ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente

Um é bom. Três é excelente!

Ednardo, Belchior e Amelinha, em o "Pessoal do Ceará" neles, porque “A ignorância é indigesta para o freguês”.


Para quem aprecia a filosofia itinerante, os vieses indisciplinados da poesia, Belchior é excelente; mas Amelinha, Ednardo e Belchior, os três cearenses juntos, é a descoberta do jubiloso etéreo musicado. Sublime preciosidade!

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Filosofia; Poesia; Cordel; MPB; Forró; Literatura; Embolada, Divagações, Sertanejo; tudo num álbum só? Sim, num álbum só é possível; o que não é possível é produzir esse monte de estilos, ritmos e cultura por um músico apenas; motivo dos três terem se juntado para matizar com as cores dos ébrios anuviados pela liberdade, o álbum denominado “Pessoal do Ceará”.

Eles já tinham rodado bastante, zanzado por todos os submundos alternativos, esgaravatado o solo árido das vias musicais independentes. Portanto, os três cascudos da música cearense estavam livres, solteiros para o novo enlace. Uma vez que haviam revolucionado os costumes, nada melhor do que reviver o que cada um havia feito outrora.

A iniciativa de reunir os três para uma sarau violado, com cantoria solta, bem ao estilo anos 70, foi do compositor Ednardo. Pouco conhecido, o músico não pisou o degrau da fama pisado pelo seu companheiro; quando muito, somente lá pelos lados do sertão cearense. Todavia em suas opacas pegadas musicais destacam-se “Enquanto engomo a calça” e “Pavão Misterioso”. Fazendo da música a sua predileção maior, o artista compõe trilhas sonoras para cinema e teatro.

Belchior foi o segundo da lista, que para o bem das recordações, dispensa comentários. Mas para não tornar-me omisso, aceite em nome dele, este grunhido fino, revoltoso, poético que dilacera os sentimentos e desnorteia os sentidos da alma:

O que é que pode fazer o homem comum Neste presente instante senão sangrar? Tentar inaugurar A vida comovida Inteiramente livre e triunfante?

O que é que eu posso fazer Com a minha juventude Quando a máxima saúde hoje É pretender usar a voz?

O que é que eu posso fazer Um simples cantador das coisas do porão? Deus fez os cães da rua pra morder vocês Que sob a luz da lua Os tratam como gente - é claro! - aos pontapés

Era uma vez um homem e o seu tempo Botas de sangue nas roupas de lorca Olho de frente a cara do presente e sei Que vou ouvir a mesma história porca Não há motivo para festa: Ora esta! Eu não sei rir à toa!

Fique você com a mente positiva Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!) Pois sou uma pessoa. Esta é minha canoa: Eu nela embarco. Eu sou pessoa! A palavra "pessoa" hoje não soa bem Pouco me importa!

Não! Você não me impediu de ser feliz! Nunca jamais bateu a porta em meu nariz! Ninguém é gente! Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!

Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos! Não sou da nação dos condenados! Não sou do sertão dos ofendidos! Você sabe bem: Conheço o meu lugar!

Belchior, não só se conhece, como conhece os instintos humanos; no entanto, se alguém ainda tem dúvida, chame a intérprete Elis Regina que a sua disposição e melodiosa voz para as coisas incomuns trarão de volta o imortalizado refrão:

“O que há algum tempo era novo, jovem / Hoje é antigo / E precisamos todos rejuvenescer”. Difícil alguém não conhecer a imortal “Velha Roupa Colorida”.

E se porventura houve quem não quis saber o que a letra retratava, fatalmente deve ter sido os militares; pois novos modelos de costumes e hábitos não combinavam muito bem com o regime ideológico empregado por eles na época. Clamando pela liberdade de expressão, até então, a MPB era literalmente composta por gumes cortantes das carnes dos inquisidores que insistiam em contrariar aqueles que queriam um país livre das obscenidades da imposição.

O terceiro membro foi Amelinha; que faz parte do esquadrão feminino de mulheres-intérpretes revelado no auge da MPB. Dona de uma voz sensual, ela não passa despercebida dos ouvidos, por mais sonolentos que sejam. No início, além de seu visual exageradamente hippie, uma interpretação que ganhou notoriedade sob sua voz e por isto se tornou bastante conhecida nacionalmente, é “Mulher Nova Bonita e Carinhosa”, composição do Zé Ramalho.

Feliz e pertinente letra que revela a beleza, a intensa sexualidade de Maria Bonita e o orgasmo ciumento de Lampeão pela amada. O jagunço se derretia todo, bem como o seu ego machista ia por água´baixo ao primeiro sensual levantar de saia, convite e flechada certeira que cravava o coração do amado. Ao sentir o cheiro de viço, o cio da esposa, não titubeava, largava as armas, o front e disparava de braços abertos em direção ao desejo nupcial.

E assim que os dois sumiam ao longe, o céu derribava das alturas, os pequenos arbustos rodopiavam e toda a caatinga tremia; pois, eram considerados almas gêmeas nascidas uma para a outra. Ademais, porque sabiam também que amar não exige poder aquisitivo e muito menos requinte; em contrapartida, quanto mais inóspito e exótico é o ambiente, mais caliente, mais sedento de remelexo, é o balanço, é o chacoalhar do esporte dedicado ao sexo. Como leão manso, Lampeão não só tremia, como gemia feito criança fragilizada pelo sussurro de ninar da mamãe.

Juntaram-se aos três, mais alguns músicos nordestinos; afinal, a originalidade, aliado ao potencial de cada um, seria o registro indelével do trabalho, ora proposto. Portanto, feita a catada do pessoal, não restava outra coisa, senão montar o repertório.

A incursão ao surreal é aberta com "Terral", canção composta por Ednardo e interpretada pelos três. O álbum segue com a visceral “Como nossos pais”. E alternando entre composições de Ednardo e Belchior, o álbum vai revelando ao ouvinte uma espécie de sonata desconhecida, tanto nos acordes, quanto na escrita. Em “Mote, Tom e Radar”, a rabeca, instrumento bastante parecido com o clássico violino, cujas cordas são feitas com tripas de animais, motivo este de ser muito popular no Norte e Nordeste, dá o tom exato para o restante dos instrumentos e notas.

Para encerrar os quase 60 min de nostalgia lunar, “Artigo 26”, letra também de Ednardo, interpretada pelos três, funde analogias, poesia e filosofia, associadas aos ideais da Revolução Francesa; ocorrência histórica que inspirou o músico a escrever a letra.


Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente.
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