ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico



O rugido chamado Cássia Eller; a Janis Joplin Brasileira

A vida é uma viagem curta ou longa; e o tempo de duração depende diretamente de três fatores: do traçado da estrada, da manutenção do veículo e das maneiras de dirigir do condutor.


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Rugidos ferozes. Brados agressivos. Líder (im)prudente? Cada um que a defina como quiser; aliás, ser tachada disto ou daquilo era o que menos a preocupava. Traços físicos masculinizados. Desapegada, desobediente com os tradicionalismos e convencionalismos, vomitava em palavras o mal estar, a náusea que sentia por dentro. Uma mulher libertária além de seu tempo, que toda mulher que se qualifica como feminista deveria curvar-se; afinal, exigir direitos é fácil, difícil é ser uma anarquista inovadora de conceitos. Ser agente transformador dos supostos direitos em compromissados deveres. Neste quesito, Cássia foi doutora e deixou legados.

O mundo foi arquitetado, projetado e implantado pelos rebeldes e nunca na história humana, a quietude e o aceitar passivamente as oferendas revolucionaram os costumes. O desprendimento é o primeiro e único mandamento da revolução interior. Nesse contexto, a arte teve contribuição ativa na evolução da humanidade; pois o artista, ratificando: o Artista é uma espécie de herege que transcende, repugna as mesmices. Inconformado, para quem já nasce com tal atributo no DNA, iguais e semelhantes, chegam as linearidades dos corpos humanos e o produto da mesquinhez e ego que essa espécie deposita nos banheiros.

E sempre que aparece alguém ousado, como foi Cássia, o susto, o alarde é geral. Sobretudo, no imaginário humano, o desconhecido, o desconexo, o místico, o inabitual não impulsionam as pessoas à reflexão; e em vez de dar voz à inovação, racionalizar o caso, pelo contrário, assustam, amedrontam-se, motivando-as a esconderem as suas vergonhas e covardias debaixo da cama.

Ela levava a vida zanzando aqui e ali. Sem rumo, inquieta, ora sentada num banco de praça tentando entender os mistérios do mundo com os rebuliços dos pássaros, com as flores que decoram os mendigos, com as prostitutas e homossexuais inescrupulosos que arribam as saias para mostrar as sobras de comida do dia anterior, com a autenticidade das crianças que desconhecem a verdade. Ora devaneando sobre um banco de bar, empunhando o copo que derramava álcool etílico pelas bordas; ou de vez em sempre, jurando amor eterno às infidelidades das drogas. Em vida, os mitos do Rock sempre foram possuídos pelos romances revoltosos da rebeldia e contestação, os quais, as drogas figuram como juízes mediadores entre o bem e o mal, juízes pacificadores das intrigas e desavenças entre anjos e demônios.

cassia.jpgEnquanto que o cidadão ao fundo usa os dedos e a saliva para selar a seda da bem esfarelada erva e termina de enrolar o "fininho" para iluminar o ambiente, transcender a aura dos participantes do concerto e afugentar os pernilongos escondidos debaixo dos objetos, Cássia canta suas intimidades despudoradas para o seu melhor e inseparável amigo: o violão.

Acompanhada apenas por um violão surrado, a calça desbotada, o cabelo cortado feito crista de galo e o seu estilo esquisito de ser, não lhe rendiam bons olhares; mas em compensação, o vozeirão desafiador, rouco a lá Janis Joplin e a introspecção "cassiana", deitava por terra qualquer preconceito. Cássia foi aquele tipo de artista que se não tivesse saído do anonimato para cantar para uma geração, tanto intelecta e douta, quanto vagabunda, marginal e transviada, um bruxo com superpoderes a criaria.

