ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente

O Maranhão e a música de Zeca; o Exterminador de balas

Que a bala caramelizada é doce, o Exterminador se nega afirmar; mas que parece doce feito mel, o escritor deste afirma plenamente por ele. Sobretudo, as conquistas e opções são edificadas sobre as bases flutuantes das incertezas.


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O Maranhão é uma miscelânea de cultura popular e história. A capital São Luiz foi colonizada pelos franceses, que viram a sua conquista hegemônica ser perdida para os holandeses; que mais tarde, perderam o espaço conquistado para os portugueses. Marcada pelo perde-e-ganha, os últimos finalmente põem fim ao racha colonizador e deixam as suas digitais na arquitetura da cidade; o que leva os turistas e visitantes a pensar, erroneamente, que a cidade foi colonizada exclusivamente pelos portugueses.

Na política nacional, José Sarney foi o representante do estado, sendo inclusive, Presidente do país. Um Presidente que à época entrou pelas portas do fundo. O “mérito” só foi conseguido porque, após ser eleito pelo voto popular, Trancredo Neves falece misteriosamente, abrindo espaço para o vice assumir o governo. No final de seu mandato, os brasileiros amargavam os alarmantes 80% de inflação ao mês, e a mercadoria que se comprava de manhã por certo valor, a tarde sofria remarcação; obviamente, para mais.

Musicalmente, guardadas as grandezas proporcionadas pelos pioneiros do reggae, o Maranhão é a Jamaica brasileira. E embora não tenha revelado ninguém à altura de Bob Marley, em dado momento, o estilo se espalhou como fogo em palha seca movido pelo vento país afora. No Sudeste os longos cabelos rastafári cultua(va)m o gênero musical a todo vapor. Também proveniente do Maranhão, o restante do Brasil conheceu o carimbó. A intérprete Eliana Pittman foi quem mais fez sucesso com o ritmo alegre e dançante exportado pelo estado. Salvo engano, se não for do Pará, a lambada, outro estilo de música dançante, por sinal sensualíssima, é originária da terra do folclore do bumba-meu-boi.

Contudo, quem quebrou com as barreiras da unicidade musical nos estilos vindos do Maranhão foi Zeca Baleiro; músico, compositor, arranjador que possui uma bagagem musical, além de bem sucedida, artisticamente inusitada. Pós-adolescente que não conseguia deslanchar profissionalmente no meio musical, Zeca ingressa na faculdade de Agronomia. Um ano foi suficiente para descobrir que falar a língua e medicar animais não era a sua. Migrou para jornalismo; e embora goste de escrever, não curtiu a ideia de usar o microfone para divulgar as coisas que não fossem de amor e de homens de pensamentos livres.

Comedor inveterado de balas, chocolates e outras guloseimas, para não sair com as mãos abanando e nada que lhe pudesse servir de inspiração, Zeca ganhou como brinde dos amigos de cursos a alcunha de “Baleiro”. Como tentativa, o músico amador chegou a montar um pequeno comércio de guloseimas, mas comendo mais do que vendia, faliu. Porém, entre gargalhadas e galhofas, o apelido era o que lhe faltava para que se descobrisse no meio artístico; e daquele momento em diante, pelo menos para a “galera” do beer, seu nome não era mais José Ribamar e sim, Zeca Baleiro.

Em Belo Horizonte, as vozes da M.P.B explodiam com Milton Nascimento, com os expoentes musicais nascidos na família Borges, com Beto Guedes, com Flávio Venturini. Realçando os timbres, vários compositores excepcionais, dentre eles, Fernando Brant colaboravam com elas. Baleiro deixa a terra natal e vai para Minas, se não para fazer um estágio avançado com esse pessoal, pelo menos para ouvi-los de perto. A estada nas Alterosas dura um bocado de meses, até que decide voltar às origens. Na bagagem apenas a "desilusão" de ter feito mais uma tentativa e não conseguido o intento.

