ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Boneco catatônico

Garanto, você não consegue enfrentar a vida se a sorte não lhe sorrir um pouco, nem que seja um sorrisinho opaco, descorado e ignominioso pela falta de escrúpulos de vez em quando. No entanto, eu com essa minha cara lavada, olhos repletos de ramela e corpo sensualmente escultural...!



Os trinados dos pássaros são os meus piores inimigos. Desrespeitosos, como fazem barulho do alvorecer ao anoitecer! De tempos em tempos sossegam, mas quando reaparecem, além da desordem anterior, piam ainda mais insolentes. Destroem tudo, deitam árvores, tombam prédios e salpicam bombas no céu. Esses pássaros, ora sem, ora com asas, fazem e causam miséria.

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Oi leitor, tudo bem! Posso te qualificar como amigo, meu único honesto e sincero amigo? Você não vai se zangar por este pedido repentino; e talvez, inquietador, vai? Sabe, os que apareceram até agora, com o tempo se mostraram, e o pior, foram duvidosos mesmo. Foi pouco tempo de amizade que tivemos, óbvio! As amizades são efêmeras e não duram mais que as necessidades requeridas pelas partes; por sinal, amizades são mais frágeis que gente; motivo de ser praticada por Homens.

Certas espécies de animais se atrelam, são gregários, se agrupam na realização das tarefas advindas da sobrevivência; contrário dos Homens que se separam. Às vezes, muitos deles, quase todos se isolam; tornam-se eremitas em meio à multidão e parecidos Super-homens ilhados e sumidos nos labirintos de concreto, defendem unicamente a si. A imposição social admitida no ecossistema urbano, os obriga a ser heróis de si mesmos e sobretudo, a ser os conquistadores do isolamento. Muitas das coisas que falam e propõem, não passam de falácias não ouvidas pelo coração.

Pode parecer aberração, contra-senso sem tamanho, estupidez sem igual o que vou dizer, mas preferiria pertencer à classe dos animais que vivem e caçam em bando. Ser gente é preocupante, ainda mais que amanhã ou depois, talvez eu sofra mutação e me transforme em Homem grande dotado de razão.

Quem sou eu? Você já deve ter me visto em algum lugar. Não? Sou Alepo, o boneco catatônico da Síria. Você sabe muito bem o que é boneco, inclusive, certamente já arrancou os braços, as pernas, os olhos, os cabelos, a buchada (vísceras) de um; mas não sabe o que é catatonia? Catatonia é um distúrbio psiconeurológico que leva o indivíduo à indiferença, à cegueira e ao descaso absoluto das coisas e acontecimentos. No meu caso, sou um boneco que não ri, não chora, não sonha, não se anima com nada e não se locomove com os pés no chão. Para você é motivo de vida ou morte, mas para mim, a alegria ou a tristeza, a pobreza ou a riqueza, o negro ou o branco, a guerra ou a paz, o ouro puro ou a escória não faz menor ou maior a minha indiferença. Sou os pratos equilibrados de qualquer balança.

Nada faz-me entender nem mais e nem menos a compreensibilidade das coisas do mundo. Meus pulmões insistem em respirar, fazendo com que a massa cefálica mantenha-se viva; até quando não sei! Como diz certos lunáticos despropositados de racionalidade, minha mente é um plasma que se alarga ao redor da lua vaga. Para o catatônico, tudo não passa de coisas normais e predestinadas a acontecer ao acaso. Aconteça o que aconteça, enfurnados e ensimesmados com a mandala invisível à sua frente, dão de ombros e descansam as mãos sobre as coxas, num ato contínuo.

Sujo, imundo, fedido pelos restos de tudo, plantaram-me aqui neste divã e sumiram. Do jeito que me jogaram, permaneço. Imóvel. Estático. Agora que sabe sobre as minhas credenciais: sou o verossímil bichinho indigente catatônico. Mas foi até bom, pois se estivesse, onde estava, sei lá o que seria de mim. Tive sorte, muita sorte. Tanta sorte, que ainda que indiferente a tudo e a todos, ouvia os ruídos em forma de estrondos, gritos desesperados, berros escandolosos, correria desenfreada e não estava nem aí; ou melhor: nem lá. Pois categoricamente digo que não participei de tal efervescência urbana.

