ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

O larápio Prometeu e o lirismo da voz de Beate Krause

Se ao acaso perguntarem aos brasileiros se conhecem uma banda alemã de rock, imediatamente, boa parte da massa levantará a mão e dirá: “Sim; Scorpions. Esta foi fácil, manda outra”. Claro, com o vocal inconfundível de Klaus Meine vociferando “Still loving you”, até o "Neguinho" da Beija-flor já ouviu e conhece. Perfeito; parabéns! E se perguntarem se conhecem a banda Carol of Harvest? “Humm... não tem mais uma pergunta sobre o Scorpions, não?”


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Contextualização: visando recriar um cenário de época e estilo, o texto foi escrito em forma de conto fantástico-mitológico, recurso literário bastante usado pelos letristas das bandas de rock progressivo nas composições das letras. Exceto os sedentários culturais, a magia inspira os escritores que residem fora de si; e como não poderia deixar de ser, são loucos poetas asfixiados por um mundo de normalidades abissais. Para abster-se das inculcações e comprovar o relato, tente passar por um mísero piolho e por dias a fio, residir na mente do precursor do movimento hippie, o lunático, o inquieto, o vagante Tolkien, escrevendo os infindáveis capítulos da volumosa trilogia do anel de fogo incendiário.

Se faltar paciência para ouvir desde o início, posicione o cursor em 25 min, apure os tímpanos e feliz viagem!

Uma boa e levitante música não tem dono, não tem preço, é atemporal, se propaga em ondas através do som e não ocupa lugar no espaço; porém encontra refúgio, pousa, faz morada nos ouvidos sensíveis e receptivos. E embora benevolente, não tente aprisioná-la, pois contrária aos legados e princípios do homem, a distinta música se transporta livremente e através do aqui e ali, tal qual o zumbido de abelhas atraídas pelo néctar da florada, é itinerante.

Longe de ser Shakespeare, algumas vozes que integram a música são eternas e por jamais caírem no esquecimento, orientam os energúmenos, sossegam os exaltados, possuem os efeitos terapêuticos do bálsamo, e estão acima, muito acima do entendimento e sabedoria humana. Natural que seja assim, pois não há ninguém que sabe tudo, bem como não há ninguém que não saiba nada. Esta é a lei primeira que regulamenta o conhecimento humano; porém, limitar-se ao que já é limitado, é tornar-se grão de areia, diminuir-se ainda mais. E às vezes, expandir-se culturalmente, explorar a imensidão de mares e oceanos é necessário e faz bem ao ego dos ilhados.

Qualquer hora escrevo um artigo enaltecendo as vozes femininas que tanto encanta(ra)m o universo do rock, mas enquanto a inspiração não incendeia o raciocínio, não sobe à mente, vamos conhecer um pouco sobre Carol of Harvest, cuja banda brinda os aguçados ouvidos com a belíssima voz de Beate Krause. Aliás, como outras tantas desconhecidas, esquecidas pelo anonimato, postas nas prateleiras dos antiquários, uma voz suave, dosada de graves e agudos, deleitosamente melódica, transporte às mais insanas imaginações, e após a dança dos corpos desnudos sob os pingos frios de uma chuva ácida, devolve o dançarino à renovação de viver intensamente as improbabilidades cotidianas.

Houve uma época em que a nomenclatura do estilo musical era mero formalismo; importando-se a banda ou o músico, só e somente em fazer música. Música que pudesse aliviar as dores e amenizar as sofrências da alma. O comprometimento com estes ideais eram tão grandes, que muitas bandas não passaram de um único álbum. Todavia, obrigatoriamente teria que ser um respeitável álbum, o qual a inspiração ditava os acordes e canções. Tai o motivo de misturarem o melancólico blues com o avariado jazz. E sob as cores do arco-íris crepuscular, o frenesi do rock com o bucolismo do folk. Esta foi a única temática de gênero impregnada pela banda Carol of Harvest em sua obra solitária?

Pelo contrário, a sonoridade é demasiadamente eclética; o que é comum no rock, e vai do experimental sopro do vento, (marca registrada de muitas bandas alemãs) mesclado com o sinfônico e notas agudas do progressivo, da acidez do folk à solene e acalentadora voz de Beate Krause. Acima de qualquer expectativa, esse álbum é pura versatilidade. As letras, os arranjos e os solos são de competência de Axel Schmierer, guitarrista e líder da banda. Acessorando-o, na bateria, Robert Högn. No moog e demais teclados, Jürgen Kolb.

A polivalência dos três músicos é tão audível, que o baixo, instrumento que dita o peso no hard rock, exceto na primeira canção, passa despercebido; porém, pouco usado no rock progressivo alemão. Epidaurus é uma das bandas que atesta esta tese. Para compensar, o sintetizador moog ruge desesperado sob os dedos do tecladista; instrumento criado pelo compatriota, Robert Moog.

O disco foi lançado oficialmente no ano de 1978, e quem conheceu e ouviu, ouviu; porque logo em seguida, sumiu de tal forma que nem as ostras sabem em qual mar lançou a pérola em formato de "bolacha negra". Desapareceu por completo.

