ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

O larápio Prometeu e o lirismo da voz de Beate Krause

Se ao acaso perguntarem aos brasileiros se conhecem uma banda alemã de rock, imediatamente, boa parte da massa levantará a mão e dirá: “Sim; Scorpions. Esta foi fácil, manda outra”. Claro, com o vocal inconfundível de Klaus Meine vociferando “Still loving you”, até o "Neguinho" da Beija-flor já ouviu e conhece. Perfeito; parabéns! E se perguntarem se conhecem a banda Carol of Harvest? “Humm... não tem mais uma pergunta sobre o Scorpions, não?”


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Contextualização: visando recriar um cenário de época e estilo, o texto foi escrito em forma de conto fantástico-mitológico, recurso literário bastante usado pelos letristas das bandas de rock progressivo nas composições das letras. Exceto os sedentários culturais, a magia inspira os escritores que residem fora de si; e como não poderia deixar de ser, são loucos poetas asfixiados por um mundo de normalidades abissais. Para abster-se das inculcações e comprovar o relato, tente passar por um mísero piolho e por dias a fio, residir na mente do precursor do movimento hippie, o lunático, o inquieto, o vagante Tolkien, escrevendo os infindáveis capítulos da volumosa trilogia do anel de fogo incendiário.

Se faltar paciência para ouvir desde o início, posicione o cursor em 25 min, apure os tímpanos e feliz viagem!

Uma boa e levitante música não tem dono, não tem preço, é atemporal, se propaga em ondas através do som e não ocupa lugar no espaço; porém encontra refúgio, pousa, faz morada nos ouvidos sensíveis e receptivos. E embora benevolente, não tente aprisioná-la, pois contrária aos legados e princípios do homem, a distinta música se transporta livremente e através do aqui e ali, tal qual o zumbido de abelhas atraídas pelo néctar da florada, é itinerante.

Longe de ser Shakespeare, algumas vozes que integram a música são eternas e por jamais caírem no esquecimento, orientam os energúmenos, sossegam os exaltados, possuem os efeitos terapêuticos do bálsamo, e estão acima, muito acima do entendimento e sabedoria humana. Natural que seja assim, pois não há ninguém que sabe tudo, bem como não há ninguém que não saiba nada. Esta é a lei primeira que regulamenta o conhecimento humano; porém, limitar-se ao que já é limitado, é tornar-se grão de areia, diminuir-se ainda mais. E às vezes, expandir-se culturalmente, explorar a imensidão de mares e oceanos é necessário e faz bem ao ego dos ilhados.

Qualquer hora escrevo um artigo enaltecendo as vozes femininas que tanto encanta(ra)m o universo do rock, mas enquanto a inspiração não incendeia o raciocínio, não sobe à mente, vamos conhecer um pouco sobre Carol of Harvest, cuja banda brinda os aguçados ouvidos com a belíssima voz de Beate Krause. Aliás, como outras tantas desconhecidas, esquecidas pelo anonimato, postas nas prateleiras dos antiquários, uma voz suave, dosada de graves e agudos, deleitosamente melódica, transporte às mais insanas imaginações, e após a dança dos corpos desnudos sob os pingos frios de uma chuva ácida, devolve o dançarino à renovação de viver intensamente as improbabilidades cotidianas.

Houve uma época em que a nomenclatura do estilo musical era mero formalismo; importando-se a banda ou o músico, só e somente em fazer música. Música que pudesse aliviar as dores e amenizar as sofrências da alma. O comprometimento com estes ideais eram tão grandes, que muitas bandas não passaram de um único álbum. Todavia, obrigatoriamente teria que ser um respeitável álbum, o qual a inspiração ditava os acordes e canções. Tai o motivo de misturarem o melancólico blues com o avariado jazz. E sob as cores do arco-íris crepuscular, o frenesi do rock com o bucolismo do folk. Esta foi a única temática de gênero impregnada pela banda Carol of Harvest em sua obra solitária?

Pelo contrário, a sonoridade é demasiadamente eclética; o que é comum no rock, e vai do experimental sopro do vento, (marca registrada de muitas bandas alemãs) mesclado com o sinfônico e notas agudas do progressivo, da acidez do folk à solene e acalentadora voz de Beate Krause. Acima de qualquer expectativa, esse álbum é pura versatilidade. As letras, os arranjos e os solos são de competência de Axel Schmierer, guitarrista e líder da banda. Acessorando-o, na bateria, Robert Högn. No moog e demais teclados, Jürgen Kolb.

A polivalência dos três músicos é tão audível, que o baixo, instrumento que dita o peso no hard rock, exceto na primeira canção, passa despercebido; porém, pouco usado no rock progressivo alemão. Epidaurus é uma das bandas que atesta esta tese. Para compensar, o sintetizador moog ruge desesperado sob os dedos do tecladista; instrumento criado pelo compatriota, Robert Moog.

O disco foi lançado oficialmente no ano de 1978, e quem conheceu e ouviu, ouviu; porque logo em seguida, sumiu de tal forma que nem as ostras sabem em qual mar lançou a pérola em formato de "bolacha negra". Desapareceu por completo.

