ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente

Conhecendo parte da história do Vale europeu sobre duas rodas

Ao longe cai a tarde;

O dia se despede morno;

No sol que morre, enviesado.


O céu acompanhado de seus misteriosos coadjuvantes não cobre, não aquece, não refrigera, não acalenta um pedaço de terra mais belo do que a “Pátria amada, Brasil”.

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O Brasil é o principal país da América do Sul e territorialmente, um “continente” dentro do planeta. Impossível não reverenciá-lo com toda sua diversidade cultural e múltiplas riquezas. Em cada grão de terra, um ser ultrapassado de chapéu de palha, com a pele avermelhada pelo sol ou esbranquiçada pelo frio, com um toco de cigarro de palha no canto da boca, conta as reminiscências do passado. Assim é do Oiapoque ao Chuí, e quem quiser se localizar no Tempo, deve conectar os ouvidos com a paciência do ouvir; porque, para obter conhecimento histórico, apenas os livros não bastam. Aliás quem rumina somente as palavras escritas nos livros, dando total e completa veracidade à elas, perde a indelével oportunidade de conhecer-se.

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Houve uma época na história do país que diziam pejorativamente que o Brasil era terra de índios. Talvez dissessem isto por causa dos nativos de cara pintada que, abrindo as águas, rema(va)m suas canoas pelos inúmeros igapós e ilhas do país; e embora os homens brancos alimentem a ilusão do: “sou eu o legítimo dono dessa porção de terra”, são eles os povos que habitavam a imensidão das matas verdes quando os portugueses e demais invasores chegaram em solo tupiniquim.

Porém, nem toda falácia é aderida universalmente, principalmente, quando os falantes dependem daquilo que está sendo alvo de chacota. E é o período de tragédia, de depressão causada pela guerra, de disseminação de doenças, de escassez de alimentos que melhor representa esta realidade; aliás, por sinal, em determinados casos, alteram radicalmente os conceitos e nomenclaturas. Vão do fel ao mel, do inferno ao céu em segundos.

As dores das feridas abertas pelas guerras atormentavam os neurônios dos europeus. Prevendo tais acontecimentos, uns já haviam se debandado para terras distantes. Entretanto, outros tantos menos lúcidos de visão futura padeciam sob o fogo cruzado, carecendo de apoio e socorro. Em situação de extremo estresse e sofrimento, contrário do conceito físico, a tendência natural é que os humanos de iguais pensamentos se atraiam.

Foi o que fizeram. E após noites e noites mal dormidas, meses e meses acotovelando-se em espaço reduzido, famílias e mais famílias desembarcaram nos portos da “Terra Prometida”; pois a terra boa é aquela em que a fertilidade do solo não cobra pelos grãos de trigo germinados, o clima da região lembra as origens, o mel é a fluidez e abundância das águas que descem aos borbotões da ribanceira e os nativos são harmoniosos e pacíficos. Portanto, para os europeus recém-chegados, o refúgio chamado Brasil deixava de ser “terra de índios”, para ser a “nova Jerusalém”. E se as condições geográficas e climatológicas são preponderantes para o assentamento de vidas, o Sul foi a “Meca” e esconderijo do povo europeu. Naquele espraiado pedaço de chão, entre praias paradisíacas e serras miraculosas, eles estariam - como estão - são e salvos da miséria da fome, das doenças endêmicas europeias e provavelmente, guerra nunca mais.

Vale Itajaí. Santa Catarina. Foi lá que recentemente uma brava e feroz enchente alagou casas, arrastou carros, sufocou plantações, dizimou gente. Por certo período, a Natureza não foi nada amigável com os ribeirinhos e citadinos, deixando parte do vale alagado, feito pântano. Esquecendo as atrocidades, contudo, também é por aquelas bandas que a exuberante Natureza e oásis de gente simples e faladora convidam os arredios de natureza para darem uma volta nos mais de 300 km de estradas que alternam entre os aproximados 10% do negro do asfalto e os outros 90%, sobre o avermelhado-pedregulhoso de terra.

Acerca de 10 anos, talvez orientado pelos exemplos europeus, um esportista inquieto teve a brilhante ideia de unificar as nove pequenas, porém aconchegantes cidades, na criação do primeiro traçado a ser percorrido sobre as duas rodas de uma bicicleta, também conhecida popularmente como “magrela”. Pelo percurso originalmente mapeado, a viagem começa e termina na cidade de Timbó; o que não deve ser tomado como traçado único, pois os municípios são retalhados por estradas e desvios de terra secundários e podem servir de socorro para os pedaleiros despreparados para este tipo de aventura.

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Embora a altitude seja bastante variável e em alguns pontos chegue aos 700 ou 800 metros de subida em 10 km, o percurso, conforme definido em projeto, é para ser feito em uma semana; porém, além da experiência, o que mais conta é a condição física do ciclista. Todavia, a cada 30 ou 40 km, uma cidade desponta nos baixios para desafogar o estradeiro do cansaço e ao mesmo tempo, oferecer farta alimentação, um banho relaxante e uma cama reconfortante para espojar o corpo na madrugada e bocejar o prazer de despertar ao som dos pássaros.

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Entretanto, as belezas e divagações da viagem não morrem por aí; ao contrário, renascem ao observar o multicolorido dos jardins e pomares. Ao abrir a janela e se deparar com as aves em arribação em busca de alimentos; encontrar pelos caminhos copas de árvores repletas de doces frutos. E estando no topo mais alto do cume, contemplar o despertar ou o pôr do sol, mistérios divinos que sobrepõem o sobrenatural.

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Falando em divino, o Pico dos Anjos é parada obrigatória para uma foto. Ali, bem no alto, a artesão Seu Paulo, um veterano agricultor de tempos idos plantou uma coleção de anjos, que segundo ele, foi o primeiro projeto de Deus; e assim sendo, o homem foi a segunda criação a ser esculpida pelas benévolas mãos do Criador. Atualmente, a coleção conta com mais de 65 anjos ao redor da estátua de Cristo, que inspirada no Cristo Redentor do Rio de Janeiro, a obra em argila foi também laboriosamente trabalhada pelas suas mãos. Todo o conjunto foi denominado pelo matuto como "Portal do Paraíso", o que não é para menos. Deus vaga por toda parte, protege todos os seis continentes, mas não é de se admirar que vá se recolher em alguma cabana por ali; pois naquele grotão harmonioso, onde as Criaturas da Noite, mais conhecido como pássaros curiangos, são os sentinela, fé e mistério é o que faltam.

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E se por acaso faltar-lhe fôlego para relatar parte da história do Valeu Europeu, fixe os olhos nas fotos, veja e reveja, viaje e regresse, provavelmente, elas o motive a mil palavras.

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Pois no silêncio absoluto do vazio não se ouve a Natureza grasnando, sibilando, coaxando, trinando. Os sons da Natureza são finos e exige perspicácia de sentidos. Entretanto, em cima de duas rodas de uma "magrela" os sentidos sentem-se mais leves, mais embriagados, mais absortos, concentrados aos sons.

Trovões ribombam / Ruídos demais.

Nesse gigantesco mundo / Sobre duas rodas / Pequenas e silenciosas miudezas.

Ademais, ao pedalar a bicicleta no chamado P.C.E: Pedal de Corrente Esticada, as longas distâncias encurtam e o agônico padecimento histórico das estradas percorridas alargam a visão, ampliam os conhecimentos na memória do viajante.

Fotos pertencentes ao autor do artigo.


Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente.
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