ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

O ca(u)so é a vertente esquecida da arte

Está cada vez mais raro, fora de catálogo, em desuso a arte de contar casos. E muito se deve ao estresse, ao efeito formigueiro do corre-corre diário e a falta de criatividade, aliado à escassez de ouvidos e talentos para tal. Contudo, ainda resta um bem humorado Rolando Boldrin que faz a plateia se estourar de rir com seus hilários e “verídicos” casos.


ROLANDO BOLDRIN.JPGSua autenticidade, salpicada pela simplicidade diz tudo. Artista completo e contador de ca(u)sos dos "bão".

Segundo os entendidos no assunto, um ca(u)so “bao”, torna-se ainda melhor, quando depurado, burilado pela recriação do fato. Pressupõe-se então, que o contador não possua direitos autorais, motivo de muitos dos casos serem de domínio público; porém, embasam em “fatos reais” e quanto mais reescritos, mais inteligentes e engraçados os enredos ficam.

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Comumente os enredos e relatos permeiam os acontecimentos do cotidiano das pessoas, tanto do meio rural, quanto urbano; portanto, sociologicamente, os ca(u)sos permeiam a cultura de um povo. Logicamente que aqueles que descrevem os hábitos e costumes dos caipiras, dos sertanejos e ruralistas, são mais engraçados, exigindo inclusive, autenticidade nos gestos e mímicas por parte de quem conta. Tai porque Rolando Boldrin é um exímio contador; pois, além de ter nascido no interior, possui talento, dom, criatividade e traz no semblante a teatral magia da espontaneidade. Seus movimentos corporais e o modo acaipirado de falar denotam esses atributos artísticos. Ao ouvir um caso bom e bem contado, enquanto o ouvinte se vê preso pelo enredo, as gargalhadas começam com os trejeitos adotados pelo contador. Adotando os maneirismos de linguagem, os ca(u)sos ficam ainda mais autênticos à época e região onde houve o suposto acontecimento.

O contador de casos obrigatoriamente deve ser criativo, por outro lado não é tão inventivo com pensam, assim como não é tão cego e surdo quanto é a sociedade; e ao ouvir uma “pérola” liberada ao acaso, o artista apura-a no ouvido e antes que caia no esquecimento, corre para melhorá-la, tornando-a engraçada. Esse tipo de arte está intimamente relacionado com a prosa e o humor; e ao contá-lo pela primeira vez, quem vai dizer se o trabalho foi ou não bem elaborado, são as gargalhadas.

Exemplificando, um cidadão que deu o que falar quando esteve na ativa, foi o simples e hilário presidente do Corinthians nos idos de 1980, Vicente Mateus; que em cada entrevista dada à imprensa, soltava uma das suas. Em uma delas, contado como tinha sido a grandiosa festa no seu clube de coração, agradeceu imensamente a cervejaria Antártica pela presteza de ter-lhe enviado em tempo hábil as muitas caixas de Brahmas.

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Outra bem humorada, a qual o protagonista foi Vicente, aconteceu na época em que o time estava numa seca de títulos, pior do que o reservatório da Cantareira no ano passado, quando perguntaram para ele como estavam as contratações e as expectativas de título para aquele ano. Inocente, respondeu que eram as melhores possíveis e a grande contratação viria de Pernambuco e se chamava Lero-lero; quando na verdade, o apelido do jogador citado por ele é Biro-biro.

Sobre as expectativas, disse que a equipe estava treinando sob sol e chuva, trabalhando forte, e se tudo desse certo, a torcida poderia confiar; mas advertiu que quem está na chuva é para se queimar. Da forma como falou, dá a entender que os treinos estavam sendo realizados sob intensas chuvas ácidas, o que causava as queimaduras. Certamente Vicente Mateus alimentou os contadores com muitos ca(u)sos bão.

Uma vez que o autor do artigo é péssimo contador de casos e desenhar pior ainda, aproveitou o que ele faz de menos ruim, que é criar e escrever receitas de culinária, para dedicar ao leitor os ca(u)sos abaixo. Se estiverem insossos e sem um pingo de graça, em um copo com água, ponha três colheres de sopa de sal, uma de açúcar; pimenta malagueta, vinagre e limão a gosto. Orégano, cravo e canela em pedaços à vontade. Leve ao fogo brando e após atingir a temperatura de 30 graus Célsius, tome em jejum e após as refeições.

Ingenuidade de eleitor

Se o leitor for da região Norte do Brasil, talvez saiba sobre o que vai ler. Se não for, isso não é tão importante como saber que tal fato aconteceu e o mais intrigante: com o autor deste. Estávamos todos: eu, o dono do bar, um assistente puxa-saco e um político da cidade reunidos. Jogávamos dominó e vossa excelência, cabra bom e amigo de verdade, patrocinava a cerveja. Era período de eleições. Se no jogo, o político perdia todas, como candidato, não perdia uma eleição. Seu governo já passava de 10 mandatos. Com a campanha e mandatos hereditários: de pai para filho, criara quinze filhos. O fulano parecia um Sarney dos cafundós da caatinga, por assim dizer.

