ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Rita Lee Jones em: Esse Tal de Roque Enrow

O íntimo, o excepcional, o esplêndido, o magnífico na veterana Lee, é que racionalmente, ela é Rita sem chorumelas, emoções e mimimi! Autêntica, original, feminista, libertária, roqueira dos fios de cabelo até o chulé dos pés. Recicladora de palavras, usando-as na criação das letras, ela não desperdiçava uma.


Rita2.jpgA sua abstração para o escárnio chega ser hilário. Qual a diferença entre essa foto e uma das fotos do Einstein? Nenhuma. Os estúpidos nasceram para ser rudes e não toleram as eloquências de conhecimentos dos sábios. Funcionam como silenciadores de jactância; silenciadores de prepotência.

Rita Lee havia saído dos Mutantes. Estava por aí embandeirada dando sopa. Sentada no divã, papeava com o pai, um americano liberalista, de princípios influentes e entre certezas, dúvidas, política, música, arte e loucas gargalhadas, fumava um desanuviador de ideias, um bom “charuto bem bolado” para espantar a monotonia de não ter o que fazer no dia seguinte. Ainda mais porque o dia seguinte seria como hoje; e na parte da manhã nada faria, à tarde, menos ainda; e a noite, planejava o que não seria feito no outro dia. Empurrava os dias com a barriga. No sossego, numa “nice”, numa boa, ela levava a vida e devido as trevas à qual se metera, gostava de sombra e água fresca.

Com esse pensar, fatalmente, Rita tenha feito muito adeptos e discípulos nos anos vindouros; pois trabalhar é para quem gosta, para quem possui na corrente sanguínea o vício do trabalho; e não da vagabundagem absolutista. Para quem gosta, qualquer varredura, engraxar sapatos e lavagem de banheiro é trabalho. Que doideira é essa, Profeta? Então ouça a música Maria Mole, do álbum, cujo título é homônimo ao seu nome. Prevendo que o leitor está curtindo sua sofrível rebordosa domingueira e feito lagarto manhoso, tomando sol de papo para o ar, para evitar tirá-lo do sossego, perda de energia e facilitar o trabalho, segue parte da letra:

Lenga-lenga Maria / Mole só pra disfarçar / Trabalho que é bom nenhum / Não faz força nem pra soltar pum! Pum?

Lero-lero, blá blá blá / Tira o dedo do nariz / Melecada de chicletes / Nunca rapa a perna com giletes! Giletes?

Rotineiramente, a fumaça esvaia-se tomando de assalto todos os ambientes da casa. Até que um dia, seu pai cansado de fumar com ela no mesmo cachimbo, deserdou-a e de quebra, deu-lhe o alvará definitivo para que fosse fumar longe dali. Foi quando Rita se viu como uma legítima ovelha negra da família. Seu pai talvez tenha sido a inspiração de Cazuza no "chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia". Às vezes a deserção faz bem ao ego e apressa a evolução pessoal do deserdado.

Reconciliar com os Mutantes era impossível, porque os irmãos Batista davam às ordens; o que causava mal estar, furor até entre os eles. No universo do rock, Rita se consagrara; no entanto, como arrumar trabalho, se poucas eram as bandas que aceitavam mulher no grupo? E quando aderiam, obrigatoriamente teria que ser para vocal. Além de Rita, outra que debutava nos palcos e estúdios com o microfone na mão era Jane Duboc; que fez parte da banda carioca, Bacamarte, de rock progressivo.

Rita tinha estilo de cantora de rock, tocava as notas do rock, compunha letras escandalosas de rock, respirava boca a boca com o rock. Portanto, não ficava nunca sem rock, porque naqueles tempos, os bons roqueiros bebericavam a cicuta, como ela disse, do genuíno rock. E embora fossem venenosos nesse gênero, assim como ela, havia uma leva de músicos de boca aberta esperando que o “Fruto Proibido” caísse do galho. A maça do amor teria que dar e igualitariamente, ser dividida com todos, o que Rita fez de bom grado e para comê-la, chamou um pessoal de peso. Feras! Qualquer um deles não ficava devendo nada para os músicos estrangeiros renomados do Yes, Jetro Tull, Pink Floyd. Todos eles passaram por conservatório, portanto, traziam na bagagem o erudito.

Mas antes, por volta de 1973, Rita juntamente com sua sobrinha, Lúcia Turnbull, com o nome de Cilibrinas do Éden, tentaram a sorte no mercado musical. Se uma mulher fazendo rock já era motivo de repulsa da sociedade, empresários e mercado fonográfico, pior duas. Parecia que a voz feminina irritava meio mundo; e devido o conservadorismo reinante na época, não deu outra, passado dois anos quando muito, a dupla se desfez. Como disse Raul, mulher com mulher, além de dar choque, sempre resultou em jacaré. Desse acasalamento, foram paridos dois álbuns com tendências puramente experimentais. Entretanto, a música "Mãe Natureza" foi regravada por Rita mais tarde e deu certo, fazendo relativo sucesso. Na letra, quem a compôs fez uma rima metafórica ao escrever "a Mãe natureza" não dá sobremesa. Quem será essa mãe desnaturada: a mãe Natureza ou a mãe biológica que não dá sobremesa; insinuando que o filho é um verdadeiro valdevino desnutrido? Enquanto que no viés dessa verdade ou não, dizem que a mãe tira da boca para alimentar o filho.

