ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

Raul Seixas está absolutamente vivo

"E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos"



"Não vim aqui querendo provar nada / Não tenho nada pra dizer também / Só vim curtir meu rockzinho antigo Que não tem perigo de assustar ninguém".

Pare o cortejo deste mundo incendiário, que eu quero descer para apagar as chamas. R.S psicografado por P.A
“Informe-se melhor Profeta, pois, como o epitáfio em lápide de sapateiro, Raul rock Seixas bateu as botas; partiu fora do combinado faz tempo!” Se pensas assim leitor, estás redondamente enganado! O desvairado Maluco Beleza do rock brasileiro está vivíssimo. Com uma espada na mão, continua subindo nos muros para espiar as orgias das mulheres pondo aranhas para brigar, e montado sobre as duas rodas de sua infalível Harley Davidson, indo aonde o amigo Pedro for, segue firme promovendo o seu rock, o seu grito, fazendo fãs pelo país afora; pois, como vovó já dizia: uma vez rock brazuca, sempre Raul rock Seixas. O restante que espere na fila pelo seu dia.
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Antes mesmo do falecimento da matéria, antes da morte cefálica, o inconformado Raul já havia morrido. Embora pertencesse aos insolentes terrenos e com sua irreverência experimentalista penetrasse em labirintos escuros, cujo intuito era desvendar os segredos e mistérios vivenciais dos ratos, havia morrido para o sistema pífio criado pelos humanos, contra os humanos. Desconhecia o mês de sua morte, mas de certa maneira, tinha certeza que não mais se pertencia; tampouco, se amava. E se por ventura, brincasse de virar as cartas com uma cartomante, ele mesmo falava por ela: “Leia a minha sorte, tanto faz a vida como a morte, o pior de tudo eu já passei”. Pasma com a sapiência precoce e as palavras futuristas do Maluco Beleza, além de não cobrar pelo serviço, pedia um autógrafo, desejava boa sorte e um siga o seu caminho em paz decifrador de aranhas.
O doidão do rock brasileiro não era de valorizar os bens materiais; quando muito, o ser humano. E ao fazer um passeio domingueiro com a família ao zoológico, notou que as fantasias, ilusões e sonhos humanos não são, senão, uma imensurável barra de ouro. Sobretudo, a prata, o ouro e as demais riquezas tinham menos valor que um saco entupido de pipoca, e no que dependesse dele, rasgava e tocava fogo no dinheiro, só pra variar. Raul não permitia a hipocrisia e as mesquinhezes daqueles que bateiam insanamente, duelam, batalham, guerreiam e se matam pelo ouro de tolo no dia-a-dia.
Tanto é verdade, que por volta dos idos de 1980, o roqueiro estava falido. Endividado e sem recursos financeiros, clamava por um porco vivo, ainda que magro, esquálido, para lhe encher a pança; que estava funda e emoldurada pela pele lânguida e dobrada em camadas. Sobre nutrição, Raul propunha uma dieta balanceada, de baixas calorias, zero teor de gorduras saturadas, a qual seria a infalível solução para a desnutrição, salvação vidas, mataria a fome mundial e o mais admirável, manteria o corpo belo e esbelto; e para atingir tal estágio de requinte e beleza, recomendava diariamente um prato de fubá no almoço e outro de farinha no jantar, oh Nega! Para evitar o ressecamento intestinal e a intoxicação alimentar, três litros de água morna de alta minerabilidade com cinco limões capeta espremidos em jejum. Segundo o nutrólogo Raul, se não cortar as vísceras; certamente cortará as manias de grandeza social.
Ainda que suas letras fossem de cunho humanitário, no entanto, se as gravadoras não ouviam o seu tenebroso apelo, um grupo de amigos e fãs iniciou a operação “Levanta Raul”; afinal, o ícone máximo do rock brasileiro não podia morrer antes da hora. E aos finais de semana, as principais ruas de São Paulo eram alargadas para o comboio Seixista entoar os cânticos compostos por Dom Raulzito. Shows com artistas sósias eclodiam aos montes no país. Através dos eventos pro-Raul, é que se descobriu como ele era querido e benquisto pela legião de fãs. Consequentemente, as reuniões e encontros entre cabeludos e pés descalços renderam bons dividendos ao fã clube; e no ano seguinte, com o Maluco Beleza levantando as mãos e retomando a caminhada em direção ao etéreo, para alegria daqueles que se imbuíram na empreitada de ressuscitar o mitológico e lendário músico, o álbum “Tente outra vez” seria prensado. Como esperado, o álbum foi sucesso absoluto de vendas.
Fã clube é o nome que se dá a um grupo de pessoas que cultua algo, que tem pensamentos afins, em comum com as ideias do pensador; valorizando, portanto, as atitudes e ideais do mestre e líder. Fãs, adeptos, correligionários são discípulos assíduos, fieis e crédulos aos ensinamentos e por vezes, superam a religiosidade e crença daqueles que se dizem religiosos de joelhos plantados no tablado. Raul Seixas foi um fã devotado e fazia campanha, expondo para quem quisesse ver a carteirinha de sócio do clube de Elvis Presley no Brasil. E se o doidão do rock nutria uma paixão aterradora pelo astro da música mundial, pelos mesmos motivos, foi amado, ou melhor, ainda é aclamado e ovacionado por muitos brasileiros perdidos neste país; os quais afirmam de pés juntos que Raul não morreu.
