ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Renbourn foi infinitamente superior a Lennon e Mccartney juntos

Numa batalha travada entre o pigmeu e o gigante, dificilmente o anão sairá vencedor; mas de modo algum, deve-se dizer que faltou criatividade, coragem, disposição e enfrentamento por parte do nanico. De certo mesmo, é que em algum momento do embate, o anão morderá a orelha do gigante. Não duvide! Esta metáfora ilustra a trajetória dos John´s e Paul na Terra da Rainha.


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Quando se faz música de elevado valor espiritual e os instrumentos são tocados pela alma, o eco abafado das palavras traduzidas pela poesia fica em segundo plano

O folk está para a classe operária ruralista inglesa, assim como o blues está para os negros americanos. Ousados, os precursores dos estilos tiveram papel importante na divulgação e voz de um povo que abastecia (como abastece desde mão-de-obra, passando pelos alimentos, culminando com os potes cheios de água) os grandes centros urbanos. Através desse ideal-musical, além de forçar as mudanças de hábitos, comportamentos e o pensar dos burgueses citadinos, impuseram respeito e reconhecimento para com os campesinos. Por sinal, merecidamente, porque se esses cidadãos não derramassem suor, não dessem duro “explorando” a terra, a fome seria forte aliada da burguesia; e pouco adiantaria o money nos bolsos e os metais preciosos nos baús. Por escrever suas letras em defesa dessas e outras classes de homens, Bob Dylan foi condecorado com vários prêmios. “Labutar pela justiça e igualdade”: este sempre foi o lema conclamado pela Arte contra os poderosos em todos os tempos. No passado, esse olhar atuante da arte sobre o homem e o seu meio deram resultados positivos; mas atualmente, se dá ou não, aí são outras ideologias. Aliás, pedindo licença ao folk, a Renbourn e suas letras: ainda fazem Arte Musicada com esse enfoque e linguagem?

É lógico, é evidente, que a questão de gostar disso ou daquilo faz parte, não da essência humana, mas segundo os conhecimentos e oportunidades de cada um; e as escolhas estão intimamente relacionadas à época, ao estilo, às influências, ao modismo, etc. Aliás, por sinal, inclui no bojo a localização geográfica e ainda que a divulgação do que está sendo feito no outro lado mundo se propague à velocidade do som, nem tudo será divulgado em continentes distantes, por isto, nem todos terão a oportunidade de conhecer a obra. É nesse tocante que os ouvintes de Renbourn e Lennon se diferem; ainda mais que quem ouve Renbourn conhece Lennon, e o mesmo não pode-se dizer de quem conhece e ouve Lennon em relação a Renbourn; que além de célebre músico, pertenceu aos dois lados da mesma moeda, enquanto que John Lennon pertencia a um dos lados. Este é o lado “B” da arte e como tal, está presente também na música.

No século passado, a Inglaterra que havia transformado o mundo com a revolução industrial, demorou mais 65 anos para alterar o panorama musical mundial. Pois vindas de Liverpool, quatro abelhas zumbidoras criavam asas e voando pelo mundo, tornavam-se conhecidas onde quer que os hits “Hei Jude, Let it Be, Come Together” fossem executados. Porém, a Terra da Rainha já havia posto em evidência um novo estilo musical. Se o novo gênero daria certo ou não, se “faria a cabeça” e cativava o público ouvinte ou não, essas eram as perguntas que Renbourn se fazia. E embora tivesse passado alguns anos na incubadora, o gênero, o qual o músico investiu todas as suas fichas, se arrastava sem sair do lugar, porém tanto fazia; pois as perguntas que necessitam de respostas de terceiros podem não satisfazer as respostas do autor da pergunta. E era exatamente isto que Renbourn pensava, pois, primeiramente faria música para satisfazê-lo e depois, satisfazer mais alguns que aderissem o estilo proposto por ele.

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John foi membro principal e fundador do grupo de folk-progressivo com influências do blues e jazz, Pentangle; uma banda vinda dos subúrbios ingleses que tinha a cantora Jacqui McShee no vocal. Na guitarra e violão, além de Renbourn, Berst Jansch. No baixo Danny Thompson e na bateria, Terry Cox. Esse foi o quinteto original que compunha a banda e durou cerca de cinco anos com essa formação. Desses integrantes, apenas Danny não cantava.

Por volta de 1968 o selo Atlantic os descobriu. E fazendo jus aos longos anos de reunião em garagens e parques, a gravadora abriu as portas para gravação do primeiro álbum da banda. Feitos os preparativos de vozes e afinados os instrumentos, foram para o estúdio e no final do mesmo ano, as canções do álbum Pentangle estavam sendo cantadas pelos ingleses. A estreia não poderia ter sido melhor, com o álbum ficando entre os 21 mais solicitados nas paradas britânicas. A terceira faixa: “Hear My Call" (Ouça o meu chamado) conta com um magistral solo de baixo, que para os leigos, tocar da forma como Danny toca, só incorporado por algum chamado do além. Sublime!

