ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico



Takeshi Inomata e sua simplificada Big Band Jazzística

Numa fusão de sax a lá Van der Graaf Generator, flauta soprada ao estilo erudito Ian Anderson do Jetro Tull, guitarra distorcida, teclado sorrateiro, baixo esquisito e batidas na aprazível bateria, seu instrumento predileto e entre uma pedrada e outra, Takeshi Inomata vai desfraldando o seu magistral repertório instrumental de rock-jazzístico.



O senhor Takeshi foi precursor no desenvolvimento de projetos de percussão para a Yamaha instrumentos musicais. E ficou só nisto? Não, no seu currículo inclui-se também a chancela de músico e professor de alta expressividade japonesa. takeshi1.jpg

Os idos de 1970 foi arrasador para a cultura musicada. Talvez pela solidificação dos estilos que vinham sendo burilados ao longo do tempo, é difícil um álbum de qualquer um deles, seja samba, rock, sertanejo, (odeio ter que mencionar que é o de raiz) jazz, blues, bossa, MPB, não aterrissar de asas abertas nas ondas sonoras como o melhor de todos os tempos. Tome como exemplo o álbum “Acabou Chorare” dos “Novos Baianos”; obra qualificada pela revista Rolling Stones como sendo o melhor trabalho musical já produzido no Brasil. E se de lá para cá não houve nada parecido, ou digno de nota pelos críticos e especialistas de plantão, é por que o álbum ainda permanece acima da média.

Do Japão, país que exporta tecnologia para o mundo, a música artesanal, àquela feita através da iniciação em conservatório e lapidada pela criação das mãos, apenas, não é nada comum. Embora tenha havido gerações conectadas com a música, principalmente o rock clássico, (o Deep Purple lançou memoráveis álbuns ao vivo, Made in Japan é um deles, em território japonês) contam-se nos dedos as bandas japonesas que conseguiram emplacar alguma coisa razoável nesse estilo. E se houve ou há, supõe-se que o sucesso tenha sido local, ou se atingiu alguns países, não inclui o Brasil. Na linha do rock progressivo, há uma banda chamada Ain Soph que alguns críticos atestam que foi inspirada no estilo da banda inglesa Camel. Inspirado pode até ser, mas as diferenças de som entre uma banda e outra, é o que não faltam.

takeshi.jpg

No entanto, crendo que no deserto, após longínquas e perdidas miragens, pode haver um oásis de rara beleza, o álbum produzido por Takeshi e pelo que parece único; é de uma sonoridade impar. Dado ao experimental, o álbum é lisergia do início ao fim; aliás, a faixa “Theme Mustache”, ( em vez de uma respeitável cabeleira anos 70, o título da faixa não é em homenagem ao imponente bigode usado pelo músico no ápice da carreira? ) começa com um flauteado tilintado por sino bucólico, seguido pelos demais instrumentos. Parecido com uma suíte perdition, as notas e os timbres adquirem muitas variações, encerrando-se com uma breve pincelada de “Hey Jude” dos Beatles.

A história do mestre-luthier de bateria é descrita por ele ter sido um dos precursores no desenvolvimento de instrumentos de percussão para a empresa Yamaha. E dedicando-se exclusivamente a rufar os tambores, estilhaçar os pratos, as caixas e os pedais das baterias, Takeshi ganhava notoriedade no meio artístico. Aliás, reza a lenda que no conflito entre japoneses e coreanos, os combatentes estafados com a insanidade da guerra, escapavam dos campos de combate, indo refugiar-se nas boates para ouvir o jazz pacífico e reanimador do baterista. Como bom oriental que foi ou é, Inomata sab(e)ia do poder reparador, do bálsamo aliviador de tensão, da energização espiritual proporcionado pela música.

Durante sua brilhante carreira em Tókio, Inomata comandou a cozinha, temperando com leves batidas de pratos as levadas do jazz para músicos tais como Rufus Reed, J.J. Johnson, assim como para a requintadíssima Anita O'Day. Após meados da década 1970, Takeshi inicia uma nova fase em sua carreira e dedica-se à transitoriedade de legado, ensinando música; preferencialmente, tambor, sua especialidade predileta.

Na era dos japoneses de olhos fechados, quem possuía mente aberta para a música era Takeshi Inomata. E quando os seus conterrâneos da Terra do Sol Nascente, esquecendo-se de usar a criatividade, abriram os olhos para a tecnologia, o músico fez questão de fechar os seus, pois já havia feito sua revolução particular no universo da música alternativa. Takeshi devia ser contra tudo e todos. Sujeito anacrônico no tempo, porque para fazer um som tão refinado como o álbum Sounds Of Sound L.T.D., o artista devia estar compactuado somente com seus ideais artísticos. Sorte de alguns que esses senhores existe(ira)m; porque senão, seríamos tragados pelos redemoinhos dos convencionalismos; o que convenhamos, não é nada agradável para os que primam pelo bom gosto musical.

Portanto, abaixo os artificialismos musicados, dê uma basta na monotonia de ouvir música com a batida de uma nota só, mande para bem longe os artificialismos gerados pelos excessos da tecnologia, peça licença ao lixo sonoro que porventura atrapalha o seu dia no trânsito, no trabalho, no campo, no lar. Porque, indubitavelmente, para o álbum ora citado, até o Jô Soares com sua trupe afinadíssima de jazz tira o chapéu. Quem garante tudo isto? O breve ensaio sobre o mentor da percussão, a diversificação de sonoridades e a virtuose caracterizada por cada arranjo das faixas; os quais, aliás, quanto mais se ouve, mais o amante do som alternativo se sente tentado a ouvir. Como heresia pode ser um ato absurdo, algo fora do contexto, o álbum em toda sua inteireza é para os heréticos que abominam os costumes e as mesmices sonoras.

Bela e levitante transcendência lunática, terráqueo(a)s! É o que Takeshi Inomata deseja(va) à plenitude humana; pois, sempre que um baterista empunha as baquetas e a deixa cair, suavemente ou voraz sobre os pratos e couro de caixas, o eco representante de sua criação, dedicação e trabalho espoca em algum lugar do mundo.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @obvious, @obvioushp //Profeta do Arauto