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Apesar da lenda do rock ter morrido e ninguém saber qual foi o mês, para quem é de rock clássico nacional, de fato Raul provavelmente não tenha morrido; e nos confins de mundo, bem lá nos cafundós, em um lugar de belezas naturais transcendentais; com cascatas e corredeiras ruidosas, cachoeiras despencando rochedo abaixo, onde o misticismo e o esoterismo das matas verdes fazem recreio, ressuscitaram Raul Seixas, o fiel e indisciplinado discípulo de Elvis, Bill Haley e Jerry Lee Lewis.
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    O espaço considerado patrimônio nacional dos roqueiros possui um museu a céu aberto, o qual retrata toda a história do baiano, desde a infância, época que ironizava a sociedade burguesa, indo aos bailes com uma camisa vermelha de mangas compridas desabotoadas, gola para cima e botinões estilo coturno nos pés e ao ser notado pela plebe dona do capital cacaueiro, soliloquiava: "Tô revolucionando tudo nessa merda de lugar", até a época que morou na casa de John Lennon. O lugar é um recanto adornado pelos elementos da Natureza, onde as flores desmancham em sorrisos, os pássaros piam sob a fartura das sementes e frutas, e as águas despertas pela nudez humana, correm mansamente sobre os lajedos escorregadios.
    Uma vez por ano o paraíso terrestre é infestado por druidas, fadas madrinhas, bruxos de toda sorte, gnomos e duendes do rock. Montados sobre potentes motocas e arrastando caixões funéreos, a trupe da paz e amor chega fazendo barulho e assim que se instala nos chalés, ou recolhe-se debaixo de tendas e cabanas, para desmagnetizar a aura, livrar o corpo, a mente a alma do cheiro insuportável de concreto e limpar-se das partículas de poluentes dos grandes centros capitalistas, (em terra Seixista é terminantemente proibido o uso de fragâncias que não sejam, exclusivamente, da nobre botânica brasileira) abandonam as máquinas e iniciam o retiro espiritualista sob a magia ritualística do som inebriante produzido pelo Maluco Beleza. Inevitável é o perfume de incenso reluzindo a soberbia harmônica da Natureza sobre o ambiente. Tudo transpira luz e nada de efemeridade.
    O espaço cobre muitas léguas além-morrarias e não há um só doidão-pensante que rejeita uma nesga de cervo assado, acompanhada de uma bem servida jarra de bebida aromática fermentada e preparada com o mais puro mel fabricado por uma espécie de abelha que jamais existiu em outros lugares, que não seja ali e que eles mesmos, placidamente, pisoteiam com seus pés de sola cascuda, cintura anelada caída sobre o quadril e costas largas. Feitas as prévias e happy hour campeiro, o que se ouve é o brado de “Toca Raul; toca Raul” e atendendo o solicitado pelos fãs, metamorfoseado de cigarra, porque se metamorfosear de formiga terá que trabalhar, o que o impossibilitaria de cantar, ele desce das alturas para prestigiar o evento dedicado a ele. E pelo período de 48 horas, o incêndio sonoro é inevitável.
    Apenas incêndio sonoro? Óbvio que não. Os doidões sobem as montanhas e de lá, apreciam o magnífico cenário, que se torna melhor de cabeça feita e para isto, bombas e mais bombas, charutos explosivos que qualquer cubano dispensa, auxiliam no clareamento das imaginações e ninguém, nenhum Seixista adquire as velhas opiniões formadas sobre tudo; ao contrário, sem saber quem é, humanamente, solidariza-se com a frágil camuflagem do louva-deus ante o predador.
    E enquanto os arredores brilham sob as sete cores do arco-íris, no qual aparece a inscrição: “Vivo Raul vivo! Viva!”; cogumelos gigantes criam asas e ganham a plenitude do céu; Extra Terrestre baixam o suporte de pouso de suas naves e circulam livremente pelo ambiente sem causar o menor espanto aos humanóides; a lua aparece sentada no trono ao longe com um sorriso desdentado e a boca escancarada esperando a morte chegar; lobos comendo jenipapo uivam nos galhos das ribanceiras exigindo comida melhor; morcegos-vampiros ululam o desespero de não encontrar naquele lugar uma megera de jugular para salivar sua fome; pois, naquele santuário sagrado dos doidões, é terminantemente proibido alguém dizimar o outro, mesmo que seja motivado pela sobrevivência. Findam a festa em louvor ao Maluco Beleza com uma chuva de fogos de artifício. Por aproximadamente dois dias, a sanidade e a pirotecnia multicolorida tomam conta, amam sem fronteiras, vivem e respiram o “Vivo Raul vivo! Viva”!
    Na festa de arromba dedicada ao Raul, aparece cada caricatura de gente, que assusta; porém, de elevada percepção sensorial e em razão de suas crenças e ideologias, praticam apenas a igualdade, a justiça, a liberdade, a paz e o amor através da presença imaginária do ídolo. Sobretudo, para quem acredita num Raul vivo, nada mais é preciso; afinal de contas, Raulzito e Raul rock, sempre foram o mesmo homem, mas para aprender o jogo dos ratos, transou com Deus e o lobisomem!
    No encontro, os quase 1500 filhos faz ressurgir a erva que nunca queimou e o pai que nunca morreu. Que assim seja para todo o sempre! No mais: fim do rito; fim da psicografia; fim do escrito.
    P.S.: As cercas embandeiradas que separavam quintais serviam apenas para delimitar divisas e não para manter as pessoas longe de nossa casa. Assim disse o Raul sobre os gradis que estão prendendo as presas distraídas em suas jaulas; se escapar, morrem trituradas pelos dentes afiados dos leões famintos.

    Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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