ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Palavras soltas em defesa das águas do “Velho Chico”

Em torvelinhos murmurantes / As águas circulam velozmente.

Garranchos e peixes que ali caem / Se não expulsos para

longe imediatamente / Tragados pelo profundo vórtice /

Respirando / De lá não saem.


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Como repórter, Hemingway debruçava sobre a mesinha carcomida pelo cupim, puída pelo desmanche, trôpega pelo tempo e punha-se a desvelar o presenciado nas guerras. Em uma delas, um voluntário americano que fazia parte da Guerra Civil Espanhola recebe a dura missão de demolir uma ponte com explosivos durante um ataque à cidade de Sergóvia. Devido essa sombra que o acompanhou desde sempre, Hemingway afirmava que toda vez que alguém tombava, caía desfalecido nas trincheiras, nas emboscadas da vida, ele se sentia diminuído pela perda, destruído pela morte de seu semelhante. Frágil e sensibilizado pelo dever de relatar as atrocidades das guerras, a morte era sonho contínuo que aterrorizava o sono do correspondente americano nos campos de batalha.

Sei que você não me ouve, é chatice falar as mesmas redundâncias a toda hora, mas Hemingway, guerra é muito mais que uma guerra armada! Cotidianamente, a batalha está na competição entre os cavaleiros da claridade contra os orcs das trevas; entre o poder do capitalismo contra a resistência do socialismo; entre a fartura posta na mesa contra a carcaça que emoldura os ossos das costelas e barrigas vazias; entre a voracidade das águas contra a inobservância dos remos. Friamente, tudo no universo conspira guerra, se não do homem contra a Natureza; do homem contra a sua própria espécie. Em qualquer uma delas, o homem está presente; no entanto, pode ser ele a vítima do emudecido para sempre.

Também sei que não deveria ser assim Hemingway, mas o veneno possui propriedades tão sutis, que para conhecê-las, para saber de suas maledicências e benefícios, o enfermo precisa infectar-se delas.

Nas margens do São Francisco, ou Velho Chico, as prainhas abrigam lavadeiras que molham as saias lavando roupas, tocos de madeira enfileirados resistem heroicamente as canoas que bailam em suas águas, recursos são gerados para a sobrevivência dos ribeirinhos; e além de agregar vidas, as águas do rio nutrem com o doce sabor da esperança, a amargura dos desesperançados. Residir ao lado, ser vizinho de rios é sinal de fartura e prosperidade; porém, não menos, suas águas podem abrigar, também servir de moradia para o sabor amargo do engano.

vortice1.jpegPara falar de água, as palavras tem que ser soltas, porque rios caudalosos, mares e oceanos não se prendem.

Quando um iluminado qualquer denominou-o como rio com "Da Integração", ele visualizou os benefícios proporcionados pelo silente "Velho Chico" do início ao fim. E apesar de suas infindáveis benevolências, o analista não deixou de levar em conta as histórias e realidades que alertam os desatentos e desavidados sobre os sórdidos e funestos enigmas que passam (alguns ficam) sobre suas águas. E desde a sua nascente na serra da Canastra, em Minas Gerais, o rio vai avolumando com as águas dos afluentes, e ao espraiar suas águas doces nas águas salgadas do mar, deixa para trás miríades de belas, quando não, inusitadas e funestas histórias. Tanto é que para espantar os maus agouros, os maus espíritos que ronda(va)m suas paragens, os antigos desbravadores punham uma carranca em frente à embarcação. Com o tempo essa credulidade, todo o mistério e o misticismo que o cerca, foi deixando de existir, tornando-o silencioso; porém não menos explorado que em épocas passadas pelas mãos gananciosas dos homens.

Engana-se quem assim pensa, mas as águas de mares e rios quaisquer jamais silenciam, pelo contrário, quando menos espera, elas dizem para quê servem; e rugindo alto, respondem por que nascem e morrem. Como tudo na Natureza, as águas contém um quê poético, e ainda que seja indecifrável pelas mentes comuns, seus ruídos borbulhantes dizem que deve-se ter cuidado, atenção sempre, pois a vida é um caudaloso rio que passa velozmente; e como tal, nesse mesmo rio podem estar, tanto o ouro da sorte, quanto as lágrimas que banham os rostos dos vivos que se deparam frente à frente com as infalíveis faces frias da morte. As magias, as quais envolvem o correr, a fluidez das águas, são surpreendentes. Enigmáticas. De rompantes inesperados.

Afinal, as águas de um rio que não morreu pelas mãos do homem são transparentes e límpidas, mas nem por isto, os peixes que lutam para se salvar em suas correntezas não são visíveis às vistas comuns. Quem primeiro falou sobre essa questão foi Leonardo da Vinci, quando fez a seguinte observação: “se tens que lidar com água, consulte primeiro a experiência, depois, bem no fim do questionamento, a razão”. Esta tese de Da Vinci desmonta a versão de Aristóteles, ao dizer que "A razão é o verdadeiro ser do homem, pois representa sua parte superior e melhor". Portanto, ao lidar com água, tanto a razão quanto a emoção devem ficar o mais longe possível da operação. Conhecer as leis e os fundamentos da hidráulica é fundamental para um projeto, ou para um mergulho bem sucedido.