Minha intuição pede para você reparar detidamente algumas coisas em mim, as quais, sem pedir fui agraciado. Um vegetal amarelecido morrendo à míngua por falta de seiva é superior, muito superior a mim. Acariciadas por mãos leves e macias, geralmente plantas são verdes e vistosas. São regularmente regadas com água. Algumas delas recebem carinho, palavras amigas e incentivo motivacional; daí, crescem fortes, ficam grandes e quando na fase adulta, cruzam o androceu com o gineceu, gerando frutos. Eu não quero dar fruto não, vai que a semente germina plantas e frutos estragados, podres, cheios de caruncho; sobretudo, porque a genética não mente. Deus me livre de parir, prostituir o mundo com seres desalmados e facínoras. Como o bordão criado por você, ninguém, nem mesmo uma barata, um rato de esgoto, um parasita insalubre qualquer, merece!

Estudam as plantas e os animais como obras do mestre Maior, como obras do mestre Criador de todas as coisas; agora eu, ainda no período de gestação, já convivia com esses disparates cinzentos que agora são cuspidos em minha cara.

Notou poeira em minhas bochechas? Não diga que estou parecendo um resto de tsunami! Sinceramente nem sabia. Minha casa nunca teve coisas supérfluas, como por exemplo, um espelho. Vejo a nojeira dos Homens, as quais falam nos bastidores, na cara de meus irmãos; mas a minha, nem imaginava que estivesse assim. Se eles se acham lindos, naturalmente portando ramela nos olhos e feridas por todo corpo, qual a diferença entre mim e eles? Somos o resultado de uma noite mal, ou bem amada; coisa que nossos pais nem comentam. Quando se ama de verdade, o ruído dos pássaros não incomodam os amantes; o que aumenta em escala geométrica a casta. Organização que começa dentro de casa e expande para a sociedade: primeiro o pai; em seguida a mãe e em terceiro lugar na hierarquia, as crianças. Um dia quem sabe, serei adulto procriador e saberei o que isso significa.

Passando a mão, noto que sai um líquido vermelho de minhas faces. Que líquido será este, se não choro? Sempre ouvi que lágrimas são para pessoas frágeis; homens são fortes e não derramam lágrimas. É preocupante saber que, embora pertença à mesma espécie, Homem não é gente. E qual o problema que há nisto, não me considero Homem, e sim um boneco catatônico de carne e osso; tal qual gente? Sabe, quando consigo raciocinar, tudo isto gera em mim uma grande batalha de pensamentos. Total dualismo de ideias. Será esse o motivo de meus pulmões permanecer respirando essa minha catatonice?

O líquido e a poeira estão se acumulando, transformando-se numa pelota grudenta e mal cheirosa, que chega tapar os meus olhos. Também puderas: para quê servem os olhos se não enxergo e quando enxergo, não consigo assimilar as cenas vistas?! Gostaria de poder sair daqui, mas acho que lá fora está como o lugar que deixei. Catatonia minha de todas horas, onde estou? A qualquer momento este prédio também pode despedaçar-se. Divulgam para o mundo que aqui estamos no deserto e que temos petróleo e muito dinheiro; o que nunca soube ao certo, porque as construções são assentadas com areia lavada em solo pantanoso; portanto, risco iminente de desmontar andar por andar. Se possuem tanto dinheiro, por que constroem prédios tão frágeis, a ponto de serem derrubados pela ventania proporcionada pelas asas dos pássaros?

