ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Em qual estacionamento deixamos o nosso ego e vaidade; ou melhor, o veículo?

Há uma linha muito tênue entre hobby e doença mental - Luis F. Veríssimo

A cultura são mares de águas doces, mansas e plácidas. Mergulhe de corpo e alma, nade de braçadas em suas futilidades; você também é proprietário de uma parcela da inutilidade que ronda as paradisíacas paisagens dos abissais oceanos.


Se as histórias de Pokémon Go, futebol, funk, olimpíadas, políticos corruptos, hipocrisia social, para não citar muitas outras, embaralham, aumentam a catarata, não vão bem, não capturam as suas vistas; use colírio "Olhos Vivos", ou mova o Planeta de lugar. A Terra infértil de cultura agradece!

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Ei Hermeneuta, aonde você vai com esse monte de ferramentas enferrujadas?! Quanta afobação! Carregando peso para nada. Pelo que parece curti trabalhar de graça. Repare melhor nas tralhas, pois elas são ultrapassadas e por isto, não estão aptas para reparar os problemas; se é que eles existem e justificam o seu idealismo. Por mais e mais, se a ciência, se a tecnologia com todo avanço não resolve, você com suas ferramentas estacionárias no tempo é que irá resolver? Pare com tamanha preocupação. Basta de insolência! Qual é o exemplo, qual é o legado a ser seguido, o que alguém desatualizado como você pode transmitir às gerações vindouras? Sua casa não possui espelho? Deixe de ser fora de época, anacrônico. Intere-se do que gira ao seu redor. Pesquise e saiba que as ferramentas operacionais que dão resultados satisfatórios e imediatos, são outras.

A Filosofia não saiu da Grécia, ficando exclusivamente para os gregos; e como eles estão? Caindo aos pedaços. Total ostracismo. Teorizaram e questionaram as leis universais, mas não resolveram absolutamente nada. Filosofia não enche barriga. Amigo do saber? O saber não ocupa lugar, mas também não move moinhos para a quebra do milho. O tempo, além de não parar, não permite a troca de seis por meia dúzia.

Note que tudo é mutável e através da mutação, a inovação faz-se presente no cotidiano das pessoas; que por sua vez, não caminham mais devagar, não observam os pássaros em arribação, não cumprimentam os vizinhos, não perdem tempo piscando os olhos, não contam estrelas, fazem questão de não saber as cores do arco-íris; não trocam carícias, sem antes bagunçar, bulir nas genitálias; não leem o horóscopo, não escrevem cartas, não sorriem livremente, não assistem o desenho do Pinóquio, não sentam à mesa para um simples cafezinho em família e nem bêbados, filosofam os meandros da vida. Portanto, não será você a andar na contramão, ou será? Como é seu nome; não me diga que em seu Registro Geral está escrito Messias; filho de José e Maria! Bom, se assim for, está explicado; pois seu pai deve ter sido carpinteiro. Bater prego na tábua: profissão mais antiquada.

As mãos que imploram pelo alimento,

São as mesmas que semeiam os grãos,

Que comprazem os sorrisos nos lábios,

Que se lançam em defesa dos justos,

Que jamais negam o aperto de mãos.

Que enxugam as lágrimas da dor,

Que tocam em ombros frágeis,

Que acariciam os rostos,

que acenam o adeus,

no diligente: como

foi bom rever,

aqueles que,

certamente,

são nossos

amigos e

irmãos.

Ih, não! Pare com poesias e reflexões. Que intelectualidade mais insensata e ultrapassada. Chega ser ultrajante ver alguém perder tempo escrevendo poema, pensando que está tocando arpa. Volte para o buraco da terra, lugar onde não deveria ter saído! Seja insípido como a humanidade. Adote a ultramodernidade dos artificialismos, superficialismos e viva em comunhão consigo. Vamos, entre, vamos dar uma volta no mundo de carro!