Enquanto os Beatles explodiam em vendagem e público, Pentangle ia garimpando umas minguadas cabeças. Talvez contrário ao glamour, entretanto, sem se importar com o acontecia musicalmente em outros pubs, garagens e parques, a banda seguia inovando o folk-music inglês e lançaram mais quatro álbuns: o Sweet child de 68; o Basket of light de 69; o Cruel sister de 70; o Reflection de 71 e Solomons Seal de 72.

Um fato marcante na trajetória do Pentangle é a influência que o folk exerceu em outros grupos de rock. Por exemplo, devido a forte predileção do vocalista Robert Plant pelo estilo, o Led chegou a compor músicas, as quais os arranjos flertavam com o folk; fato declarado publicamente pelo cantor.

A banda amadurecera e apurara o som; motivo de encher "espaçosas" casas de espetáculos, como o Royal Festival Hall, em Londres; o Carnegie Hall, em Nova York, e o Newport Jazz Festival. Por um tempo, o quinteto foi desfeito; porém, depois de 1985, com uma formação totalmente modificada, retomou à estrada e lançou mais alguns discos. O ex-líder não fez parte do grupo, porém, em 2007, esteve presente nas homenagens no BBC Radio 2 Folk Awards à banda.

1970: voltando a Renbourn, ano do rompimento, não do quinteto, mas sim do músico com a banda; que além de fazer parte e bravamente liderar, desenvolvia outros projetos individualmente. Desligando, teria mais tempo para se dedicar aos projetos, tanto é que parte dos estilos jazz-folk e folk-barroco londrino levam o seu nome como precursor. E visto que o folk era sua paixão desde sempre, o músico fez outras experiências instrumentais, incluindo a guitarra havaiana em suas composições. Com isto, a sonoridade e a musicalidade de Renbourn adquiriram uma abrangência atemporal. Adimensional em todos os sentidos, com tendências puramente instrumental, que oscilava do celta ao medieval; portanto, classicamente, a virtuose sonora completava-se com o erudito. Para acompanhá-lo, John convidou alguns músicos, formando o grupo “The John Renbourn Group”. Com a nova formação, o músico foi várias vezes indicado ao Grammy.

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2015. Gozando de pleno vigor físico aos 70 anos, Renbourn insistia em não aposentar o violão. E em parceria com vários músicos, dentre eles o inseparável amigo de Pentangle Berst Jansch, mantinha a agenda cheia. No dia 26 de março uma das casas de show de Glasgow, Escócia se preparou para recebê-lo. Cumpridor, inesperadamente Renbourn não apareceu e nem mandou o violão para substitui-lo. As luzes apagaram. Os instrumentos desafinaram. Olhares estranhos e interrogativos tomaram conta do ambiente. O que teria acontecido com o músico? A polícia saiu à caça; foi à sua casa e como a morte nunca participou de seus espetáculos, foi recebida pelo seu representante, um infarto fulminante e o comunicado: “aqui jaz Renbourn; músico que deu sua vida pelo folk”. De fato, Renbourn não fez outra coisa em vida, senão, ser músico, tocando as notas do folk.

Sobre Renbourn, uma pessoa ligada a ele disse: “um grande personagem. Ele estava sempre tocando e ensinando. Era isso que ele amava fazer e por isso nunca parou." Já o seu empresário deu a seguinte declaração: "Quando eles surgiram, ninguém estava fazendo isso. Foi uma abordagem totalmente nova. Renbourn era um artista inspirador, muito conhecido ao redor do mundo, embora sua música não fosse mainstream”.

Pois bem, em tempo, armado com esse arsenal de argumentos, musicalmente, nos anos 1960, John Renboun foi infinitamente superior a John Lennon Paul e Mccartney juntos, na Terra Rainha Elisabeth; porém o que mais importa é a contribuição de todos para o rock, para o folk, para o jazz, para o blues, para o pop, para a MPB, para a seleta música mundial. Salve os grandes, os pequenos, os camponeses, os burgueses e adeus as armas. Que a lucidez dos iluminados nos traga Paz! Pois, tanto Renbourn quanto Lennon e Mccartney, usavam a música para o chamamento do P.A; ou melhor, para o chamamento da Paz e Amor.

Nota: salvo a loucura de pensar tudo e não afirmar nada, (inteligência também trai, portanto, não nego nada, tudo faz parte de minha indelicadeza!) acredito que em meados dos anos de 1990, Renbourn esteve no Brasil para um show em São Paulo.


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A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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