Alternadamente, Zeca continuava tocando nas noites maranhenses. Durante o dia administrava a mixaria apurada com a venda das balas; - quando sobrava - e a noite, sentado sobre um banco duro de madeira, tirava uma chinfra, tocando e cantando em bares e eventos locais. Com certa predominância para a M.P.B, no repertório havia um pouco de tudo. Aliás, além de letrista, seus arranjos musicais variam do samba de breque ao samba de raiz; do pop-rock ao heavy metal abrasileirado. Logicamente sem se aprofundar em um estilo ou outro, Baleiro faz da musicalidade, estilos livres de música.

Saturado com o marasmo de imaginar ser, o que não era, e fazendo do Fiat sua casa, abaixa as portas do comércio e se lança na estrada. Como hippie das antigas, pendura o violão no ombro e põe-se a correr o trecho. Aporta-se em Sampa por volta de 1990. A capital paulistana é uma cidade multifacetada, onde tudo pode acontecer, tanto para o bem, quanto para o mal; tanto para o certo, quanto para o errado. De maneira dura e cruel, os migrantes acabam sabendo que São Paulo é o portal de entrada para o sucesso, ou para o ostracismo, tudo ocorre com o tempo; e se nada do proposto lhe aconteceu no Maranhão, não seria na extinta “terra da garoa” que isso iria acontecer, naturalmente, da noite para o dia. Entretanto, estar em São Paulo, porta à porta com as gravadoras e empresários é como o goleador que está plantado na cara do gol: era pintar a oportunidade, que o Exterminador mostraria aos paulistanos sua competência e por que atravessou o país quase de ponta à ponta.

Sete anos se passaram. A concorrência era grande e ao seu lado, guerreando pelo mesmo espaço e estrelato musical, estavam os pernambucanos Lenine e Chico Science com o seu mangue beat, o pagodeiro Zeca Pagodinho, o som alternativo de Paulinho Moska; e entre outros, o paraibano Chico César, com quem Zeca dividiu um “ninho-dormitório” e pediu emprestado por certo tempo um amplificador para equalizar e apurar o seu som. Ainda assim, persistente aos seus princípios, o mascador de balas sobrevivia do violão, voz, microfone e um banco de bar; objetos que lhe rendia um mísero cachê aqui, outro ali e assim, as incertezas do açucarado das balas seguiam sem alterações em seu paladar. Até que um convite para fazer parte da banda da Gal na gravação do: “Gal Costa no acústico MTV” altera radicalmente o dissabor das balas, para a doçura da música.

Naquele mesmo ano lança o “Por Onde Andará Stephen Fry?”, seu primeiro disco. Uma das marcas registradas de Zeca é a colocação de palavras estrangeiras e neologismos em seu trabalho, cuja finalidade é criar rimas pobres, como é o caso do título da letra “Samba do Approch”. Fazendo uma citação à banda Jetro Tull, a parceria entre ele e o xará Zeca pagodinho fez com que o samba estourasse nas rádios do país. Baleiro não se considera um artista regionalista; pelo contrário, seu talento para música o leva a experimentar e variar todos os estilos e ritmos. Por exemplo, o álbum "Pet Shop Mundo Cão", lançado em 2002, conta com as participações de Elba Ramalho, Arnaldo Batista e outros. O viés deste álbum que conta com a participação de muitos artistas de variados e diferentes estilos, é que ele é considerado pela crítica geral, como o mais notável trabalho produzido por Zeca ao longo de seus vinte anos de carreira.

O maranhense já lançou mais de 15 discos. No entanto, sua saga no universo das artes não finda na música. E dando vazão e continuidade a sua criatividade ímpar, os livros “Bala na agulha" e "Vida” fazem parte de seu doce repertório; os quais incluem as guloseimas, a música, as letras e a literatura.

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Como não bastasse o vasto recital artístico, Baleiro é um menestrel que canta as doces poesias que embalam as ilusões no alvorecer e libertam os sonhos romanceiros no arrebol do entardecer. Quem acompanha a carreira do músico, sabe o que as inspirações irônicas do músico significam e o quanto lhe são úteis no seu dia-a-dia.


Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente.
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