ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Jesus, se não é você, quem é Cristo?

Quem acredita nas verdades de minha fala? A humanidade? Não sei porquê, mas agradeço! Se verdades são acreditáveis, deve-se acreditar também nas mentiras. Oposto do pronunciado pelos homens, meus agradáveis sofismas podem conter duras, consagradas e incontestáveis verdades.


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Contextualização: Na língua portuguesa existem muitas palavras que, veladamente, tacitamente, oferecem ao leitor múltiplos entendimentos, variadas interpretações e sob o vacilo do certo e o errado, do bom e o ruim, variadas reflexões. E para quem não é léxico ou gramático, o “se” é uma delas. Portanto, querer saber quem foi o “ínclito Figurão” do título, demanda o uso deste subterfúgio linguístico; afinal, desprezível é o Profeta cuja liberdade, autonomia e independência dependem da disponibilidade, da boa vontade e o jugo dos homens, que não passam de bestas humanas, tanto quanto o falso revelador.

O nome do leitor é Jesus? Se sim, ou um Messias qualquer, por favor, esclareça-me quem foi Cristo, porque após mais de meio milênio de anos de sangue circulando pelo interior de minhas veias, ainda não consegui saber quem foi esse cidadão que dizem que foi psicólogo de pobres e mendigos, miraculoso terapeuta dos entrevados; resgatador de ladrões, prostitutas, homossexuais libidinosos e pecadores; de ideias humanas avançadas e ideais filosóficos vociferados mund`afora; todavia, quase nada exercitados. Ou, se exercitam os seus ensinamentos plenamente, deve ser na calada da noite. Acima de tudo, no silencioso negrume da madrugada, cães, gatos e ratos dormem embrulhados no mesmo pacote, nada se transforma, não se ouve as gotas de orvalho caindo no chão, bem como não se vê os pontos brancos dos olhos; porém, estranhamente, misteriosamente, como a geração de uma foto, certas coisas se revelam.

Se ele existiu e foi um homem como dizem, não deve ter sido nada fácil para um simples ser de alpercatas nos pés, com um pêndulo de barba oscilando no peito, com um chumaço de cabelos esvoaçados na cabeça, guarda-volume de piolhos; um andarilho cascudo que carregava no ombro um embornal despedaçado lotado de badulaques velhos, multiplicador de pães e humilde lavador de pés conviver com toda sorte de gente. Pois, contrário aos seus lúcidos preceitos, a algazarra, o zunzunzum dos fortes é infinitamente superior ao silêncio dos fracos. Os tempos não estão pra isto, mas lançando um pouco de poesia aos novos enlaces matrimoniais, nas saudáveis e nada precípuas amizades modernas, verificamos que conhecem-se ao entardecer. Palavras regadas às fantasias cotidianas. Afinadas ou não, concretizadas ao néctar do mel à luz do luar. O amanhã será como ontem: mero desconhecido do hoje. No entanto, para não dizer que não falaram dos espinhos, sobraram pelo menos uma retorcida colher de metal, guardanapos, um absorvente molhado com denso e talhado suco de morango, preservativos escarrados com uma gosma colante e um esfarrapado lençol; todos, lamentavelmente, em petição de miséria.

Dando um voto de confiança e pedindo perdão pela minha infeliz, estúpida, arrogante e miserável descrença, se realmente existiu e foi o que dizem ter sido, teria ele lavado os pés de seus discípulos, como uma profusão de falantes em seu nome, apregoam, juram de pés juntos? Sobre essa infâmia, porque se analisarmos pelo contexto humano em todos os tempos, lavar os pés é feito raro, (aliás, tendo-os como objetos de luxo, pagam fortunas para tê-los limpos, descamados, livres de asperezas, calosidades e mal cheiro, impecáveis) reza a crença que no exercício da humildade, desprendimento de valores próprios, afeto, amor ao seu irmão, pregação em nome do Pai e ofício, após muita andança sob sol a pico, com os aquecidos miolos pulando fora do crânio, pararam debaixo de um benevolente sombreiro para espichar os músculos das pernas e reequilibrar as energias.

Como sempre, os apóstolos tagarelavam, regozijavam sobre as proezas, façanhas e conquistas feitas naquele dia. Ousado, um deles disse: “E você Cristo, o que tens a dizer, quê milagre fizestes hoje; nenhum?” Sem revidar uma letra, Cristo engoliu a seco o insulto. Todavia, em dado momento, presenciando o alarido que já durava certo tempo, o miraculoso homem de barbas longas pediu um segundo de silêncio e assim feito, também pediu que eles sentassem enfileirados. Embasbacado, um dos homens balbuciou: “O que será que este filhote, estagiário de mendigo, resto de bafo de quadrúpedes vai aprontar agora”? Cansados, exauridos pelo "bate-perna" de porta em porta, necessitavam relaxar. E juntamente com eles, não houve um só ser pensante na Terra que rejeitou uma sonora e espalhafatosa gargalhada.