Porém, para a sorte de todos aqueles que primam pelo excelente, algum vagabundo-mundano, denominado Prometeu, roubou um exemplar de alguma loja na Alemanha, e carinhosamente, sob abraços e afagos, guardou-o numa canastra qualquer. Assim como a sua relíquia de estimação, o larápio Prometeu sumiu das vistas de reis, rainhas, deuses e hippies. Passado o tempo, muito tempo depois, sabendo que Zeus, os justos e alguns conhecedores de rock progressivo haviam morrido ou esquecido o fato, o ladrão de cultura reapareceu e como eram tempos de tecnologia; tempos de globalização de ideias e ideais que afastavam o homem do homem, postou a obra-prima na internet para que os demais seres mitológicos da floresta e gigantes que curtem o cheiro de tufos de fumaça impregnados nas gravatas e paletós possam aliviar suas paranoias, ouvindo-a.

E através da voz celestial de Beate Krause, transportar-se para outras dimensões menos tensas, sombrias e separadoras. Sobretudo, uma voz angelical, além do efeito renovador, tem o poder de ninar os surdos. Indo mais além: funciona como um protetor auricular libertador.

Louvado sejam esses druidas benfeitores que ainda preservam tais loucuras. Aplausos; Bravo! Valeu, lárapio Prometeu! Convido-o a experimentar um pouco mais do be transported through the voice Beate Krause! Em respeito a deusa do vocal, façamos uma pequena pausa com a leitura.

Terminou de ouvir o álbum de cabo a rabo? Então, retomemos a travessia do Vau Nebuloso. Neste trecho incerto, com subidas íngremes, baixios cobertos por intenso nevoeiro, saltitar sem rumo por estradas sombrias, dilata ainda mais a viagem. Contemos com a sorte!

Todavia, seja sincero, por aqui, em terras devolutas que deixaram de ser indígenas a pouco tempo, nem o vento minuano que mansamente desnuda as folhagens, que levemente despedaçam pétalas, conseguiu um sopro tão refinado, tão divino, digno de ser ouvido por reis, rainhas, deuses, druidas, hippies, cultos, incautos e larápios, como a voz de Beate Krause!

Saciados musicalmente, porém famintos por uma alimentação frugal; com os rins gastando as últimas reservas de líquidos, e fatalmente o principal é água, nos distanciaremos um do outro após esta encruzilhada. Que os ecos da voz que nos trouxe até aqui, enlevo para os nossos tímpanos, desmonte as montanhas, inunde rios e mares, perfume as alamedas; porque, definitivamente, é um para um lado e o outro para o outro. Nada, império nenhum foi edificado para sempre! Leve consigo a indomesticável voz de Beate Krause; e daqui pra frente, em todas as paradas, libere, propague as vivências que tiveste para as pessoas. Em nome do que conheceste, grite incansavelmente para a multidão, sempre haverá um com sede de cultura. Sobretudo, espelhando em Klaus Meine, provavelmente seus ecos sejam ouvidos além-montes, pináculos e oceanos.

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Ah, por obséquio, caso a encontre nas feiras, brechós, sebos ou nos bosques, não comente com Pandora o que leste sobre a lenda Carol of Harvest; senão, a maldição da canastra "Try a little bit" recai sobre o linguarudo que deleita-se em falar, em pesquisar coisas ultrapassadas. Ao revirar os anais do rock progressivo, considerado terror pelos brasileiros, não é nada conveniente despertar os mortos, desalojá-los das prateleiras dos antiquários. E embora conivente e beneficiário, não seja o leitor um cúmplice ingênuo e desavisado; portanto, friamente, deixe que Prometeu pague sozinho pelo erro que cometeu. Quem mandou mexer com os espíritos que estavam quietos!

Nota: semelhante ao faiscamento do relâmpago que risca o ocaso inesperadamente, sabe-se lá o porquê, esse álbum que aparece postado no youtube conta com três faixas bônus, não corresponde ao original gravado em estúdio. Apesar da boa intenção de quem postou, a qualidade de som não é das melhores; porém, em todo caso, devemos agradecê-lo imensamente, pois a obra é raríssima (quanto tempo esteve perdida!) e leva crer que o exemplar é de colecionador. Provavelmente, as faixas bônus são gravações de shows piratas; o que era bastante comum antigamente.

No mais: Progressive Rock is not dead! Sua morte está condicionada, só será decretada em definitivo após a morte da última palavra proferida pelo derradeiro Roqueiro paladino (atente-se ao que leu: Roqueiro) que o conheceu numa noite negra, dando voz aos elementos da Natureza, reverenciando as miniaturas que habitam as florestas e seres que jamais adormecem com os olhos fechados sob sono solto em ambientes sombrios pela falta de um pingo de luz. Autossuficientes, tanto o Rock Progressivo quanto os Roqueiros se iluminam, renascem, voltam à cena sempre!

Exceto a primeira, que é de domínio público, a segunda foto pertence ao autor do texto.


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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