Já o disco "Atrás do Porto tem uma cidade" traz a música "Menino bonito"; embora seja uma balada meio brega, a massa abraçou o ritmo. No geral, com Rita cantando até em espanhol, e longe de ser um pérola musicada, para ouvir uma vez ou outra, o álbum é suficiente.

A porta bandeira do rock partiu para o tudo ou nada, e escancarando de vez o “Fruto Proibido”, chamou os músicos Luís Sérgio Carlini para as guitarras e outros instrumentos. Lee Marcucci para o baixo e percussão; Paulo Maurício para os teclados e sintetizadores. Rubens Nardo e Gilberto Nardo para back vocal e percussão. Na bateria, não menos que Franklin Paolillo, talvez o melhor batera de todos os tempos no país. Guilherme S. Bueno no piano e na flauta, órgão hammond, flauta e sax, Manito; outro veneno. Rita Lee mandava ver no violão acústico, flautas e além de puxar os vocais, tirava uma chinfra tocando piano.

Não faltava mais ninguém. Cada membro pensava, como realmente era um deus do instrumento que manejava. E qual seria o nome da banda? Rita prezava pela ironia, e em tudo ou quase tudo que saía de sua boca, estava presente a duplicidade de sentido, as metáforas, o eufemismo político, a zombaria nos costumes sociais. Rita ironizava até ela como mulher, e a frase: “mulher é bicho esquisito e todo mês sangra” virou hit nacional na voz dos roqueiros; porque nos movimentos feministas era motivo de morte. Porém, nos momentos de efervescência, com a turba espumando os cantos da boca, Rita liberava o brado de libertação: "Corre que já vem os homi".

rita3.jpgNo alto de um colina, com paisagens nas paredes, a nova casa de Rita é mesmo um barato. Lá, Rita curte som e muita paz. Direito de imagem do autor da foto.

Os artificialismos da química invadiam o mundo e na Europa, a poderosa alteradora de sabores naturais mandava e desmandava. Na época, mascar chiclete era mania popular. Assim como as pessoas põem o fone de ouvido e viajam para a lua, atualmente, a moda na época era mascar chiclete. Sob o efeito do sobe-e-desce, os maxilares não paravam na posição de origem, e em qualquer festinha, nos barzinhos, nos shows de música e nas famílias, mesmo que brega, o que mais se ouvia era o “ploc” da gosma de mascar. Parecidos ruminantes, mascavam, mascavam, retiravam o açúcar, esticavam a goma com a língua, faziam a bola e “ploc; ploc”: estourava-a entre os dentes. Quem não quisesse ser tachado de careta e perder o teleférico que levava a crista da onda, que aderisse o movimento e embora tenha ficado no ar por décadas, alargasse os passos para alcançá-lo. Afinal, moda é moda, e por mais que dure, suas efemeridades entram e saem, vem e vão; sempre em vão.

Enquanto que para mascar os modernos pediam chicletes, para beber, o líquido doce devia ser à base da falsa salada de frutas, à base do famigerado e inglesado tutti and frutti. A mistura química está(va) presente nas gomas, nos refrigerantes, nas guloseimas, no pó para fazer gelatinas, sucos e demais lixos alimentícios que enganam o consumidor com a inscrição "sabor" de frutas" no rótulo. Rita que era um terror em transformar coisas fúteis em manias utilitárias, não pestanejou e conforme mandava a cartilha dos roqueiros, emprestou dos viciados nas manias dos “vai quem quer” a coqueluche do momento e carimbou o nome da banda. E por não participar de movimentos escandalosamente escusos, registrou de papel passado em cartório e tudo mais. Rita Lee Jones era oito ou oitenta; às vezes, até mais, chegando aos oitenta e oito.

A banda estava montada, por sinal, um poderoso esquadrão ganho no par ou impar; porque na época, o músico qualificado, dotado de virtuose artística, era disputado aos tapas e socos, quando não, no par ou ímpar; portanto, tinha que dar certo. Não só deu; como o disco “Fruto Proibido” foi o trabalho máximo dela, segundo a crítica musical da época. Com cada músico extraindo o máximo proveito dos instrumentos em cada nota e acordes, o álbum foi um arraso; com “Ovelha Negra” tocando nas rádios do Sudeste e Sul, regiões mais voltadas para o gênero. O disco caiu como bomba em terras tupiniquins. E na esteira Ritaliense, vinha “Dançar Pra Não Dançar”; “Esse Tal de Roque Enrow”, cuja letra dá a entender que foi escrita para si. Aliás, a letra foi escrita por ela em parceria com Paulo Coelho, que ainda não tinha despertado para a literatura; e a maneira encontrada para garantir uns levados no bolso, era escrevendo letras de música.

