ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Do Tim exemplar ao originalíssimo Tim!

Artigo dedicado exclusivamente aos leitores rebeldes, irreverentes e bem humorados. Pois, assim inicia: “O segredo de meu sucesso é o equilíbrio musical: metade das coisas que faço é esquenta sovaco e a outra metade, mela cueca”. – Tim Maia


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O leitor não conheceu Tim? Que saber se ele foi um estouro de bom? Sim, Tim foi um estrondoso exemplo para o povo brasileiro; não exatamente a geração de sua época, que era muito careta; mas para a geração dos peitos de aço (bombadões), dos másculos e tatuados pelo pouco trabalho e muito sossego. Para se ter ideia da dimensão de seu apreço pelo trabalho, o slogan Maia diz: “E eu quero, sossego. Quero sossego”. Este pode ser tranquilamente o tradicional melô do vagabundo e balançou e continua balançando o país. E se hoje em dia fala-se muito em academias de ginástica, perda de peso e veladamente, no efeito beleza adoníaca no cotidiano das pessoas, tudo isso se deve ao popular, glamoroso, adorado e odioso, Tim do Brasil.

Iniciaremos essa segunda – o leitor leu a primeira carta de Tim endereçada aos brasileiros? - ressonância emotiva sobre a passagem de Tim pela Terra, pelo sonho inesperado de uma noite de insônia. Impossível sonhar em noites de insônia? Claro que não, e o Tim nos revelará como isso pode ocorrer e mais: iniciará o leitor em seus infalíveis métodos de emagrecimento e regime comportamental. O cara era multifacetado e não desistia nunca; ao contrário, vencia sempre. Segundo os métodos Maia de regime comportamental, só e gordo e passa pelos desaforos das balanças e espelhos quem quer.

Tim havia decidido que a partir daquele instante não fumaria mais, não cheiraria mais, não tomaria nem mais um pingo de uísque e muito menos, fumaria os enroladinhos com a boa erva, que em suas palavras era bem superior ao misto quente, chegando então ao status de baurete. Baurete pra quem não sabe, é um misto de álcool, erva e algo para cheirar.

Possuído pelo guru Manoel Jacintho, pai e mentor da Cultura Racional, doutrina que emanava as mais puras energias cósmicas, os mais puros fluídos magnéticos da ascensão superior, definitivamente não comeria carne vermelha, esqueceria suas taras pelo fruto proibido, mudaria radicalmente as letras das músicas e daria um basta em sua vida mundana. Punheta nem pensar; a princípio, se sentisse tentado ao calor de um amor cafajeste, quebraria a munheca para evitar o gozo profano, escandaloso e fornicador dos cinco dedos. Do rei da soul-music tudo se podia esperar e pelo menos por enquanto, promiscuidade jamais. Adios mujeres; que se dependesse dele, morreriam virgem. Lacradinhas! Nos dias de hoje quem adota esse estilo de vida, de não comer carne vermelha, são os veganos.

Porém, antes de tomar essa decisão, vivendo ainda nas trevas da devassidão mundana, uma mocinha daquelas que qualquer T.E.D (Terror das Empregadas Domésticas) bêbado manda o sarrafo sem camisinha debaixo de qualquer árvore, um certo alguém como cantou o Lulu Santos, cruzou o seu caminho. Enfadado, saturado de tanto ouvir os “com você nem pensar” cuspido contra sua cara pela mulherada, mudou as estratégias das investidas. Em vez daquela cantada seca, do vai ou racha, do é pegar ou largar, do quero te foder; mudou radicalmente para Tim bico doce, voz de veludo e sopros de pluma ao pé do ouvido. Como “vinagrão” amaciador de carne fibrosa, deixava a princesinha extravasar seus sentimentos e depois, acertava-lhe na ferida. A vez, a voz, a palavra era sempre dela; no entanto, seus novos instintos maníacos-sexuais previam os finalmentes: “Tá no papo. Essa não escapa de meu amor insalubre. Do meu amor cafajeste”.