Cristo sumiu por detrás do tronco; ao retornar, apareceu com uma enorme bacia com água morna, pediu mais um segundo de silêncio e num ato contínuo, daqueles que amenizam as piores dores, cuidadosamente, banhou os pés dos presentes. Admirados e incontinenti, todos fizeram profundo silêncio e reverenciaram o ato simples e humilde que caracterizou para sempre, Cristo como um bom líder servidor. Claro que somente para os doze vagabundos e desocupados peregrinos. Sobretudo, naquele tempo era difícil alguém acreditar em lavagem de pés e milagres gratuitos, porém acreditavam piamente no poder da cura através do dinheiro; aliás, o dinheiro era também o remédio para todos os males, dai o motivo de não terem tempo para as coisas infecundas.

E depois daquela vivência, todas as vezes que indagavam quem era Cristo, aparecia um Jesus que, pacientemente, retrucava: sou um anjo sem asas, que fala de amor, que fala do vento e se esquece do tempo.

Simplista, emendava o rosnado: Se alguém perguntar onde vivo, diga que vivo no coração daqueles que conhecem o amor. Se alguém perguntar onde estou, diga que estou, em cada palavra, cada lágrima e também no sorriso. Se alguém perguntar se eu amo, diga que sou a pessoa mais apaixonada do mundo. Mas por favor, só se perguntarem, se souberem quem eu sou e o que represento para a humanidade. Não, não sou nada afeito ao marketing publicitário; sobretudo, para mim, mídia e selfies são iguarias fermentadas, nocivas e indigestas, fazendo com quê eu perca minha natural originalidade; meu autêntico sabor.

Antes do meu retorno ao paraíso - morrer uma vez para salvar a humanidade foi benevolência demais de minha parte. Prometo em nome do Pai que a segunda não acontecerá, pois morrer duas vezes é macular o certificado de Altruísta com o selo de asno tolo - digo que se o devoto declarar sua religião, seu clube de futebol, quantas vezes fez sexo na semana, sua ideologia política, para quantos filhos paga pensão alimentícia, qual será o modelo do carro a ser comprado no final de ano, seu poderio econômico e social, suas palavras serão verdades. Palavras inteiras que representam um centésimo de verdade, obrigatoriamente devem ser apagadas e esquecidas imediatamente; se não, o inverso, o contaminante posto na água, líquido salutar à vida, se espalhará rapidamente e o mais relevante: de pouco a pouco, em dosagens homeopáticas, a deteriorização humana imperará para sempre. Rapidamente, o câncer se espalhará!

Reconhecidamente, em meio ao ninho de víboras peçonhentas, tal qual a arisca e inocente iena desgarrada, persigo a matilha de leões famintos.

Como eu, se é para ajudar, auxiliar nas tarefas, praticar o bem, qualquer mentecapto devoto da loucura, pode e deve influenciar o intelectual a saber, conhecer a fundo quem anda ao seu lado; para isto, sem pedir licença, sem planejamento de data, lavar o banheiro da casa do suposto "amigo" é imprescindível.

Somos poucos, mas ainda existe meia dúzia de homens humildes que passam a vida inteira na tentativa de facilitar a harmonia do Cosmos. Em contrapartida, seguramente, existe o resto da humanidade para complicar. Uma das maldições dos Profetas ressalta que o dualismo entre a paz e a guerra é constante, irreversível e quanto mais tecnologia criam, proporcionalmente, é a distância entre os povos. Prova cabal de um dos países pioneiros neste investimento de separatismo entre os povos é o Japão, que está isolado praticamente em sua ilha peninsular. Mas não queiram pensar nisto: usufruam! O detalhe é que ainda não criaram caixão rolante, demandando portanto, no mínimo quatro besouros da espécie escaravelho para empurrar o gênio para o buraco, para em seguida os amigos próximos chegarem terra em seus olhos.

Alguém se habilita a lavar o banheiro da casa (se possível com as paredes do vaso empretecidas pelo resquício de vossos egos) e os pés cascudos dos vizinhos? Pense e não duvide que não se chega ao Pai, àquele que leva ao conhecimento da mão direita as oferendas dadas pela esquerda e vice-versa, àquele que não exercita verdadeiramente as palavras de Jesus Cristo; que a princípio possuem o amargo do fel; mas se destiladas pelo tempo, transformar-se-ao em favos de mel.

Sacou agora, sou eu Jesus Cristo, o filho do Pai soberano e jamais nos separamos um do outro; pois somos uma só carne e em nossas veias, fluem um purificado e só sangue! Entretanto, pensando pelo lado das boas obras, ignoto para todos, por outro, plenamente conhecido pelas minhas grandíssimas e irresponsáveis mentiras, pois, pouco ou nada do que falei é seguido à risca, meus atos e exemplos de nada valeram; e consequentemente, interpretado sob a luz da razão, posto sobre os pratos justos da retidão pela humanidade. Por que vocês não qualificam-me como "O Messias Sofismático?...". Apesar de ser um título elegante, porém, exijo respeito e não aceito ser tachado de Jesus Cristo charlatão!

Isso! Façam como os discípulos, continuem sorrindo que vocês irão longe. Gargalhem bastante, pois, enquanto eu sei o significado da palavra e pratico o perdão, vocês não sabem de quem e porque sorriem; suas aves de rapina depressivas, hipócritas imundos.


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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