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Uma vez que não resistiu a tentação, prossigamos com o que interessa. Você com seus alicates, picareta, cruz, frascos e mais frascos de colírios, relógios, formões, martelos, tesouras, chaves de fenda, bússola, estetoscópio, escada, escantilhão, mapas, dicionários, desempenadeiras, livros, torno, trenas, vassoura, rodo, foice, prumo, nível de bolha, botina, pilão, peneiras, pá, rastelos, plaina, terço, lima e velharias mais, é a imagem e semelhança de um, sei lá se devo chamá-lo de amigo, que ainda acredita que quando espalharem, quando adubarem os campos com amor, fraternidade, solidariedade, altruísmo, paz, divisão igualitária, justiça, indiferença, empatia, indiscriminação, tolerância, paciência, igualdade, perdão, humildade e simplicidade, a colheita será recorde, a safra renderá bons frutos e tudo se transformará em boas novas. Ao ouvir essa versão retrógada, digo para ele: continue com suas utopias, continue idealizando; idealizar não paga nada. Porém, também nada tens e nada terás para receber.

Realmente: velho é pensar que tais coisas ainda podem surtir efeito na jovial relação humana. Velho é pensar que o teorizado pelo químico francês Lavoisier ainda é estudado e praticado. Esqueça! A princípio, as teorias existem não para serem aplicadas; mesmo porque, a anatomia humana nos dias de hoje é composta por muitas mentes “pensantes” e poucas mãos operantes. Ademais, as inovações vieram exatamente para exterminar, tirar de circulação o que existia e pouco funcional. Obviamente se tiraram de circulação, é porque não tem mais a menor utilidade; não possuem o menor significado. O homem moderno, além de curioso, adora novidades. Indo além: novidades, facilidades, bem estar, zona de conforto, gorjetas, mesadas, migalhas, acomodação. O receituário é enorme.

Você deve saber, porque é do seu tempo, mas vou repassar o dito por Einstein: “O mundo é um lugar perigoso para se viver, não exatamente porque as pessoas são más; mas porque não fazem nada quanto a isso”.

O eufêmico Einstein acertou em cheio e por não sermos maus, evoluímos das incertezas para as descartabilidades e artificialismos. Como assim? É usar e jogar fora. Você armazena, estoca preservativo ou fralda usada? Imagino que não. Se não entendeu, serei claro: a modernidade é totalmente contrária, o inverso de como utilizam uma vagina. Acabou aquele negócio de usou, lavou e passou, o couro está novo para o reuso. Pois então, só você para manter e insistir com tralhas velhas no guarda roupas. Por acaso sofre do transtorno da acumulação? Se assim pensas, precisa procurar um psicólogo ou um psicanalista urgente.

Obsolescência. Palavra difícil até de pronunciar? Pelo contrário, ela representa o imediatismo da governança tecnológica. E através dela, os objetos saem da fábrica com o prazo validade estipulado. Chegam às mãos do consumidor já prenunciando o descarte. Aqui sim vale o usou, descartou! O computador, o televisor, o carro último modelo, o celular ao sair da loja agora já estão obsoletos, fora de série daqui a pouco. Por que ficar a vida inteira usufruindo de objetos de modelos únicos? Você crê no: “até que a morte os separe”; mas aqueles que apregoam e propõem o lema no enlace matrimonial não casam. Raciocinou?

Respeito? Pronto, já vem você falando de outra coisa inexequível e fora de catálogo. Esse já foi faz tempo! Sumiu para nunca mais voltar. Desfez-se, como desfaz uma nuvem passageira. Ninguém sabe de seu paradeiro. Aliás, ouvi certo dia que respeito é palavra sem significado no universo humano. Numa outra roda em que discutiam relação humana, sob a qual, o pano de fundo era terapia ocupacional, um dos depoentes disse que o respeito sumiu até dos dicionários. Também puderas: quem conhece e usa o dicionário? Esse é outro objeto de pouca ou nenhuma valia. Você tem e usa? O que mais você usava no dicionário, se não o significado da palavra procurada?

Conselho deveria ser vendido, mas como “amigo” vou dizer-lhe: para não ser tachado de fora de época, antiquado, desatualizado, suma com eles imediatamente. Assim que pôr os pés na sala de sua casa, não se esqueça do recomendado. O bom e estudioso aluno não pede para o professor repetir a lição duas vezes; ao contrário, pesquisa, se autodesenvolve e em alguns casos, se torna autodidata e passa a lecionar.