A menininha andava meio desconsolada porque havia sido mal amada por um jogador de futebol, que só queria comê-la e nada de chegar junto com uns trocados para amenizar o prato vazio de sua família e mesmo assim, dizia estar apaixonada e contra vontade, teria tomar uma decisão, o que a voz encantadora e galante de Tim concordava. A princípio tudo era motivo de concordância, pois quase 20 anos sem gozar e molhar o biscoito no líquido inebriante de uma vagina, bem lubrificada, punha-o nas nuvens de tanta tesão. Estava faminto. Salivava os lábios secos, tórridos com a língua. Tesão aterradora: uma das virtudes dele era essa; a segunda era muito amor que tinha no coração para dar. E se amor e tesão combinavam, cabiam nas mesmas propostas, as coisas podiam acontecer; e não é que a teoria amorosa de Tim funcionou!

Os dois ficaram enamorados por certo tempo, com Tim gozando na cueca o tempo todo, até quando a mocinha lembrou que algo lhe faltava. Sumindo da noite para o dia, retornou as origens que era amar um cara sarado, esportista, belo. Dessa história, Tim concluiu que vida de gordo-obeso é dura e difícil, a ponto de que se beijar não penetra, e se penetrar, não beija. Uma coisa ou outra. Através do efeito hipopótamo e a útil teoria resultante de sua experiência sexual, se viu obrigado a fazer as mudanças de vida, inclusive o tal regime alimentar forçado. E com razão, pois assim que feita as alterações no look Maia, tornando-se um homem esbelto, bonito, atlético e vistoso, ia chover mulher na sua horta; porque maçarocas dinheiro estalavam no bolso. Entrou no regime pra valer.

Chutou para longe as latas de leite condensado, os sorvetes, pizzas e salgadinhos. Bebidas, de marca alguma. Isto porque ficara sabendo que um amigo de parada musical havia emagrecido 30 quilos em dois meses numa clínica para dependentes; o que chamam de SPA atualmente. Sem pestanejar, pediu o endereço e ao chegar ao local. Bradou: “interne-me logo, quero ficar fininho. Barriga tanquinho; porque fechei os chafarizes. Nas drogas já dei um basta”. Daquele instante em diante, seria o Tim exemplar, o Tim que poderia passar décadas, mas iria chegar uma hora que iriam copiá-lo. As refeições seriam basicamente enriquecidas com a clorofila das folhas verdes. Alface, couve, agrião, rúcula. Estando parte do dia sem comida, quando farejou o cheiro de algo comestível pedindo passagem nos corredores, ficou em alerta para o menu e ao ver o caldinho aguado, insosso, cacarejou alto: “Êpa, que negócio é esse, mermão”.

Tim resistia ferozmente. Tendo dormido com a barriga aos roncos, acordou certa manhã numa larica dos diabos, uma vontade para lá de doida, queria porque queria bater uma picanha gordurosa, tomar umas biritas, comer uma pizza grande inteira sozinho, tomar dois litros de coca-cola e sentado numa cadeia de balanço, feito um lorde cubano, sentindo a brisa bater-lhe contra o rosto, fechar a pedida com um bem remunerado e grosso baurete pitado sossegadamente. A fissura pela liberdade de comer e pitar o que quisesse e quando quisesse foi tanta, que ele com roupa e tudo se enfiou no meio das caixas do caminhão que entregava leite para a clínica. E não demorou muito, se viu sentado numa churrascaria com a mesa forrada de carnes, frios, feijão, arroz e refri à vontade; menos salada. Generoso com o estômago e para saciar o apetite da falta de sólidos durante o período que ficou na clínica, chegou por volta do meio dia e empanturrado de comida, só saiu lá pelas 8 horas da noite. Sobre essa história que durou pouco tempo, rachando o bico de dar risadas, criou um bordão regime Maia e quando perguntado como foi na clínica e como se sentia, respondia: “Fiz uma dieta rigorosa, cortei álcool, açúcar e gorduras. Em duas semanas perdi 14 dias”. E não havia ninguém que não se esborrachava de tanto gargalhar. Tim era mesmo insolente, nada hipócrita e botava pra derreter, ou melhor, pra foder.

