ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

A "sombra" do Deep Purple

Faz muito tempo, ainda numa época em que a rebeldia dos ponteiros dos relógios parava o tempo e os ventos alísios sopravam refrigerando o aquecimento e a inconstância dos neurotransmissores, a banda inglesa de hard rock clássico, Uriah Heep fez “frente, competiu ombro a ombro, ouvido a ouvido", com o Deep Purple.


Longe de saudosismos e desencantos emotivos, - aliás, sábio é aquele que faz da razão, o sopro soberano, divino e expansivo da liberdade - naquele tempo a psicodelia dominava o cenário alternativo da música. E a banda que não quisesse aderir ao movimento, que apresentasse um projeto musical, no mínimo, compatível com aquilo que estava por vir. Por outro lado, se não, a seleção natural trataria de excluir os paraquedistas e desqualificados de irreverência musical; afinal, o rock clássico pedia passagem. Ademais, o rock, rock, não permitia dois ouvidos, dois estilos; tampouco, negociatas sonoras.

Uriah1.jpgA capa do primeiro álbum da banda é simplesmente agressiva. Afronta transgressora aos bons modos e costumes. E induz a seguinte pergunta: qual a diferença entre a fisionomia voraz da serpente e o rosto tenebroso e desfigurado da criatura de olhos carcomidos pelas "Bird of Prey"; (humanos aves de rapina?) faixa do álbum Salisbury?

Esta banda que vos apresento foi fecundada naqueles idos e se conseguiu êxito junto ao exigente público roqueiro da época, é porque as músicas, os acordes e os arranjos tinham todos os ingredientes que não fugiam aos requeridos. Sem outra escolha, porque a revolução nos conceitos leva certo tempo para consolidar, Uriah Heep, nome originário do personagem trapaceiro e ordinário do livro David Coperfield, de Charles Dinkens, começou a carreira tocando blues-rock psicodélico.

À medida que o estilo evoluía para a solidez do hard rock, a ex-banda Spice caminhava junto, e a partir do inicio dos anos de 1970 a banda se apresenta em definitivo ao seleto público roqueiro; que já contava com o trio de aço inox do rock que não enferruja nunca: Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple. Embora não tenha conseguido avançar além dos continentes próximos do europeu, a banda foi considerada a quarta “potência” do gênero pelos críticos dos países por onde passava.

Contando com um som além de limpo, acústico, cifras rítmicas e muito bem arranjado, (na opinião de quem escreve o artigo, o primeiro álbum é apenas experimental) a banda entrou pra valer no universo do rock e os cinco primeiros álbuns contam a história da banda. Destes, o segundo e o terceiro (Salisbury e Look at Yourself, respectivamente, equivalem ao Head Machine; que é o melhor disco do Purple) são as obras primas e as características peculiares de sonoridades fizeram deles, a sombra do Purple; inclusive, chegaram vender, tanto quanto, a banda pioneira do hard rock clássico.

Os períodos sombrios, os quais os pássaros de prata despejavam chumbos em campinas verdes, fazendo subir as labaredas da paz e do amor, foi o pano de fundo para a criação das letras, que ironiza(va)m veemente as maneiras organizadas de se viver em sociedade, bem como as catástrofes causadas pela guerra. Em princípio, alguns desertores sociais a definia como a banda “armada” do rock. As gravuras das capas prenunciam tal aversão ao poder.

Uriah_heep_73.jpg

Vários nomes de peso deixaram os seus registros nos instrumentos, mas os músicos que participavam da banda, quando esta atingiu o ápice no circuito do rock foram: Mick Box, David Byron, Ken Hensley, Gary Thain (baixo) Lee Kerslake (bateria). Uma das peculiaridades dessa formação, é que todos os integrantes soltavam a voz, colaborando com a vocalização.

Antes, ainda no período dos experimentalismos e indefinições, a banda contou com os trabalhos de ninguém menos que Greg Lake, membro e fundador do King Crimson e do Emerson, Lake and Palmer. E John Glasscock, que deu sua contribuição também para o Jethro Tull, banda liderada pelo escocês e criador de salmão, Ian Anderson.

A partir do sexto álbum, a banda passou por algumas transformações, tanto na formação, quanto no estilo, aderindo o peso do metal. Estilo que a fez ganhar e perder ouvintes, pois alguns preferiam um som limpo, acústico, baladas, sinfônico, como dos álbuns citados; e outros, o ofuscamento e as batidas atropeladas do som pesado. Porém, a banda não abriu mão de continuar fazendo rock alternativo. Razão pela qual, continuou investindo nas gerações seguintes.

Em 2014, iniciando pela Virada Cultural em São Paulo, a banda esteve no Brasil para uma turnê por vários estados. Da formação inicial, apenas o guitarrista e fundador, Mick Box permanece integrando a banda.

Uriah5.jpgO álbum "Salisbury" é o mais eclético e ao mesmo tempo, dinâmico; por isto tem um pouco de tudo, desde o jazz levado pelo progressivo, até algumas pinceladas bem leves de heavy metal.

No entanto, destaque para "Lady in Black". Com 16 min do mais puro clássico e atravessado pelo genuíno rock progressivo, a faixa é executada por uma orquestra de 14 instrumentos. Provavelmente, Uriah Heep tenha sido a banda pioneira na criação de arranjos para orquestra sinfônica. Os metais e arranjos de cordas são de competência John Fiddy.

Outra faixa alucinógena é "The Park" e sob o efeito da erva que atormenta a paz do lúcifer, os cabeludos imitadores de Cristo filosofaram o inexplicável e idealizaram um mundo igualitário e pacífico; afinal, o preço a ser pego pela idealização e utopia é altíssimo. Em contrapartida, o preço a ser pago pelos rastros deixados por uma guerra é quase nada; ou melhor: uma poluiçãozinha qualquer no ar que não asfixia os pulmões. A guerra é produzida pelo homem e para o homem.

Para quem era de rock e não coadjuvante dos modismos, - "os Manés vestem azul e as Marias devem ir de rosinha; combinado?" - e decorava as prateleiras das estantes de suas casas com os bolachões do trio de aço inox do hard, completava a odisseia sonora com os álbuns do Uriah Heep. Aí, era reunir a trupe, subir o volume e entorpecer o cérebro com o melhor do rock clássico. Pois guitarras distorcidas, teclados arrastados (o famoso Hammond B3 chegava grunhir), baterias no contratempo, baixo no acompanhamento e vocais gritados e escarnecedores não faltariam. A princípio, os teclados e vocais são características marcantes que aproximaram o Purple e o Uriah.

Uriah3.jpgCapa do terceiro álbum. Este pode ser inexpressivo de capa, mas de som, musicalidade, apuração de trabalho é excelente. O melhor da banda.

Por fim, dos citados, segue a capa do quarto álbum: heep-demons.jpg


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A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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