Honestidade? Mais um descaso social, que chamam de virtude intrínseca. Por que ser honesto, se através de uma propininha, se através de um cumprimento caloroso – aqui vale o aperto de mão -, se através de um cafezinho no bar da esquina, você tem o seu problema resolvido. Meu caro, suar a camisa é asnice. Por sinal, dá um excelente comercial de televisão: “abra a mente, evite dores de cabeça, ofereça e receba propina e tenha os seus problemas resolvidos instantaneamente”. O que seria da dramaturgia, se não fossem essas saídas mágicas aplicadas diariamente? Com certeza os publicitários, diretores e escritores de novela estariam desempregados.

Dignidade? Trabalhar é ser digno? Principalmente com ferramentas ultrapassadas? Ledo engano. A verdade é que levantar cedo, carregar marmita, se sujeitar a transportes lotados, bater cartão, ouvir lorotas de chefe, não dignifica ninguém. Quem é que dá camisa de linho para quem está usando a dele? Você? Conta outra. O capitalismo nasceu com você; portanto, veio antes do socialismo. Em que livro está escrito que através do suor da cara, advindo unicamente do trabalho, obtém-se o título de nobre. Não diga que foi do livro “História da Riqueza do Homem”, escrito pelo historiador Leo Huberman, porque esse eu li da primeira letra à ultima; e lá está declarado que a nobreza, que a realeza alimentam-se com o suor, com o sangue dos súditos e bobos.

Seriedade? Por que ser sério se podemos sorrir? Sorria (para esta finalidade vale o sorriso, mesmo que forçado) você também. Preciso dizer os porquês? Acredita que no troca-troca do dia-a-dia tudo está envolto com a seriedade? Para encerrar este parlamentarismo sem fim, a citação que vou dizer é o resumo de tudo: o respeito, a honestidade, a seriedade, o comprometimento, o bom senso, o agir consciente assinam os troféus dos medíocres, tolos, idiotas e inocentes bem intencionados. Anote aí. Agora desça do meu carro. Estou indo. O dever me espera. Sorte grande e mude a sua forma de pensar, mude a sua maneira de agir o quanto antes. Evite arrependimentos amanhã. Vamos, desça, estou atrasado. Tenho que pegar o meu filho que deve ter cabulado aula para capturar Pokémon Go; senão, está na lan house jogando com os amigos. Pela última vez: desça, a aula cultural terminou por hoje!

Ao que o Alfarrabista racionalizou a prosa dualística entre o anacrônico e o moderno: “Estão fabricando robôs. E o que isso contribui para a humanidade? Os relógios marcam as horas, estimulam e despertam os homens para o trabalho. Portanto, está na hora de gente inteligente, fabricar gente. Gente sensível, que sintam as dores do parto, tenham sangue nas veias e que façam pulsar sentimentos no coração. Será que é tão difícil voltar, retroceder um pouquinho ao passado!"

Não contendo a alucinação causada pela lição de moral sofrida, abriu o diafragma e berrou a plenos pulmões: “Adonáh, tu sois gente Adonáh; tu não sois máquina, Adonáh! Reflita sobre isto; pois, a diversidade, a pluralidade exige dos humanos mais reflexão e menos mania de época”.

Vendo o debate de longe, com olhos de Alfarrabista, talvez o Hermeneuta esteja certo; tenha certa razão em seu modo de pensar; pois, a máquina excelente, a boa tecnologia, é aquela que funciona e independe do modelo e época. Como se senti o dono de uma Ferrari último modelo que necessita de socorro mecânico ao ver passar um possante e barulhento fusca? Deve-se valorizar o novo, mas nunca, jamais desprezar o velho. Então, quem é de fato anacrônico ou moderno? Ou tudo não passa de padronização de hábitos, personalização de origens, automatismo mecânico, paradigmas viciantes, normatização de costumes e total e irrestrita discriminação social? To be or not to be? This is question.

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Em verdade vos digo: quando o anacrônico e o moderno se encontram, o mundo fica de pernas para o ar. Melhor não pensar que eles existem e comem e bebem nas mesmas mesas, dormem nas mesmas camas e participando ativamente de vossas famílias, lecionam o ensino biológico da hereditariedade estudado por Mendel. Porém, com uma diferença básica: se não sois máquina, garantidamente, ervilha que não és; portanto, dos modernos nada poderá ser pesquisado para a melhoria e uso da humanidade no futuro.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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