ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Pacto entre cidadãos

"Abaixe os galhos que faço a colheita dos frutos. Trabalhando em conjunto, dividimos as tarefas, cansamos menos, adquirimos tempo para sorrir; se ela de fato existe, comprazemos da felicidade, e fatalmente, teremos abundância de alimentos e ninguém passará por privação e fome". - inspirado no gregarismo das formigas e abelhas, esse é o infame sentimento que Arminda nutre continuamente sobre as pessoas que, sem paradeiro fixo, vagam pelo mundo à procura da paz que os vossos corações e estômagos desconhecem.


"Pois ficar à toa é tornar-se um estranho às estações e sair do compasso da vida, que marcha majestosa e orgulhosamente submissa rumo ao infinito". - Sobre o trabalho; Kalil Gibran

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De um salto todo atrapalhado, Arminda pulou da cama. Levando as mãos pelas laterais do corredor, nada diferente de um calabouço dominado pelas teias de aranha e reduto de baratas, como cego em noite escura, caminhou aos tropeções, debatendo-se contra os móveis ensebados nos cantos. A cotovia Arminda, como dizia conversando sozinha, voava sentido a mais um dia. Vendida pelo chinelo que enroscou na fresta de uma das rachaduras, estacou repentinamente. Agachando para pegá-lo, verificou que a tira soltara, mas nada suficiente para lhe tirar o bom humor do coração. E ao perder tempo tentando encaixá-la sem conseguir, aliviou a ira com um sonoro palavrão de não mais que duas letras...; terminou a esconjura dizendo: "que Deus me perdoe, mas o dia começou bem".

Embora morasse ali desde os tempos de criança, para ela havia a sensação que jamais estivera naquele lugar. Os sonhos são crenças fugazes da realidade. Sorte dela que ainda os tinha e de quando em quando, ia parasitar sua casa e após fazer a devida reforma, visitava suas esperanças. Arminda é uma mulher de garra, trabalho e fé; e às vezes pode fraquejar, mas no minuto seguinte levanta ainda mais feroz. Mulher e mãe de fibra, ela não desiste nunca. Um dia quem sabe, ela será alvo de reconhecimento e a sua obstinação, motivo de publicidade; porém, enquanto a ocasião não chega, mantém-se firme vivendo o agora.

No céu nem um fiapo de luz; nem um grão de estrela; nem uma miragem de lua. Madrugada negra, como sempre fora naquela orbe. Também não havia sinal de ruídos. Silêncio mórbido. O mundo parecia não existir para Arminda, que procurou inspiração para mais um dia, fazendo o sinal da cruz, rezando agalopadamente o Pai Nosso e duas Ave Marias. Mesmo estando fora de si, o qual trafegava pelos labirintos do ninho alcunhado de casa, viajava fora do corpo e para completar o automatismo do ritual do romper da aurora, enfiou a cara debaixo do fio d´àgua conta-gotas que escorria gelada da bica, esfregou-a com suas mãos calejadas e unhas felpudas, escarrou no chão uma pelota gordurosa e amarelada recheada de muco com sabor amargo do cigarro de palha que pitara antes de dormir, ajustou na cintura o vestido de chita roto que a acompanhava à décadas e dirigiu-se ao fogão. Sabia que ia ter trabalho para acender o fogo, pois durante o dia e parte da noite, a chuva intensa molhara os gravetos que havia buscado no dia anterior.

Soprou, soprou, soprou e de tanto soprar a ponto de tossir devido à perda de fôlego, conseguiu a façanha de acender o fogo. Ofegante, respirou fundo em busca de um fio de ar e trazendo até a boca outra pelota de gosma amarela, limpou as vias respiratórias, em compensação, enlameou o chão. Enquanto a água não borbulhava na chaleira, encostou o corpo no batente e tirou da lata cortada, aparato que dizia ser cinzeiro, a bituca de cigarro de palha que apagara na noite anterior, levou-o à labareda e em instantes reestabelecera a sintonia com o ambiente. A bioquímica governa e reanima as células desprovidas de autonomia; consequentemente, torna-as dependentes, exercendo poder ainda maior nas mais fracas. Em certos casos, circunstâncias e dosagens, quando aplicadas em certas plantações, a bioquímica é praga e feito erva daninha, tal qual uma planta exótica, domina mesmo o espaço, definha e arrasa com as originalidades.

