ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Beleza e religiosidade permeiam o inexplorado lago Atitlan

Enquanto que os monumentos de pedras representam o suor e as mãos dos povos Maia, o lago Atitlan é o registro vivo do que uma tragédia natural pode fazer para (con)decorar um país; e ambas as obras, orgulham os guatemaltecos.


Ao contemplar o céu que repousara mais um dia de encantos sobre o lago Atitlan, as vistas alcançam muito além do permitido pelos sonhos.

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O lago é formado por belezas que jamais findam; e se alguém suscitar que elas chegaram ao fim, o sonho não passou de ilusão de ótica.

Do verbo fez-se a palavra; do pecado fez-se o homem e da tragédia natural fez-se o memorável lago Atitlan. Dentre a gama de lagos de águas dulcícolas que a Natureza tratou de contemplar o mundo, este deve estar entre os cinco mais belos e motivo para ser sempre revisitado; pois em cada revisita, uma surpresa inesperada dá forma e exuberância à paisagem. Em seu alargado contorno, os conceitos da geometria são miúdos, ínfimos, motivo de ser, continuadamente, reinventados.

A Guatemala é um país arrasado por vulcões e até os dias de hoje, lavas emergem das profundezas e escorrem ladeira abaixo nos maciços de terra. Nos arredores da capital Guatemala City, enquanto o vulcão Pacaya está adormecido esperando pelo ralhado dos senhores da Natureza e assim despertar do sono profundo, o vulcão Fuego está vivíssimo e pode ser visto de longe. Nas noites sem nevoeiro, com sua língua fumegante e silenciosamente traidora, o dragão aparece nas alturas para soprar o ninado que embala os guatemaltecos. Não se sabe até quando, mas por enquanto tudo conspira calmaria no aquecido gigante em chamas.

sol.jpgApreciar detidamente o lago no romper da aurora, é como reverenciar a paz de mais um dia que descortina por detrás dos vulcões.

Um desastre ambiental qualquer origina um sem número de tragédias, no entanto, os terremotos, as erupções vulcânicas, os tsunamis e as quedas de meteoros são fenômenos naturais, os quais as mãos do homem não participam de seus lançamentos e revoltas. Contudo, com as alterações estruturais e a posterior sucessão ecológica, os quais farão do ambiente destruído um novo oásis verde, como magia, espécies da fauna e flora aparecem do ar, do vácuo, de cima, de baixo, do nada para habitar o local. Assim se deu o renascimento biológico da Guatemala e o aparecimento do lago.

Tal reconstrução confere ao homem a possibilidade de usufruir do paraíso que se formara através do caos; mesmo porque a vida persiste sempre em meio à destruição. É a prova de que a vida é superior às desavenças ocasionadas pelo caos. É o que torna inteligível a ordem social, portanto, é o que torna a vida digna de ser vivida.

Segundo os estudos geológicos, há uma caldeira vulcânica, sobre a qual o país está assentado e de seu interior surgiram três vulcões: o Atitlan ao norte, o San Pedro e o Tolimán em seu interior. Destes, o San Pedro é o mais velho e praticamente inativo; o Atitlan é o mais novo e “eclodiu”, emergiu das profundezas por volta de 10 mil anos. Para a racionalidade humana pode ser muito tempo, mas para a transformação natural das coisas, esse período é nada. Sua última erupção ocorreu por volta dos anos de 1850; o que fez subir à superfície da cratera fraturada as águas únicas e confundíveis com o azulado do céu que banha o soberano lago Atitlan.

A Guatemala é um país, além de pequeno, terrivelmente pobre, porém de povos dignos. Visando angariar desenvolvimento e recursos econômicos, por volta dos anos de 1950, o governo iniciou uma campanha de incentivo ao turismo internacional e como atrativo, transformou a área verde circundante ao lago em unidade de conservação; o que a princípio não resultou em grandes conquistas e repercussões, pois embora paradisíaco, o local não oferecia, como ainda não oferece uma infraestrutura que atraia o público abastado. Porém, no lado “B” dessa questão, estão os jovens europeus, cuja geração representa os seus antepassados e deleitam-se com viagens rústicas e aventurosas; motivo de "lotarem" as margens do Atitlan.

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O descobrimento do lago deveu-se às criaturas de hábitos nada convencionais que aportavam em suas cercanias de tempo em tempo. Eram os hippies, que com o firme pensamento e propósito do não consumismo e fingindo normalidade para a loucura do mundo não se entregar, vinham de outras bandas. Aliás, esses “caras” de costumes naturalistas/comunitários estiveram presentes na maioria dos habitats alternativos.

E a quem diga que os hippies foram magnificamente bem recebidos, porque, as terras altas e baixas do Atitlan são habitadas pelos nativos que descendem dos Quichés, tribo que cultua a paz e a preservação das coisas naturais; que em tempos remotos, tanto essa cultura como outras, pertenciam à civilização Maia. Fora a língua falada, os nativos ribeirinhos preservam as vestes, que além de trazer o multicolorido das flores, são longas até os pés. Esse é o registro indelével, sem rabiscos e mácula da mulher guatemalteca.

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Os guatemaltecos são povos dóceis e fazem jus à expressão “muy amables”, bastante pronunciada nos países latinos de língua espanhola. Antes de tudo, lindos pelos laços ternos da simplicidade e doçura; e como poucos, sorriem para a pobreza, o que é incomum na natureza humana.

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Nos quatro cantos do lago, paisagem como da foto descortinam para aqueles que possuem olhos para a sensibilidade da Natureza e miopia profunda para a insignificância humana. Vista frontal do vulcão San Pedro.

rostro.jpgAo chegar ao vilarejo de San Juan, fatalmente o visitante será apresentado ao rostro Maia, que com sua gentileza de sábio e pensador celestial, o convidará para repousar sereno sob sua companhia.

Conhecer todo o lago demanda tempo, disposição física, vagareza de pensamento e como citado várias vezes no texto: olhos para o belo; afinal o recomendável é ir caminhando devagar e conforme o descortinado, parar para a tomada das fotos. A cada três ou cinco quilômetros, um povoado surge insinuando que a hospitalidade e o sorriso espontâneo respondem ao pedido de socorro advindo do cansaço. Estima-se (estimativa do autor deste) que o percurso total tenha mais que cem quilômetros.

Dentre as cidadelas que circundam o lago, destaque para Panajachel, ou Pana como eles preferem dizer. Além desta, as mais “populosas” são San Pedro, Santiago de Atitlan e San Marcos. Santiago Atitlan é conhecida pelo culto a Moximón: idolatria oriunda da fusão de deidades maias, santos católicos e lendas de conquistadores. Este e outros rituais fazem parte da religiosidade dos guatemaltecos. O que é valido, pois, feliz é a criatura que descobre que o Criador e a criação se encontram nesse paraíso sagrado, chamado lago Atitlan.

Sem mais o que relatar, porque tudo que for escrito sobre o Atitlan é nada, é em suas águas azuladas que os bons de coração e espírito refugiam as benquerenças de um novo mundo.

Meu bem querer / é segredo, é sagrado / está sacramentado / em meu coração - Djavan

Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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