ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta"

Vossos filhos não são vossos filhos...

Será que todas as famílias, todos os pais do planeta tem consciência que “Vossos filhos não são vossos filhos?....” mas filhos das trevas, da imperfeição, da solidão, do recomeço, da luz, da renovação, do fracasso, da conquista, do mundo. Pode não ser um pensamento unânime, mas retratado em poema-narrativa, certamente é o que pensava e almejava Khalil Gibran.


Sem estender além do devido e evitando a prolixidade, Gibran Khalil Gibran, nasceu em 6 de janeiro de 1883. Dentre as muitas variedades humanísticas dominadas pelo árabe, atuou como ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor.

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Gibran teve vida curta, 48 anos, porém, tempo suficiente para escrever “vasta” obra literária; que requer seletividade de leitores. Seus escritos versam mais sobre espiritualidade, misticismo, amizade e família; e por ser temas intrigantes, os quais a humanidade se vê, se depara cotidianamente, foram traduzidos para vários idiomas. Publicado originalmente em inglês, O Profeta é a sua obra mestra. Em 10 de abril de 1931, tomado pela cirrose e uma tuberculose perturbadora, Gibran faleceu em Nova Iorque, E.U.A

Como todo gênio que traz em seu âmago a inquietude das realidades incertas e nada fantasiosas, no poema “Vossos filhos não são vossos filhos”.... Gibran tocou no ponto fraco, literalmente cavucou a ferida que reside debaixo dos mesmos tetos. Sutilmente, levantou o tapete ensebado que cobre a relação conflitante entre pais e filhos. Pois, perante as reuniões familiares, perante os formalismos socais, não existe família imperfeita e consequentemente, todo filho, além de exemplo, é joia rara que pertence aos pais por toda vida; por sua vez, os pais são os perpétuos esteios. Óbvio que esse conceito paternal-familiar é somente dentro das normas convencionais estabelecidas pelas sociedades. Paradoxalmente, essa maneira de educar os filhos reflete diretamente no todo, no viver coletivo; e o resultado é a desestrutura, o caos que cobre de pessimismo a sociedade brasileira, o qual, queira ou não, além de contaminar a família vizinha, todos os brasileiros estão à mercê.

Como pai e filho que foi, onde entra o vislumbre poético de Gibran nesse complexo contexto humano e familiar?

Contrário a esse dogma social, Khalil vislumbrava um mundo libertário, de horizontes revolucionários e futuristas na arte de educar; formar um filho. Neste poema, talvez tomado pelo remorso de ter sido um pai "ausente", bêbado, noturno, incomunicável, gênio devasso, Gibran insinuasse que os bons legados e a excelência na formação dos filhos só podem ser concebidos por quem quebra, rompe com o autoritarismo reinante nos velhos costumes. Ademais, quem os prendem debaixo das asas, educa sob os mandos da força, além de formar um ser medroso, ultrapassado perante à ocasião, ganancioso, tolhe as individualidades e cerceia a liberdade até de expressão do filho.

Vossos filhos não são vossos filhos / São filhos e filhas do anelo da vida por si mesma / Eles vêm através de vós, mas não de vós.

E embora vivam convosco, não vos pertencem / Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos; porque eles têm seus próprios pensamentos.

Liberdade e desprendimento. Liberdade para pensar, agir, ser o que o filho quiser ser. Pois, o cordão umbilical que une mãe e filho foi cortado, rompido para dar sentido à liberdade. Na pior das hipóteses, o filho foi liberado para usufruir da liberdade, ainda que vigiada.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; Pois suas almas moram na mansão do amanhã / Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

Nestes versos Gibran aclara a impotência dos pais em não poder invadir os corações, os sentimentos que aparentam estar próximos, debaixo do mesmo teto, mas na realidade, estão muito distantes. Ainda mais porque as subjetividades dos pensamentos e emoções são trilhas, por quais, peregrino nenhum transita. Porém, por mais que queiram, pais não salvam filho nenhum. Esta certeza absoluta é o grande enigma a ser desvendado pela família; e por consequência, o maior motivo de se educar um filho cosmopolita, responsável e comprometido com o mundo ao seu redor, e para o mundo. No decorrer da vida, a inter-relação, a interdependência de um filho em relação ao filho do vizinho é inevitável.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

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Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas / O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.