Do romance com a moça que dava para ele, mas amava mesmo era o jogador de futebol, nasceu o filho de Tim. Uma belezinha e graças a Deus, bastante parecido com ele. Tim criava os dois: o filho dele, e outro que a mulher trouxera com ela, filho do jogador, até que certa feita, a moça passou a mãos no filho do jogador e sumiu novamente, deixando Tim como babá, pai e mãe. Dava mamadeira, trocava fralda, fazia papinha, dava banho. Corria igual um louco para dar conta do recado, quando se tocava do dia, ouvia a entrada do Jornal Nacional. Nessa época, todos vestiam branco, foram desmagnetizados e liam avidamente o alcorão mandado pelo guru, Manoel Jacintho.

Precisando batizar o filho, Tim foi saber do mestre qual nome daria a criança. O médium dos encantos do universo fez as rezas dele, limpou o avental, consultou as entidades maiores e deu o veredito propondo que haviam três nomes desmagnetizados e abençoados pelas energias cósmicas, dos quais um deveria ser escolhido pelo pai. Tim ficou estupefato com a sapiência do velho alto, negro, olhos grandes e os nomes de Robson, Telmo ou Carmelo que segundo as entidades, um deles seria apropriado à criança. “Ide meu discípulo e traga mais um ao pai. Fazei isso para celebrar a minha memória”. E benzeu a criança e o paizão.

Como pai prestativo, responsável e digno de elogios, Tim saiu de lá e foi direto para o cartório registrar o rebento em seu nome. Hesitando entre um nome e outro, optou por Carmelo. E voltou para casa com o registro de Carmelo nas mãos, mas nos braços, o Telmo; como foi apresentado o neto para a sua mãe (avó) e tias. Festa de arromba para comemorar as boas vindas a Telmo, o mais novo herdeiro da família.

O tempo passou e Telmo foi para a escola. Todos os dias, a professora fazia chamada pelo nome de Carmelo Maia, como constava na lista; e o Telmo, claro, não respondia. Na realidade, Telmo desconhecia por completo o tal de Carmelo. Notando que havia algo errado, a diretora da escola comunicou a família o fato, dizendo que ele precisava urgente passar pelo Otorrino para saber qual era a sua anomalia auditiva. Esse tipo de cuidado ficava a cargo de uma de suas tias, que ao pegar o registro na mão para levá-lo à clínica, verificou que seu nome verdadeiro era mesmo Carmelo e não Telmo. Toca desfazer, recomeçar a vida do menino com o nome de registro. Desta história, ficou a lição para todos, que nunca é tarde para descobrir-se. Ser feliz.

Tim estava mesmo de cabeça virada. Não só a cabeça, mas em razão de seu coração fraterno e seu novo olhar perante as coisas do mundo, que só poderiam advir das recentes lições aprendidas pela doutrina, seus pensamentos o encaminhava cada vez mais ao conhecimento da espiritualidade. Bendito seja o Deus que pôs o Buda brasileiro, Manoel Jacintho e a Cultura Racional em seu caminho. Tudo que falava ou fazia, após passar pela aprovação e batismo da desmagnetização do mestre, girava em torno da doutrina. Sexo, drogas, dinheiro, bebidas, putaria, palavrões, viadagem, bauretes, nada, nada mais faria o menor sentido na vida de Tim; somente a luz da preservação o iluminaria. Ao se apresentar a quem quer que fosse, dizia: “eu sou o Tim, o Tim renovado, o Tim Racional”. Aboliu até o mermão.

Com olhos ternos e de coração fraterno, não apenas induzia, como impunha aos colegas e amigos que indiferentemente a crença, cor, credo, clube de futebol, partido político e vícios qualquer, todos que andassem ao seu lado, deveriam praticar o amor incondicional, praticar o amor soberano. E ao adentrarem sua ordeira e benévola casa, assim era recebido:

- Carlos Dafé, que bom que você veio! Foi o Racional Superior que mandou você aqui. Hélio, esse é o mais novo irmão de fé. Saiba qual o número de sapatos dele e compre dois pares, compre também camisas, calças; um uniforme novinho em folha para ele debutar no meio de nós. Amém Manoel Jacintho, nosso mestre e Deus quase que supremo!

Carlos Dafé havia ido lá ver se conseguia uma boquinha para tocar alguma coisa na night e aproveitando a oportunidade, queimar uma erva da lata, a melhor erva que rolava, cheirar o que tivesse para cheirar e comer uns salgadinhos; estava magro, desnutrido, esquálido e vesgo de fome, fazia uma semana que não salivava nada e andava numa larica dos infernos. Nada daquilo importava, senão pôr algo sólido no estômago. No entanto, vestindo branco de cim`abaixo, foi levado às presas e desmagnetizado pelas energias cósmicas. E sob as palavras secretas que só o guru sabia, saiu da tenda do babalorixá com barriga vazia e uma pilha de livros para vender pelas ruas.