Como sempre fez nessas ocasiões, naquela tarde e noite pagou a cerveja e o churrasquinho também. Brincamos e brindamos. As eleições seriam no dia seguinte. Responsável com o meu dever de cidadão, cheguei cedo para o ato cívico, assim como ele. Responsabilidade e comprometimento: a cidadania depende destas virtudes de cada cidadão. Nós nos encontramos e antes de abrir os portões, ansiava por receber o santinho de meu candidato preferido. O que ele fez quase dentro da sala de votação. Trouxe-me um envelopinho lacrado – naquele tempo era no papel. Num sabia apertar botões. Usava as mãos em vez dos dedos.

Saindo perguntei para ele: “Dotô cabra bom, em quem nós votamos, mesmo”? Ao que ele respondeu: “Cabra melhor que eu, você num sabe, nunca ouviu dizer que voto é secreto? Amanhã você fica sabendo em quem, você e a maioria votaram”. Fiquei calado e até certo ponto, chateado, constrangido, desapontado com sua estupidez para com minha pessoa. Que resposta mais atravessada! Relevei. Devia estar tenso, nervoso com a eleição, mesmo porque ele não é dessas coisas. Parecia uma criança, de tão doce e autêntico. De lá fui direto para o bar e mais tarde, depois das eleições, nos encontramos novamente. Com a desculpa que estava sem verba para tal finalidade, ele recusou o pagamento da cerveja. No dia seguinte foi noticiado na rádio local que ele seria o nosso vitorioso prefeito nos próximos quatro anos. Estourei foguetes, que só e assei uma carninha em nossa homenagem; pois, a vitória dele, era a minha também. Embora que depois d´isto, ficamos um tempo sem se ver. Não ligava, não, logo-logo ele reaparecia e me procurava. Honesto, sempre dizia que eu era seu melhor amigo e quase único; sinceridade e fala honesta em que sempre acreditei. Ô homem, pai de família e político gente boa, sô!

A loucura e a curiosidade dão lucro

Passava ali todos os dias. Olhava aquele muro alto, portões em ferro fundido e um casarão carcomido no fundo. Em certa parte, um falatório danado. Fala aqui, fala ali e iam falando. Às vezes davam a entender que haviam comido uma vitrola velha, de tanto que repetiam a mesma coisa. Um dia gritavam: “ganhou, ganhou, ganhou”. Outro: “quanto, quanto, quanto”? Depois de certo tempo: “uma bolada, uma bolada, uma bolada”. E assim seguia. Quem passava na rua imaginava que alguém de lá teria ganhado uma bolada de dinheiro. Certa ocasião, ouvi: “cem; cem; cem”. Arrumei um meio e subi no muro. Rapidamente mudaram para: “mais um; mais um; mais um”. Ao que um deles armou o estilingue e mandou. Em uníssono disseram: “cento e um; cento e um; cento e um”. Desci rapidinho com um baita galo na testa; e a certeza que a loucura e a curiosidade rendem bons resultados, e são lucrativos. Os números comprovam essa tese. Passado três dias, a contagem já estava em: “cento e quinze; cento e quinze; cento e quinze”.

Ovelha petista:

o senhor Temer é meu pastor e temo que o capim santo que ele rumina todos os dias, para os meus camaradas cristãos, não sobrará.

Economia em tempos de crise:

em Terra fantástica de seres de uma perna só, uma calça com duas pernas, vestem dois sacis ao mesmo tempo.

Ato de extrema bondade:

Estou sem moradia. O amigo leitor poderia ceder-me o quarto de empregada e se não for pedir muito, melhor se vier mobiliado com ela dentro e demais coisas necessárias à nossa sobrevivência. Faria um ato de extrema bondade. Dizem que o céu pertence somente a esses bons de coração; é o que desejo a quem fizer isso por mim. – esses cairiam melhor em forma de Tirinhas.

Os animais de modo geral também são bem aceitos pelos contadores de ca(u)sos, e o principal deles, é o linguarudo, bisbilhoteiro e falaz papagaio. Conta-se que uma senhora solitária e depressiva comprou um casal de papagaio e passado uma semana, voltou ao local da compra para reclamar sobre quem era o macho e quem era a fêmea. Bastante solícito, o vendedor disse-lhe que só daria para saber quando eles acasalassem. Que ficasse atenta e assim que ocorresse o ato nupcial, raspasse a cabeça da fêmea. Chegado a estação invernal, pressentindo que ela estava acabrunhada, com o cabeça debaixo da asa devido o frio intenso, a dona colocou-a para tomar sol no galho do pé de limão que ficava no passeio de sua casa. Passando um senhor sem cabelos na cabeça, a fêmea já desperta e falante, não suportou a curiosidade e mandou ver suas obscenidades: “e aí careca, pegaram você também debaixo de um macho, emprestando, escandalosamente, o órgão anatômico que os envergonhados e polidos chamam de ânus?”


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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