custa pouco.
Um maltrapilho dança o samba do crioulo doido. Rodopia para lá; rodopia pra cá. Festa solitária demoniada pelos redemoinhos misteriosos; e ainda que a avenida estivesse abarrotada de gente, para ele é o mesmo que não tivesse ninguém. Os seres invisíveis possuem a magia de observar o visível. Tem tempo de sobra para o risível.
IMG_3906.JPG
"Cadê todo mundo"! Olho cego que corre, salta fora da órbita, espreita vagalumes, vagueia no breu soturno. Vaidoso, enrola o cabelo parecido picumã descendo da chaminé; aliás, melhor se fosse estalactites gotejantes à limpá-lo: está emplastado de cima a baixo. A criança que olha, a criança que roda. Inocência e liberdade se confrontam. Atravessa a avenida; estaca em frente aos forrozeiros. Sabe tudo de forró pé-de-serra. Como não tem um xodó para jogar para cima e deixá-lo cair no colo, sacoleja o vento no ar e valseia só. Outra corrida; vai parar aonde, só ele sabe! Quando aquieta-se, conta nos dedos os segundos que faltam para retornar à prisão da cadeia chamada segunda feira. “Olé, olé; touro!” E o coreógrafo de rua não está mais naquele lugar. Perdeu-se de si; encontrou-se na liberdade humanitária de um domingo na Avenida Paulista.
Naquela manhã não houve o menor sinal de desavença e todos se respeitavam, pelo menos na Avenida Paulista. Dando a entender que a humanização pode ser exercida e depende, exclusivamente de você. Isto mesmo: não se esquive de sua responsabilidade leitor; pois, a humanização depende de você.
São Paulo, como todos os lugares, são bons; mas pode ser melhor. Para isto, tem que se fazer do humanismo, ato de todas as horas; de todos os dias; de todos os anos; de todos os incrédulos. Então, por que não dar uma chance para suas intimidades, sonhos e devaneios?! Certamente de um desajeitado louco, coração pulsante e criança autêntica, todo leitor tem um pouco! Descubra você, em você mesmo.
Eduque o fruto que saiu de vosso ventre, torne-o eticamente reto de princípios; porque a merda sufocante nossa de cada minuto está elevando a temperatura do Planeta a mil graus Celsius; prenunciando mortes, extinção da espécie humana por câncer depressivo.
Para quem não entendeu a metáfora, eduque o fruto que saiu de vosso ventre, torne-o eticamente reto de princípios, para ser gente; porque falta espaço nos aterros sanitários, na imensidão mundo, para acomodar tanta merda.
Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta".
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious //Profeta do Arauto
Site Meter