Porém, para a sorte de todos aqueles que primam pelo excelente, algum vagabundo-mundano, denominado Prometeu, roubou um exemplar de alguma loja na Alemanha, e carinhosamente, sob abraços e afagos, guardou-o numa canastra qualquer. Assim como a sua relíquia de estimação, o larápio Prometeu sumiu das vistas de reis, rainhas, deuses e hippies. Passado o tempo, muito tempo depois, sabendo que Zeus, os justos e alguns conhecedores de rock progressivo haviam morrido ou esquecido o fato, o ladrão de cultura reapareceu e como eram tempos de tecnologia; tempos de globalização de ideias e ideais que afastavam o homem do homem, postou a obra-prima na internet para que os demais seres mitológicos da floresta e gigantes que curtem o cheiro de tufos de fumaça impregnados nas gravatas e paletós possam aliviar suas paranoias, ouvindo-a.

E através da voz celestial de Beate Krause, transportar-se para outras dimensões menos tensas, sombrias e separadoras. Sobretudo, uma voz angelical, além do efeito renovador, tem o poder de ninar os surdos. Indo mais além: funciona como um protetor auricular libertador.

Louvado sejam esses druidas benfeitores que ainda preservam tais loucuras. Aplausos; Bravo! Valeu, lárapio Prometeu! Convido-o a experimentar um pouco mais do be transported through the voice Beate Krause! Em respeito a deusa do vocal, façamos uma pequena pausa com a leitura.

Terminou de ouvir o álbum de cabo a rabo? Então, retomemos a travessia do Vau Nebuloso. Neste trecho incerto, com subidas íngremes, baixios cobertos por intenso nevoeiro, saltitar sem rumo por estradas sombrias, dilata ainda mais a viagem. Contemos com a sorte!

Todavia, seja sincero, por aqui, em terras devolutas que deixaram de ser indígenas a pouco tempo, nem o vento minuano que mansamente desnuda as folhagens, que levemente despedaçam pétalas, conseguiu um sopro tão refinado, tão divino, digno de ser ouvido por reis, rainhas, deuses, druidas, hippies, cultos, incautos e larápios, como a voz de Beate Krause!

Saciados musicalmente, porém famintos por uma alimentação frugal; com os rins gastando as últimas reservas de líquidos, e fatalmente o principal é água, nos distanciaremos um do outro após esta encruzilhada. Que os ecos da voz que nos trouxe até aqui, enlevo para os nossos tímpanos, desmonte as montanhas, inunde rios e mares, perfume as alamedas; porque, definitivamente, é um para um lado e o outro para o outro. Nada, império nenhum foi edificado para sempre! Leve consigo a indomesticável voz de Beate Krause; e daqui pra frente, em todas as paradas, libere, propague as vivências que tiveste para as pessoas. Em nome do que conheceste, grite incansavelmente para a multidão, sempre haverá um com sede de cultura. Sobretudo, espelhando em Klaus Meine, provavelmente seus ecos sejam ouvidos além-montes, pináculos e oceanos.

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Ah, por obséquio, caso a encontre nas feiras, brechós, sebos ou nos bosques, não comente com Pandora o que leste sobre a lenda Carol of Harvest; senão, a maldição da canastra "Try a little bit" recai sobre o linguarudo que deleita-se em falar, em pesquisar coisas ultrapassadas. Ao revirar os anais do rock progressivo, considerado terror pelos brasileiros, não é nada conveniente despertar os mortos, desalojá-los das prateleiras dos antiquários. E embora conivente e beneficiário, não seja o leitor um cúmplice ingênuo e desavisado; portanto, friamente, deixe que Prometeu pague sozinho pelo erro que cometeu. Quem mandou mexer com os espíritos que estavam quietos!

Nota: semelhante ao faiscamento do relâmpago que risca o ocaso inesperadamente, sabe-se lá o porquê, esse álbum que aparece postado no youtube conta com três faixas bônus, não corresponde ao original gravado em estúdio. Apesar da boa intenção de quem postou, a qualidade de som não é das melhores; porém, em todo caso, devemos agradecê-lo imensamente, pois a obra é raríssima (quanto tempo esteve perdida!) e leva crer que o exemplar é de colecionador. Provavelmente, as faixas bônus são gravações de shows piratas; o que era bastante comum antigamente.

No mais: Progressive Rock is not dead! Sua morte está condicionada, só será decretada em definitivo após a morte da última palavra proferida pelo derradeiro Roqueiro paladino (atente-se ao que leu: Roqueiro) que o conheceu numa noite negra, dando voz aos elementos da Natureza, reverenciando as miniaturas que habitam as florestas e seres que jamais adormecem com os olhos fechados sob sono solto em ambientes sombrios pela falta de um pingo de luz. Autossuficientes, tanto o Rock Progressivo quanto os Roqueiros se iluminam, renascem, voltam à cena sempre!

Exceto a primeira, que é de domínio público, a segunda foto pertence ao autor do texto.


Profeta do Arauto

Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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