Nesta passagem o autor discorre sobre a idealização, divaga sobre o processo da não espelhagem, mas sobre a renovação de conceitos, sobre o rio que desemboca em alguma foz e deveria marcar os liames entre pais e filhos durante o ciclo vital de ambos; e assim que arremessada, a flecha atinja o centro do alvo. E uma vez que a mutação do pensamento humano ocorre segundo o tempo e espaço, qual é o alvo ideal a ser atingido? Contudo, só de dar a liberdade para que a flecha voe, vá de encontro aos seus ideais, tenha múltiplas e variadas vivências, ande com suas próprias pernas, pense por si só, ainda que tardiamente, já é um grande feito.

Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: pois assim como ele ama a flecha que voa; ama também o arco que permanece estável.

Finaliza o poema idealizando que as boas obras realizadas pela flecha durante a trajetória de vida, seja o engrandecimento do arco e se assim ocorrer, a alegria, o êxtase de missão cumprida enobrecerá pai e filho. Convenhamos que educar uma inteligência sensata, formar um livre arbítrio coerente, transformar momentos arredios em mansidão, trevas em luz, moldar um ser, além de humano, empático, não é tarefa para qualquer progenitor; pois, exige competência, razoabilidade e sabedoria. Também puderas, existem cursos, reciclagem, simpósios, conferências para tudo, menos para ensinar como se cria uma sociedade justa e igual, iniciando pela família. Ademais, em tempo, além de ser tardios, só os socos no baixo ventre e os tapas na cara dados pela faculdade da vida não bastam.

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Adendos:

Se o maior desafio do homem desde os tempos da caverna, em todos os tempos é se relacionar lado a lado, frente a frente com seu semelhante, ser paciente às crises existenciais mútuas, administrar a inteligência, a euforia do livre arbítrio do ser pensante, sem feri-los, deveria ser a mínima referência, o ensino, a primeira lição propagada pelos pais. Será essa a premissa, a formação, a educação dos pais modernos em relação aos seus filhos, ou fazem tudo, dão tudo, cinzelam as arestas na construção, na segregação separadora de cristais intocáveis de um lado, canalhas de outro; ou um misto de tudo, exceto, de HOMENS?

Pode passar um minuto, um dia, um mês, um ano, décadas, mas dois séculos não chegarão; porque os batimentos vistosamente alegres ou os camuflamentos melancólicos do coração são contados pelas vivências. E vivências não ultrapassadas além-muros, analfabetas, mudas, são semelhantes a uma árvore seca, estagnada, infrutífera.

Perguntaram para o espiritualista Dalai Lama: "o que mais te surpreende na humanidade? Que timidamente respondeu: "os homens ... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente e nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... E morrem como se nunca tivessem vivido".

Dando como certo que "Vossos filhos não são vossos filhos...." então, a quem os vossos filhos pertencem? Os filhos são filhos, uma flecha que viaja rumo à esperança, à deserção, à morte; à terra. Estejais preparado para a voo; pois, assim estruturado, talvez respire o agora em harmonia, em comunhão, em paz consigo, ame-se e deixe ser amado pelos demais filhos que disputam inutilmente um palmo de terra, na Terra!

E o filho que assinar a carta magna da existência humana com a pena da justiça, retidão, igualdade, dignidade e fraternidade, poderá faltar-lhe ferramentas, equipamentos e tecnologia para consertar o mundo; mas certamente será um canalha a menos. Entretanto, voando contra o vento, em direção contrária a esse preceito... em nada adiantou o pulsar da corrente sanguínea, o fértil espermatozoide que guerreou bravamente contra os invasores para preservar, guardar o portão da industria da renovação; foi em vão as noites mal dormidas, os esforços para a construção e lançamento da flecha; tudo não passou de orgasmo inútil.

Por fim, o detalhe mais sublime na formação, na educação familiar, é saber que um dia não muito distante no tempo, todos os pais também foram filhos. E não só isto, o maior contrassenso na relação espiralada entre pais e filhos, fato para o qual a família tapa os olhos, é que os pais voltarão a ser filhos!... do filho?

P.s.: quem quiser estender o assunto, ouçam as músicas "É, meu pai e Sapato 36" do Raul, quem sabe esclarece um pouco mais a relação entre pais e filhos.


Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta".
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