Sorte ou desgraça, Cássia precisava se encontrar na música, e eis que apareceu um moço que falava o idioma das divindades e dos homens, que atendia por nome de Cazuza e apesar de ser um pequeno burguês carioca, sabia tudo das malandragens das ruas, dos morros e de piscinas infestadas de ratos; afinal, convivera com Raul e Tim Maia, que foram dois personagens sinistros da música. E quando se convive lado a lado com professores talentosos e qualificados didaticamente, como ambos, é raro o aluno não se tornar douto em pouco tempo.

E ao ouvir aquele vozeirão que era poeta, mas não sabia amar, vestindo meia três-quartos, esperando ônibus lotado, trocando cheques, (receio que sem fundo) Cazuza mudou a planta de lugar e imediatamente, rabiscou em palavras os traços de personalidade da menina má. Para completar, ofereceu para Cássia sua biografia transformada em partituras. Não restou outra coisa, senão, ela ir para o canto do estúdio pedir a Deus um pouco de proteção ao gravar a música “Malandragem”, porque, os fragmentos das notas do samba, do rock, do blues, do jazz, da bossa e da liberdade, já estavam sob sua tutela; e embora tivesse tempo para cantar, aquele ensaio fonográfico seria o seu primeiro trabalho profissional. No entanto, seu descontentamento interior lhe dizia que o princípio, que a malandragem "Cazuziana" não lhe bastava; razão pela qual, ainda faltava-lhe algo. Cássia almejava possuir a sua própria malandragem; a malandragem "Cassiana".

cassia2.jpgAgitada, raro era Cássia estar só, contemplando suas intimidades, mirando o vazio!

“Bobeira é não viver a realidade”.

Cássia sempre levou uma vida despojada, porém comprometida consigo. Lutava bravamente pela sobrevivência e ainda criança, eufórica com as estripulias e hilaridades dos palhaços, quis fugir com um circo e após ver frustrada a possibilidade de realizar o sonho de ser trapezista ou algo que o valha, pôs os pés em solo firme e foi ser garçonete; posteriormente, de tanto correr, bailar com a bandeja na mão forrada de copos de garrafas cheias nos salões, aderiu o avental e partiu para torrar o umbigo nas chamas de um fogão em Brasília. Trabalhando como cozinheira, poderia morrer de qualquer doença, mas de fome, jamais.

A cantora nascera sob o sexo feminino, porém, com princípios masculinos; e passado certo tempo, juntou os trapos, desfez dos bens que não possuía na capital do país e debandou-se com os seus maiores bens: o violão, cara e coragem para Minas Gerais. Nas Alterosas, trabalhou como servente de pedreiro. Orgulhosa, revelou: "Fiz massa e assentei tijolos." Por ela, o ser humano tem que vivenciar, apalpar, meter os dedos nos buracos da tomada eletrificada, ter muitas e variadas experiências; pois, as palavras do palestrante devem ser o espelho fiel, fidedigno, de suas andanças e atos.

Através desta experiência, Cássia esticava a linha nos extremos das improbabilidades, continha os encantos da euforia, nivelava o piso sob o qual pisava e estruturava-se nas bases da razão. Afinal toda experiência de vida é válida e nas trilhas das incertezas, as ocorrências futuras serão melhores que as vividas no passado. Entretanto, como poderia uma simples servente braçal galgar o degrau máximo, chegar ao apogeu da música? Simples. A arte é uma das únicas atividades que tem o poder de transformar escória em ouro refinado. Atirando-se na estrada em busca de seu espaço, é como ela mesma disse ao ser demitida do posto de secretária no Ministério da Agricultura em Brasília: "Fui demitida no terceiro dia. Aí resolvi só cantar." Cássia tinha na corrente sanguínea o pulsar da insatisfação; do desassossego, e só aceitava a migalha que fosse tocada com suas próprias mãos.