A semana que passou vai ficar marcada na memória da dramaturgia brasileira pela morte do ator Domingos Montagner. Segundo alguns noticiadores do fato, o trágico incidente deve ser debitado na conta das intrépidas águas do rio São Francisco. Ora antes de dizer tal impropério, o falaz deveria analisar melhor como e por que o caso aconteceu, saber o que significa, informar-se sobre a contribuição das águas do Velho Chico para a vida; e não crucificá-las pela morte do ex-ator.

Assim como no conceito água existe uma profusão de teorias, no leito dos rios existem enormes pedras, torvelinhos murmurantes e perdas de grande porte. Não é à toa que um redemoinho aquático, que se forma do nada, torna-se um precipício movediço em segundos. A explicação para este fenômeno físico é a movimentação da corrente aquática. Simplificadamente, a formação do redemoinho, ou vórtice, é o movimento uniformemente espiralado que se forma em torno do ponto fixo - um exemplo prático é quando abre o orifício da pia com água. A velocidade rotacional e a intensidade de força que agem no movimento são proporcionais ao volume existente no reservatório. Enquanto Reynolds estudou o movimento contínuo das lâminas lentas ou sobressaltas; Coriolis foi quem discursou sobre o bailado, sobre os rodopios da água. Ao teorizar tal fato, o cientista já imaginava a loucura tácita, porém operante no líquido inevitável à vida.

Parte das características climáticas de determinada região é determinada pela rotação da Terra e pelo efeito citado. Através desses conceitos físicos, define-se o sentido das correntes marítimas, que diferem em razão dos hemisférios: quando no Norte, ou seja, acima da linha do Equador, o sentido é horário e ao Sul, as correntes percorrem o sentido anti-horário.

Embora de menor intensidade, nota-se então, que o fatalismo da morte do ex-ator deveu-se a negligência em não obedecer os seus limites, em não observar os movimentos da água, informar-se sobre as ocorrências passadas no local e proximidades, (às vezes os matutos e sertanejos sabem mais que a ciência do tudo explica e nada resolve) o qual iria banhar-se; mesmo porque, fenômeno como o descrito, forma-se e desfaz-se de repente, inesperadamente; no entanto, ocorre com certa frequência. Ademais, existe um aforismo popular sobre o líquido solvente (até de vidas) que diz que a água, tanto a parada quanto a corrente, angaria os reticentes, os tacanhos, porque os atirados e sem medo, estão literalmente sob os seus desígnios e mandos ocultos.

Resta então aos homens que ficaram na Terra lamentar a perda de Montagner, pois como bem disse Hemingway, toda perda humana diminui, atinge diretamente quem ainda pensa com o coração; mas culpar as águas do “Velho Chico” pelo ocorrido, é no mínimo falta de sensibilidade com os benefícios e grandezas proporcionadas pelos oceanos, rios, lagos, cachoeiras, remansos e cascatas.

E se uma tragédia, como a que aconteceu, ocorre constantemente nos quatro cantos do país, é puramente negligência ou por desconhecimento do punido sobre as leis imutáveis da Natureza. Contrário das leis humanas que são escritas com carvão nas pedras hoje e muito provavelmente, lavadas pelas gotas de chuva amanhã; as leis da Natureza são únicas e indissolúveis pelo tempo e mãos humanas. E se a singela e explorada Natureza tivesse o poder de pedir algo, fatalmente, exigiria humanisno, sabedoria e respeito no trato, na lida, na relação do homem com ela. Nada mais!

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Lembrando o ofício de velhos tempos e sendo arrastado pelas torrentes de gargalhadas da plateia que lotavam os picadeiros para aplaudi-lo, que o seu espírito seja recolhido em um lugar onde a paz, inclusive das águas, reine absoluta. Paz soberana: esse é o galardão que merece Montagner, o palhaço que arrancava de carrancas e caras amarradas, sonoras gargalhadas. E o gargalhar solto e desprendido, ainda é a transposição do espírito a níveis superiores.

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Contudo, é de suma relevância que o texto iniciado, seja findado com uma frase de impacto de Hemingway, esmiuçada no livro "O velho e o mar": "Um homem pode ser destruído, mas não derrotado". Ainda mais porque o nobre pensar de Ernest é bem aplicável a continuidade de vida de Montagner em outros planos. Que o ex-ator mantenha o seu lado palhaço e faça Deus, os anjos e os demais habitantes do paraíso celestial sorrirem; porque aqui na Terra, ele foi um "Santo" risonho.

Amém!

Sob lamentos, acusações, gargalhadas, lágrimas, enaltecimentos, racionalidades, floreios e dor, as águas do "Velho Chico" seguem livres para agirem. Isso para quem não as conhece, porque em muitos meandros, ancoradouros e barragens seu curso não é mais natural; perdeu a originalidade. Infelizmente, nesse campo de vegetação árida e minguada, pisoteada por patas inconsequentes, os argumentos e atos servem somente, apenas, para satisfazer os prazeres, as "prioridades" egóicas do homem; e desde que seja para o benefício do homem,... as águas do "Velho Chico" servem para muito mais, tudo mais! Porque integrar vidas não é suficiente.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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