Ao se deparar com o pito matinal, sentia-se como uma cadela salivando a boca sedenta pela recompensa ao ato imposto pelo mandatário- domador. Para Arminda, após a primeira pitada bem tragada que faz circular pelos pulmões grossos anéis de fumaça, embaçá-los, saciá-los com o sabor da nicotina e após exalar pelos quatro cantos da casa um cheiro acre de fumo queimado, era como se uma horda de anjos descesse sobre ela. Ficava tão extasiada, leve feito pena em queda livre, com os músculos da cara e do corpo aliviados, a ponto de pensar que acabara de descarregar balaios e balaios de rapadura.

Coou o café, ensebou o pão amanhecido com alguma coisa, pelo odor e textura, talvez os restos gordurosos das vísceras do porco que matara na volta da lua cheia do inverno de cinco anos passados, juntou os quatro lados do pano de prato encardido e deu um nó, ajustando a tampa à marmita. Naquele momento nem o silêncio de morte que rondava os arredores a apoquentava. Tudo lhe era familiar: o cheiro forte de fumaça misturado ao cheiro de café; a friagem avassaladora do chão batido lhe subia pelos pés descalços e intrometida, adentrava-lhe às entranhas e coçavam as lêndeas das lembranças dos tempos que a usava para saciar o apetite endemoniado dos hedonicos das cercanias; porém, agora estava às voltas com a desilusão e o desprezo. Tudo tem o seu tempo; e o repouso, para não dizer encosto absoluto, é a merecida glória.

O clarão resplandecente do fogo que subia em forma de espirais diabólicas; o crepitar, que mais parecia o choro da lenha ao ser queimada; os móveis engordurados e enferrujados tombados nos cantos; as vasilhas com o fundo preto de carvão; o emaranhado dos picumãs que desciam do teto, feito teia de aranha, prontas para laçar as presas. Tudo era completamente perfeito. Aquele era o mundo que ela havia pedido e Deus, como bom servidor, havia lhe contemplado.

O horário batia-lhe à porta, dizendo que já havia passado e muito da hora de despertar o filho para a labuta de mais um dia. Deu uma soprada na ponta do cigarro, apagando-o e em seguida, enfiou-o atrás da orelha, que era seu esconderijo predileto. Cada ser, cada objeto, animado ou inanimado possui um esconderijo, um lugar onde pode ele consigo mesmo, refugiar as mágoas. “Pelo menos isso”. Pensou.

Justino dormia solene e seu ronco mais parecia o ganido de um ganso fugindo de seu algoz; imitava e muito um prisioneiro de guerra pedindo liberdade e clemência pelas atrocidades que não cometera, mas que, injustamente, estava sendo condenado. Parecia acorrentado por atormentados pesadelos. Minda aproximou-se da porta, chamou pelo seu nome várias vezes, sem que lá de dentro saísse uma alma penada sequer para responder ao chamado. Empurrou a porta. Do negrume do quarto emergiu uma voz estremecida e balbuciada: “quem é?”

- Sou eu meu filho. Está atrasado. Vamos, levante e lave a cara. Já está tudo no embornal, pegue e vá à guerra.

- Estou sem nenhuma vontade de batalhar a vida, queria mesmo era revolucionar o mundo. Quero perder o dia de hoje, para que o mundo ganhe décadas seguidas no futuro! Oxalá, séculos!

- Nada disto, Tino. Sendo cidadão cumpridor de seus deveres, você já será um revolucionário, um belicoso guerreiro sem insígnia. Vamos, pule da cama. Como está atrasado, deixe para rezar caminhn`afora; à tarde conversamos sobre essa história de revolução..! Ande logo, rapaz; aja, porque o dever te espera!