O grupo Titãs havia se desfeito. Cada membro que se reestabelecesse na atividade que melhor lhe conviesse. Um foi ser apresentador de televisão, outro ficou à margem do nada, enquanto que Nando Reis e Arnaldo Antunes continuariam fazendo música. Não só isto: emprestariam a quem quisesse as suas composições; óbvio que o empréstimo não seria para qualquer um. E ao ouvi-la pela primeira vez num banco de bar, impressionado com o talento inigualável para a música, Arnaldo definiu Cássia da seguinte maneira:

“O rugido do mar. A rocha. A lambida da fera. A guitarra. O raio surdo antes do trovão. A faísca que escapa do fio. Tudo ali no canto de Cássia Eller. A brasa do cigarro brilhando na tragada, com a intensidade do que não dura, como a nota; sílaba. Tudo sob controle sobre descontrole sob controle. Sua voz parece um corpo material, de carne e osso e músculo e sexo. Um corpo opaco, massa compacta de graves e agudos soando juntos como um soco, um trago, uma onda de éter na cabeça. Como pode isso emocionar assim?” - in “Música Popular Brasileira”, de Mário Luiz Thompson, editora Bem Te Vi, São Paulo, 2001.

O algo faltante aconteceu, porque talento nunca lhe faltou, a dádiva advinda de Arnaldo, Nando e outros velhos debutantes da música, tais como Moraes Moreira e Marisa Monte deram suas contribuições, tornando-a o fenômeno, o terror, o furacão, o meteoro da música brasileira dos últimos tempos e pelos próximos quinhentos anos, outra igual, só se os anjos voltarem a acasalar com intuito de criar novos conceitos de eugenia na arte musical.

E se amanhã ou depois o mundo cair no ostracismo, desaparecer no abismo profundo, adquirir ainda mais as cores sombrias da devassidão, como a voz de Janis continua ribombando alto, a voz de Cássia permanecerá rugindo ferozmente. A diferença é que o eco liberado pela voz da primeira foi universal e o da segunda ficará somente no Brasil. Porém, tanto uma como a outra, são vozes eternas que o Tempo jamais apagará; pois, nem tudo é regido e possível para ele, que se considera Senhor de tudo.

“Qualquer coisa que se sinta;

Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva”.

Arnaldo Antunes e Alice Ruiz

Ao abrir o vozeirão para interpretar a letra da música "Socorro", Cássia serviu-se de muitos sentimentos explosivos de alegria, êxtases de vida plena enquanto durou e muita emoção de morte precoce que a acompanhava desde sempre; que traidora como só ela, não lhe mandou uma carta antes. E em 29 de dezembro de 2001, com 40 anos incompletos, a morte silenciou o seu bravo rugido, o Rio de Janeiro e consequentemente, Brasília, Minas Gerais e o Brasil.

Para sorte dos mortais que não ousam tatear ambientes escuros, o traçado da estrada do Senhor Tempo é sinuoso e em suas curvas, muitos gritos calam-se, abafam-se, emudecem-se. Porém, com Cássia foi diferente e o seu vozeirão de "Felina" permanece rugindo feroz, nervoso, estridente, voraz nas caixas.

E quem necessita de "malandragem" para alargar os seus passos, disparadamente é Cássia Eller no metrô, no ônibus, nas ruas, nos bancos de praças, nos lares, nas igrejas, nos hospitais, nas piscinas, nos shoppings, nos bares, nos velórios, nos banheiros, nos cemitérios, na praia e até debaixo d`água; e para esses, sua morte não passa de doce ilusão. Talvez, quando muito, sua morte é sonho de poeta que aprendeu amar; ou como Cássia foi em vida, sonho de quem refugia os seus devaneios existenciais, sonhando só! Os quais, supõe-se que seja uma minoria bem pequena, uma parcela do mínimo, pois, a imensidão do mundo é pequena demais para eles. Chegam no anonimato, instalam as tendas às escuras, dão o recado, cantam o porquê vieram e saem de cena como chegaram: despercebidos. Mas não pense o leitor que eles são covardes ou fugidios, por que não são, não! Como certos elementos da Natureza, a questão é o prazer, é a leveza em não adaptar em qualquer solo, em qualquer ambiente.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico .
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