ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Raul Seixas está absolutamente vivo

"E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos"



"Não vim aqui querendo provar nada / Não tenho nada pra dizer também / Só vim curtir meu rockzinho antigo Que não tem perigo de assustar ninguém".

Pare o cortejo deste mundo incendiário, que eu quero descer para apagar as chamas. R.S psicografado por P.A
“Informe-se melhor Profeta, pois, como o epitáfio em lápide de sapateiro, Raul rock Seixas bateu as botas; partiu fora do combinado faz tempo!” Se pensas assim leitor, estás redondamente enganado! O desvairado Maluco Beleza do rock brasileiro está vivíssimo. Com uma espada na mão, continua subindo nos muros para espiar as orgias das mulheres pondo aranhas para brigar, e montado sobre as duas rodas de sua infalível Harley Davidson, indo aonde o amigo Pedro for, segue firme promovendo o seu rock, o seu grito, fazendo fãs pelo país afora; pois, como vovó já dizia: uma vez rock brazuca, sempre Raul rock Seixas. O restante que espere na fila pelo seu dia.
raul.jpg
Antes mesmo do falecimento da matéria, antes da morte cefálica, o inconformado Raul já havia morrido. Embora pertencesse aos insolentes terrenos e com sua irreverência experimentalista penetrasse em labirintos escuros, cujo intuito era desvendar os segredos e mistérios vivenciais dos ratos, havia morrido para o sistema pífio criado pelos humanos, contra os humanos. Desconhecia o mês de sua morte, mas de certa maneira, tinha certeza que não mais se pertencia; tampouco, se amava. E se por ventura, brincasse de virar as cartas com uma cartomante, ele mesmo falava por ela: “Leia a minha sorte, tanto faz a vida como a morte, o pior de tudo eu já passei”. Pasma com a sapiência precoce e as palavras futuristas do Maluco Beleza, além de não cobrar pelo serviço, pedia um autógrafo, desejava boa sorte e um siga o seu caminho em paz decifrador de aranhas.
O doidão do rock brasileiro não era de valorizar os bens materiais; quando muito, o ser humano. E ao fazer um passeio domingueiro com a família ao zoológico, notou que as fantasias, ilusões e sonhos humanos não são, senão, uma imensurável barra de ouro. Sobretudo, a prata, o ouro e as demais riquezas tinham menos valor que um saco entupido de pipoca, e no que dependesse dele, rasgava e tocava fogo no dinheiro, só pra variar. Raul não permitia a hipocrisia e as mesquinhezes daqueles que bateiam insanamente, duelam, batalham, guerreiam e se matam pelo ouro de tolo no dia-a-dia.
Tanto é verdade, que por volta dos idos de 1980, o roqueiro estava falido. Endividado e sem recursos financeiros, clamava por um porco vivo, ainda que magro, esquálido, para lhe encher a pança; que estava funda e emoldurada pela pele lânguida e dobrada em camadas. Sobre nutrição, Raul propunha uma dieta balanceada, de baixas calorias, zero teor de gorduras saturadas, a qual seria a infalível solução para a desnutrição, salvação vidas, mataria a fome mundial e o mais admirável, manteria o corpo belo e esbelto; e para atingir tal estágio de requinte e beleza, recomendava diariamente um prato de fubá no almoço e outro de farinha no jantar, oh Nega! Para evitar o ressecamento intestinal e a intoxicação alimentar, três litros de água morna de alta minerabilidade com cinco limões capeta espremidos em jejum. Segundo o nutrólogo Raul, se não cortar as vísceras; certamente cortará as manias de grandeza social.
Ainda que suas letras fossem de cunho humanitário, no entanto, se as gravadoras não ouviam o seu tenebroso apelo, um grupo de amigos e fãs iniciou a operação “Levanta Raul”; afinal, o ícone máximo do rock brasileiro não podia morrer antes da hora. E aos finais de semana, as principais ruas de São Paulo eram alargadas para o comboio Seixista entoar os cânticos compostos por Dom Raulzito. Shows com artistas sósias eclodiam aos montes no país. Através dos eventos pro-Raul, é que se descobriu como ele era querido e benquisto pela legião de fãs. Consequentemente, as reuniões e encontros entre cabeludos e pés descalços renderam bons dividendos ao fã clube; e no ano seguinte, com o Maluco Beleza levantando as mãos e retomando a caminhada em direção ao etéreo, para alegria daqueles que se imbuíram na empreitada de ressuscitar o mitológico e lendário músico, o álbum “Tente outra vez” seria prensado. Como esperado, o álbum foi sucesso absoluto de vendas.
Fã clube é o nome que se dá a um grupo de pessoas que cultua algo, que tem pensamentos afins, em comum com as ideias do pensador; valorizando, portanto, as atitudes e ideais do mestre e líder. Fãs, adeptos, correligionários são discípulos assíduos, fieis e crédulos aos ensinamentos e por vezes, superam a religiosidade e crença daqueles que se dizem religiosos de joelhos plantados no tablado. Raul Seixas foi um fã devotado e fazia campanha, expondo para quem quisesse ver a carteirinha de sócio do clube de Elvis Presley no Brasil. E se o doidão do rock nutria uma paixão aterradora pelo astro da música mundial, pelos mesmos motivos, foi amado, ou melhor, ainda é aclamado e ovacionado por muitos brasileiros perdidos neste país; os quais afirmam de pés juntos que Raul não morreu.
raul1.png