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Justino calçou as botas. Vestiu os baixeiros. Levou o boné de aba caída à cabeça e seguido por sua mãe, caminhou guiado pelo fio de luz bruxuleante do candeeiro. Nem tomou conhecimento se havia os pingos de água escorrendo na bica, com os olhos entre ramela e sonolência, lançou o embornal no ombro direito e partiu decidido. Saiu como soldado que não foge à luta, porém no seu íntimo alguma coisa lhe dizia: “liberte o revolucionário que há em você, Justino; ou vai continuar sendo o derrotado nesse embate niilista extremista de merda. É tudo ou nada.”

A tarde nem bem chegou e Justino estava de volta da batalha. Sua botina pesada, como âncora, o denunciava de longe. Sua mãe foi ao seu encontro e ao aproximar-se, foi logo indagando: “o que está fazendo aqui esta hora do dia, filho meu? Está sentindo alguma coisa? Deus queira que a comida não tenha lhe azedado o estômago, atacando-lhe a úlcera. Para as doenças e a morte, os tic-tac dos relógios são irrelevantes; em verdade, devo dizer que são amigos inseparáveis, e a qualquer despertam para o pior".

- Não trabalhei, aproveitei o dia para aprender as primeiras lições de como revolucionar o mundo.

Arminda quis saber com quem ele estava aprendendo tais lições e coisas sobre revolução. E ele, como feliz revolucionário, não titubeou em responder: “aprendi com a minha marmita fria sagrada de todos os dias e com o meu despertador racional”.

- Pois bem meu filho, se queres, revolucione o mundo; mas não seja mais um herói sem nenhum caráter, como a maioria que desfila poder nas passarelas da mesmice, conseguindo-o através dos esquemas e facilidades. Tenha vergonha nessa sua cara lambida! Como saiu com ela suja, brio é o melhor saponáceo para lavá-la. Se agir de forma diferente ao requerido pelas lições domésticas, o seu nome não terá o menor valor, se comparado com o seu sobrenome: honre-o.

- Honrarei hoje, amanhã e todo o sempre, minha mãe! Mas tenho que ir, pois há indolência e corrupção demais em um mundo de tudo, que precisa urgentemente do nada. A conscientização do nada é a justiça, a paz, a igualdade e a vergonha na cara que MInda tanto clama.

Se abraçaram calorosamente. Lágrimas cortaram-lhes as faces, lambuzando os sorrisos de sal. Justino sumiu na curva, porém deu o aceno final: bravo, definitivamente ia à luta por um mundo melhor. Monotonamente, daquele dia em diante Arminda teria tempo suficiente para revolucionar a casa, como de praxe, a começar pela limpeza das teias e picumãs. Nos últimos anos esteve bastante atarantada com a educação e formação do filho. Não desgrudava o olho dele um segundo, sequer. Ao se ver no espelho, era constantemente cobrada pela imagem que tomasse cuidado, pois crianças e adolescentes quando estão aprendendo a caminhar, batem a cabeça nas quinas de mesas e pisam em falso facilmente. Qualquer descuido pode incorrer em acidente, que por sua vez, traiçoeiramente, não escolhem lugar para estar. O perigo, que pode representar o desvio, caminha ao lado dos passos do iniciante. Porém, daquele momento em diante, Arminda não poderia fazer mais nada; afinal, entendia como ninguém sobre Pacto entre Cidadãos, mas nada entendia sobre batalhas, guerras e conquistas.

- Boa sorte Justino, filho que não mais me pertence! Com o coração pesaroso e calado, consinto com sua partida para os campos de batalha; mas não pense você que minha mente, mente! Às vezes, não obstantes, mente e semblante se opõem. Porém, o pior viés da guerra, é que quando não matam, não destroem meio mundo ou alejam amizades, transformam corações festivos e dançantes em corações silentes e tacanhos.

P.S.: O radicalismo é composto por verdades, coragem, fundamentos, critérios e intolerância, cinco palavras recheadas de indelicadezas nada amigáveis e portanto, motivo de não serem bem aceitas entre os falsários, adúlteros, políticos, anedóticos, hipócritas e no seio familiar. Semelhante a bioquímica, o radicalismo gera incovenientes; sempre! Porém, não traem nunca: são o que são e não dançam conforme o ritmo da música.

Fotos pertencentes ao autor do texto


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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