Evitando as pessoas desmagnetizadas pelas forças do mal, fora dos preceitos da doutrina, o que poderia gerar exoneração por acompanhar más companhias e conduta anti-doutrina, certa feita cruzou com Raul Seixas, que pregava o anarquismo, o faça o que tu queres, pois é tudo da lei, a metamorfose ambulante; e foi logo ao assunto, explicando-lhe que vida boa, tranquila de consciência e espirito elevado, só poderia ser conseguida estando em sintonia com a doutrina, a qual estava submetido. Raul zombava do doidão, ironizava-o, porém, Tim insistia em levar o Maluco Beleza para uma sessão de limpeza das impurezas corpóreas e espirituais. A discussão foi tensa, com Raul defendendo a liberação das drogas, a cheiração de coca em todas as esquinas, vendidas até por executivos. Por fim, nada satisfeito com o mito do rock, o ex-marmiteiro partiu para a apelação:

- Tu toma cuidado, hein, magrelo. Nego cheira cocaína e fica logo com vontade de dar o cu, cocaína afrouxa o brioco, mermão! – depois de cuspir essa indigesta praga, ruminou que aquele energúmeno não havia acordado pra vida e o melhor era deixar pra lá, que o inferno tratava de resolver o caso dele.

Essa foi uma fase preocupante para Tim. Preocupava-se com o andamento das coisas, com o mal que estava infiltrado no mundo; óbvio que não era o mundo o culpado, mas as pessoas de modo geral que causava tanta barbárie. Pensando ecumenicamente, Tim lembrou que John Lennon pregava a paz mundial sem saber os meandros de como obtê-la e assim sendo, cheirava mal pregar aquilo que não se sabe. Motivo de ter enviado para o ex-Beatles um livro, mensagens psicografadas pelo médium Manoel e um LP da única banda no planeta que fazia música com o proposito da salvação mundial. Dali uns dias Tim recebe a resposta e junto, havia uma foto de John peladaço, (feio pra chuchu) e um bilhete:

- Dear freak,

I don´t understand portuguese. What about LISTEN to this photo?

John Lennon”.

Foi ler o bilhete e o sossegado, pacifista, espiritualista e angelical Tim deu lugar a um leão em tempo de devorar a presa. Rugindo palavrões, cuspindo impropérios, o doidão deu entrevista para um jornal contando a história e afirmou com todas as letras da carta que Yoko iria ficar viúva, porque a morte de John estava marcada para 1984; inclusive poderia contar os anos, que só teria mais nove. Como não ocorreu o previsto, ficou a lição que Guru iluminado também erra.

Como da vez na clínica de emagrecimento, numa manhã qualquer Tim despertou mal humorado e pensando em ser uma pessoa normal, como sempre fora. Mas qual seria a normalidade, porque dele tudo podia esperar? E enternecido pelo devaneio e a glória do senhor, o voz de trovão questionava até quando teria que tomar a benção para Manoel, um guru de carne e osso e por cima, pecador. Levar uma vida regrada. Escrever e gravar músicas apenas espiritualistas. Vender bateladas de livros da doutrina e nada de botar uns levadinhos do bolso. Em outras palavras, se continuasse naquela ladainha de somente rezar o terço ia acabar virando santo. Alguma coisa tinha de ser feita para tirar o Tim do Brasil daquele marasmo. Não deu outra: dando adeus para os amigos, fiéis, infiéis, correligionários e puxa-sacos, bateu em retirada. Voltou para o velho pardieiro: lá faria o que quisesse, como bem entendesse. E em nome do “faça o que tu queres, pois é tudo da lei”, tocou fogo nas vestimentas brancas, livros doutrinários e nas sobras de discos. Feliz. Sim. Feliz da vida por saber que voltaria ser o velho, imaculado e original Tim. Voltaria ser o Tim exemplar e originalíssimo Tim do Brasil; o único síndico do Brasil reconhecido pela classe.


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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