Apesar da lenda do rock ter morrido e ninguém saber qual foi o mês, para quem é de rock clássico nacional, de fato Raul provavelmente não tenha morrido; e nos confins de mundo, bem lá nos cafundós, em um lugar de belezas naturais transcendentais; com cascatas e corredeiras ruidosas, cachoeiras despencando rochedo abaixo, onde o misticismo e o esoterismo das matas verdes fazem recreio, ressuscitaram Raul Seixas, o fiel e indisciplinado discípulo de Elvis, Bill Haley e Jerry Lee Lewis.
  • raul2.jpg

    O espaço considerado patrimônio nacional dos roqueiros possui um museu a céu aberto, o qual retrata toda a história do baiano, desde a infância, época que ironizava a sociedade burguesa, indo aos bailes com uma camisa vermelha de mangas compridas desabotoadas, gola para cima e botinões estilo coturno nos pés e ao ser notado pela plebe dona do capital cacaueiro, soliloquiava: "Tô revolucionando tudo nessa merda de lugar", até a época que morou na casa de John Lennon. O lugar é um recanto adornado pelos elementos da Natureza, onde as flores desmancham em sorrisos, os pássaros piam sob a fartura das sementes e frutas, e as águas despertas pela nudez humana, correm mansamente sobre os lajedos escorregadios.
    Uma vez por ano o paraíso terrestre é infestado por druidas, fadas madrinhas, bruxos de toda sorte, gnomos e duendes do rock. Montados sobre potentes motocas e arrastando caixões funéreos, a trupe da paz e amor chega fazendo barulho e assim que se instala nos chalés, ou recolhe-se debaixo de tendas e cabanas, para desmagnetizar a aura, livrar o corpo, a mente a alma do cheiro insuportável de concreto e limpar-se das partículas de poluentes dos grandes centros capitalistas, (em terra Seixista é terminantemente proibido o uso de fragâncias que não sejam, exclusivamente, da nobre botânica brasileira) abandonam as máquinas e iniciam o retiro espiritualista sob a magia ritualística do som inebriante produzido pelo Maluco Beleza. Inevitável é o perfume de incenso reluzindo a soberbia harmônica da Natureza sobre o ambiente. Tudo transpira luz e nada de efemeridade.
    O espaço cobre muitas léguas além-morrarias e não há um só doidão-pensante que rejeita uma nesga de cervo assado, acompanhada de uma bem servida jarra de bebida aromática fermentada e preparada com o mais puro mel fabricado por uma espécie de abelha que jamais existiu em outros lugares, que não seja ali e que eles mesmos, placidamente, pisoteiam com seus pés de sola cascuda, cintura anelada caída sobre o quadril e costas largas. Feitas as prévias e happy hour campeiro, o que se ouve é o brado de “Toca Raul; toca Raul” e atendendo o solicitado pelos fãs, metamorfoseado de cigarra, porque se metamorfosear de formiga terá que trabalhar, o que o impossibilitaria de cantar, ele desce das alturas para prestigiar o evento dedicado a ele. E pelo período de 48 horas, o incêndio sonoro é inevitável.
    Apenas incêndio sonoro? Óbvio que não. Os doidões sobem as montanhas e de lá, apreciam o magnífico cenário, que se torna melhor de cabeça feita e para isto, bombas e mais bombas, charutos explosivos que qualquer cubano dispensa, auxiliam no clareamento das imaginações e ninguém, nenhum Seixista adquire as velhas opiniões formadas sobre tudo; ao contrário, sem saber quem é, humanamente, solidariza-se com a frágil camuflagem do louva-deus ante o predador.
    E enquanto os arredores brilham sob as sete cores do arco-íris, no qual aparece a inscrição: “Vivo Raul vivo! Viva!”; cogumelos gigantes criam asas e ganham a plenitude do céu; Extra Terrestre baixam o suporte de pouso de suas naves e circulam livremente pelo ambiente sem causar o menor espanto aos humanóides; a lua aparece sentada no trono ao longe com um sorriso desdentado e a boca escancarada esperando a morte chegar; lobos comendo jenipapo uivam nos galhos das ribanceiras exigindo comida melhor; morcegos-vampiros ululam o desespero de não encontrar naquele lugar uma megera de jugular para salivar sua fome; pois, naquele santuário sagrado dos doidões, é terminantemente proibido alguém dizimar o outro, mesmo que seja motivado pela sobrevivência. Findam a festa em louvor ao Maluco Beleza com uma chuva de fogos de artifício. Por aproximadamente dois dias, a sanidade e a pirotecnia multicolorida tomam conta, amam sem fronteiras, vivem e respiram o “Vivo Raul vivo! Viva”!
    Na festa de arromba dedicada ao Raul, aparece cada caricatura de gente, que assusta; porém, de elevada percepção sensorial e em razão de suas crenças e ideologias, praticam apenas a igualdade, a justiça, a liberdade, a paz e o amor através da presença imaginária do ídolo. Sobretudo, para quem acredita num Raul vivo, nada mais é preciso; afinal de contas, Raulzito e Raul rock, sempre foram o mesmo homem, mas para aprender o jogo dos ratos, transou com Deus e o lobisomem!
    No encontro, os quase 1500 filhos faz ressurgir a erva que nunca queimou e o pai que nunca morreu. Que assim seja para todo o sempre! No mais: fim do rito; fim da psicografia; fim do escrito.
    P.S.: As cercas embandeiradas que separavam quintais serviam apenas para delimitar divisas e não para manter as pessoas longe de nossa casa. Assim disse o Raul sobre os gradis que estão prendendo as presas distraídas em suas jaulas; se escapar, morrem trituradas pelos dentes afiados dos leões famintos.

    Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/musica// @obvious, @obvioushp //Profeta do Arauto
Site Meter