Meus pés descalços de sola cascuda não alcançam o chão; motivo d´eu balançar as perninhas que mamãe dizia ser rechonchudas, no ar. Quando for grande, pretendo usá-las para correr, como correram os homens que estavam ao meu lado; quem sabe consigo escapar, defender-me dos estrondos. Embora que vi um homem que conseguiu negacear um prédio que tombava, porém, ficou debaixo de outro. Pela penumbra movediça, veio-me a memória que era o meu pai. Naquele instante, deu um branco em minha catatonia e tive vontade de esmurrar as estruturas daquele prédio. Tinha que cair, virar as estruturas de pernas para o ar exatamente no instante em que meu papai estava tentando safar-se do outro que tombava melancolicamente por terra?! Foi uma enormidade de coisas caindo; pior do que o alarido de pássaros que importunam os sonhos de quem dorme de olhos abertos.

Estão me chamando. Tomara que não seja para levar-me de volta para onde vim. Espero que me plantem em lugar seguro, onde possua água, palavras, sorrisos, encantamentos e jamais, pássaros fazendo algazarra no momento mais nobre de meu sono. Nos pesadelos que tenho tido regularmente, iludo-me, imaginando que estou dormindo sobre um acolchoado de pétalas de rosas e desperto com espinhos pontiagudos perfurando meu corpo; embora que nada disto causa-me espanto. Vivências, coisas corriqueiras do meu cotidiano.

Foi um prazer conhecer-te. Sabia que você lendo-me, ainda que no silêncio de nosso anonimato e nada possa fazer, alegra-me pelo menos um pouquinho! O que de antemão adianto: essa sua postura amigável e solícita não é suficiente para desfazer o transtorno da cruz que carrego, chamada catatonia. E possuído pelos deuses do mais puro e tenro sentimento de gratidão, espero que você nunca esteja em minha pele e muito menos, que os pássaros não façam alarido quando você estiver dormindo. Nunca achei graça nos pios dos pássaros; aliás, para mim são feios e asquerosos. Que tenhas sorte, saúde e principalmente, paz sempre! Tenho que ir.

Oi leitor, você ainda está aí? Sabe, queria te contar que um senhor sério, de bigode fechado, sobrancelhas caídas sobre os olhos disse para o seu companheiro de enfermaria, lugar que fui levado, que a “imbecilidade e a bestialidade humana são itinerantes, cosmopolitas, estão em toda parte, portanto, não possuem nacionalidade”. O outro apenas hesitou em dizer que aonde tem Homem de carne, osso e inteligência arbitrária, fuja, bata em retirada o mais rápido possível, senão, ficarás como ele. Coitado daquele burro velho acamado, que é gente como eu, estava de cima a baixo estropiado. O estado de penúria dele era tamanha, que até sinto que estou bem. Vendo as coisas como estão, agora sei por que de tanta correria e atropelamento.

Embora no fundo, no fundo, não faça parte de mim, fui iluminado pela dúvida dos seres que sofrem de lucidez retardada: não era Homem de pernas longas, de carne, ossos e inteligência arbitrária que vi correr dos estrondos causados pelos pássaros? Homens causando medo, espanto em gente grande e pequena. Que atitude mais insensata, estranha! Penso que ser Homem, é o mesmo que alardear a esquisitice daquilo que eles mais veneram, que é o poder, dinheiro e o canibalismo. Poderosos antropófagos endinheirados!

Seja quem e como for, quando abrem as asas e desfilam a imensa envergadura em forma de ponto negro no céu, pássaros assustam. Causam terror. Para mim a vida não passa de uma espiga de milho, ou uma colcha fina e transparente; e se não remendo a esperança, debulho os retalhos de segundos que me resta.

Obrigado por ler as minhas besteiras infames. Definitivamente tenho que ir, as aves de rapina são impacientes e não esperam os horários apropriados para alimentarem-se. E por estarem sempre famintas, pressinto que a minha hora está chegando. Adeus!

E de um em um, o nosso futuro vai sendo extirpado pelas mãos cruéis e inteligências arbitrárias dos Homens.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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