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Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

Beleza e religiosidade permeiam o inexplorado lago Atitlan

Enquanto que os monumentos de pedras representam o suor e as mãos dos povos Maia, o lago Atitlan é o registro vivo do que uma tragédia natural pode fazer para (con)decorar um país; e ambas as obras, orgulham os guatemaltecos.


Ao contemplar o céu que repousara mais um dia de encantos sobre o lago Atitlan, as vistas alcançam muito além do permitido pelos sonhos.

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O lago é formado por belezas que jamais findam; e se alguém suscitar que elas chegaram ao fim, o sonho não passou de ilusão de ótica.

Do verbo fez-se a palavra; do pecado fez-se o homem e da tragédia natural fez-se o memorável lago Atitlan. Dentre a gama de lagos de águas dulcícolas que a Natureza tratou de contemplar o mundo, este deve estar entre os cinco mais belos e motivo para ser sempre revisitado; pois em cada revisita, uma surpresa inesperada dá forma e exuberância à paisagem. Em seu alargado contorno, os conceitos da geometria são miúdos, ínfimos, motivo de ser, continuadamente, reinventados.

A Guatemala é um país arrasado por vulcões e até os dias de hoje, lavas emergem das profundezas e escorrem ladeira abaixo nos maciços de terra. Nos arredores da capital Guatemala City, enquanto o vulcão Pacaya está adormecido esperando pelo ralhado dos senhores da Natureza e assim despertar do sono profundo, o vulcão Fuego está vivíssimo e pode ser visto de longe. Nas noites sem nevoeiro, com sua língua fumegante e silenciosamente traidora, o dragão aparece nas alturas para soprar o ninado que embala os guatemaltecos. Não se sabe até quando, mas por enquanto tudo conspira calmaria no aquecido gigante em chamas.

sol.jpgApreciar detidamente o lago no romper da aurora, é como reverenciar a paz de mais um dia que descortina por detrás dos vulcões.

Um desastre ambiental qualquer origina um sem número de tragédias, no entanto, os terremotos, as erupções vulcânicas, os tsunamis e as quedas de meteoros são fenômenos naturais, os quais as mãos do homem não participam de seus lançamentos e revoltas. Contudo, com as alterações estruturais e a posterior sucessão ecológica, os quais farão do ambiente destruído um novo oásis verde, como magia, espécies da fauna e flora aparecem do ar, do vácuo, de cima, de baixo, do nada para habitar o local. Assim se deu o renascimento biológico da Guatemala e o aparecimento do lago.

Tal reconstrução confere ao homem a possibilidade de usufruir do paraíso que se formara através do caos; mesmo porque a vida persiste sempre em meio à destruição. É a prova de que a vida é superior às desavenças ocasionadas pelo caos. É o que torna inteligível a ordem social, portanto, é o que torna a vida digna de ser vivida.

Segundo os estudos geológicos, há uma caldeira vulcânica, sobre a qual o país está assentado e de seu interior surgiram três vulcões: o Atitlan ao norte, o San Pedro e o Tolimán em seu interior. Destes, o San Pedro é o mais velho e praticamente inativo; o Atitlan é o mais novo e “eclodiu”, emergiu das profundezas por volta de 10 mil anos. Para a racionalidade humana pode ser muito tempo, mas para a transformação natural das coisas, esse período é nada. Sua última erupção ocorreu por volta dos anos de 1850; o que fez subir à superfície da cratera fraturada as águas únicas e confundíveis com o azulado do céu que banha o soberano lago Atitlan.

A Guatemala é um país, além de pequeno, terrivelmente pobre, porém de povos dignos. Visando angariar desenvolvimento e recursos econômicos, por volta dos anos de 1950, o governo iniciou uma campanha de incentivo ao turismo internacional e como atrativo, transformou a área verde circundante ao lago em unidade de conservação; o que a princípio não resultou em grandes conquistas e repercussões, pois embora paradisíaco, o local não oferecia, como ainda não oferece uma infraestrutura que atraia o público abastado. Porém, no lado “B” dessa questão, estão os jovens europeus, cuja geração representa os seus antepassados e deleitam-se com viagens rústicas e aventurosas; motivo de "lotarem" as margens do Atitlan.

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O descobrimento do lago deveu-se às criaturas de hábitos nada convencionais que aportavam em suas cercanias de tempo em tempo. Eram os hippies, que com o firme pensamento e propósito do não consumismo e fingindo normalidade para a loucura do mundo não se entregar, vinham de outras bandas. Aliás, esses “caras” de costumes naturalistas/comunitários estiveram presentes na maioria dos habitats alternativos.

E a quem diga que os hippies foram magnificamente bem recebidos, porque, as terras altas e baixas do Atitlan são habitadas pelos nativos que descendem dos Quichés, tribo que cultua a paz e a preservação das coisas naturais; que em tempos remotos, tanto essa cultura como outras, pertenciam à civilização Maia. Fora a língua falada, os nativos ribeirinhos preservam as vestes, que além de trazer o multicolorido das flores, são longas até os pés. Esse é o registro indelével, sem rabiscos e mácula da mulher guatemalteca.

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Os guatemaltecos são povos dóceis e fazem jus à expressão “muy amables”, bastante pronunciada nos países latinos de língua espanhola. Antes de tudo, lindos pelos laços ternos da simplicidade e doçura; e como poucos, sorriem para a pobreza, o que é incomum na natureza humana.

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Nos quatro cantos do lago, paisagem como da foto descortinam para aqueles que possuem olhos para a sensibilidade da Natureza e miopia profunda para a insignificância humana. Vista frontal do vulcão San Pedro.

rostro.jpgAo chegar ao vilarejo de San Juan, fatalmente o visitante será apresentado ao rostro Maia, que com sua gentileza de sábio e pensador celestial, o convidará para repousar sereno sob sua companhia.

Conhecer todo o lago demanda tempo, disposição física, vagareza de pensamento e como citado várias vezes no texto: olhos para o belo; afinal o recomendável é ir caminhando devagar e conforme o descortinado, parar para a tomada das fotos. A cada três ou cinco quilômetros, um povoado surge insinuando que a hospitalidade e o sorriso espontâneo respondem ao pedido de socorro advindo do cansaço. Estima-se (estimativa do autor deste) que o percurso total tenha mais que cem quilômetros.

Dentre as cidadelas que circundam o lago, destaque para Panajachel, ou Pana como eles preferem dizer. Além desta, as mais “populosas” são San Pedro, Santiago de Atitlan e San Marcos. Santiago Atitlan é conhecida pelo culto a Moximón: idolatria oriunda da fusão de deidades maias, santos católicos e lendas de conquistadores. Este e outros rituais fazem parte da religiosidade dos guatemaltecos. O que é valido, pois, feliz é a criatura que descobre que o Criador e a criação se encontram nesse paraíso sagrado, chamado lago Atitlan.

Sem mais o que relatar, porque tudo que for escrito sobre o Atitlan é nada, é em suas águas azuladas que os bons de coração e espírito refugiam as benquerenças de um novo mundo.

Meu bem querer / é segredo, é sagrado / está sacramentado / em meu coração - Djavan

Fotos pertencentes ao autor do artigo


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Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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