Não só Rita, mas a banda como um todo era ovacionada por onde passava. Competência e talento haviam chegado ali e parado. Voos contínuos. Agenda cheia. Delírio. Frenesi. Para fazer barulho, deixassem que ela e banda faziam. Nos shows tinha de tudo, desde lança perfume à marola da boa; o que extasiava qualquer religioso fervoroso. Ótimo; e se todo mundo mascava, bebia e fumava Rita Lee e banda Tutti and Frutti, melhor seria reunir a tropa e voltar para o estúdio; que a princípio estava mais encorpada com a disposição física e a sóbria mente do Raul. O maluco beleza em parceria com Paulo Coelho compôs a letra da música "Bruxa Amarela", a qual, os arranjos para cordas e metais é puramente rock and roll, como de praxe dos velhos roqueiros. O louvável desses cabeludos metidos à revolucionários, era fazer as coisas por completo e não pelas metades. Radicais, rock era rock e quem não fosse do ramo, que fosse curtir samba ou M.P.B; e fim de papo!

O segundo álbum deixou de ser embrião para ser realidade. “Entradas e Bandeiras” viera ao mundo quentinho, bem ilustrado, com destacados letristas, mas para surpresa geral, foi um fracasso de público e mercado. Muito longe do primeiro, que ainda se ouvia nas rádios. E segundo os entendidos no assunto, o fracasso se deu por causa da troca das mãos que se perdiam com as baquetas. Franklin Paolillo (ratifico: talvez o melhor que o país conheceu. Pura virtuose nas baquetas) saiu para a entrada de Sérgio Della Mônica, que na continuidade de seu trabalho, foi contratado para fazer parte da banda de Marina Lima e Cazuza. Para ser mais preciso, o baterista participou dos lendários álbuns "Ideologia" de 1988 e "Burguesia" de 1989 de Cazuza.

O curioso dessa história é a eclâmpsia pós-parto sofrida por Rita, que negando-lhe mimos, audição e chiados na velha vitrola Sonata, declarou abertamente que detestava o filho; e ao ouvir a nota de qualquer música dele, volteava o quarteirão. Literalmente a mamãe Rita recusou o recém-nascido e deixando-lhe faminto, lançou-o a própria sorte, deserdou a cria. No período das gravações, Rita foi acometida por sérios problemas de saúde, motivo de não ter acompanhado as gravações e produção final do álbum. Desse disco a única música que caiu nas graças das rádios, mas que para muitos é cafona, foi: “Coisas da vida”.

A banda seguiu até 1979, e ao lançar o disco “Babilônia”, a cantora disse que o desemprego bateu à porta de todos; que cumpriria a agenda de shows, mas ao término, o grupo seria desfeito. Não deu outra e anos depois, Rita juntou-se com Roberto de Carvalho e voou sem limites pelos ares, chegando ao ápice na carreira; inclusive, fez várias músicas para novelas da Rede Globo. Essa foi a consagração de uma Rita agressiva, para uma Rita "popular". Não menos, também para uma Rita ativista, uma Rita que nos shows berrava a plenos pulmões: "Eu odeio rodeio" em defesa dos animais que são alvo da desumanização dos homens, que visando somente o dinheiro, enlouquecem os animais nos picadeiros e arenas de rodeio.

Como tudo no universo gira conforme a época e ocasião, e se bobear até a Terra gira em sentido contrário ao originário, Rita deixou de ser rock sólido, rijo, para ser pop-star. Essa nova vestimenta usada por ela, folgou-lhe novas oportunidades no mercado da música. Porém, vibrava como criança, ainda por saber que sobrava tempo para tocar um roquezinho antigo. Revisitar, relembrar o "Fruto Proibido" e os tempos de rebeldia sonora.

Rita Lee é sem o mínimo cisco de dúvida, a porta bandeira do rock nacional e sem ela, o estilo ainda estaria sendo inventado; que mesmo assim, paira entre as nebulosidades de um dia chuvoso e o obscurantismo que impera neste gênero de música. Dá-lhe Rita, mas vê se guarda essa sua língua, escandalosamente solta dentro da boca! Morro de medo de ser devorado vivo por uma língua feminina.

Revolucionária em todos os sentidos, salvo engano, Rita foi a primeira mulher ( tem a voz magistralmente impávida de Annie Haslam do Renaissance, mas acho que não liderava a banda. Qualquer momento escrevo sobre ambos) a liderar uma banda (mista) de rock no mundo. A irreverente e insolente vovó porta bandeira do rock brazuca foi demais, e quem gosta dela, não esquece jamais!


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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